terça-feira, 25 de março de 2025

PCC corrompeu agentes da Receita em portos e aeroportos, diz PF

Mensagens trocadas entre membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), componentes de uma célula especializada em despachar cargas milionárias de cocaína para a Europa por via marítima, indicam que a facção criminosa contava possivelmente com a ajuda de agentes da Receita Federal (RF) corrompidos, de acordo com investigações da Polícia Federal (PF).

Após uma apreensão feita pela Receita de 322 kg da droga escondidos em meio a uma carga de cerâmica, no fim de 2020, o líder do grupo criminoso enviou uma mensagem para um comparsa. Na conversa, segundo a PF, ele diz que ainda estava tentando entender como ocorreu a descoberta da cocaína.

“Irmão, eu estou aqui com o pessoal da Receita [Federal]. Eu vou saber daqui a pouquinho. Eles [agentes corruptos] estão puxando no sistema, porque ainda não saiu. Só saiu que foi feita a apreensão. Eles estão vendo o que é que foi”, afirma Willian Barile Agati, o Senna, apontado pela Polícia Federal (PF) como o “concierge do PCC”, atualmente preso em Brasília.

Na ocasião, a Receita divulgou a apreensão, informando que a carga foi encontrada com a ajuda de escâneres. Foi a 18ª operação do tipo no Porto de Paranaguá, no Paraná, em 2020, ano em que foram apreendidas pelo órgão federal quase 5,9 toneladas de cocaína — sempre ocultas em contêineres —, indicando o uso frequente do local por grupos criminosos.

A Receita Federal foi procurada pelo Metrópoles e afirmou, por meio de resposta automática, que responderia à demanda “assim que possível”. O espaço segue aberto para manifestações.

O método usado pelo PCC para despachar cocaína por via marítima chama-se rip-on/rip-off. Por meio dele, a carga ilegal é escondida na carga lícita, sem que o exportador saiba. Os criminosos, nesse caso, optavam por cargas de cerâmica, madeira ou, ainda, vasos sanitários, pelo fato de esse tipo de produto não ficar nos radares da fiscalização.

<><> “Planner de Paranaguá”

Além do suposto envolvimento de agentes da Receita Federal, as trocas de mensagens entre os membros do PCC interceptadas pela PF indicam que um profissional do Porto de Paranaguá dava informações privilegiadas ao grupo criminoso chefiado por Willian Barile Agati.

O “planner”, cuja identidade não foi informada, era responsável por todo o planejamento e controle do processo logístico do terminal de contêineres do porto paranaense.

Com isso, ele repassava informações privilegiadas sobre o destino e a localização de cargas nas quais a cocaína poderia ser escondida.

<><> Aeroporto de Boa Vista

Em um grupo de troca de mensagens, investigadores da PF identificaram Werner Pereira da Rocha, administrador do aeroporto de Boa Vista, em Roraima, como o responsável por ajudar a célula de Senna e encaminhar cargas de cocaína, por via aérea, para a Europa.

O cliente dos criminosos, como consta em relatório policial, seria londrino. Para a droga chegar até a Grã-Bretanha, por via terrestre, era antes encaminhada em um voo particular até a Bélgica.

A aeronave usada pertencia a Senna, na qual eram introduzidas malas recheadas com cocaína e onde também, em algumas viagens, eram instalados fundos falsos para ocultar a droga. O administrador do aeroporto de Roraima, segundo a PF, recebia R$ 250 mil por viagem viabilizada.

Ainda de acordo com o relatório policial, ele também fazia a ponte para que um agente da Receita Federal contribuísse com uma “vista grossa” na fiscalização das bagagens levadas nos aviões usados pelo tráfico. No relatório da PF, é indicado o pagamento de mais de R$ 500 mil por cada liberação de voo feita pelo agente corrupto.

