Carlos
Eduardo Martins: O novo imperialismo de Donald Trump
Temos
apresentado a conjuntura mundial contemporânea como caracterizada pelo caos
sistêmico, que se estabeleceu hodiernamente a partir da ruptura da política
externa estadunidense com o imperialismo informal e a globalização neoliberal,
desde a eleição de Donald Trump em 2016. Essa ruptura possui causas profundas e
já avançava molecularmente durante o mandato de Barack Obama, com o crescimento
da economia política de sanções e o seu direcionamento para a Rússia, buscando
impedir o desenvolvimento geoeconômico da Eurásia, onde Moscou aporta
território, localização e recursos estratégicos. A isso somam-se as guerras
híbridas que atingiram a Ucrânia e a América do Sul, em especial o Brasil —
além do Norte da África —, afetando espaços vitais da multipolaridade
emergente, do poder embrionário do BRICS e de sua área de influência.
Foi
Donald Trump, todavia, quem afrontou o neoliberalismo, pretendendo subordiná-lo
a um capitalismo de Estado que submetesse o mercado mundial ao poder estatal
dos Estados Unidos, abrindo espaço para o estabelecimento de um império global
e de uma nova etapa do imperialismo, que chamamos de imperialismo tout-court para
designar o emprego aberto da violência estatal no sistema-mundo que não alcança
uma ordem estável e aprofunda os conflitos internacionais, gerando situações
disruptivas. Donald Trump reconheceu o declínio estadunidense e a necessidade
de redefinir as prioridades estratégicas e os interesses vitais. Partindo da
percepção de escassez relativa de força, descartou o universalismo liberal em
favor do excepcionalismo norte-americano e de seus interesses econômicos e de
exercício de poder. Diferentemente de Barack Obama, que pretendeu liderar uma
ordem multilateral capaz de incorporar potências emergentes, Donald Trump
afirmou o retorno da era de rivalidades entre as grandes potências. Declarou a
China e a Rússia potências revisionistas que ameaçariam a ordem, a
prosperidade, os interesses e valores estadunidenses. Nomeou Pequim o principal
inimigo externo a ser contido e o liberalismo político e o socialismo os
maiores inimigos internos.
Descartou
os principais paradigmas da política externa norte-americana: o
internacionalismo emergente no pós-Guerra Fria e a sua pretensão de exportar
regimes políticos liberais e substituir autocracias; e as políticas de
hegemonia, iniciadas no pós-Guerra, que financiaram alianças políticas por meio
de assistência militar e econômica, principalmente na Europa e no Leste
Asiático. Paralisou a Organização Mundial do Comércio, retirou Washington do
Acordo de Paris e de inúmeras organizações internacionais, negou o aquecimento
global, rejeitou as regulações ambientais, rechaçou os déficits comerciais,
iniciou uma ofensiva tarifária contra a China e um conjunto de sanções e
embargos extensivos a terceiros países para isolá-la e afastá-la da corrida
pelo domínio da vanguarda do paradigma microeletrônico. Reivindicou o
restabelecimento do poder industrial estadunidense, a repatriação de capitais e
estendeu a ofensiva tarifária tanto aos países superavitários em relação aos
Estados Unidos quanto àqueles cujas diretrizes políticas e sociais afetavam
seus interesses.
Donald
Trump inverteu a aposta de Richard Nixon e Henry Kissinger de incluir a China
na ordem internacional estadunidense para isolar a URSS. Ele negocia as
reivindicações territoriais de Putin na Ucrânia para afastá-lo de Xi Jinping e
da resistência às ações de expansão do unilateralismo norte-americano. Fragiliza
a OTAN, ameaça a Europa, reforça a sua balcanização, dá suporte a forças
nacionalistas, alimenta as tensões com a Rússia para evitar o fortalecimento de
um poder regional e atuar como poder estabilizador, transformando a assistência
militar em exportação de armas e serviços de defesa e em exploração de recursos
estratégicos.
