segunda-feira, 5 de junho de 2023

Ameaças contra jornalistas aumentam em todo o mundo

Levantamento realizado pelo Committee to Protect Journalists, indica que 363 jornalistas foram presos em todo o mundo em 2022 e inúmeros outros enfrentam algum tipo de assédio legal. A pesquisa foi lançada em 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

O estudo mostra que os casos relatados se dão pela ascensão de regimes autoritários e respostas reacionárias ao crescente compartilhamento de informações da era digital. Embora essa realidade seja confirmada por especialistas e repórteres da mídia, não houve uma revisão global e abrangente da crise até o momento.

Em um 2º levantamento, produzido pelo Tow Center for Digital Journalism e financiado pela Thompson Reuters Foundation, cerca de 500 jornalistas em todo o mundo foram entrevistados sobre suas experiências com ameaças legais.

Quase 50% dos entrevistados disseram que eles ou seus meios de comunicação sofreram alguma forma de ameaça legal. Usando dados qualitativos e quantitativos e incorporando elementos de multimídia, como depoimentos em vídeo, o relatório – lançado em abril – captura suas percepções, bem como as de dezenas de especialistas em liberdade de mídia.

Joel Simon, principal autor e diretor fundador da Journalism Protection Initiative na Craig Newmark Graduate School of Journalism da CUNY (The City University of New York – em inglês), falou com a Nieman Reports sobre as conclusões e recomendações do relatório e porque o acesso à informação é uma “necessidade humana fundamental”.

>>>> Leia a íntegra da entrevista:

•        O que motivou a criação deste relatório?

“Um dos dados que observei quando estava no Comitê para a Proteção dos Jornalistas foi que o número de ameaças legais [contra os jornalistas] está aumentando. Mas, além do nosso banco de dados da prisão, que compilamos todos os anos, realmente não tínhamos muita informação sobre isso.

Quando cheguei ao Tow Center, Antonio Zappulla [diretor executivo da Thomson Reuters Foundation] se aproximou de mim e disse que também notou esse crescimento. Criamos uma metodologia que achávamos que capturaria toda a gama de ameaças, usando uma pesquisa com especialistas que identificamos e, em seguida, uma pesquisa com jornalistas.

Obviamente passei minha carreira defendendo os direitos dos jornalistas. Então [o tópico] não era novo. Mas vendo todos esses jornalistas relatando a experiência de enfrentar esse tipo de assédio [em] vídeos auto gravados de 1 minuto, achei muito poderoso. Isso realmente deixou claro o que está em jogo e qual é a sensação de enfrentar assédio legal sistêmico”.

•        Quais tipos de ameaças legais os entrevistados descreveram?

“O 1º são os tipos de estratégias jurídicas tradicionais que são difíceis de combater porque o quadro jurídico é legítimo. Ninguém diz que você não deveria ter leis contra difamação, mas elas são muito fáceis de manipular e armar.

O 2º são realizados com mais frequência. [Existe] difamação cibernética, especialmente direcionada a meios de comunicação independentes [e digitais]. Então, existem leis de segurança nacional onde, em um determinado contexto, elas podem ter alguma base legal legítima, mas frequentemente são abusivas.

E o 3º não tem nada a ver [com a profissão]. Se você está acusando alguém [de] extorsão, lavagem de dinheiro ou tráfico de drogas, mesmo que a acusação não seja válida, é incrivelmente prejudicial e prejudicial. E inevitavelmente atrai uma grande quantidade de ataques on-line. Então, esses casos são tão difíceis de defender. [Eles] exigem advogados especializados que lidam com casos criminais e não fazem parte dessa comunidade”.

•        Por que essas ameaças legais estão aumentando?

“Não tentamos responder a isso no estudo porque há uma variedade de fatores. Mas o que observei [é que] há um conflito natural entre jornalistas independentes e todos os governos que desejam controlar e gerenciar informações, e a capacidade de fazer isso é fundamental para manter o poder.

O problema das táticas legais [é que] elas funcionam muito bem onde o governo controla as instituições independentes que supervisionam a administração da justiça. Agora, a violência [contra jornalistas] é relativamente rara. Se trata de uma repressão do Estado porque essa é uma estratégia muito mais eficaz”.