Em nota ao Metrópoles, a defesa de Agati afirma que ele é “presumido inocente conforme a Constituição Federal”. Além disso, acrescenta que “nunca praticou nenhum crime (seja ele qual for) e que tudo ficará provado na instrução processual”. Diz, ainda, que Agati “é um empresário idôneo em diversos ramos nacionais e internacionais sem nunca ter respondido a nenhum processo na Justiça e nunca teve e não tem nenhuma conexão com o PCC ou com a máfia italiana”.

A defesa de Werner da Rocha não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestação.

¨      Traficante Peixão usava “Deus” para importar fuzis, drones e granadas

A Polícia Federal (PF) desvendou um esquema internacional de importação de armamento pesado comandado por Álvaro Malaquias Santa Rosa (foto em destaque), o Peixão, um dos chefes da facção Terceiro Comando Puro (TCP), que controla parte da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Segundo as investigações, Peixão montou uma estrutura própria para adquirir drones, fuzis, granadas e equipamentos anti-drone de fornecedores internacionais. As remessas chegavam ao Brasil por meio de empresas de transporte e até pelos Correios, muitas vezes disfarçadas como eletrônicos comuns.

O principal intermediário do esquema era Everson Vieira Francesquet, conhecido como “Deus” nas negociações. Ele atuava como armeiro do grupo e coordenava a logística das importações.

Everson foi preso ao tentar retirar uma encomenda identificada como “brinquedo eletrônico”, mas que continha um bloqueador de sinal — equipamento restrito e de uso militar.

Mensagens encontradas no celular de Everson revelam contatos com vendedores da China e do Paraguai. As compras eram feitas em dólar, com rastreamento internacional, e algumas entregas partiram de Hong Kong, segundo recibos da DHL. Em uma conversa, ele afirma que compraria cinco dispositivos anti-drone de uma só vez.

O esquema envolvia laranjas que movimentavam grandes quantias via Pix para viabilizar os pagamentos. Comprovantes apreendidos mostram transferências de R$ 30 mil e R$ 32 mil destinadas à compra de armas. Fuzis vindos do Paraguai custavam entre R$ 7,5 mil e R$ 15 mil.

Everson, já denunciado por contrabando, foi novamente preso neste mês ao se apresentar à Justiça e agora responde por tráfico internacional de armas e participação em organização criminosa. Peixão segue foragido.

¨      Cônsul africano “vendeu” imunidade diplomática para 4 chefões do PCC

O “concierge’ do Primeiro Comando da Capital (PCC) Willian Barile Agati, também conhecido como Senna, se beneficiou da proximidade com Deusdete Januário Gonçalves, na época em que este atuava como cônsul-honorário da República de Moçambique em Minas Gerais, para estabelecer relações criminosas que o ajudaram a fechar negócios que atendiam aos interesses da cúpula da facção.

Ostentando uma vida de luxo, resultante das operações de tráfico internacional de drogas — mas fingindo ser um empresário bem-sucedido —, Senna mantinha relações com gente influente por intermédio do então cônsul, como indica investigação da Polícia Federal (PF).

“Seu vínculo com Moçambique é um dos principais demonstrativos da sua influência e protagonismo no crime organizado transnacional”, diz trecho de relatório, obtido pela reportagem.

Atualmente, o “concierge” está atrás das grandes, na mesma penitenciária de segurança máxima de Brasília (DF) na qual cumpre pena, desde 2023, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC.

<><> Base do PCC em Moçambique

A investigação da PF mostra que o “concierge” estabeleceu uma base da facção brasileira em Moçambique, ao menos desde julho de 2018, quando Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, foi contratado como adido comercial do Consulado Honorário de Moçambique em Minas Gerais.

Tuta se tornaria a principal liderança do PCC fora do sistema carcerário, responsável pelas relações comerciais ilegais e pela logística para realizá-las para a facção. Ele está oficialmente foragido, mas existe a suspeita de que teria sido assassinado por supostamente desviar dinheiro da organização criminosa. Tuta teria ajudado a facção a lavar R$ 1 bilhão.