Donald
Trump reapropriou a Doutrina Monroe, originalmente destinada a condenar a
reconquista colonial dos países americanos pela Santa Aliança, para usá-la
contra as decisões soberanas dos países latino-americanos e caribenhos de
escolherem sua política externa e os Estados e formações sociais com que
cooperam nos planos econômico, político, social e diplomático. Trata-se, em
verdade, da retomada da Doutrina do Destino Manifesto, estendendo-a a todo o
Hemisfério Ocidental para expulsar a presença chinesa e russa da região e
estabelecer protetorados e governos títeres dos interesses estadunidenses,
independentemente de sua orientação política e de seus valores, desde que sejam
cooperativos por adesão ideológica ou por sujeição às ameaças de emprego do
poder militar norte-americano.
O
Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital
estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Donald Trump não delimita
zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento
de qualquer força regional capaz de ameaçar o poder estadunidense. Apoia o
subimperialismo sionista para criar uma alternativa à Rota da Seda que una a
Índia ao Mediterrâneo europeu e respalda a sua ingerência além dos limites
bíblicos da Grande Israel para atingir o Irã. A meta é produzir uma mudança de
regime, controlar o Estreito de Ormuz com um governo pró-estadunidense e
ameaçar a China, colocando em risco o seu abastecimento energético. A
incapacidade de Israel para cumprir esta missão tem levado ao crescente
envolvimento militar dos Estados Unidos no Irã, com o bombardeio do seu projeto
nuclear, deslocamento de porta-aviões para as suas imediações e um ataque e
campanha militar. No entanto, Donald Trump acentua as vulnerabilidades
estruturais dos Estados Unidos. As ameaças e violações que lança sobre as
soberanias estatais no mundo agregam-se ao crescente parasitismo financeiro e
ao declínio tecnológico para impulsionar uma corrida global contra o dólar. No
século XXI, o ouro elevou o seu preço em relação ao dólar mais de 15 vezes e,
desde janeiro de 2024, 2,4 vezes.
Em
2000, o dólar representava 60% das reservas monetárias mundiais, patamar muito
semelhante ao de 2016 (56%), quando Donald Trump se elegeu presidente da
República pela primeira vez. Desde então, a participação do dólar despencou
para 43,8% em 2025 e a do ouro aumentou de 10,9% para 24,2%. Um dos principais
determinantes desse processo é a compra do metal pela China: em 2008, suas
reservas, que eram de 599 toneladas, passaram para 1054 (2009), 1658 (2016),
1948 (2022) e 2030 toneladas em 2025. Há fortes evidências de que estamos
próximos de uma grave crise financeira nos Estados Unidos, que deverá colocar
em questão o último pilar de sua hegemonia: o protagonismo do dólar. Ela
possivelmente se desdobrará ao longo da quarta grande queda do índice Dow Jones
em relação ao ouro. A primeira queda, de 90%, ocorreu entre 1929 e 1933, com a
trajetória de recuperação iniciando-se em 1941, a qual se converteu em
prosperidade até atingir o limite em 1967; o segundo tombo, de 95%, deu-se
entre 1967 e 1979, com a retomada a partir de 1981 prolongando-se até 2001; a
terceira grande baixa, de 85%, ocorreu entre 2001 e 2011, sendo revertida de
2013 a 2022 — ano em que se inicia a quarta grande inflexão negativa, um
processo que já derrubou o marcador em 50%. A capacidade de o imperialismo
norte-americano fazer frente a isso é muito limitada. Desde 2008, os Estados
Unidos ingressaram em uma fase recessiva do ciclo de Kondratieff iniciado em
1994, o que reduziu o crescimento anual do PIB per capita entre 2008 e 2024
para 1,2% — quase metade da taxa registrada entre 1994 e 2007 (2%). Se a imensa
expansão do déficit público e da dívida pública foi crucial para elevar o
coeficiente Dow Jones/ouro, a taxa de lucro, a rentabilidade dos investimentos
e defender o dólar entre 2013 e 2022, tais instrumentos parecem agora
insuficientes para elevar o preço dos ativos e enxugar a moeda: não apenas pelo
tamanho dos estoques, mas principalmente pela dimensão da pressão do mercado
mundial.
