sábado, 27 de agosto de 2016

“O Sargento, o Marechal e o Faquir”. Por Rafael Guimaraens

Conhecia há muito tempo o “Caso das Mãos Amarradas”, uma história emblemática ocorrida em 1966, nos primórdios da ditadura militar. Foi muito divulgado à época, primeiramente porque ainda não havia a censura férrea à imprensa, que seria instaurada dois anos depois pelo Ato Institucional nº 5. Segundo, porque nos primeiros dias não se sabia que o corpo encontrado às margens da Ilha das Flores, em Porto Alegre, se tratava de um perseguido político.
Há cerca de dez anos, meu interesse pelo caso ganhou outra dimensão à medida que fui conhecendo o perfil e a trajetória do sargento Manoel Raymundo Soares. Nascido em Belém do Pará, de uma família muito pobre, mudou-se para o Rio de Janeiro com a intenção de servir ao Exército. Com 20 anos, já alcançava o posto de sargento.
Autodidata, leitor compulsivo, amante da música clássica, destacava-se pela inteligência, a humildade e a bravura, embora tivesse pouco mais de um metro e meio de altura. Integrava a vanguarda do movimento dos sargentos de intensa atuação entre a Campanha da Legalidade que garantiu a posse de João Goulart na Presidência da República, em 1961, e o golpe militar que derrubou do poder, em 1964.
Neste período, o Brasil viveu tempos de altíssima voltagem no campo político, no qual tudo estava em disputa. Os sargentos do Exército Nacional entraram no jogo para valer. Questionavam a hierarquia militar, defendiam seu direito à representação no Parlamento e, na medida em que a conjuntura se radicalizava, assumiam posições cada vez mais atrevidas pelas reformas de base, formando uma frente de lutas com a União Nacional dos Estudantes, o Comando Geral dos Trabalhadores e as Ligas Camponeses.
Soares, como os demais líderes do movimento, foi expulso do Exército logo após o golpe militar. Seria preso em Porto Alegre, quando seu grupo, autodenominado Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), tentava organizar um levante dos quartéis, a partir de entendimentos com o ex-governador gaúcho Leonel Brizola, que se encontrava no Uruguai.
Brutalmente torturado e mantido preso ilegalmente por cinco meses, seu corpo seria encontrado com sinais de tortura e as mãos atadas às costas.
O Sargento, o Marechal e o Faquir conta a trágica história desse personagem peculiar. Na primeira parte, o livro traça um perfil de Manoel Raymundo Soares e do movimento dos sargentos. Sua trajetória é recontada na relação com dois outros personagens que, no livro, são coadjuvantes. Um deles, ilustre, é Castelo Branco, primeiro ditador do regime militar, que inicialmente pretendia que a presença dos militares no poder fosse breve – tratava-se de “livrar o Brasil do comunismo” e reestabelecer uma democracia formal, burguesa, de direita, sem riscos de um novo governo de esquerda ou populista –, mas acabou adotando uma sucessão de medidas autoritárias. O outro é Edu Rodrigues, um pintor de cenários e informante do Serviço Nacional de Informações (SNI), que armou a emboscada para a prisão de Soares. Anteriormente, ele fora o “Príncipe Aladim”, um faquir fracassado.
A segunda parte trata das investigações policiais para identificar os culpados e toda a comoção popular em torno da misteriosa morte do sargento. A história é narrada em linguagem de romance político-policial, na qual os fatos e provas vão surgindo e apontando para a responsabilidade dos órgãos de segurança no assassinato. Foi o primeiro caso de repressão da ditadura com ampla cobertura da imprensa. Em 2005, sua viúva conseguiu, após mais de 30 anos de batalha judicial, responsabilizar a União pelo crime, conforme decisão do Tribunal Federal de Recursos da 4ª região de Porto Alegre.


Rafael Guimaraens é jornalista e está lançando O Sargento, o Marechal e o Faquir, pela editora Libretos, romance-policial baseado nos fatos reais do Caso das Mãos Amarradas, como ficou conhecido a tortura e morte do sargento Manoel Raymundo Soares, em 1966, o primeiro caso de violação pela ditadura de repercussão nacional. É autor de outros doze livros em que resgata histórias e memórias, entre eles Teatro de Arena – Palco de Resistência e Unidos pela Liberdade.

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