Dos
games ao escândalo: milhões em emendas foram parar no centro de investigação da
PF
A
poucos quilômetros do Congresso Nacional, onde são decididos os rumos de
bilhões de reais do orçamento público brasileiro, jovens da periferia do
Distrito Federal convivem diariamente com a falta de oportunidades, evasão
escolar e escassez de políticas públicas efetivas.
Foi
justamente em nome desses jovens que um projeto financiado com mais de R$ 53
milhões em emendas parlamentares prometeu transformar vidas por meio da
capacitação em jogos digitais. Entretanto, o que parecia uma iniciativa
inovadora de inclusão tecnológica acabou se transformando em um dos maiores
escândalos envolvendo recursos públicos no Distrito Federal.
No
centro da investigação está a Associação Moriá, entidade que recebeu dezenas de
milhões de reais para executar projetos de capacitação de adolescentes em jogos
eletrônicos. Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU),
há indícios de que os recursos foram utilizados em um sofisticado esquema de
direcionamento de contratos, superfaturamento e desvio de verbas públicas.
O caso
da Associação Moriá integra o documentário inédito “Orçamento Secreto”,
produzido pelo ICL. A produção investiga o caminho percorrido por milhões de
reais em recursos públicos destinados por meio de emendas parlamentares de
norte a sul do país.
<><>
A promessa da inclusão digital
Os
projetos da Associação Moriá chegaram a regiões administrativas de Brasília,
como Estrutural e Ceilândia, carregando um discurso atraente: preparar jovens
da periferia para o mercado da tecnologia por meio dos chamados e-sports e da
indústria de jogos digitais.
Na
prática, entretanto, estudantes ouvidos durante a produção do documentário
relataram uma realidade muito diferente daquela apresentada nos materiais de
divulgação. Alguns afirmam que os monitores passavam grande parte do tempo
apenas jogando. Outros relatam ausência de orientação pedagógica, problemas nas
plataformas utilizadas e falta de estrutura adequada para aprendizagem.
Embora
as atividades tenham efetivamente ocorrido em espaços de instituições
reconhecidas, como o Instituto Federal de Brasília (IFB) e unidades do Sesc,
ambas as entidades informaram que apenas cederam suas instalações e não
participaram da gestão ou da aplicação dos recursos públicos envolvidos nos
projetos.
<><>
O que a Polícia Federal encontrou?
As
investigações autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelaram
indícios de um esquema estruturado para direcionar contratações e inflar
artificialmente os custos dos projetos.
De
acordo com os relatórios da CGU e da Polícia Federal, foram identificadas
cotações possivelmente forjadas, orçamentos de cobertura, propostas
praticamente idênticas apresentadas por empresas que deveriam concorrer entre
si e indícios de falsificação documental.
Os
investigadores apontam ainda que empresas ligadas entre si se alternavam nas
etapas de cotação e contratação, criando uma falsa aparência de concorrência.
Em alguns casos, os preços contratados teriam superado em até 315% os valores
de mercado.
Entre
os exemplos apontados pela CGU, um dos que mais chamou a atenção dos auditores
envolve a locação de equipamentos utilizados nos projetos de jogos eletrônicos.
<><>
Preços de locação suspeitos
Segundo
os relatórios da Controladoria, a Associação Moriá contratou computadores e
celulares por valores que superavam o próprio custo de aquisição dos
equipamentos. Em um dos convênios analisados, a entidade pagou cerca de R$
2.780 pela locação de cada computador durante dez meses. Na pesquisa de mercado
realizada pelos auditores, o preço médio para compra dos mesmos equipamentos
era de aproximadamente R$ 1.349.
Situação
semelhante ocorreu com os celulares utilizados nos projetos. O aluguel de cada
aparelho custou R$ 2.570, enquanto o valor médio de aquisição encontrado pela
CGU foi de R$ 868.
Em
outros projetos analisados pelos órgãos de controle, os auditores identificaram
contratos de locação de computadores gamers que chegaram a valores equivalentes
a até onze vezes o preço de compra dos equipamentos.
Para a
Controladoria, os contratos apresentam fortes indícios de sobrepreço e afrontam
o princípio da economicidade, que deve orientar a aplicação dos recursos
públicos.
O
prejuízo estimado pela Controladoria-Geral da União ultrapassa R$ 13 milhões,
valor que representa mais de 80% do montante analisado em um dos convênios
investigados.
<><>
Uma entidade sem histórico de atuação
Outro
ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a transformação repentina da
Associação Moriá. Segundo a Polícia Federal, a entidade passou por mudanças
significativas em 2023. Houve alteração de diretoria, mudança de endereço e uma
reorientação de finalidade institucional, migrando de atividades esportivas
tradicionais para projetos voltados ao universo dos jogos digitais.
Em
pouco tempo, a associação passou a administrar valores superiores a R$ 53
milhões em recursos públicos. Para os investigadores, a velocidade da expansão
não era compatível com a estrutura operacional demonstrada pela entidade.
A
direção da associação era composta por pessoas sem histórico conhecido na
gestão de projetos dessa magnitude, incluindo familiares do presidente da
entidade e profissionais de áreas sem relação direta com os programas
executados. A direção era composta por um motorista, uma esteticista e uma
enfermeira.
<><>
O papel do lobby político
A
investigação também lançou luz sobre um aspecto central do funcionamento das
emendas parlamentares: a influência política na ampliação dos recursos
destinados aos projetos.
