Como
disputa por apoio no Ceará desencadeou guerra entre Michelle e Flávio Bolsonaro
A crise
aberta entre Michelle Bolsonaro e o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), que ganhou as redes sociais nas últimas semanas e levou a
ex-primeira-dama a deixar a presidência do PL Mulher, tem em sua origem uma
disputa por alianças políticas no Ceará.
O
Estado, onde o PT mantém uma base sólida, é visto pelo PL como peça-chave para
ampliar sua bancada e desafiar o domínio da esquerda no Nordeste. Nesse
contexto, divergências sobre como montar o palanque local nas eleições de 2026
acabaram escalando para um embate familiar e político de grandes proporções.
Na
semana passada, Michelle divulgou vídeos com críticas diretas ao enteado. Nas
gravações, a ex-primeira-dama afirma, entre outras coisas, que Flávio a
"maltratou" e que recebeu uma "punhalada" dele diante das
articulações no Ceará.
O
senador respondeu, afirmando que em nenhum momento ofendeu ou teve a intenção
de ofender Michelle, mas disse que não foi atendido quando tentou contato com a
madrasta para dialogar.
Valdemar
Costa Neto, presidente do PL, buscou adotar um tom conciliador após o
confronto, dizendo que era preciso resolver a situação entre os dois. "É
muito sério. Nós temos que acertar isso aí. Se não acertar isso aí, nós já
vamos sair perdendo em casa", declarou em entrevista à Rádio Gaúcha na
última semana.
Na
terça-feira (30/6), a ex-primeira-dama anunicou oficialmente que deixou a
presidência do PL Mulher.
Em
comunicado, Michelle afirmou apenas que após refletir "sobre o momento em
que estamos vivendo em nossa família", decidiu se dedicar integralmente
aos cuidados com o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e à filha.
Desde
março deste ano, Bolsonaro cumpre pena em prisão domiciliar em Brasília devido
ao seu quadro de saúde.
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O estopim
No
centro do conflito está a decisão de parte do PL de apoiar o ex-ministro Ciro
Gomes (PSDB) na disputa pelo governo do Ceará.
Segundo
Flávio Bolsonaro, a deliberação contaria com a aprovação de Jair Bolsonaro,
dentro de uma estratégia para derrotar o PT no Estado — o governador Elmano de
Freitas (PT) disputará a reeleição.
Mas em
novembro passado, Michelle criticou publicamente a decisão durante evento de
lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo do
Ceará, político bolsonarista com forte discurso conservador.
"Tenho
orgulho de vocês, mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da
direita, isso não dá", disse ela.
No dia
seguinte aos comentários da ex-primeira-dama, os irmãos Flávio, Eduardo e
Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo
hoje candidato ao Palácio do Planalto.
"A
Michelle atropelou o próprio presidente Bolsonaro, que havia autorizado o
movimento do deputado André Fernandes no Ceará. E a forma com que ela se
dirigiu a ele, que talvez seja nossa maior liderança local, foi autoritária e
constrangedora", disse Flávio na época, em entrevista ao portal
Metrópoles, citando André Fernandes, que é presidente do PL no Estado.
Nos
vídeos divulgados na semana passada pelo seu Instagram, a ex-primeira-dama
disse que sempre atuou com a concordância do marido e chamou as palavras contra
ela de "duras" e com "tom agressivo".
"Os
irmãos vieram juntos de forma coordenada, com textos bem parecidos uns com os
outros. Pareceu combinado, premeditado", disse.
Ela
ainda defendeu que a aliança com Ciro só deveria ser considerada em um eventual
segundo turno, e não como estratégia inicial.
"Não
é questão de política, é questão de coerência. Ciro Gomes foi o principal
responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido durante a
pandemia. Numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as
pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo
todo. Ele chamou o meu marido de ladrão de galinhas, de corrupto, de burro, de
jumento", disse.
"Não
estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará, mas que a adie para o
segundo turno. Eu sou contra ela, mas essa é apenas a minha convicção. Se a
direita quer se unir para derrotar o PT, tudo bem. Mas a coerência obriga que
isso aconteça apenas no segundo turno", completou.
