Como
frigoríficos brasileiros influenciam ciência e políticas alimentares nos EUA
UM
ESTUDO conduzido por universidades australianas mostra a influência da
indústria da carne em pesquisas científicas favoráveis ao consumo de proteína
animal. Os principais frigoríficos brasileiros, JBS e Marfrig, além de outras
multinacionais, integram associações que financiam pesquisas para orientar
políticas públicas de alimentação nos Estados Unidos.
A
pesquisa analisou 500 artigos científicos publicados entre 2014 e 2023 sobre os
impactos do consumo de carne na saúde humana. Os pesquisadores concluíram que
trabalhos com vínculos com a indústria da carne têm 16 vezes mais chance de
apresentar conclusões favoráveis ao consumo do produto do que pesquisas
independentes. O estudo foi feito pelas universidades University of Queensland,
Deakin University e University of Queensland, e publicado em abril na revista
Obesity Reviews.
Entre
os estudos financiados pela indústria, 75% apresentaram conclusões positivas ao
consumo de proteína animal. Entre aqueles financiados por fontes independentes,
a proporção caiu para 10%.
“Os
resultados reforçam a necessidade de cautela na interpretação de pesquisas com
vínculos com a indústria, que devem ser avaliadas à luz do conjunto mais amplo
de evidências científicas disponíveis”, afirmam os pesquisadores no estudo.
A
relevância dessas pesquisas ultrapassa o meio acadêmico e chega às políticas
públicas. Segundo o levantamento, elas têm influenciado programas de
alimentação escolar, campanhas de saúde e até o novo Guia Alimentar dos Estados
Unidos. Em comum, essas iniciativas privilegiam o consumo de proteínas de
origem animal e refletem “mais ideologia do que ciência”, de acordo com a
professora emérita da Universidade de Nova York Marion Nestle, em crítica ao
novo guia alimentar norteamericano.
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As associações da indústria da carne e os estudos nutricionais
Em vez
de financiar diretamente as pesquisas, as empresas do setor canalizam recursos
em associações e organizações setoriais para promover o consumo de carne. Dos
500 trabalhos avaliados, 63 receberam recursos dessa indústria.
Entre
os principais financiadores está o Beef Checkoff, programa criado por lei
federal norteamericana para promover o consumo de carne. Mantido por
contribuição obrigatória cobrada sobre a comercialização de gado, o programa
destina milhões de dólares por ano a campanhas publicitárias, ações de
comunicação e pesquisas científicas relacionadas ao setor.
Outra
entidade financiadora é a NCBA (National Cattlemen’s Beef Association),
influente no setor e uma das principais beneficiárias da Beef Checkoff. Em
2026, a organização recebeu US$ 25,1 milhões (R$ 130 milhões em valores atuais)
do programa de arrecadações — quase dois terços de todo o orçamento distribuído
pelo programa.
“Usar
associações é uma estratégia para que as companhias evitem aparecer como
diretamente responsáveis pelo financiamento, algo já descrito em pesquisas
sobre outros setores”, afirma Navid Teimouri, pesquisador da Escola de Saúde
Pública da Universidade de Queensland, na Austrália, e um dos autores do
estudo.
Paula
Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, organização que atua na
defesa de políticas públicas voltadas à alimentação saudável , avalia que o
lobby e o poder econômico das associações fortalecem a capacidade de influência
política do setor. “Uma coalizão maior transmite a ideia de que muitas vozes
defendem a mesma posição, aumentando a legitimidade política daquele discurso”,
diz.
“Quando
uma indústria começa a ter uma imagem ruim perante a sociedade, ela tende a se
respaldar mais nas associações”, complementa.
A
análise dos estudos nutricionais também identificou falhas de transparência.
Dos 63 estudos financiados pela indústria, apenas 33 declararam conflito de
interesses. Portanto, quase metade das pesquisas patrocinadas pelo setor não
informou aos leitores a existência desse vínculo.