Segundo
documentos analisados pela Polícia Federal, um dos personagens centrais nesse
processo seria Adriano de Andrade Marrocos, contador da associação, apontado
pelos investigadores como articulador político e empresarial com trânsito em
gabinetes parlamentares.
As
apurações indicam que o volume de recursos destinados à Associação Moriá
cresceu rapidamente após articulações junto a parlamentares do Distrito Federal
e de outros estados. Ao longo de poucos anos, a entidade passou a receber
milhões de reais em emendas parlamentares de congressistas de diferentes
partidos e regiões do país, tornando-se uma das principais beneficiárias de
recursos federais voltados a projetos de inclusão digital e esportes
eletrônicos.
Um dos
exemplos mencionados nos autos envolve uma emenda inicialmente prevista em
cerca de R$ 732 mil que, em menos de um ano, teve seu valor multiplicado
diversas vezes.
O
senador Izalci Lucas (PL-DF) nega qualquer irregularidade. Segundo ele, os
recursos foram destinados por acreditar no potencial social do projeto, e a
responsabilidade pela fiscalização da execução caberia ao Ministério do
Esporte.
Já o
Ministério do Esporte afirma que a destinação dos recursos foi definida pelos
parlamentares e sustenta ter adotado medidas para interromper os repasses após
o surgimento das suspeitas de superfaturamento e corrupção.
<><>
Endereços vazios e estruturas inexistentes
Durante
a investigação jornalística, visitas realizadas aos endereços registrados por
empresas ligadas ao caso revelaram outro elemento que reforçou as suspeitas.
Em um
dos locais indicados como sede de empresa contratada pela Associação Moriá, não
foram encontrados funcionários, placas ou qualquer sinal de atividade
empresarial. Moradores relataram desconhecer a existência de operações
comerciais no imóvel residencial.
Situação
semelhante foi observada no endereço utilizado pela própria associação em
Brasília. Apesar da identificação visual da entidade, a administração do prédio
informou que a entidade já não funciona no local há meses.
<><>
O dinheiro das emendas
Os
recursos destinados aos projetos da Associação Moriá partiram de parlamentares
de diferentes estados e partidos. Segundo os documentos analisados pela Polícia
Federal e reportagens sobre o caso, o maior volume de recursos veio do Distrito
Federal.
O
deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF), que também se mantém como
apresentador da TV Record, aparece como o principal destinador de verbas, com
aproximadamente R$ 27,6 milhões em emendas individuais e de bancada. Em seguida
está o senador Izalci Lucas (PL-DF), responsável por cerca de R$ 15,5 milhões.
Também
direcionaram recursos para projetos executados pela entidade a deputada federal
Bia Kicis (PL-DF), com R$ 1,5 milhão; o deputado federal Gilvan Máximo
(Republicanos-DF), com R$ 1,9 milhão; o deputado federal Júlio César Ribeiro
(Republicanos-DF), com R$ 800 mil; a então deputada distrital Paula Belmonte
(Cidadania-DF), com R$ 500 mil; e o deputado distrital Reginaldo Veras (PV-DF),
com R$ 400 mil.
Além
dos parlamentares do Distrito Federal, a Moriá também recebeu recursos de
outras unidades da federação. Entre eles estão a deputada federal Perpétua
Almeida (PCdoB-AC), com R$ 9,8 milhões; a senadora Rose de Freitas (MDB-ES),
com R$ 5 milhões; o deputado federal Pedro Augusto (PP-RJ), com R$ 4,7 milhões;
e o senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL), com R$ 400 mil.
A
distribuição dos recursos demonstra que a associação conseguiu ampliar
significativamente sua captação de verbas públicas em curto espaço de tempo,
alcançando apoio de parlamentares de diferentes espectros políticos e regiões
do país.
Após a
deflagração da operação da Polícia Federal e as decisões do Supremo Tribunal
Federal, parte dos repasses foi suspensa.
Os
parlamentares procurados afirmam não ter conhecimento das irregularidades
apontadas pelos órgãos de controle e sustentam que os projetos apresentavam
potencial para beneficiar jovens em situação de vulnerabilidade social. Já os
investigadores buscam esclarecer se houve atuação de intermediários e
articuladores políticos na expansão dos repasses destinados à entidade.
<><>
O caso Moriá e o debate sobre o orçamento secreto
Mais do
que um episódio isolado, o caso expõe fragilidades estruturais do modelo de
distribuição de emendas parlamentares no Brasil.
Embora
as emendas sejam instrumentos legítimos de destinação de recursos públicos,
especialistas alertam que a falta de transparência, fiscalização insuficiente e
dificuldades de controle sobre entidades privadas conveniadas criam um ambiente
propício para desvios.
A
investigação da Associação Moriá mostra como projetos socialmente atraentes
podem servir de porta de entrada para a movimentação de grandes volumes de
dinheiro público sem mecanismos de supervisão proporcionais aos riscos
envolvidos.
Enquanto
a Polícia Federal, a CGU e a Suprema Corte aprofundam as apurações, a população
das regiões que deveriam ter sido beneficiadas continua convivendo com os
mesmos problemas que justificaram a destinação dos recursos.
Na
Estrutural, em Ceilândia e em outras áreas periféricas do Distrito Federal, o
que permanece não são os resultados prometidos pela inclusão digital, mas a
sensação de que, mais uma vez, o dinheiro público passou longe daqueles que
mais precisavam dele.
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário