Como
memórias da guerra e do passado nazista estão no centro de disputa eleitoral na
Alemanha
Um
partido que quer cortar o financiamento da arte "anti-alemã" e
ensinar menos sobre Hitler às crianças, como parte de uma agenda
"patriótica", poderá em breve chegar ao poder em um Estado da
Alemanha.
Pesquisas
de opinião apontam que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha
(AfD) tem ampla vantagem nas intenções de voto no estado da Saxônia-Anhalt,
antes das eleições estaduais de 6 de setembro.
Em seu
manifesto, a legenda descreve a cultura da memória alemã — como são chamadas em
português as políticas e práticas educacionais usadas para manter viva a
lembrança dos crimes cometidos durante o nazismo no país —como um
"complexo de culpa".
Trata-se
de uma afirmação profundamente controversa em um país onde o enfrentamento dos
crimes nazistas é visto há muito tempo como o alicerce moral da nação.
Num
comício eleitoral na cidade de Querfurt, Gerd, de 70 anos, prendeu uma pequena
bandeira alemã desfiada nas alças de sua scooter de mobilidade.
Não se
pode "apagar" a história, diz o apoiador do AfD, mas "a Segunda
Guerra Mundial não tem mais nada a ver conosco".
Gerd
acredita que é importante olhar tanto para o futuro quanto para a história
anterior à era nazista, quando as terras de língua alemã eram conhecidas como
um lugar de "poetas e pensadores".
Caso
chegue ao poder, a AfD quer mudar a forma como a história alemã é ensinada na
Saxônia-Anhalt, um Estado localizado na região centro-leste do país.
O
governo também se comprometeu a hastear a bandeira alemã todos os dias da
semana nas escolas públicas e a preservar melhor os memoriais de guerra em
homenagem aos soldados alemães.
Os
demais partidos do Estado já afirmaram que não entrarão em coligação com a AfD,
que é classificado como de extrema-direita em vários estados, incluindo a
Saxônia-Anhalt, desde 2023.
A
inteligência interna descobriu que a seção local do partido era antidemocrática
e que seus objetivos eram permeados por uma "ideologia racista". A
AfD geralmente rejeita essas classificações como difamações politizadas.
O
objetivo do partido é conquistar votos suficientes para obter a maioria
parlamentar na Saxônia-Anhalt: um feito notável na política alemã.
As
pesquisas indicam que tal centário é possível.
Caso o
partido consiga essa vitória, assumiria o controle de serviços como cultura,
policiamento e educação.
A
proposta é alterar o currículo de história escolar, dando mais ênfase ao século
anterior em relação ao conflitos catastróficos da Primeira e da Segunda Guerra
Mundial.
Hans-Thomas
Tillschneider, idealizador do programa, afirmou que "é claro" que
ainda haverá aulas sobre o Nacional-Socialismo, a ideologia política do partido
comandado por Hitler, "mas em menor escala".
Em
declarações a um programa da emissora pública ARD no ano passado, ele resumiu
seu plano como "mais Bismarck, menos Hitler", referindo-se a Otto von
Bismarck, o principal arquiteto da unificação alemã em 1871.
Figuras
importantes da AfD já foram acusadas de tentar minimizar o capítulo mais
sombrio da história alemã, em parte, segundo seus críticos, como forma de
atrair seus apoiadores mais extremistas.
Em
2018, o ex-co-líder do partido, Alexander Gauland, comparou a era nazista a um
"grão de cocô de passarinho", enquanto, um ano antes, Björn Höcke,
que lidera o partido no Estado da Turíngia, descreveu o Memorial do Holocausto
de Berlim como um "monumento da vergonha".
Na
Saxônia-Anhalt, o homem que pode se tornar o primeiro governador estadual do
AfD, Ulrich Siegmund, defendeu a agenda patriótica do partido, dizendo à BBC
que era "a coisa mais normal do mundo" as pessoas se orgulharem de
seu país.
"Queremos
recuperar isso", disse ele. "Temos uma história diversa, que remonta
a centenas de anos, e queremos ensinar essa história em sua totalidade, com
todos os seus altos e baixos, mas com orgulho e uma perspectiva positiva."
