EUA
aplicam primeiras sanções contra rede acusada de ligação com PCC
Os
Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira (1/7) a primeira rodada de sanções
econômicas contra pessoas e empresas acusadas de lavar dinheiro para o Primeiro
Comando da Capital (PCC), pouco mais de um mês após o governo do presidente
Donald Trump enquadrar a facção e o Comando Vermelho (CV) como organizações
terroristas estrangeiras.
As
medidas, formalizadas pelo Departamento do Tesouro, atingem duas pessoas e três
empresas brasileiras sediadas no país e uma companhia portuguesa por suposta
participação em um esquema internacional de lavagem de dinheiro associado ao
Primeiro Comando da Capital (PCC).
A
decisão foi oficializada pelo Departamento do Tesouro norte-americano. A medida
marca a primeira rodada de sanções adotada pelo governo do presidente Donald
Trump após a classificação do PCC e do Comando Vermelho (CV) como organizações
terroristas internacionais, anunciada no último mês.
Segundo
o Departamento do Tesouro americano, a primeira rodada de sanções atinge os
brasileiros Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes
Henrique de Oliveira, além das empresas Victory Trading Intermediação de
Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e
Wave Construções Inteligentes Ltda., apontados por Washington como integrantes
da estrutura financeira do PCC.
De
acordo com o Tesouro, o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella
Stefanie Nunes Henrique de Oliveira são apontados como integrantes de uma
estrutura responsável por movimentar recursos provenientes de atividades
ilícitas por meio de empresas de fachada e operações com criptomoedas. Segundo
Washington, o objetivo seria ocultar a origem do dinheiro e financiar as
atividades da organização criminosa.
Washington
afirma que Shimada e sua organização lavaram mais de US$ 30 milhões (R$ 156,3
milhões) utilizando ativos digitais para remeter os recursos ao Brasil. O
Tesouro também afirma que, em janeiro de 2025, o empresário chegou a cumprir
prisão domiciliar no Brasil após uma investigação apontar que uma de suas
empresas teria sido usada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol
brasileiro em um suposto esquema de fraude publicitária.
Já as
empresas atingidas pelas sanções são Victory Trading Intermediação de Negócios
Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave
Construções Inteligentes Ltda e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal
Lda.
Pelas
regras anunciadas pelo governo dos Estados Unidos, todos os bens e interesses
dos sancionados que estejam sob jurisdição dos Estados Unidos ficam bloqueados.
Além disso, cidadãos e empresas norte-americanos ficam proibidos de realizar
transações com os alvos da medida.
O
bloqueio também se estende a empresas controladas, direta ou indiretamente, em
pelo menos 50% pelos sancionados. O governo norte-americano ainda alerta que
instituições financeiras estrangeiras poderão ser alvo de sanções secundárias
caso facilitem operações consideradas relevantes em benefício dos designados.
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Maior organização criminosa do Ocidente
No
comunicado, o governo americano voltou a descrever a facção como "a maior
organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental" e afirmou que
ela representa uma "ameaça significativa à segurança nacional dos Estados
Unidos".
Segundo
o documento, o grupo ampliou sua atuação internacional nos últimos anos,
estabelecendo presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e
Japão.
As
investigações, segundo o Tesouro, identificaram uma rede de lavagem de dinheiro
que vinha sendo apurada no estado da Flórida. O comunicado informa ainda que
outros seis suspeitos ligados ao mesmo esquema foram presos nos Estados Unidos
em janeiro deste ano.
Por
fim, o Tesouro também cita uma investigação conduzida pelas autoridades
brasileiras que identificou um esquema de lavagem de dinheiro baseado em
comércio internacional. Segundo o comunicado, a estrutura utilizava uma rede
chinesa de distribuição de eletrônicos e uma plataforma chinesa de comércio
eletrônico para movimentar mais de US$ 190 milhões (R$ 990 milhões) em apenas
sete meses.
Para
Peter Neumann, porém, a decisão evidencia um problema mais profundo do que a
própria ampliação do conceito de terrorismo.