•        O que o relatório recomenda para lidar com esse problema?

“Uma delas é que há uma questão de princípio. Existe algo chamado Media Freedom Coalition, que é um agrupamento de governos que expressaram o compromisso de defender os princípios da liberdade de expressão. Mas como é sabido, nem sempre se cumpre, em termos de dar o exemplo e falar quando são registradas violações. As políticas adotadas pelos governos nesse espaço só são dignas de crédito se forem percebidas como estabelecidas em princípios fundamentais.

A 2ª coisa que identificamos é que há muito o que não temos conhecimento. Uma delas [que] emergiu das pesquisas dos especialistas ou dos jornalistas. Existem algumas discrepâncias sobre o que constitui os riscos mais críticos. Acho que precisamos nos aprofundar mais nessa pesquisa e descobrir se [essas discrepâncias são] uma função do ambiente jurídico específico de um determinado país, da identidade dos jornalistas envolvidos ou da natureza de sua publicação.

A 3ª coisa é que precisamos de uma estratégia de defesa legal. Se você quiser defender os direitos dos jornalistas, teremos que ampliar o apoio aos jornalistas que enfrentam ameaças legais. O Reporters Shield é uma ótima iniciativa que busca fazer exatamente isso. Existem outras organizações dedicadas a isso. A Defesa da Mídia é uma delas”.

•        Como você se sente sobre o futuro do jornalismo, dadas as ameaças enfrentadas?

“Você não pode fazer este trabalho a menos que seja fundamentalmente otimista. Mas esse otimismo é derivado do papel que o jornalismo desempenha em qualquer sociedade e da poderosa necessidade de sua existência. Estamos sempre lutando por essa informação, seja ela apresentada a nós na forma da mídia tradicional ou de algum outro tipo de rede de informação.

Sempre acreditei que esta é uma necessidade humana fundamental que ameaça estruturas poderosas. E assim essa dinâmica e o conflito estão sempre presentes. E há coisas positivas acontecendo no espaço do jornalismo, principalmente nos Estados Unidos. Acho que estamos vendo mídias locais realmente se consolidando – mídia sem fins lucrativos se institucionalizando e realmente se tornando sustentável em alguns contextos. São pontos brilhantes nesse cenário de informações.

Você deve manter sua crença de que [se] as circunstâncias estiverem alinhadas, isso pode levar a alguma mudança positiva”.

 

       Bigalhas nas democracias. Por Gaudêncio Torquato

 

A tampa da panela democrática foi aberta. E uma onda de calor se espraia pelos ares da cozinha. A guerra da Ucrânia amplia as correntes de quentura, deixando ver os pinos das enormes panelas da China e da Rússia e, em outro canto, alinhados, os buracos dos vapores que saem dos países dos territórios sob a bandeira da OTAN.

Daí emerge a hipótese que, há tempos, faz curvas nos penhascos democráticos: trocas de governos sob o pandemônio de rombos nos tesouros nacionais têm sinalizado a ascensão da tecnocracia ao centro do poder político, contribuindo para mobilizar massas, até então amorfas.

Abrigados nos vãos ideológi¬cos, grupos de todos os matizes passam a agir como exércitos deste¬midos, tomando as ruas, questionando governantes açoita¬dos desde a crise financeira de 2008 e acendendo a fogueira de figurantes e de algumas propostas, como é o caso de reformas.

Em todos os continentes, bilhões de dólares passam a compor o fermento para compor a massa que alimentará famintos e bombardeados. Na Ucrânia, os desvalidos estendem as mãos. Pôr os aqui, os bem nutridos abrem os bolsos.

Avoluma-se o berro por mudanças drás¬ticas no planeta, liderados pela ação de partidos que sacodem o continente europeu, inserindo na agenda amplo debate sobre os parâmetros regulatórios da União Europeia (UE). A par de interesses de radicais, que esquentam a polêmica e partem para o embate, o que está em jogo neste momento, nos EUA e em outras praças, é o próprio equilíbrio do sistema demo¬crático, a ensejar a instigante questão: a crise os conflitos ameaçam os valores da democracia?

