Influenciadores
lucram ensinando homens brasileiros a conquistar mulheres na Rússia
"Vc
(sic) entendeu que ficar com gordinha no Brasil não ia te dar futuro, hoje vive
na Rússia bem."
"Você
é pedreiro mas está na Rússia namorando uma loira."
"Você
tem skin saBOOUR pedreiro mas está na Rússia".
As
frases acima foram encontradas pela BBC News Brasil em postagens de
influenciadores do Brasil feitas ao longo do último ano no TikTok.
Usando
hashtags como #partiuRússia e #mulheresrussas, eles promovem conteúdos sobre as
supostas vantagens que brasileiros encontram ao se relacionar com mulheres
russas.
Os
perfis contam com uma série de estratégias para ganhar dinheiro com o conteúdo
que publicam. A maioria diz trabalhar com marketing digital e oferece cursos e
mentorias que ajudariam quem compra seus serviços a atingir o mesmo estilo de
vida (o que envolve coisas como nomadismo digital, faturamento com produção de
conteúdo online, carros de luxo e viagens pelo mundo), além das parceiras
estrangeiras.
Outros
elementos presentes comuns são viagens a destinos nos Emirados Árabes Unidos e
fotos com carros esportivos.
No
exterior, esse tipo de conteúdo ficou famoso especialmente entre americanos,
que gravam mulheres em países como Colômbia, Filipinas, Ucrânia e até Brasil,
muitas vezes sem permissão.
Nas
postagens, os influenciadores contam como viajam ao exterior para encontrar
mulheres para se relacionar e costumam listar aspectos que tornariam as
mulheres locais mais "fáceis" e os estrangeiros, desejados. Os
homens, em sua maioria de países ocidentais, que fazem isso são conhecidos como
"passport bros".
"É
um tipo de conteúdo click-bait que chama muito a atenção online", afirma
Julia Meszaros, socióloga com foco em globalização, gênero e migração
internacional, e professora na East Texas A&M University, nos Estados
Unidos.
"Há
diversas formas de ganhar dinheiro com isso. É uma venda de uma série de
fantasias que é muito lucrativa."
No caso
brasileiro, os conteúdos ressaltam como é "fácil conseguir uma namorada em
uma semana" na Rússia, alegando que é possível ser atraente no país mesmo
"sem dinheiro" e "skin", termo frequentemente usado por
esses influenciadores para descrever atribuições físicas.
Em
contraponto, as mulheres brasileiras são desqualificadas de uma série de
maneiras. Estariam "interessadas só em dinheiro", alguns alegam.
Outros destacam como as brasileiras seriam vulgares e promíscuas, enquanto as
estrangeiras estariam ligadas a valores mais tradicionais e à feminilidade.
"Há
uma reestruturação econômica em curso, e muitos homens creem que não conseguem
acessar o papel visto como masculino na própria sociedade. Desta forma, quando
vão a outro país, eles se sentem empoderados", aponta Meszaro.
"Há
ainda uma ideologia muito presente entre o chamado movimento red pill de que as
mulheres não são tão femininas em casa", pontua.
Além da
manipulação de conteúdos, que pessoas ligadas ao tema afirmaram à reportagem
serem frequentes, há temores de que a prática impulsione outros tipos de abuso.
Além de filmagens não autorizadas, há o receio de que estes conteúdos
disseminem o turismo sexual.
A BBC
News Brasil entrou em contato com os responsáveis pelos perfis mencionados na
reportagem. O único que respondeu, de forma breve, negou que haja problema com
os conteúdos ou que eles passem alguma imagem deturpada sobre as mulheres da
Rússia. Segundo ele, uma prova disso seria que sua namorada é russa.
Optamos
por não mencionar nesta reportagem os nomes dos influenciadores ou seus canais.
Não há em princípio nenhuma ilegalidade nas ações deles, ainda que possa haver
questionamentos morais sobre suas postagens.
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Oportunidade na guerra
Nestes
perfis, a guerra entre Rússia e Ucrânia nunca é descrita como um problema ou
desafio. Normalmente, é tratada como meme. Brincadeiras sobre terminar no
Exército sob o comando do presidente russo, Vladimir Putin, são comuns.
Atualmente,
o Itamaraty cita oficialmente 30 brasileiros mortos no conflito, mas quase
todos pelo lado ucraniano. No caso de Kiev, há uma série de registros de grupos
recrutando voluntários em redes sociais na região, o que não teria ocorrido na
mesma intensidade com Moscou.
Em
outras postagens, a guerra é tratada como uma oportunidade. Muitos criadores
chegam a dizer que o número reduzido de homens russos é algo que torna os
estrangeiros mais desejados.
A
Rússia registrou entre 275 mil e 325 mil mortes em combate na Ucrânia, segundo
relatório do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais.