Para os
autores, esse cenário sugere que a influência da indústria pode ser ainda maior
do que a identificada pela revisão. Estudos com vínculos não declarados ou
pouco transparentes tiveram três vezes mais chance de apresentar conclusões
favoráveis ao consumo de carne do que aqueles sem qualquer ligação identificada
com o setor, aponta o estudo.
A NCBA
e o Beef Checkoff foram procurados pela Repórter Brasil, por e-mail, mas não
retornaram até a publicação desta reportagem.
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JBS e Marfrig têm assento em organizações que moldam o debate sobre carne
Empresas
brasileiras como a JBS USA e a National Beef — controlada pela MBRF, junção
entre BRF e Marfrig — ocupam posições estratégicas nas organizações que
financiam pesquisas. As duas empresas fazem parte das chamadas Big Four
Meatpackers, grupo responsável por cerca de 85% do processamento de carne
bovina nos Estados Unidos.
A JBS e
a National Beef integram o Product Council da NCBA, que aparece entre os
financiadores mais frequentes dos estudos analisados pela pesquisa.
As
empresas brasileiras também participam do Meat Institute, principal associação
dos frigoríficos norteamericanos. Wesley Batista Filho, da JBS Foods USA, e Tim
Klein, da National Beef, ocupam assentos no conselho executivo da entidade.
O Meat
Institute também controla a Meat Foundation, organização voltada ao
financiamento de pesquisas e iniciativas educacionais. Em 2026, a fundação
recebeu US$ 650 mil (R$ 3,4 milhões) do Beef Checkoff para estudos relacionados
à carne bovina. A National Beef também aparece entre as empresas doadoras da
organização em 2025.
Somadas,
NCBA, Meat Institute e Meat Foundation receberam cerca de 72% de todo o
orçamento do Beef Checkoff previsto para 2026, concentrando a maior parte dos
recursos destinados à promoção da carne e ao financiamento de pesquisas nos
Estados Unidos.
Para
Johns, o financiamento privado não significa necessariamente interferência
direta nos resultados, mas pode influenciar quais perguntas são investigadas.
“Não existe almoço grátis. Muitas vezes, a influência está na formulação da
pergunta: você está investigando o tema mais relevante ou uma questão que acaba
desviando do assunto central?”, questiona.
A
diretora-executiva da ACT também chama atenção para a concentração de poder em
grandes organizações do setor. “Sempre me preocupa quando um setor reúne tanto
poder econômico e político, porque isso reduz os pesos e contrapesos que
deveriam existir em uma democracia”, diz.
Para um
dos autores do estudo que revisou as pesquisas nutricionais, Navid Teimouri, o
resultado foi mais expressivo do que o esperado. “Esperávamos encontrar uma
associação, mas o índice de 16 [vezes mais chance de conclusões favoráveis] foi
surpreendentemente alto. Em outros setores, esse indicador costuma variar entre
3 e, no máximo, 8”, afirmou à Repórter Brasil.
Segundo
Teimouri, a motivação para o estudo foi justamente a ausência de pesquisas
sobre a atuação da indústria da carne na produção científica. Setores como os
de combustíveis fósseis, farmacêutico e tabaco já foram amplamente investigados
por estratégias para influenciar a ciência e ampliar a circulação de narrativas
favoráveis aos seus interesses, mas o mesmo ainda não havia acontecido com a
carne.
“Diante
do enorme poder financeiro e estrutural da indústria global da carne, queríamos
saber se ela também tenta influenciar o ambiente científico de maneira
semelhante à de outros setores”, pontua.
A
National Beef (MBRF) afirmou que, “pelo escopo da pauta”, entende que o tema é
setorial e que as questões deveriam ser direcionadas às entidades citadas. A
JBS, o Meat Institute, a Meat Foundation, o Beef Checkoff e a National
Cattlemen’s Beef Association foram procurados nas últimas duas semanas por
e-mail, mas não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
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Big Four são investigadas por práticas anticompetitivas
Enquanto
recorrem a associações para defender os interesses do setor, as maiores
empresas da carne também enfrentam crescente escrutínio nos Estados Unidos. As
Big Four são alvo de uma investigação antitruste. Os investigadores querem
apurar se a elevada concentração do setor favoreceu práticas anticompetitivas e
distorções nos preços da carne no país.
