A
fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar
As
eleições presidenciais de 2026 permanecem indefinidas. A rigor, o desfecho é,
por enquanto, imprevisível. Os desenlaces recentes das eleições, tanto no Peru
como na Colômbia, por margens de diferença não somente estreitas, mas ínfimas,
são um “alerta vermelho”. Um deslize qualquer, uma mesquinharia de aparelho,
uma declaração infeliz, sem falar de malfeitos pessoais ou crimes de conduta,
podem ser irreparáveis. Neste contexto, ocorreu uma inflexão na conjuntura.
Flávio Bolsonaro sofreu uma queda de 9 pontos percentuais dentro do nicho
evangélico nas últimas seis semanas. Sua intenção de voto recuou de 61% para
52%, em função do impacto das relações com o banqueiro Vorcaro, do Banco
Master. Lula apresentou um crescimento de 7 pontos no mesmo segmento, subindo
de 24% para 31%. No segundo turno, o petista pontua, entre os evangélicos, em
44% contra o candidato do PL. Ainda não podemos saber as repercussões da briga
pública entre Michelle e Flávio Bolsonaro por espaço na liderança da
extrema-direita. Estas oscilações, considerando que estamos ainda há três meses
das eleições, não deveriam alimentar, precipitadamente, ilusões. Não é hora de
“oba-oba” e “já ganhou”. Mas se abriu uma brecha. A conclusão de que é possível
uma disputa do voto evangélico parece irrefutável. Essa luta eleitoral pode ser
decisiva.
No
Censo Demográfico de 2022, os brasileiros que se autodefiniram como “sem
religião” somavam 9,3% da população, totalizando 16,4 milhões de pessoas. Esta
classificação engloba pessoas que não professam nenhuma crença
institucionalizada – mas que podem possuir alguma espiritualidade –, ateus e
agnósticos. No Censo de 2010, representavam 7,9% da população (15,3 milhões de
pessoas), portanto, houve um ligeiro crescimento.
Mas no
Censo de 2010, dentro do grupo dos sem religião, somente cerca de 4% ou 0,3% da
população, o que correspondia somente a 615 mil pessoas, se declaravam
estritamente ateus, e menos de 1% agnósticos, sendo a grande maioria composta
por pessoas sem vínculos com igrejas. Já a proporção de evangélicos no Brasil
atingiu o recorde de 26,9% da população, o que representa um total de 47,4
milhões de pessoas. Três vezes mais do que os “sem religião”. O catolicismo
permaneceu como a maior religião, mas atingiu o menor patamar histórico,
recuando para 56,7%.
Uma
pequena minoria, muito concentrada entre os brasileiros com alta escolaridade,
não é religiosa. Os dados disponíveis em pesquisas comparativas confirmam que
estamos entre as nações mais religiosas do mundo. O Brasil está sempre em
primeiro lugar na América Latina – cerca de 90% da população crê em Deus, e 75%
com prática de oração diária – ao lado de México e Colômbia. O contraste com o
Uruguai, em que metade da população se declara sem religião, ou mesmo com a
Argentina, em que somente metade do povo atribui importância à religião, é
impressionante.
A
imensa maioria das pessoas que se autodefinem de esquerda são religiosos. Essa
identidade e pertencimento é muito poderosa. Ser socialista não é a adesão a
uma associação de descrentes e incrédulos. Não somos uma carbonária de ateus e
agnósticos. Ser socialista é fazer a defesa de um programa político. Um
programa político é um projeto de luta pelo poder do Estado. Defendemos que o
Estado esteja separado das Igrejas. Nesse sentido, o programa socialista é
republicano, o que quer dizer que a esfera da vida privada deve permanecer
protegida da ingerência do Estado. A vida privada, para não falar da vida
pessoal, deve ter plena autonomia. Não é razoável esperar que todos aqueles que
querem se organizar para lutar contra o capitalismo tenham que renunciar à sua
fé. Evidentemente, não há nada de errado, tampouco, se um militante se empenhar
em defender o ateísmo. Mas não somos uma sociedade científica. O que vale para
a espiritualidade deve valer, também, para outras crenças. Não são tão poucos
aqueles que encontram conforto na astrologia, na leitura de cartas de tarô ou
numerologia.
A
politização aumentou no Brasil nos últimos dez anos. Todos os espaços de
convivência ficaram mais conflitivos. A proporção de pessoas que seguem,
assiduamente, as notícias políticas pelos distintos canais disponíveis – talvez
a metade da população adulta ou algo em torno 75 milhões de pessoas – é maior
do que nunca. A influência dos jornais e revistas diminuiu, mas foi compensada
pela explosão das redes sociais. Mas esta transformação foi desconcertante,
porque impulsionada, sobretudo, pelo crescimento da audiência da
extrema-direita. Os liberais, aturdidos pelo colapso da direita histórica,
liderada pelo bloco liderado pelo PSDB em aliança com o Centrão, denominam este
processo de polarização. Mas a radicalização foi totalmente assimétrica. A
radicalização aconteceu somente no agigantamento da extrema-direita. Neste
processo, a massa da burguesia e da maioria da classe média girou para o
bolsonarismo e arrastou uma grande parcela dos trabalhadores remediados, em
especial, no sudeste e sul do país. Mas encontrou ressonância transversal com
os evangélicos pentecostais. O Brasil mais politizado é muito mais fraturado.