Na ocasião da contratação de Tuta, como destacado pela PF, Senna “já tinha vínculo empregatício no referido consulado”, mantendo “relação de proximidade” com o cônsul Deusdete Januário Gonçalves — a ponto de ambos posarem para uma foto apertando as mãos em frente ao prédio da representação diplomática.

<><> Venda de imunidade

Fazendo jus ao papel de “concierge” do PCC, Senna oferecia “produtos” e “serviços” para membros da facção, como a compra de carteiras de cônsul, dando aos criminosos imunidade diplomática. Para isso, como mostra a investigação da PF, as carteiras consulares eram comercializadas por Deusdete, cada uma, por R$ 2 milhões.

De acordo com o documento policial, o cônsul justificava o alto valor com promessas de privilégios, como “imunidades inerentes à atividade consular, principalmente a inviolabilidade dos escritórios de representação consular, nos quais a polícia não poderia adentrar”. Os escritórios do consulado africano, em outras palavras, poderiam ser usados para movimentar recursos e guardar o dinheiro resultante dos negócios ilegais da facção.

Quatro altos membros do PCC compraram as carteiras. Além de Senna e de Tuta, também tinham o documento Régis Agati Carneiro, primo do “concierge”, e Marinel Bozhanaj, criminoso de origem albanesa e um dos principais líderes do PCC. Todos estavam no quadro de funcionários do consulado de Moçambique em Belo Horizonte, ainda de acordo com a PF.

<><> Sócio de Marcola preso

Um indício forte dos interesses da facção em realizar negócios a partir de Moçambique foi a prisão de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, em 13 de abril de 2020. Ele é sócio e braço direito de Marcola.

Fuminho ficou foragido no país africano por 20 anos até ser preso. De lá, mantinha relações comerciais que resultavam em ganhos milionários para ele e seu sócio. Apesar de braço direito de Marcola nos negócios, Fuminho não é membro do PCC.

Antes de ser detido, ele atuava como o principal fornecedor de drogas para a maior facção criminosa do Brasil, negociando cargas com produtores do Peru, Bolívia, Colômbia e Paraguai. Remessas ilegais de drogas eram remetidas, a partir desses países, principalmente por via marítima, para a Europa e para a África.

<><> Planos de fuga

No mesmo dia da prisão de Fuminho, Senna criou um grupo de troca de mensagens no qual incluiu o cônsul africano. Nas mensagens foram deliberadas duas possibilidades de tirar o sócio de Marcola da cadeia, denominadas “linha lícita” e “linha ilícita”.

Na primeira opção, iriam contratar advogados e tentar libertar Fuminho, por vias legais ou, na “pior das hipóteses”, evitar que ele fosse extraditado para o Brasil — o que acabou acontecendo seis dias após sua prisão.

A outra linha seria tentar corromper policiais e gente do alto escalação do governo moçambicano por meio do pagamento de “propinas vultosas”.

Caso o plano por vias ilegais desse certo, a objetivo da facção era embarcar Fuminho em um avião para levá-lo até um local “seguro”, dentre os quais era cogitada a região dos Bálcãs.

Como mostra a investigação, Deusdete cobrava valores altos para usar sua influência e interceder junto a autoridades que pudessem eventualmente ajudar na fuga do sócio de Marcola.

Em um processo do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Deusdete descreveu Tuta como “um homem de grande idoneidade” e que “desempenhava sua função corretamente” no consulado.

O depoimento da autoridade consular consta em uma sentença proferida em fevereiro do ano passado, na qual Tuta — à revelia — e outros três integrantes do PCC foram condenados por associação criminosa e lavagem de R$ 1 bilhão provenientes do tráfico internacional de drogas.

<><> “Preenchia requisitos”

Tuta trabalhou como adido diplomático entre 2018 e 2019, com carteira assinada. Deusdete afirmou em seu depoimento que o membro do PCC “preenchia todos os requisitos necessários” para o cargo.