Em uma
página chamada International Love Scout, dedicada à classificação das alegadas
vantagens de buscar mulheres no exterior, e popular entre os passport bros, a
demografia russa é citada como uma das grandes atrações do país.
Segundo
estimativas derivadas do banco demográfico da Organização das Nações Unidas
(ONU), a Rússia possui cerca de 53,6% de mulheres e 46,4% de homens. Assim,
existem aproximadamente 10 milhões a mais de mulheres do que homens no país.
O êxodo
econômico dos homens após o fim da União Soviética é apontado como um dos
fatores, além de uma expectativa de vida masculina mais baixa que entre as
mulheres. Os conteúdos combinam gráficos socioeconômicos com as fotos de
supostas modelos locais para ressaltar a beleza das mulheres russas.
Ekaterina
Fedorova, de 27 anos, é russa e mora no Brasil há cinco anos. Ela acompanhou de
perto o avanço do fenômeno.
Ela é
produtora de conteúdo nas redes sociais, onde se denomina "a russa mais
russa" e conta à reportagem que já teve seus conteúdos manipulados por
perfis deste tipo.
"Pegaram
um vídeo do meu canal sem autorização e mudaram todo o contexto. Era sobre um
auxílio do governo às mulheres que tivessem filhos e que deve ser gasto com as
crianças", conta Ekaterina.
Nas
redes, ela conta, estas medidas foram vinculadas a uma possibilidade de os
brasileiros receberem uma quantia em dinheiro caso se relacionem com russas.
Thiago
de Melo, criador do canal de YouTube "Vem a mim língua russa", que
inicialmente falava de elementos da vida no país, criou uma consultoria sobre
viagens à Rússia.
"As
pessoas me perguntavam como eu havia feito para ir para a Rússia e comprado
passagens mesmo com as sanções", diz ele, em referência às dificuldades de
viajar para o país com as medidas aplicadas por outros países em retaliação à
invasão da Ucrânia.
"Percebi
que as pessoas queriam informações mais detalhadas, como fazer pagamentos e
agendar hotéis. "Depois que as pessoas viram que era seguro mesmo com a
guerra, me procuraram para saber como visitar o país."
Em
fevereiro deste ano, Moscou fez uma proposta de retomada de voos diretos entre
o Brasil e a Rússia. Desde o começo da guerra em 2022, as ligações diretas
foram interrompidas, com anúncio oficial sendo feito em 8 março daquele ano por
meio da companhia Aeroflat. Ainda não houve uma resposta oficial do governo
brasileiro.
Para
Thiago Melo, os vídeos sobre as supostas conquistas fáceis de mulheres que
viralizaram nas redes são "uma estratégia criada por marketeiros
brasileiros que descobriram a Rússia recentemente" sem nenhuma ligação com
o governo russo.
A BBC
News Brasil entrou em contato com a embaixada da Rússia para questionar se
tinha conhecimento dos conteúdos e eventuais vínculos com programas de promoção
do país, mas não houve resposta.
"Os
vídeos são manipulados e não condizem com a realidade. Foram colocadas legendas
absurdas e mentirosas exclusivamente com o intuito de viralizar para conseguir
novos seguidores", afirma Melo, que não teve seus conetúdos pessoais
manipulados.
Atualmente,
brasileiros podem entrar na Rússia sem necessidade de visto para turismo, por
até 90 dias. Para estudo e trabalho, licenças especiais são necessárias.
O
último dado oficial do Itamaraty apresentava 600 brasileiros vivendo no país em
2023. Não há uma estimativa oficial do número de estadias curtas, com muitos
turistas embarcando por rotas alternativas aéreas e cruzando por terra.
No
geral, Melo afirma que os visitantes que contrataram seu serviço não tiveram
problemas com a estadia na Rússia, mas diz que soube de casos de brasileiros
que tentaram contornar as regras migratórias.
"Conheço
pessoas que tentaram dar um jeitinho brasileiro. Alguns tentaram passar mais
tempo do que os 90 dias para turistas, pensando que não haveria problema. Na
hora de sair do país, enfrentaram deportação e multa", conta.
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'Homens tentam mostrar seu valor tratando mulheres como troféu'
A
socióloga Julia Meszaros diz que a prática não é nova, sendo parte de uma
"indústria internacional dos encontros".
Nos
Estados Unidos, a procura de mulheres no exterior, frequentemente de países com
menores recursos econômicos, é conhecida como "noiva por
correspondência".
Segundo
ela, isso faz parte de uma busca masculina dos "homens tentarem mostrar
seu valor tratando estas mulheres como troféu". Em sua visão, grande parte
do movimento se baseia na venda de fantasias, uma vez que "a realidade
nunca é a mesma coisa".
Para
Meszaros, os conteúdos fazem parte de um contexto em que o "feminismo
abriu porta para mulheres, mas não para os homens". "Muitos estão
perdidos, buscando encontrar algum papel como provedor."