A expressão das comunidades resgata a tese de que as econo¬mias continentais diferem bastante para ficarem sob as rédeas de uma única política monetária. As assimetrias, como agora se mostram, eram previsíveis. Os Farialimen alçam voo. Os marginalizadosmen pescam nas cabeceiras dos rios.

O ordenamento do império financeiro – inspirado na proteção dos cofres e no fortalecimento dos PIBs – acaba tapando os olhos para o conforto social, ainda que as equações produzidas pelos formuladores de plantão tentem demonstrar relação de causa e efei¬to, estratégia para defesa do bem-estar geral.

Não faltarão questionamentos à abordagem, bastando lembrar a receita brasileira: para enfrentar a crise prescreveu o acesso da população ao crédito e consumo. Ora, este é o eixo central do Governo Lula III.

Não se descartam otimistas previsões sobre a maior influência brasileira no mundo, a partir da posição de sua volta à mesa do G-20 e da vontade do nosso mandatário-mor em dar o tom dor na orquestra das Nações. E ninguém duvida que o patrimônio brasileiro no campo da mega biodiversidade haverá de conferir grandeza à Nação.

Urge analisar o segundo ator importante no qua¬dro das democracias contemporâneas: o tecnocrata. De início, é oportuno lembrar que não há mais no planeta brilhantes estrelas da política. O painel da humanidade locupleta-se de figuran¬tes sem o glamour de líderes que marcaram presença na História.

Quem se lembra das lições de sabedoria e do tino de figuras portentosas como De Gaulle, Churchill ou Margaret Thatcher? As nações dispõem hoje de quadros funcionais de limitado ciclo de vida política. Os conflitos do passado, cujo foco era a geopolítica e a expansão de domínios, cedem lugar às lutas internas contra o dragão que devasta as finanças e corrói riquezas. É natural, pois, que o perfil do momento seja aquele treinado nos salões da tecnocracia. O termo vem a calhar nestes tempos de insegurança, eis que agrega habilidade (tekné) ao poder (krátos). Isso é o que se espera dos “solucionadores de problemas”.

Afinal, o tecnocrata faz mal à democracia? A pergunta está no ar desde a queda do Muro de Berlim, no vácuo deixado pelo desvanecimento das ideologias e pela pasteurização partidária. De lá para cá, governos esvaziaram seus compartimentos doutrinários, preenchen¬do-os com quadros burocráticos e apetrechos técnicos para obter efi¬ciência e eficácia. Inaugurou-se o ciclo que Maurice Duverger cog¬nomina de “tecnodemocracia”, que sucede à democracia liberal.

Seus eixos se apoiam em organizações complexas e racionais e, hoje mais que nunca, levam em conta a gangorra dos capitais financeiros mun¬diais. A política deixou de ser uma unidade autônoma, passando a depender de mais duas hierarquias: a alta administração do Estado e os negócios. Esse é o feitio dos modernos sistemas demo-cráticos. O Brasil orgulha-se de ter liquidado sua dívida externa. Hoje, credor do FMI, enterrou uma história pontilhada de excessos fiscais e monetários, desde os princípios do século passado, quando importava caixões de defuntos vindos da Inglaterra, prontinhos e es¬tofados em veludo, para receber empresários decadentes e burocratas inescrupulosos. Mas continua a praticar mutretas.

O sonho de Campos Sales realizou-se, depois de lutar entre 1898 e 1902, para fazer o saneamen¬to financeiro e estancar sua dívida externa. De lá para cá, quase tudo mudou. Pinço Fernando Gabeira, ao lembrar que, por aqui, a coisas andam a passos galopantes. Lula foi eleito nos mandatos anteriores com grandes margens. Elegeu-se para o último com pequena margem. Não percebeu, porém, que governa um Brasil rachado ao meio. Fatias do bolo são distribuídas no centrão, cujo dicionário começa com na letra B, onde estão as bigalhas dos cofres. Isso mesmo, milhões de migalhas entupindo os dutos.

 

Fonte: Poder360/Metrópoles

 

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