Os
Estados Unidos estão perdendo a corrida tecnológica para a China de forma
irreversível: foram ultrapassados em número total de patentes e em
patentes per capita, em 2012 e 2018, respectivamente; responderam
por 9,9% do crescimento do PIB global em 2025, contra expressivos 26,5% da
China; e viram a potência asiática expandir o seu saldo comercial para US$ 1,2
trilhão, ante US$ 538 bilhões em 2024. Sem o respaldo do dólar como moeda
forte, o poder militar do imperialismo perde grande parte da sua capacidade de
atuação. Donald Trump sabe os custos econômicos, sociais e políticos da guerra
para os Estados Unidos e quer evitá-los: as intervenções no Iraque e
Afeganistão custaram US$ 8 trilhões, a vida de 7 mil soldados e de 8 mil
contratistas, sem mencionar os 30 mil veteranos de guerra que se suicidaram.
Sua estratégia é contorná-los, construindo um império coercitivo global baseado
na extorsão e em ações de demonstração capazes de promover o medo e garantir
conquistas sem maior resistência. Essa estratégia, todavia, está ancorada em
uma grande dose de blefe, terá problemas para se sustentar se houver conflito
prolongado e traz consequências de difícil controle a médio prazo: acentua a
insegurança mundial, deteriora o poder financeiro dos Estados Unidos, agrava o
desgaste interno e internacional, acelera o caos sistêmico e a organização da
resistência mundial.
O
assassinato de Ali Khamenei e seus assessores mais próximos mostra o enfoque
radicalmente elitista que Donald Trump quer aplicar às relações internacionais.
Para ele, os Estados são dirigidos pelas elites e não pelo povo e, caso se as
neutralize por extermínio, sequestro ou ameaça, coopta-se o Estado e o submete
ao hegemon em expansão. Ele não quer lutar contra exércitos ou povos, mas
espalhar o terror nos tomadores de decisão e vencer guerras com algumas dezenas
ou centenas de mortos, baixos custos financeiros, políticos e militares. É a
nova versão da Blitzkrieg nazista: guerra de assalto vinculada a uma tecnologia
militar e informacional de alta precisão. Mas, se funcionou na Venezuela, não
significa que vá funcionar no Irã, que possui uma estrutura estatal de 47 anos,
sólidos aparatos militares e paramilitares, uma ampla população xiita espalhada
no Oriente Médio e uma ideologia política religiosa que valoriza o martírio. O
objetivo de Trump é controlar o Estreito de Ormuz ao provocar a mudança de
regime no Irã, criar uma grande vulnerabilidade energética para a China com
impactos gerais sobre sua economia e debilitar a Rússia na frente ucraniana com
a subtração ou reorientação — para a sua adversária — da exportação de
tecnologia militar persa. O propósito final de Donald Trump é impor a mudança
de regime na Rússia e na China e garantir um século XXI sob domínio de um
império global estadunidense.
A
China, por sua vez, prefere a estratégia de ascensão pacífica. Ela continuará a
retaliar economicamente os Estados Unidos acelerando a substituição do dólar
pelo ouro como moeda de reserva. A cotação do ouro deverá disparar, acelerando
a crise do dólar. A sua aposta é paralisar a máquina de guerra dos Estados
Unidos com a crise do padrão monetário, evitando um conflito militar indireto
ou direto com a potência norte-americana. Todavia, provavelmente terá que
recalibrar a sua estratégia para aumentar o seu poder de dissuasão, fortalecer
a sua liderança e a densidade de suas parcerias internacionais. O tempo corre
contra os Estados Unidos que, com a agenda neofascista de Donald Trump, fazem
uma aposta política altíssima de ultrapassá-lo para reverter as tendências
estruturais da economia mundial.
