quinta-feira, 2 de julho de 2026

Nem traição nem rendição: Venezuela recua para preservar a Revolução sob chantagem dos EUA

Depois de vinte e sete anos de esperança, mobilização e experimentação, realmente terminou o impulso propulsor do laboratório bolivariano? Chegou ao fim a experiência socialista, proclamada por Hugo Chávez, em 2005, diante dos movimentos antiglobalização em Porto Alegre, como a única alternativa real à barbárie do capital?

De fato, tudo está se resolvendo na ignomínia e na traição de seus dirigentes, como proclamam os tribunais permanentes das redes sociais? E, sobretudo, que espaços reais restam para uma alternativa sistêmica diante da absoluta ausência de uma correlação de forças favorável em nível continental, enquanto o Comando Sul mantém presença permanente nas águas do Caribe, assedia a Venezuela e ameaça a existência de Cuba?

Há uma passagem decisiva no ensaio de Lênin de 1904, Um passo adiante, dois passos atrás, que se projeta com precisão geométrica sobre a geopolítica contemporânea. O grande dirigente revolucionário, ao fazer o balanço das fraturas organizativas do socialismo russo, lembrava que a firmeza dos princípios nunca deve transformar-se em cegueira dogmática: a tática exige flexibilidade, capacidade de manobra e, quando necessário, a aceitação consciente de um recuo temporário para preservar as forças estratégicas.

O problema surge quando o recuo se prolonga além do necessário, transformando-se em um pântano onde os contornos da alternativa de sistema se apagam diante da chantagem do vencedor e da defesa de um Estado qualquer.

Escrever hoje sobre a Venezuela significa confrontar-se justamente com essa escorregadia dialética entre princípios e compromissos. A ofensiva imperial desencadeada no início de 2026, que culminou no inédito sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores, sua esposa, lançou o processo bolivariano em uma fase defensiva complexa e dramática, de resultados ainda incertos.

A opção do grupo dirigente, hoje chefiado pela presidenta encarregada Delcy Rodríguez, de não reagir militarmente à ofensiva — diferentemente do que fez o Irã no Oriente Médio — evitou uma carnificina imediata, mas abriu caminho para uma negociação assimétrica sob chantagem, expondo o país ao risco de uma perda irreversível da soberania nacional.

Para compreender a natureza dessa armadilha, é necessário analisar a estratégia em três fases planejada pela administração Trump e seus setores mais belicistas, começando por Marco Rubio. Essa estratégia não busca a destruição imediata e espetacular das instituições bolivarianas, mas sim desgastá-las lentamente. A primeira fase concentrou-se no isolamento e na decapitação simbólica, aproveitando o sequestro para privar a revolução de seu eixo institucional.

A segunda fase, atualmente em curso, consiste em abrir espaço para as direitas de oposição e preparar o terreno para a exploração dos imensos recursos venezuelanos, desmontando, peça por peça, a arquitetura socialista do Estado bolivariano.

Em troca, Caracas recebe apenas as migalhas de algumas licenças temporárias que permitem às empresas multinacionais ampliar o comércio de petróleo — enquanto as medidas coercitivas unilaterais permanecem em vigor — e a autorização para contratar um escritório de advocacia encarregado da renegociação da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujos financiamentos haviam sido bloqueados em razão das sanções.

Os Estados Unidos prolongam as negociações diplomáticas e apertam ainda mais o bloqueio econômico com o único objetivo de agravar as contradições internas do bloco patriótico, preparando a terceira fase. Esta prevê a normalização neoliberal: um retorno gradual à lógica de mercado, em que a privatização de fato da renda petroleira é apresentada como o único preço possível para a paz e o bem-estar econômico das classes médias afetadas pelas sanções — as mesmas sanções que seus representantes políticos haviam solicitado aos gritos a Washington.

Essa etapa prevê o retorno à democracia de fachada da IV República e implica o desmantelamento da Constituição bolivariana, baseada na democracia participativa e protagonista. O mecanismo apoia-se em uma leitura precisa e implacável do contexto geopolítico.