Ainda de acordo com o depoimento, Tuta apresentou sua folha de antecedentes à Justiça Federal e Justiça mineira antes de ser contratado pelo consulado. Deusdete destacou, ainda, que Tuta se apresentava como uma pessoa simples, sem ostentar nenhum tipo de riqueza.

Quando o então cônsul foi intimado a falar como testemunha de defesa de Tuta ao TJSP no processo de lavagem de R$ 1 bilhão, Deusdete o desligou do quadro de funcionários do consulado.

A defesa de Deusdete não foi localizada. O Consulado de Moçambique foi questionado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

¨      Ferrari, lanchas e camarotes: os luxos da quadrilha alvo da PF e MPSP

Líderes da organização criminosa alvo de operação da Polícia Federal e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) nesta segunda-feira (24/3) mantinham um estilo de vida luxuoso, com aquisição de Ferrari, Lamborghini, lanchas, jet sky e imóveis de alto padrão, além da presença em camarotes VIPs de shows e eventos.

A quadrilha era voltada a roubos de cargas e caminhões, desmanche, receptação e lavagem de dinheiro, em três núcleos especializados. Os investigados têm base em São Paulo, mas agem em diversos estados.

Além de mandados de prisão e de busca e apreensão, foi decretado o sequestro de bens e valores do grupo, totalizando R$ 70 milhões.

Ao todo, 110 policiais federais e 100 agentes da Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo, que dá suporte à chamada Operação Hammare, estão cumprindo 17 mandados de prisão temporária e 24 de busca e apreensão em São Paulo, no Paraná, em Rondônia e no Rio Grande do Sul. As ordens judiciais foram expedidas pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Cajamar.

A investigação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Grupo Especializado em Repressão a Crimes de Roubo de Cargas e Caminhões da Delegacia de Polícia Federal em Campinas, teve início em 2023, depois de um roubo de carga e caminhão ocorrido na cidade de Cajamar no dia 17 de julho.

Por meio de empresas de peças e manutenção de veículos, a organização dedicou-se à receptação e comercialização de caminhões, peças e motores roubados, inclusive especificando o tipo e modelo de veículo que desejavam subtrair.

<><> Desarticulação do grupo

Ante a complexidade cada vez maior para a investigação dos integrantes dos grupos de desmanche e receptação, optou-se pela desarticulação imediata do braço que executava os roubos, cuja atuação ininterrupta levou à meia centena de delitos já identificados entre 2021 e 2024.

Os responsáveis pelos roubos e dois dos receptadores contra os quais já havia provas suficientes foram presos durante as operações Aboiz (2023) e Cacaria (2024), deflagradas justamente para encerrar a atividade violenta e permanente de roubos da organização.

O material apreendido em ambas e a análise de dados telemáticos, financeiros e bancários permitiram a correta identificação dos investigados dos grupos de desmanche e receptação, assim como seus papéis dentro da organização, incluindo os líderes e financiadores, resultando na ação desta segunda.

A Operação Hammare, que significa martelo em sueco, faz uma referência cruzada ao principal instrumento dos criminosos para acessar as cabines dos veículos, quebrando os vidros enquanto os motoristas descansavam, bem como à especialidade da organização criminosa em marcas suecas de caminhões.

A PF vem investindo no grupo que trabalha em conjunto com o Gaeco e com outras forças de segurança, visando à desarticulação de organizações voltadas especialmente ao roubo de cargas e caminhões nas rodovias brasileiras. Houve mais de 200 prisões e a desarticulação de várias organizações criminosas por meio das Operações Rapina (em 2022), Insídia, Malta, Caterva, Malta II, Volvere, Cicônia, Aboiz (2023), Cacaria Barrière, Vitreum e Ladinos (2024).

 

Fonte: Metrópoles

 

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