Na sua
visão, em certos segmentos masculinos da internet, há uma frustração com a
dinâmica dos relacionamentos online, que seriam dominados pelas mulheres.
"São elas que escolhem seus parceiros", resume.
Além
disso, atualmente, pessoas de um país que estariam frustradas em se relacionar
com seus compatriotas abririam abre espaço para essa busca que vem no exterior.
"O exotismo ajuda", aponta.
"Cerca
de 90% dos encontros virtuais nunca se concretizam pessoalmente. As pessoas
costumam estar satisfeitas apenas em contar sobre e exibir os supostos
relacionamentos", afirma.
Neste
cenário, aplicativos prometendo mulheres estrangeiras se proliferam. No caso de
brasileiros buscando as russas, já existem versões locais em português.
As
diferenças em relação à realidade que os vídeos vendem são marcantes, diz a
produtora de conteúdo Ekaterina Fedorova, que é casada com um brasileiro.
"Os
homens criam um conto de fadas, não entendem a realidade, nem quanto dinheiro e
paciência necessita um relacionamento, que nestes casos costumam ser ainda mais
difícil", diz ela.
"Há
um mito de que o homem não vai gastar um centavo [com a relação], e a mulher
vai cuidar da casa."
Muitos
conteúdos são baseados na ideia de que mulheres russas supostamente não se
importam com quanto os parceiros ganham, o que seria diferente das brasileiras.
Em algumas entrevistas sobre o tema, legendas em português deturpam as
respostas originais em russo.
Um caso
clássico são entrevistas perguntando o quanto um homem deve ganhar para namorar
uma brasileira ou uma russa, perguntando a alguém de cada nacionalidade.
No caso
da resposta brasileira, muitas apresentam algum valor, enquanto que, quando uma
russa é questionada, há uma troca na legenda afirmando que isso não é
importante para ela, sem corresponder à fala original.
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Funk e embaixadinhas
Uma
surpresa para Meszaros é que o Brasil, um país que costuma ser um alvo dos
passport bros, tenha se tornado um exportador desse tipo de comportamento.
No
mesmo site que descreve a mulheres russas, o Love Scout, a descrição para o
Brasil é a seguinte: "Muitas brasileiras lindas procuram caras como você.
Sim, como você, se for honesto, paciente, trabalhador e, de modo geral, seguir
as normas sociais aceitas sobre como os homens devem tratar as mulheres no
mundo ocidental moderno".
E
prossegue: "As mulheres brasileiras procuram homens normais. Você não
precisa ser sarado, bonito ou rico. Claro que nada disso atrapalha, mas não é
de forma alguma necessário".
Grande
parte do conteúdo dos brasileiros produzido na Rússia agrega elementos do
imaginário do país no mundo. Camisas da seleção de futebol são onipresentes,
assim como o funk como trilha sonora de fundo. Em alguns vídeos, os criadores
se arriscam a fazer as chamadas embaixadinhas em lugares públicos da Rússia.
Outro
elemento mais comum nas versões brasileiras é a prática de pedir que as
estrangeiras repitam expressões e frases de conotação sexual em português.
No
Brasil, a prática de filmar mulheres sem autorização ou fazendo de forma com
que elas não entendam o contexto da gravação vem se popularizando nas
plataformas digitais, pontua Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e
misoginia.
"Com
os formatos de conteúdo viral, há uma economia da atenção, sendo que conteúdos
com mulheres desconhecidas geram alto engajamento", explica.
"Há
uma normalização em comunidades online, na qual os grupos reforçam essas
práticas como inofensivas ou de entretenimento. As mulheres são tratadas como
um objeto visual, não como pessoas. Além disso, há a sensação de baixo risco
social e impunidade."
O
comportamento dos influenciadores brasileiros que publicam conteúdo sobre
relacionamentos com mulheres russas envolve uma obsessão com a pele branca e os
cabelos loiros, diz Camilo.
"O
contexto brasileiro é marcado pela colonização e a escravização. O que é ligado
à branquitude, aos povos europeus, é visto como superior", afirma a
pesquisadora.
Assim,
posar ao lado de mulheres russas e apresentá-las como suas parceiras envolve
uma busca por certo status.
A russa
Ekaterina Fedorova aponta que a cor do cabelo e da pele pode ser mais relevante
que a própria nacionalidade para os conteúdos.
Ela
conta que já viu vídeos com mulheres que sequer eram russas ou que estivessem
no território do país, com ucranianas, polonesas e suecas entrando no pacote de
"ostentação". "É uma forma de ostentação", diz Camilo.
"Nestes
ambientes, incluindo carros e viagens de luxo, as mulheres aparecem como uma
extensão do estilo de vida. Dentro da machosfera, ter uma namorada loira é uma
forma de ascensão social. O jovem venceu."
Fonte:
BBC News Brasil

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