Uma maioria social está em disputa nas eleições de 2026.
Não era
assim. O que prevalecia no Brasil até 2014/16 ainda era a ideia de que a
discussão de temas muito polêmicos devia ser evitada nas famílias. A lista dos
temas polêmicos variava. Dependia se o ambiente era a família, o trabalho, os
vizinhos, etc. Mas incluía, em geral, religião, política e futebol, não
necessariamente nessa ordem. Preservar uma convivência harmoniosa era absoluta
prioridade. Como se, evitando falar de política, não houvesse brigas. Evitando
falar de racismo “não haveria racismo”. Evitando falar de machismo “não haveria
mais machismo”. O critério era evitar o conflito. Isso mudou e as brigas
aumentaram. Tudo ficou mais difícil e qualquer discussão passou a exigir
disciplina de autocontenção.
A
maioria da militância de esquerda é muito apaixonada pela identidade
socialista, e isso é bom. Abraçamos a causa mais elevada do tempo que nos coube
viver. Somos muito comprometidos com nossa aposta estratégica. Esse é um ponto
forte da esquerda. Mas é, paradoxalmente, nosso ponto fraco. Porque somos,
também, em maior ou menor medida, um pouco sectários. Ser sectário é ser
estreito, inflexível, rígido, intransigente, ou até mesmo arrogante, áspero ou
pior, intratável. Ninguém gosta de desaforo. Somos tão sectários que,
frequentemente, não sabemos que somos sectários. A luta política atravessa
nossas vidas nos locais de trabalho, de moradia, de estudo, e outros. Mas todos
aqueles que militamos estamos inseridos, também, em variados espaços que
definem nossas vidas privadas, e até a dimensão pessoal da existência. Os mais
importantes são as famílias e os círculos de amizade. A tolerância é uma
qualidade insubstituível. Ela nos educa para nos colocarmos no lugar dos
outros, e compreender os seus pontos de vista. Respeitar e aceitar diferenças
de opinião sobre as escolhas pessoais ajuda a poder construir consenso sobre as
escolhas políticas.
A luta
política não se desenvolve apenas na arena da vida pública. Há, também, os
espaços que remetem às nossas preferências. Tem gente que adora demonstrar as
virtudes de acordar cedo, outros de dormir tarde, outros de fazer a sesta. Tem
muita gente convencida que as dietas são um tema político. Na luta socialista
podemos conviver, harmoniosamente, entre não fumantes e fumantes; veganos,
vegetarianos e carnívoros; alopatia ou homeopatia; sertanejos, roqueiros e
sambistas; cinéfilos ou literatos, românticos ou surrealistas, corintianos e
palmeirenses; sedentários e atléticos, pedestres, ciclistas e motociclistas.
Devemos, também, aprender a conversar com pessoas religiosas, em especial os
evangélicos. De todas estas dimensões da vida privada, a mais importante é a da
religiosidade. Ela ocupa um espaço importante no sistema de valores, apegos,
crenças, e esperanças da imensa maioria do povo. Não é razoável esperar que
todos aqueles que podem lutar contra o capitalismo tenham que renunciar à sua
fé.
A luta
pelo ateísmo não deve estar nem no programa, nem nos estatutos, menos ainda na
linha de campanhas eleitorais de uma organização de esquerda. Devemos ter
respeito uns com os outros, porque temos inimigos muito poderosos e queremos
vencer. Todos os lutadores anticapitalistas devem ser bem-vindos. A fé
religiosa é uma experiência individual. Lênin – que denunciava frequentemente a
religião como “nevoeiro místico” – insiste no seu artigo de 1905, “o socialismo
e a religião”, sobre o fato que o ateísmo não devia fazer parte do programa do
partido porque “a unidade na luta realmente revolucionária da classe oprimida
pela criação de um paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade
da opinião proletária sobre o paraíso nos céus”.
A
dimensão utópica de um projeto igualitarista nunca poderia ser minimizada, já
que a aposta política sempre dependerá de um engajamento que exige o
enfrentamento de dúvidas e riscos, para não esquecer dos perigos e das
derrotas. O socialismo sempre foi entendido pelo marxismo como um projeto que
depende da capacidade de mobilização e organização de forças sociais com
interesses anti-capitalistas, e da presença de sujeitos políticos capazes de
traduzir esses interesses numa perspectiva de poder. Mas sem a “fé” na
possibilidade desses sujeitos sociais serem vitoriosos, o que, sumariamente,
poderíamos chamar uma identidade de classe, seria muito difícil sustentar de
forma continuada uma militância que é emancipadora, libertadora, mas exige
sacrifícios e abnegação. Esse sentimento que já foi denominado, no passado, de
“robusto otimismo” na disposição revolucionária da juventude, dos trabalhadores
e do povo é indispensável para alimentar um projeto político, e tem uma
evidente dimensão utópica. Porque lutamos pelo futuro, pelo que ainda está por
vir. A fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar.
Fonte:
Por Valério Arcary, em Opera Mundi

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