Briga
entre Michelle e Flávio abala plano bolsonarista para eleger Senado 'anti-STF'?
As eleições de
2026 são marcadas por uma disputa inédita pelo Senado Federal.
Lideranças dos campos bolsonarista e lulista chegam a dizer que a eleição que
renovará dois terços da Casa será tão ou mais importante que a corrida
presidencial.
Em
outubro, cada unidade federativa elegerá dois senadores, parlamentares que
serão fundamentais para definir as leis do país. Eleitos, os senadores têm
mandato de oito anos. Cada um dos 26 Estados e o Distrito Federal têm três
representantes no Senado.
Mas,
para além do impacto legislativo, essa eleição entrou no centro da disputa
política por causa do poder que o Senado tem frente ao Supremo
Tribunal Federal (STF) — é a instituição responsável por
aprovar novos integrantes para a Corte e também a única que pode cassar seus
ministros, uma das principais agendas da direita bolsonarista desde que o o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) virou alvo de investigações
criminais e acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.
Atualmente,
dezenas de pedidos de impeachment contra integrantes do STF estão parados na
mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), apesar da pressão
bolsonarista, sendo Alexandre de
Moraes o principal alvo. Por isso, esse campo sonha em
conquistar a maioria do Senado ou, ao menos, ampliar sua bancada, para ter mais
condições de pressionar por cassações de ministros a partir de 2027.
"É
óbvio que, no xadrez político, a Presidência da República é muito importante,
mas muito mais importante é o Senado", defendeu o ex-deputado federal
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em novembro, em entrevista ao canal Jovem Pan.
"O
jogo mais interessante é o Senado porque ele é capaz de parar os ditadores de
toga. O presidente não", continuou o ex-parlamentar, que participa
ativamente das articulações para definir as candidaturas do PL e de aliados,
mesmo morando nos Estados Unidos.
A
importância dada à corrida ao Senado, porém, tem provocado rachas dentro da
própria direita bolsonarista, culminado na briga pública
entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o pré-candidato presidencial
do PL, o senador Flávio Bolsonaro.
Após
divulgar um vídeo na
semana passada em que dizia ter sido maltratada por seu enteado
em meio a discordâncias na definição do quadro eleitoral do PL no Ceará, ela
renunciou na terça-feira (30/06) à presidência do PL Mulher, sem esclarecer se
disputará uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, algo que vinha sendo dado
como certo no campo bolsonarista.
No
centro da discordância entre ela e Flávio, está a disputa
eleitoral no Ceará, onde Michelle se recusa a aceitar os planos da
direção do PL de apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado
e, na composição para essa aliança, rifar a pré-candidatura de Priscila Costa
(PL) ao Senado.
Vereadora
mais votada em Fortaleza, Costa atuava como braço direito de Michelle dentro do
PL Mulher, do qual é vice-presidente. No entanto, André Fernandes, presidente
do PL no Ceará e deputado federal mais votado no Estado, prefere lançar seu
pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), para o cargo de senador.
Para o
cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice, a briga com Michelle tem
efeitos negativos claros sobre a campanha presidencial de Flávio, devido a sua
importância como liderança feminina e evangélica, e atrapalha as negociações do
PL nos Estados.
Apesar
disso, ele avalia que o campo bolsonarista ainda está mais forte na disputa
pelo Senado do que a esquerda, devido à centralidade que deram a essa eleição.
"Isso
[a briga na família Bolsonaro] é ruim para os palanques regionais do Flávio e
para a organização do PL nos Estados, porque deixa ali possíveis aliados um
pouco mais assustados, receosos de se alinhar com o Flávio".
O
Valdemar [Costa Neto, presidente do PL] está tratando isso com imensa seriedade
porque ter uma bancada relevante no Senado dá a ele força para eleger um
presidente do Senado, como ele já vocalizou algumas vezes que tem interesse, ou
para direcionar a pauta do Davi Alcolumbre [caso ele se reeleja presidente da
Casa]", disse Aragão.
Na
quarta-feira (1/7), Michelle faltou a um evento da pré-campanha em que Flávio
se reuniu com lideranças femininas. Na ocasião, ele repudiou pela primeira vez
uma declaração do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo afirmando que
"mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres
solteiras".
A fala
foi feita na semana passada, em vídeo que também chamava Michelle Bolsonaro de
"feminista" em tom crítico. Os ataques de Figueiredo e outros
bolsonaristas ligados ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no exterior são
apontados como uma das causas do afastamento da ex-primeira-dama.
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Raio-X das forças no Senado
Hoje, o
Senado é majoritariamente composto por políticos de centro-direita. O
bolsonarismo não tem maioria na Casa, mas é uma força relevante. O PL tem 15
senadores, quase um quinto das 81 vagas, sendo a maior bancada partidária.
E há
senadores de outros partidos que, bolsonaristas ou não, também apoiam a
cassação de ministros do STF, como Damares Alves (Republicanos-DF), Hamilton
Mourão (Republicanos-RS), Eduardo Girão (Novo-CE), Marcos do Val (Avante-ES),
Esperidião Amin (PP-SC) e Alessandro Vieira (MDB-SE).