Além do
governo estadual, outro ponto sensível foi a definição da candidatura ao Senado
pelo PL no Ceará.
Michelle
Bolsonaro apoia Priscila Costa (PL), vereadora mais votada de Fortaleza em
2024. Seu desejo é que ela dispute uma das duas vagas para o Senado, ao lado de
Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes.
Dentro
da negociação para a aliança com Ciro Gomes, porém, o presidente do PL no Ceará
quer manter a candidatura de seu pai, que disputaria com outro nome indicado
por outro partido. Priscila Costa, então, não disputaria o Senado.
"Já
que a aliança com Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga de
seu próprio pai? Por que só a mulher tem que ceder?", questionou Michelle
em seus vídeos.
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Ligações não atendidas e palavras 'deturpadas'
Após as
acusações de Michelle, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu desculpas e afirmou que
em nenhuma momento ofendeu ou teve a intenção de ofender a ex-primeira-dama.
"Se
o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e
reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo
o que representa para o Brasil", escreveu em suas redes sociais.
O
senador disse que é natural que, em determinados momentos, "pessoas
comprometidas com o mesmo propósito enxerguem caminhos diferentes",
inclusive dentro de famílias: "Divergências de estratégia não significam
divergências de princípios".
Flávio
afirmou ainda que antes de Michelle publicar suas acusações nas redes sociais,
no mesmo dia, ele tentou ligar para a madrasta para convidá-la "de coração
aberto" para uma reunião com lideranças femininas conservadoras, mas não
foi atendido.
"Hoje
(quarta) pela manhã, eu mesmo fiz questão de ligar para Michelle e convidá-la,
pessoalmente. Fiz mais um gesto não correspondido. Não atendeu. Deixei
mensagem. Também não retornou", contou.
"Para
minha surpresa, na tarde de hoje ela publicou o vídeo."
A
publicação de Flávio, por sua vez, provocou mais uma declaração de Michelle
Bolsonaro: "Para ficar claro: eu não tenho raiva de ninguém. Apenas
esclareci uma situação que estava sendo deturpada", escreveu a
ex-primeira-dama em seu Instagram.
Ela
afirmou ainda que todos vão trabalhar juntos "para derrotar o atual
desgoverno" e pediu que não tirem trechos de sua fala de contexto.
"Uma
nova história será escrita com verdade, clareza e respeito. Fiquem em
paz", escreveu, em mensagem publicada no dia 26 de junho.
Diante
da crise, Valdemar Costa Neto buscou adotar um tom conciliador. O presidente do
PL elogiou tanto a atuação de Michelle à frente do PL Mulher quanto o
desempenho de Flávio nas pesquisas eleitorais, destacando que o senador aparece
próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos levantamentos de
intenção de voto.
Ele
também disse que era preciso resolver a situação entre os dois. "É muito
sério. Nós temos que acertar isso aí. Se não acertar isso aí, nós já vamos sair
perdendo em casa", declarou em entrevista à Rádio Gaúcha na última semana.
Após o
comunicado sobre a saída de Michelle nesta terça, Valdemar publicou uma nota em
suas redes sociais.
Ele
afirmou que "indignações internas não serão maiores do que a indignação
coletiva de ver o que esse governo faz com o nosso país" e agradeceu
Michelle pelo trabalho à frente do PL Mulher.
"O
PL cresceu demais, e eu entendo que as divergências crescem também. É natural
isso. Temos muitos líderes no partido e, por maiores que sejam as divergências,
o que nos une é muito maior. As indignações internas não serão maiores do que a
indignação coletiva de ver o que esse governo faz com o nosso país",
escreveu.
"Michelle
passa por um momento difícil, sente de perto as injustiças e as angústias que o
maior líder da história recente deste país vem passando. Michelle fez um
excelente trabalho à frente do PL Mulher, mas, neste momento, decidiu deixar a
Presidência Nacional do PL Mulher porque fez a opção de concentrar suas
atividades em cuidar do nosso presidente. Temos que respeitar essa
decisão", concluiu.