O retorno progressivo da direita na América Latina, onde doze governos já estão alinhados às diretrizes de Trump, priva a Venezuela daquele cinturão de proteção continental que, em determinado momento, garantiu sua sobrevivência e também protegeu a Revolução Cubana.

Nesse isolamento surge uma pergunta incômoda, que os defensores da ortodoxia revolucionária das redes sociais tendem a evitar: quantos, dentro e fora das fronteiras venezuelanas, teriam apoiado concretamente uma insurreição armada aberta contra o aparato militar e tecnológico dos Estados Unidos, a principal potência nuclear do planeta?

Quantos manifestaram seu repúdio diante da escalada da agressão estadunidense, que durante meses continuou matando impunemente pescadores no Caribe? Quantos dos que hoje, na Europa, escrevem nas redes sociais como se soubessem tudo levantaram a voz durante esses meses de agressões e ameaças? Quantos o fizeram ao longo dos anos de estrangulamento da Venezuela bolivariana?

O ataque de 3 de janeiro revelou, sem dúvida, uma debilidade interna e uma vulnerabilidade tecnológica e militar, provavelmente decorrente também de uma traição no aparato de defesa: uma fissura, portanto, no principal pilar do processo bolivariano, a união cívico-militar-policial.

Nessas condições, a ilusão de uma guerra popular imediata — ainda que prevista por Maduro com a distribuição de armas aos operários e com a palavra de ordem de incendiar os poços de petróleo em caso de invasão terrestre —, em um país exaurido por anos de bloqueio econômico e guerra cognitiva, corria o risco de transformar-se em um trágico exercício de aventureirismo.

Pelo menos essa foi a opção adotada pelo grupo dirigente encarregado diante do ultimato estadunidense e da confirmação de que o presidente e Cilia Flores continuavam vivos, embora prisioneiros.

“Vocês têm 15 minutos para decidir antes que bombardeemos”, foi a chantagem de Trump.

Os efeitos dos ataques anteriores, em quatro estados do país, já haviam demonstrado seu potencial letal, deixando mais de 200 mortos entre soldados e civis.

Os dirigentes aceitaram essa imposição raciocinando mais como estadistas formados na tradição política do pós-guerra, orientados pela legalidade, do que como bolcheviques: pensando, antes de tudo, em preservar a vida da população.

Agora, empenhados em uma estratégia que busca explorar as contradições do inimigo e ganhar tempo, declaram como prioridades: “preservar a paz da pátria; manter o poder político para continuar construindo a revolução; fortalecer o poder popular apesar das dificuldades, das pausas, das contradições e das escolhas não explicitadas decorrentes do recuo tático; trazer de volta para casa Maduro e Cilia Flores”.

Por outro lado — explicam muitos analistas, dispostos a conviver com a dúvida ou, ao menos, a suspender o julgamento do processo —, tanto Simón Bolívar quanto a tradição marxista, em especial na práxis leninista, consideram o recuo estratégico não como um ato de capitulação, mas como uma arte fundamental da guerra e da política para reorganizar forças quando a correlação de forças é desfavorável.

A trajetória do Libertador — recordam — não foi uma marcha triunfal contínua, mas uma alternância dramática entre ofensivas fulminantes e profundas retiradas. Depois da perda de Puerto Cabello e da posterior rendição de Miranda às tropas realistas de Monteverde, Bolívar refugiou-se em Cartagena.

Aquela retirada não representou um momento de passividade. Foi ali que escreveu o célebre Manifesto de Cartagena (1812), analisando com rigor materialista as causas doutrinárias e federalistas que haviam levado ao colapso da Primeira República, antes de lançar a Campanha Admirável.