Segundo
a Lei do Impeachment, é possível iniciar um processo de cassação contra um
ministro do STF com a aprovação da maioria simples do Senado (metade do quórum
presente na sessão), mas duas ações questionam o rito atual no Supremo e tentam
aumentar esse patamar.
Já o PT
tem a quarta maior bancada no Senado, com nove parlamentares, atrás também de
PSD (14) e MDB (10), partidos do Centrão, grupo que reúne legendas de
centro-direita que costumam se aliar a governos de variados espectros
políticos.
O
arranjo atual já provoca dores de cabeça no presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em abril, o Senado impôs uma derrota
histórica ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao STF. E, agora, oferece
mais resistência à pauta governista de acabar com a jornada de
trabalho 6x1, após a proposta ser facilmente
aprovada na Câmara.
Para
Lucas Aragão, da Arko Advice, o Senado será um desafio ainda maior para Lula,
caso consiga se reeleger.
"Minha
visão é de que o Senado vai, sim, dar um passo mais à direita. Acho que essa
vai ser uma das manchetes no dia 5 de outubro", diz, referindo-se ao dia
seguinte ao primeiro turno eleitoral.
Na sua
leitura, alguns motivos explicam esse favoritismo: o primeiro deles é que o
bolsonarismo, por ser um fenômeno mais recente que o lulismo e mais atuante nas
redes sociais, conseguiu produzir mais lideranças novas.
O
segundo, continua, é a forte mobilização contrária ao STF, intensificada com a
condenação de Jair Bolsonaro e alimentada também pelo escândalo do Banco
Master, que levantou questionamentos em relação à atuação dos ministros
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli devido a possíveis ligações com a
instituição liquidada ou seu dono, Daniel Vorcaro — ambos negam qualquer
irregularidade.
"A
direita tem uma pauta para falar de Senado Federal na eleição, que é: 'olha o
STF, olha os excessos, olha a judicialização da política, olha o ativismo
judicial, olha a insegurança jurídica, olha a segurança pública, o
prende-solta, o solta-prende'. O que a esquerda tem para falar sobre eleições
para o Senado? Pouca coisa", analisa.
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As disputas nos Estados
O
cenário nacional das disputas pelo Senado ainda não está totalmente claro
porque as candidaturas só serão definidas após as convenções partidárias, que
ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto. O prazo para os partidos formalizarem
os candidatos na Justiça Eleitoral é 15 de agosto.
Pré-candidatos
do PL ou alinhados ao campo bolsonarista aparecem com chances de conquistar até
mesmo as duas vagas em disputa em alguns Estados que tradicionalmente votam
mais à direita.
É o
caso de Santa Catarina, onde a deputada federal Caroline de Toni (PL), o
vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) e o senador Esperidião Amin (PP)
despontam como favoritos.
No
Distrito Federal, o PL pretende disputar as duas vagas e ameaça desbancar a
atual senadora Leila Barros (PDT), que tentará a reeleição. Até a briga com
Flávio, as prováveis candidatas do partido eram Michelle Bolsonaro e a deputada
federal Bia Kicis, que foi a mais votada do DF para a Câmara em 2022. Caso
Michelle desista, a expectativa é que o atual senador Izalci Lucas (PL-DF)
tente a reeleição.
Já no
Paraná, o ex-procurador da República Deltan Dallagnol (Novo) e o deputado
federal Filipe Barros (PL) são pré-candidatos competitivos no lado
bolsonarista, mas o ex-senador Álvaro Dias (MDB), o deputado estadual Alexandre
Curi (PSD) e a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) também aparecem bem
posicionados.
O campo
lulista, por sua vez, mantém força em alguns Estados do Nordeste. O PT é
favorito a conquistar as duas vagas na Bahia. Apesar do desgaste sofrido
pelo senador
Jaques Wagner após ser alvo de uma operação da Polícia Federal dentro
das investigações do Banco Master, ele segue aparecendo em segundo lugar em
pesquisa de intenção de voto, atrás apenas de Rui Costa — ambos são
ex-governadores baianos.
Já em
Pernambuco, o senador Humberto Costa (PT) tentará um novo mandato, enquanto a
ex-deputada federal Marília Arraes, que trocou o PT pelo PDT neste ano, também
aparece como candidata competitiva.
Estados
como Rio de Janeiro e Minas Gerais ainda apresentam cenários mais incertos, com
as principais candidaturas em fase de definição.
Para a
cientista política Lara Mesquita, pesquisadora do Centro de Política e Economia
do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV Cepesp), ainda é cedo para
cravar tendências, mas há a possibilidade de o bolsonarismo conquistar cadeiras
de diferentes grupos.
"Pode
tanto crescer em cima da esquerda, mas eu acho que é mais provável que cresça
em cima do Centrão, que tem mais cadeiras a perder", ressalta.
Mesquita
diz que não é a primeira vez que o Senado desponta como uma disputa eleitoral
importante. Ela lembra que, em 2006, quando Lula tentava seu segundo mandato
presidencial, o petista deu especial ênfase à competição pelas vagas do Senado,
preocupado em fortalecer sua base governista. Agora, porém, a motivação é nova,
diz.