¨
Trump enfrenta impasse na guerra contra o Irã após um mês
de conflito
Um mês
após o início da guerra contra o Irã, Donald Trump, atual presidente dos
Estados Unidos, enfrenta um dos momentos mais delicados de seu novo mandato,
pressionado por uma crise internacional em expansão, pela disparada dos preços
da energia e pelo desgaste político interno. Segundo reportagem da Reuters,
publicada neste sábado, 28 de março de 2026, a Casa Branca se vê diante de
escolhas duras: buscar um acordo potencialmente imperfeito para encerrar o
conflito ou aprofundar a ofensiva militar, com o risco de mergulhar os Estados
Unidos em uma guerra prolongada e de consequências imprevisíveis. A análise da
agência mostra que, apesar de intensa movimentação diplomática, Trump encerra
mais uma semana da campanha militar conjunta entre Estados Unidos e Israel sem
conseguir conter o alargamento da crise no Oriente Médio. O Irã, segundo a
reportagem, mantém pressão sobre o fluxo de petróleo e gás no Golfo, enquanto
prossegue com ataques de mísseis e drones em diferentes pontos da região. O
resultado imediato é um choque global de energia e o aumento da incerteza
geopolítica.
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Guerra sem saída clara
De
acordo com a Reuters, a questão central passou a ser se Trump está disposto a
reduzir a intensidade da guerra ou a ampliá-la ainda mais. O conflito,
classificado por críticos como uma “guerra por escolha”, já provocou o que
analistas descrevem como o pior choque de oferta de energia da história, com
efeitos que extrapolam em muito as fronteiras do Oriente Médio. A reportagem
informa que Trump disse a auxiliares que deseja evitar uma “guerra eterna” e
encontrar uma saída negociada. Nos bastidores, integrantes da Casa Branca têm
sido orientados a reforçar publicamente a ideia de que as hostilidades durariam
entre quatro e seis semanas. Ainda assim, a própria sustentação dessa linha
temporal já é vista internamente como frágil. Ao mesmo tempo em que tenta
demonstrar interesse por uma saída diplomática, Trump também ameaça uma grande
escalada militar caso as negociações fracassem. Essa ambiguidade, segundo
especialistas ouvidos pela Reuters, revela a ausência de uma definição clara
sobre o que seria, afinal, um desfecho satisfatório para Washington.
Jonathan
Panikoff, ex-vice-oficial nacional de inteligência dos Estados Unidos para o
Oriente Médio, resumiu o impasse de forma direta: “O presidente Trump tem
opções ruins por todos os lados para encerrar a guerra”. Em seguida,
acrescentou: “Parte do desafio é a falta de clareza relacionada ao que seria um
resultado satisfatório”.
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Casa Branca tenta manter pressão sobre Teerã
A
Reuters relata que, enquanto busca preservar margem de manobra, Trump está
enviando milhares de soldados adicionais à região e advertindo o Irã sobre a
possibilidade de uma ofensiva ainda mais intensa. Entre os cenários
considerados por analistas está até mesmo o uso de tropas terrestres, algo que
poderia aprofundar o envolvimento dos Estados Unidos no conflito e provocar
forte reação negativa entre eleitores norte-americanos. Outra hipótese
mencionada na reportagem é a de um ataque aéreo final de grande escala,
descrito como parte de uma “Operação Epic Fury”, com o objetivo de degradar
ainda mais a capacidade militar iraniana e atingir instalações nucleares. Após
isso, Trump poderia declarar vitória e anunciar o encerramento da campanha. O
problema, contudo, é que esse discurso dificilmente se sustentaria enquanto o
Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de petróleo, continuar
bloqueado ou parcialmente fechado. O texto observa que Trump demonstrou
irritação com a recusa de aliados europeus em enviar navios de guerra para
ajudar na segurança da via marítima. Esse dado ajuda a revelar um elemento
central da crise: os Estados Unidos não apenas enfrentam dificuldades no campo
militar e diplomático, como também veem limitações no apoio internacional à sua
estratégia.
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Retaliação iraniana expôs erro de cálculo
Um dos
pontos mais importantes da análise da Reuters é a avaliação de que a maior
falha de cálculo de Trump foi subestimar a capacidade de retaliação de Teerã.
Mesmo sob pesados bombardeios, o Irã continuou utilizando seus mísseis e drones
remanescentes para atacar Israel e países vizinhos do Golfo, além de restringir
o fluxo no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo
mundial.
Esse
movimento teve impacto imediato sobre a economia internacional. O encarecimento
do petróleo aumentou a pressão inflacionária e alimentou temores nos mercados,
ao mesmo tempo em que elevou os custos políticos da guerra para a Casa Branca.
Jon
Alterman, do Center for Strategic and International Studies, afirmou à Reuters:
“A aposta do governo iraniano é que pode suportar mais dor por mais tempo do
que seus adversários, e eles podem estar certos”. A Casa Branca, por sua vez,
sustenta que estava preparada para a resposta iraniana e diz confiar na
reabertura próxima do estreito. Ainda assim, a própria conduta de Trump sugere
preocupação crescente. A Reuters destaca que o presidente recuou dramaticamente
de uma ameaça de destruir a rede elétrica iraniana caso Teerã não
restabelecesse a navegação na região. Em uma medida interpretada como tentativa
de acalmar os mercados, Trump primeiro anunciou uma pausa de cinco dias nessa
ameaça e, depois, ampliou o prazo em mais dez dias.
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Popularidade em queda e temor eleitoral
A
guerra também cobra preço cada vez mais alto na política doméstica dos Estados
Unidos. Segundo a Reuters, pesquisas de opinião mostram ampla rejeição popular
ao conflito. Embora o movimento MAGA continue majoritariamente alinhado com
Trump, a sustentação desse apoio pode enfraquecer caso persistam os efeitos
econômicos, especialmente o aumento dos preços dos combustíveis. Uma pesquisa
Reuters/Ipsos concluída na segunda-feira mostrou que a aprovação geral de Trump
caiu para 36%, o menor nível desde seu retorno à Casa Branca. Esse dado amplia
o nervosismo dentro do Partido Republicano, que já se movimenta para defender
maiorias estreitas no Congresso nas eleições legislativas de novembro. A
reportagem também informa que autoridades e ex-integrantes do governo Trump
relataram preocupação crescente da Casa Branca com o impacto político do
conflito. Parlamentares republicanos temem que a guerra se transforme em
passivo eleitoral relevante, sobretudo se o custo econômico continuar alto e se
a administração não conseguir apresentar um plano convincente para encerrá-la. Em
sinal do desconforto dentro da própria base republicana, o deputado Mike
Rogers, presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara, criticou na
quinta-feira a administração por não fornecer informações suficientes sobre a
abrangência da campanha militar contra o Irã. A Casa Branca respondeu dizendo
que o Congresso foi informado diversas vezes antes e durante a guerra.
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Diplomacia emperrada e desconfiança mútua
Se a
escalada militar representa um risco enorme, a via diplomática tampouco parece
oferecer solução simples. A Reuters relata que Trump encaminhou ao Irã, por
meio de um canal indireto com o Paquistão, uma proposta de paz com 15 pontos. O
conteúdo é semelhante ao que Teerã já havia rejeitado em negociações anteriores
à guerra. Entre as exigências estão o desmantelamento do programa nuclear
iraniano, a limitação de seu arsenal de mísseis, o abandono de grupos aliados
regionais e, na prática, a entrega do controle do Estreito de Ormuz. Para o
governo iraniano, a proposta é injusta e irrealista, embora as autoridades não
tenham fechado totalmente a porta para novos contatos indiretos. Trump afirmou
na quinta-feira que o Irã estaria “implorando” para fechar um acordo. Mas
analistas ouvidos pela Reuters avaliam que os dirigentes iranianos não
demonstram pressa em negociar o fim da guerra, justamente porque acreditam que
poderão reivindicar vitória simplesmente se sobreviverem ao embate e mantiverem
capacidade de resistência. Outro fator que complica qualquer entendimento é a
mudança de liderança dentro do próprio Irã após mortes provocadas por ataques
aéreos dos Estados Unidos e de Israel. Segundo a reportagem, alguns dos
substitutos surgidos nesse contexto são ainda mais duros do que os dirigentes
anteriores, o que eleva a rigidez da posição iraniana.