Durante
uma coletiva de imprensa no Departamento de Justiça, em Washington, Peter
Navarro, conselheiro especial para Comércio e Manufatura do governo dos Estados
Unidos, disse que os frigoríficos brasileiros, em particular a JBS, “distribuem
milhões de dólares ao sistema político americano como se fossem balas”. Para
Navarro, esse seria um dos motivos pelos quais a indústria conseguiu manter por
tanto tempo um nível de concentração incompatível com um mercado competitivo.
Com o rebanho bovino americano no menor nível desde a década de 1950, os
frigoríficos dos Estados Unidos têm dependido cada vez mais do fornecimento de
países como o Brasil.
A
influência da companhia também alcança a esfera política. Segundo informações
divulgadas pela imprensa, Joesley Batista, um dos donos da JBS, atuou como
intermediador do encontro entre Lula e Donald Trump na Casa Branca, realizado
poucos dias após o anúncio da investigação antitruste. A proximidade com a nova
administração já havia chamado atenção em 2025, quando a Pilgrim’s Pride,
controlada pela JBS, tornou-se a maior doadora individual da cerimônia de posse
de Trump, com uma contribuição de US$ 5 milhões.
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A disputa pelo Guia Alimentar dos EUA
O novo
Guia Alimentar dos Estados Unidos é um exemplo. O documento reforça o consumo
de proteínas, especialmente de origem animal, em um país onde, segundo
especialistas, a ingestão proteica já supera as necessidades fisiológicas e
onde parte significativa desse consumo vem de alimentos ultraprocessados.
Em
publicação nas redes sociais, o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert
F. Kennedy Jr., comemorou o novo guia afirmando que “a carne voltou”, ao lado
de bacon, manteiga, leite integral e ovos, e declarou que “a guerra contra os
alimentos reais e ricos em nutrientes acabou”.
Mas o
guia também recebeu críticas. Em seu blog, a professora emérita da Universidade
de Nova York Marion Nestle analisou as diretrizes do novo guia e afirmou que
representam “grandes vitórias para as indústrias da carne e dos laticínios”.
Além
disso, declarações públicas de conflitos de interesse mostram que três dos nove
especialistas responsáveis por revisar as evidências científicas utilizadas
pelo governo mantinham vínculos financeiros com a NCBA.
Entre
eles estão Donald Layman, professor emérito da Universidade de Illinois, que
declarou receber honorários e ter realizado consultorias à NCBA, e Heather
Leidy, professora da Universidade do Texas em Austin, que informou ter recebido
recursos da associação para a realização de pesquisas e participou de
iniciativas financiadas pelo Beef Checkoff voltadas à promoção do consumo de
carne e proteínas animais.
Segundo
reportagem do jornal estadunidense New York Times, Layman e Leidy foram os
especialistas responsáveis por sintetizar as evidências sobre proteínas
utilizadas pelo governo local. Em entrevista ao jornal, Layman afirmou manter
um contrato para revisar pedidos de financiamento da NCBA, atividade pela qual
recebe cerca de US$ 5 mil por ano (cerca de R$ X mil), e disse que as
recomendações finais do guia ficaram “muito próximas” das conclusões
apresentadas pelos dois pesquisadores.
O
processo também foi alvo de críticas por mudanças na governança. Diferentemente
das edições anteriores, o governo Trump deixou de utilizar o relatório
científico elaborado durante a gestão de Joe Biden e nomeou um novo comitê para
produzir as recomendações finais em poucos meses. Organizações como o Center
for Science in the Public Interest e a American Society for Nutrition
questionaram a transparência do processo e a participação de especialistas com
vínculos financeiros com entidades da indústria da carne.
“É um
clássico. Há décadas existem relatos de lobby do setor da carne dos Estados
Unidos para impedir que guias alimentares recomendem a redução do consumo de
carne”, finaliza Johns.
Fonte:
Repórter Brasil

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