Já a
senadora Damares Alves (Republicanos-DF) disse que Michelle "não está
jogando a toalha" ao sair da presidência da ala feminina do PL.
Ela
afirmou que a ex-primeira-dama "mudou para sempre" a história da
participação das mulheres na política e agradeceu a ela pelo período à frente
do PL Mulher. "Ela plantou a semente e nos deu as ferramentas. O recado
dela para cada uma de nós é claro: fiquem firmes! Estejam prontas para os
desafios da política", escreveu nas redes sociais.
• Coordenador da pré-campanha de Flávio
Bolsonaro compra mansão por R$ 14,5 milhões
O
advogado José Vicente Santini, um dos coordenadores da pré-campanha
presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ), comprou, em setembro de 2025,
uma mansão no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, por R$ 14,5 milhões. Ao todo,
o patrimônio de Santini é de ao menos R$ 23 milhões, em nove imóveis adquiridos
desde 2022, conforme levantamento do ICL Notícias.
A
aquisição mais recente, a mansão no Lago Sul, tem uma área total de 1.312,50
metros quadrados e 635,8 metros quadrados de área construída. De acordo com as
certidões de matrícula e escritura do imóvel, obtidas pelo ICL Notícias, ele
pagou R$ 4 milhões de entrada e financiou R$ 10,5 milhões no Banco Regional de
Brasília (BRB). No documento, não há informação de como o pagamento da entrada
foi realizado, se em dinheiro ou transferência bancária, por exemplo, como
determina a Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ).
O valor
do empréstimo, de R$ 10,5 milhões, chama a atenção porque as regras do
financiamento exigem que a prestação não comprometa mais de 30% da renda mensal
de quem o contrata. O ICL Notícias fez uma simulação baseada nas regras do BRB
descritas no contrato e verificou que, para pagar R$ 128 mil por mês de
prestação, Santini e a companheira tiveram que comprovar uma renda de cerca de
R$ 429 mil, ou seja, uma renda mensal de quase meio milhão de reais.
A
reportagem esteve no local nesta segunda-feira (29), por volta das 11h50. A
pessoa que atendeu à reportagem informou que o imóvel está vazio, uma vez que
passa por obras desde abril. Questionado pelo ICL Notícias, Santini disse que
ainda não sabe se pretende morar no imóvel. “Fiz um negócio que eu achei que o
preço… que era um local que podia valorizar. Então, eu não sei ainda se eu vou
tentar me organizar e botar à venda. Eu não sei se vou futuramente colocar meu
escritório de advocacia. Não sei ainda”, afirmou Santini.
Ele
também disse que a renda necessária para comprovar quase R$ 500 mil é oriunda,
em grande parte, de seu escritório de advocacia e de uma empresa de segurança
que possui com o irmão. “O dinheiro está tudo declarado, imposto está pago. Não
tenho nenhum problema com nenhum desses assuntos aí que eu te falei. Tenho 20
anos de advocacia, tenho uma história familiar, tenho uma empresa”, completou,
mas disse que não podia revelar quem são seus clientes e também afirmou não
saber quantos advogados trabalham em seu escritório.
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BRB no caso Master
A
escritura pública feita para oficializar a compra do imóvel foi lavrada em 2 de
setembro de 2025, no 2º Ofício de Notas de Sobradinho, no Distrito
Federal. Com isso, a operação de compra
da mansão de Santini se deu dois meses antes da Operação da Polícia Federal
contra o Banco Master, deflagrada em novembro, quando o banqueiro Daniel
Vorcaro foi preso pela primeira vez.
O
imóvel foi adquirido quando Santini ocupava o cargo de assessor especial no
governo de Tarcísio de Freitas, com salários que variavam entre R$ 21 mil e R$
23 mil. Desde o início de 2026, ele passou a integrar a equipe de pré-campanha
de Flávio Bolsonaro. Nos bastidores do PL, ele é apresentado como o responsável
por organizar os principais compromissos e agendas do primogênito do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ele
também tem atuado como advogado da legenda. “É uma coordenação informal, né?