"Em
2006, Lula dava importância ao Senado, mas não era contra uma instituição. Acho
que isso é muito inédito: ter um discurso de que é importante eleger uma
bancada forte no Senado para controlar o Supremo", ressalta.
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A reação lulista e o racha da direita em SP
O foco
bolsonarista no Senado tem causado reação de outras forças políticas e até
mesmo rachas na direita.
No
campo lulista, a estratégia é lançar apenas dois nomes fortes na maioria dos
Estados para evitar dispersão de votos em várias candidaturas, contou à BBC
News Brasil a ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet (MDB),
pré-candidata ao Senado por São Paulo.
Ela,
que já foi senadora por Mato Grosso do Sul pelo MDB, transferiu seu domicílio
eleitoral para São Paulo e trocou de partido para disputar uma das vagas no
Senado pelo PSB, em uma aliança com o PT, que disputará o governo do Estado com
Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda.
Além
dela, é pré-candidata na mesma aliança outra ex-ministra de Lula: Marina Silva
(Rede), que comandou a pasta do Meio Ambiente.
Já
Márcio França (PSB), ex-ministro do Empreendedorismo, também queria disputar o
Senado, mas foi convencido a concorrer a vice-governador na chapa de Haddad,
dentro da estratégia de não pulverizar os votos do campo lulista em vários
candidatos, conforme explicou Tebet na entrevista à BBC News Brasil.
"Não
há possibilidade de essa frente ampla ou desse campo democrático lançar mais do
que dois candidatos ao Senado em São Paulo. E isso não é só voz corrente, é uma
determinação dos partidos aliados de que a estratégia é lançar, na maioria dos
Estados, no máximo, dois pré-candidatos."
"Isso
é uma estratégia político-eleitoral visando fazer maioria no Senado, porque,
hoje, a situação é adversa. Talvez este seja, de todas as eleições
pós-democracia, o momento em que a eleição para o Senado vai ser tão importante
quanto para presidente da República. Porque ali é que está a mudança ou não da
regra do jogo", disse, em referência aos possíveis impactos sobre o STF.
Do
outro lado, a disputa pelo Senado também provocou briga no campo bolsonarista
em São Paulo.
Condenado
criminalmente no STF por tentar interferir no julgamento de seu
pai articulando retaliações dos EUA ao Brasil, Eduardo Bolsonaro articula para
concorrer ao Senado como primeiro suplente do pré-candidato André do Prado
(PL), atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
A
decisão irritou o ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles
(Novo), que também pretende disputar uma vaga.
Além de
Prado, Eduardo Bolsonaro e Tarcísio caminham para apoiar o ex-secretário
estadual da Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) para concorrer à segunda
vaga ao Senado em São Paulo.
Para
Salles, Eduardo Bolsonaro deu as costas a um aliado bolsonarista fiel para ser
suplente de um expoente do Centrão, após ter criticado essa postura no passado.
"Ele
próprio, ao final, acaba virando suplente de um cara que é Centrão na veia, que
é o André do Prado. Então, quem mudou e se contradisse foi ele. Não
eu", disse em
entrevista à BBC News Brasil.
O filho
de Jair Bolsonaro articulou a aliança com o presidente da Alesp diante da
dificuldade de ele próprio encabeçar a disputa por uma vaga no Senado morando
no exterior e condenado no STF. Apesar dessa decisão já resultar na
inelegibilidade do ex-deputado, Prado declarou que manterá Eduardo com o seu
primeiro suplente, destacando que ainda serão analisados recursos tentando
reverter a condenação.
A
decisão de disputar como suplente está sendo vista como uma forma de tentar
chegar ao Senado caso Prado seja eleito, mas venha a se licenciar para ocupar
um cargo no Poder Executivo, em eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) na disputa presidencial ou no caso de reeleição do governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
"Com
certeza algo está sendo negociado, porque não é comum a gente ver um nome de
maior peso político vindo como suplente", nota a cientista política Lara
Mesquita.
"O
termo candidato laranja, muito usado para candidaturas femininas, aplica-se
perfeitamente a um caso como esse", continuou.
Na
visão de Lucas Aragão, da Arko Advice, o campo lulista está montando uma chapa
forte em São Paulo, algo importante para garantir um bom palanque para Lula. O
petista perdeu no Estado para Jair Bolsonaro em 2022, mas venceu na capital —
manter esse desempenho pode ser determinante para conquistar um novo mandato.
Aragão
acredita que o campo pode ter força para conquistar uma das vagas ao Senado em
São Paulo. Hoje, as duas vagas pertencem a Mara Gabrilli (PSD) e Alexandre
Giordano (MDB), que não tentarão a reeleição.
Para os
especialistas ouvidos, porém, ao menos uma tende a ficar com o campo de
Tarcísio, que hoje aparece como favorito à reeleição. Segundo Lara Mesquita,
historicamente é comum que o governador eleito consiga eleger ao menos um
candidato ao Senado que o apoie.
Fonte:
BBC News Brasil

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