Siegmund,
um ex-vendedor de aromatizadores de ambiente de 35 anos, tornou-se uma estrela
da AfD com seu estilo de campanha enérgico e uso inteligente das mídias
sociais.
Em
Querfurt, as pessoas faziam fila durante horas para tirar uma foto ou apertar a
mão dele, enquanto ele alegremente autografava cópias de uma reportagem de capa
da revista Der Spiegel que o declarava o "homem mais perigoso da
Alemanha".
O
partido AfD tem rejeitado consistentemente as alegações de extremismo ou
comparações com o nacional-socialismo.
Em
2024, houve novos apelos para a proibição do partido, depois de ter vindo à
tona que figuras importantes — incluindo Ulrich Siegmund — estavam entre os
presentes em uma reunião com o ativista austríaco de extrema-direita, Martin
Sellner.
Sellner
tem um passado neonazista que ele descreveu posteriormente como uma tolice da
juventude.
Atualmente,
ele é conhecido por defender o conceito de remigração: um termo cada vez mais
vago, mas amplamente entendido como deportações em massa ou a remoção forçada
de pessoas com histórico de migração.
O
partido AfD insistiu que sua política de "remigração" seria legal e
se concentraria na deportação, por exemplo, de criminosos e pessoas que estão
no país ilegalmente.
Quando
a BBC perguntou a Ulrich Siegmund se ele ainda mantinha contato com Sellner,
ele disse que não o via desde o único encontro, que aconteceu em Potsdam, nos
arredores de Berlim, em 2023.
Alguns
críticos do partido afirmam categoricamente que os planos da AfD para a
Saxônia-Anhalt carregam ecos do nacional-socialismo, incluindo a promessa de
cortar o apoio financeiro à arte "anti-alemã".
O
regime nazista exercia um controle rígido sobre todas as esferas da vida
cultural da Alemanha, notadamente exibindo obras que considerava inaceitáveis
na "Exposição de Arte Degenerada" em 1937.
"Como
alguém pode dizer que não é alemão o suficiente, e o que isso significa?",
pergunta Frank Martin Widmaier, diretor de um teatro local na cidade de
Eisleben.
Assim
como a maioria dos teatros na Alemanha, o teatro de Widmaier depende fortemente
de financiamento estatal. Ele considera os planos da AfD vagos e ameaçadores.
"Isso
é fazer propaganda nazista", diz ele. "É para ameaçar as pessoas,
para ameaçar as instituições."
O
partido AfD afirma que, embora a lei proteja a liberdade artística, o dinheiro
dos contribuintes deve apoiar principalmente a arte que ajuda a cultivar uma
identidade alemã.
Tudo
isso faz parte do que a AfD promove como uma "mudança patriótica" que
pode ajudar a "restaurar" a autoconfiança do país.
A
controversa afirmação de que a cultura da memória na Alemanha — conhecida como
Erinnerungskultur em alemão — criou uma crise de identidade prejudicial não é
nova.
Mas a
popularidade da AfD está dando novo fôlego à discussão, já que o partido lidera
as pesquisas não apenas na Saxônia-Anhalt, mas em todo o país — embora com uma
vantagem menos expressiva em nível federal.
Widmaier
rejeita a noção de que a Erinnerungskultur equivale a um "complexo de
culpa".
"Você
não precisa se sentir culpado", diz ele, especialmente quando se fala das
gerações que nasceram depois da Segunda Guerra Mundial.
"Mas
você precisa lidar com tudo isso para que nunca mais aconteça. Isso faz parte
do nosso DNA na Alemanha."
As
eleições na Saxônia-Anhalt representam um momento potencialmente decisivo para
a Alemanha, em vários aspectos.
Não
menos importante, a formação de um governo da AfD marcaria a primeira vez que
um partido de extrema-direita deteria um poder significativo na Alemanha no
período pós-guerra.
Seria
também o primeiro teste real da agenda patriótica do partido que, para os seus
críticos, camufla um revisionismo perigoso.
Fonte:
BBC News em Berlim

Nenhum comentário:
Postar um comentário