Assim é uma pré-campanha, né?”, explicou Santini, ao dizer que atuou na
formulação de palanques. “Assim, precisava de alguém que conhecesse as pessoas
para falar em nome dele (Flávio), né? Não dava pra ser qualquer pessoa, né? Pra
ficar tratando assim com os candidatos, organizando os palanques, fazendo as
estruturas ali das agendas dos estados”, observou sobre seu trabalho.
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Início do patrimônio de Santini
O
primeiro imóvel comprado por Santini foi adquirido em 2020. Era uma cobertura
de 324 metros quadrados no bairro Noroeste, em Brasília, pela qual ele pagou R$
3 milhões em um contrato direto com a construtora.
Já em
2022, ele fez um novo negócio e comprou sua primeira mansão no Lago Sul por R$
6,7 milhões — no mesmo período em que recebia salário de R$ 16,9 mil mensais
como secretário nacional de Justiça do governo Bolsonaro. O negócio foi
revelado pelo portal Metrópoles. Na ocasião, ele colocou a cobertura como
permuta para a compra já pelo valor de R$ 4,2 milhões. Essa é a casa onde ele
mora atualmente, conforme apurou o ICL Notícias após ir até o local.
A casa
comprada em 2022 é próxima do condomínio do Lago Sul, onde Flávio Bolsonaro
havia adquirido recentemente uma mansão por R$ 5,9 milhões. O presidenciável
também obteve financiamento junto ao BRB para comprar sua mansão. O novo imóvel
de Santini, comprado em 2025, também fica no mesmo setor residencial.
Três
anos depois, a nova mansão adquirida pelo coordenador da pré-campanha de Flávio
é mais do que o dobro daquele valor.
Em
2025, ele comprou também sete terrenos em São Paulo junto com seu irmão, o
tenente Nelson Santini Neto. Ao todo, o investimento foi de cerca de R$ 1,8
milhão.
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O imóvel
Somente
o imposto de transmissão do imóvel (ITBI) da nova mansão de R$ 14,5 milhões
custou R$ 290 mil. Na escritura, Santini aparece como titular de 86,21% do
imóvel. Os 13,79% restantes foram adquiridos em nome de sua companheira, a
jornalista Mariana Caetano Flores Pinto. Os dois declararam conviver em união
estável sob regime de separação de bens desde 2015.
Desde
2019, Santini ocupa cargos públicos. Ele também é sócio de um escritório de
advocacia registrado em Brasília, em sociedade com sua ex-assessora na
Secretaria Nacional de Justiça, Belize Obes de Melo de Andrade. Além disso, em
abril do ano passado, ele abriu, com outros dois sócios, uma empresa de
“pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais”, a
Crie-Deeptech Inova Simples.
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Proximidade com o clã Bolsonaro
Santini
ocupou diversos cargos no governo federal quando Jair Bolsonaro era presidente
da República. Ele integrou o governo federal desde o início da gestão em 2019.
Obteve salários que variavam entre R$ 13 e R$ 17 mil ao longo dos anos até
2022. Ele ficou nacionalmente conhecido em janeiro de 2020, quando foi demitido
do cargo de número dois da Casa Civil após vir a público que solicitou um
jatinho da Força Aérea Brasileira para voar da Suíça à Índia durante a agenda
oficial do presidente no Fórum Econômico Mundial de Davos.
Apesar
da demissão, ele foi rapidamente reacomodado. Em razão de sua proximidade com
os irmãos Bolsonaro, ele voltou ao governo oito meses depois como assessor
especial do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Na sequência,
passou a secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência e,
posteriormente, assumiu a Secretaria Nacional de Justiça — um dos principais
cargos do Ministério da Justiça, responsável, entre outras atribuições, pela
coordenação das políticas de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro.
Fonte:
BBC News Brasil/ICL Notícias

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