A
desconfiança em relação a Trump também pesa fortemente. Os dirigentes iranianos
lembram que o presidente ordenou duas vezes ataques aéreos no último ano
enquanto as duas partes ainda negociavam. Isso torna ainda mais difícil
qualquer tentativa de reconstrução mínima de confiança entre os lados. Um
funcionário da Casa Branca, citado pela Reuters sob condição de anonimato,
declarou: “O presidente está disposto a ouvir, mas se eles falharem em aceitar
a realidade do momento atual, serão atingidos mais duramente do que nunca”.
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Aliados inquietos e riscos de uma guerra maior
A crise
não afeta apenas a relação entre Washington e Teerã. Autoridades israelenses,
segundo a Reuters, já sinalizam incômodo com a possibilidade de Trump fazer
concessões que limitem futuras ações militares de Israel contra o Irã. Ao mesmo
tempo, aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo veem com preocupação tanto
uma retirada precipitada quanto uma escalada descontrolada. Esses países
receiam ficar expostos diante de um vizinho hostil e ferido caso Washington
recue sem resolver os fatores centrais do conflito. Mas também alertam contra o
envio de tropas norte-americanas para o território iraniano, o que poderia
desencadear novas ondas de retaliação contra infraestrutura energética e civil
na região. A Reuters informa que um alto funcionário do Golfo, também falando
sob anonimato, afirmou que os aliados advertiram a administração
norte-americana para não colocar soldados em solo iraniano. Já a Casa Branca
declarou que Trump deixou claro que “não tem planos de enviar tropas terrestres
para lugar algum neste momento”, embora siga mantendo todas as opções sobre a
mesa.
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Sinais contraditórios e uma estratégia baseada na incerteza
A marca
mais evidente da atuação de Trump, segundo especialistas ouvidos pela Reuters,
é o envio constante de sinais contraditórios. Em um momento, o presidente faz
pronunciamentos destinados a tranquilizar os mercados; no seguinte, eleva o tom
e emite ameaças que voltam a pressionar os preços da energia. Laura Blumenfeld,
da Johns Hopkins School of Advanced International Studies, resumiu essa postura
com uma definição contundente: “Trump opera com sinais contraditórios”. E
completou: “Ele é uma máquina de comunicação de ‘névoa de guerra’ de um homem
só para manter os adversários desequilibrados”. Essa estratégia pode produzir
ganhos táticos de curto prazo, mas também reforça a percepção de improvisação e
amplia a insegurança em um momento de enorme instabilidade global. Sem um
objetivo final claramente definido, a administração norte-americana parece
oscilar entre a tentativa de impor rendição ao Irã e a necessidade de encontrar
uma saída que evite um desgaste ainda maior.
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Presidência sob risco
O
quadro descrito pela Reuters é o de uma presidência cercada por pressões
crescentes. Trump prometeu reiteradas vezes manter os Estados Unidos longe de
novos atoleiros militares no exterior, mas agora se vê associado a uma guerra
em expansão ao lado de Israel, com reflexos diretos sobre a economia mundial, a
política interna e a estabilidade regional. Se optar por ampliar a ofensiva,
poderá aprofundar o custo humano, militar e político do conflito. Se buscar uma
saída negociada sem resultados concretos, corre o risco de ser acusado de recuo
e fraqueza. O bloqueio no Estreito de Ormuz, a alta do petróleo, a queda de
popularidade e o endurecimento do governo iraniano tornam qualquer desfecho
mais difícil. Após um mês de guerra, o presidente dos Estados Unidos se
encontra diante de um impasse estratégico de grandes proporções. A promessa de
uma campanha curta já parece abalada. E, sem uma estratégia de saída
convincente, o conflito com o Irã ameaça se converter no tema definidor de seu
mandato.
Fonte: Brasil
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