Em 1814, quando a ofensiva de Boves desarticulou novamente as forças patriotas e Caracas foi perdida, Bolívar realizou um recuo ainda mais profundo rumo à Jamaica e ao Haiti. Nesse exílio forçado nasceu a Carta da Jamaica (1815), e foi com o apoio do presidente haitiano Alexandre Pétion — que lhe forneceu armas em troca da promessa de libertar os escravizados — que Bolívar transformou o exílio no ponto de partida para uma nova estratégia centrada na aliança com as classes populares.

No marxismo, esse recuo é elevado à categoria de princípio estratégico. A paz de Brest-Litovsk, assinada em março de 1918, é o exemplo clássico. Diante do avanço alemão e com o Exército em dissolução, Lênin impôs a assinatura de um tratado humilhante contra a posição da fração dos comunistas de esquerda, liderada por Bukharin, que defendia a guerra revolucionária a qualquer custo.

A lógica de Lênin era cristalina: a revolução precisava de um respiro. Era melhor ceder território para salvar o Estado operário do que permitir sua destruição em nome de um orgulho abstrato. Poucos meses depois, com o colapso do Império Alemão, aquele tratado perdeu completamente sua validade.

É perfeitamente legítimo comparar as decisões impostas hoje ao governo bolivariano, dentro dos limites da Constituição, com aquele episódio histórico: se a Venezuela conseguir preservar sua estrutura constitucional, as concessões feitas sob chantagem poderão ser revogadas no futuro.

O mesmo ocorreu com a Nova Política Econômica (NEP), de 1921. Lênin nunca ocultou a natureza daquele recuo, definindo-o como um passo atrás temporário rumo ao capitalismo de Estado para reconstruir as forças produtivas antes de retomar a ofensiva.

Claro que, e aqui reside o ponto de ruptura teórico e prático, as aberturas promovidas pelos bolcheviques partiam do controle firme do Estado e da abolição da propriedade privada estabelecida pela Revolução de Outubro de 1917. Muito diferentes são as concessões feitas por um Estado como o bolivariano, que chegou ao governo pela via eleitoral, não tem em seu programa a ditadura do proletariado e tampouco cultiva o martírio como elemento de sua cultura política.

O socialismo bolivariano transformou a consigna cubana “Pátria ou morte” em “Viveremos e venceremos”, precisamente a pedido dos movimentos antiglobalização, elaborando, nessa perspectiva, a lição de Salvador Allende.

“Chávez, não se imole, não faça como Allende, haverá outra oportunidade”, aconselhou Fidel Castro ao comandante prisioneiro em Miraflores durante o golpe de Estado de 2002. E Chávez regressou, com a cruz em uma mão e a Constituição na outra, anistiando os golpistas.

Maduro, por sua vez, não morreu com as armas na mão, evitando a “prova suprema”, e hoje, ao lado de Cilia, permanece prisioneiro de guerra.

A história do século 20 — entre seus exemplos mais recentes, a Revolução Sandinista — mostra como os processos revolucionários isolados dos fluxos da economia mundial enfrentaram os limites estruturais de um contexto global desprovido de revoluções no Ocidente.

A Venezuela encarna a figura da revolução inconclusa: uma experiência que desmontou os mecanismos tradicionais da democracia burguesa sem conseguir, entretanto, realizar a transição definitiva para além do modo de produção capitalista.

Essa complexa herança emergiu com força durante um recente encontro com intelectuais internacionais em Caracas, realizado para lembrar o Congresso Anfictiônico do Panamá, convocado originalmente por Bolívar em 1826.

Aquele congresso foi a grande tentativa de construir um escudo coletivo diante das potências coloniais e do nascente expansionismo estadunidense expresso na Doutrina Monroe, um projeto que precisou enfrentar traições, retrocessos e desgastantes recuos táticos.

Nesse contexto, Delcy Rodríguez pronunciou um discurso denso, destinado a explicar que o recuo faz parte da tradição histórica bolivariana e constitui uma forma de enfrentar a nova fase de confronto assimétrico.

Passados quase seis meses do duplo sequestro de 3 de janeiro, a presidenta encarregada defendeu, com pragmatismo, que o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos representou um caminho acertado para a política nacional, uma inflexão necessária para administrar as controvérsias por meio do diálogo e garantir a paz, definindo essa estratégia como um instrumento de cooperação para reduzir as divergências sem sacrificar a identidade nacional.

Em entrevista concedida a um jornal conservador, reiterou que o presidente da Venezuela continua sendo Nicolás Maduro.

No entanto, a base socialista pressiona por outro caminho: o caminho anti-imperialista. Ainda mais porque a crônica política e o debate interno permanecem marcados pela categoria analítica da traição, evocada por setores do chavismo crítico para explicar as concessões econômicas e os silêncios desta complexa fase de negociação.

O materialismo histórico ensina, contudo, que a traição é uma categoria idealista e moralista, insuficiente para explicar os movimentos das classes e das estruturas estatais.

Se observarmos a trajetória e o papel desempenhado por Delcy Rodríguez, veremos a fragilidade dessa interpretação. Uma dirigente de sua estatura política, dotada de poder real conquistado tanto na atuação política quanto na estrutura do Estado, não teria qualquer necessidade lógica ou política de trair, no sentido mais vulgar da palavra, ainda mais pagando um preço tão alto e sem garantias. Na Venezuela existem mecanismos legais inclusive mais eficazes do que uma invasão armada para derrotar adversários políticos.

A explicação para a posição atual do governo venezuelano reside, antes, na situação objetiva de fragilidade em que se encontra o país. Anos de sanções criminosas desestruturaram o tecido produtivo e logístico, provocando também uma perda parcial da motivação e da mobilização ideológica entre setores populares, desgastados por uma resistência cotidiana heroica que nem sempre se traduz em melhores condições materiais de vida.

Não por acaso, Rodríguez pertence a essa corrente política que também encontrou expressão no Movimento Futuro, plataforma social criada para ampliar as bases do chavismo para além dos limites do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), incorporando as novas demandas de uma sociedade desgastada pela crise.

Não há, portanto, um complô palaciano, mas a tomada de consciência de uma correlação de forças desfavorável. De todo modo, o que deveria importar aos internacionalistas fora da Venezuela é impedir que as garras do imperialismo se fechem sobre essa alternativa.

Neste mês em que se recorda o nascimento de José Carlos Mariátegui, o pai do marxismo latino-americano, sua lição ressoa com extraordinária clareza. Mariátegui advertia que o socialismo na América Latina não deveria ser nem decalque nem cópia, mas uma criação heroica dos povos, capaz de integrar a especificidade indígena, camponesa e comunitária à crítica científica do capital.

A Venezuela tentou essa criação heroica, mas hoje se depara com as perguntas inevitáveis deste século: que espaço real ainda existe para uma alternativa de sistema dentro de um mercado mundial totalmente interconectado e dominado pelos algoritmos do capitalismo financeiro?

A debilidade demonstrada pela Venezuela não é fruto de uma culpa subjetiva, mas o reflexo de uma contradição global. A proposta da Internacional Antifascista, lançada em Caracas como espaço de articulação contra o fascismo corporativo e contra a aliança entre o imperialismo e o sionismo, que hoje promove o genocídio na Palestina, continua sendo a única alternativa estratégica de longo prazo.

No curto prazo, porém, a mesa de negociações com os Estados Unidos apresenta-se como um terreno extremamente escorregadio. Para que a flexibilidade leninista não se transforme em capitulação definitiva, a esquerda internacional precisa deixar de olhar para a Venezuela pelos olhos do romantismo abstrato ou da condenação dogmática.

É necessário compreender que a defesa da soberania bolivariana constitui um elo de uma cadeia global. Somente com a reativação da solidariedade de classe e o reconhecimento das assimetrias estruturais do capital sobre o trabalho, do imperialismo sobre os povos e do patriarcado sobre a reprodução da vida será possível impedir que os coveiros da memória celebrem mais um funeral sobre o corpo de uma revolução que ousou desafiar o império.

 

Fonte: Geraldina Colotti, em Resumen LatinoAmericano

 

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