Um dos
principais especialistas do mundo em terrorismo e violência política, o
cientista político alemão afirma que PCC, CV, cartéis mexicanos e grupos
semelhantes não se encaixam adequadamente na categoria tradicional de crime
organizado nem na de terrorismo.
O
resultado, segundo ele, é um vazio conceitual que leva governos a recorrerem a
instrumentos jurídicos concebidos para enfrentar ameaças completamente
diferentes.
"Precisamos
inventar um novo termo para isso", afirmou Neumann em entrevista à BBC
News Brasil.
Professor
do King's College de Londres e fundador do Centro Internacional de Estudos da
Radicalização (ICSR), Neumann concedeu a entrevista durante a XXIII Conferência
de Segurança Internacional do Forte, no Rio de Janeiro. A Conferência é
realizada pela Fundação Konrad Adenauer (KAS-Brasil), em parceria com o Centro
Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e a Delegação da União Europeia
no Brasil.
Para
ele, a discussão sobre PCC e Comando Vermelho expõe um desafio crescente para
governos em todo o mundo: como lidar com organizações que movimentam bilhões de
dólares, operam em vários países e setores, corrompem autoridades, controlam
territórios e desafiam o Estado, mas que continuam motivadas principalmente por
interesses econômicos e não por objetivos ideológicos.
"Eu
não os descreveria como grupos terroristas. Eles ainda são grupos criminosos,
mas se tornaram muito poderosos e representam uma ameaça à estabilidade do
Estado", afirmou.
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Entre mafiosos e terroristas
Durante
décadas, a distinção entre terrorismo e crime organizado pareceu relativamente
clara: grupos terroristas utilizam violência para impor objetivos políticos,
religiosos ou ideológicos, enquanto organizações criminosas recorreram à
violência para obter lucro. Nos últimos anos, porém, essa fronteira tornou-se
mais nebulosa.
No
México, cartéis passaram a utilizar drones armados, explosivos, campanhas de
terror e assassinatos em massa para controlar territórios. Na Venezuela, o Tren
de Aragua expandiu suas operações para diversos países da América Latina.
No
Brasil, PCC e CV deixaram de ser organizações essencialmente locais para se
transformar em redes transnacionais com presença em rotas estratégicas do
narcotráfico sul-americano, atuando também em setores como garimpo ilegal,
exploração clandestina de madeira, mercado de combustíveis, logística,
transporte de cargas e esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro.
Defensores
da classificação dessas organizações como terroristas argumentam que a
distinção tradicional já não faz sentido diante desse novo cenário. Segundo
essa visão, grupos que controlam populações, intimidam governos, interferem em
eleições, desafiam forças de segurança e exercem formas de governança paralela
produzem efeitos semelhantes aos do terrorismo, independentemente de suas
motivações originais.
Neumann
discorda. Para ele, a questão central continua sendo o objetivo final dessas
organizações:
"Eles
não são motivados ideologicamente na maioria dos casos. Eles não querem assumir
a presidência do Brasil. Eles ficam felizes que outras pessoas ocupem a
presidência do Brasil, desde que possam fazer seus negócios."
Segundo
o pesquisador, mesmo quando influenciam políticos ou corrompem autoridades,
essas organizações não estão tentando impor uma visão de mundo:
"Muitos
deles, se você olhar para os níveis mais altos, veem a si mesmos como pessoas
de negócios. E é isso que eles mais frequentemente tentam fazer quando tentam
corromper as pessoas: eles tentam influenciar as regras para que possam
continuar fazendo seus negócios."
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Uma nova categoria internacional
A
posição de Neumann não ignora a gravidade da ameaça representada por essas
organizações. Pelo contrário, ele reconhece que já ultrapassaram há muito tempo
a escala das organizações criminosas tradicionais. O problema, segundo ele, é
que o sistema jurídico internacional não evoluiu na mesma velocidade que essas
organizações.
"Assim
como existe uma designação para organizações terroristas estrangeiras, talvez
devesse haver uma designação para grandes organizações criminosas que ameaçam a
segurança e a estabilidade de países inteiros", propôs. "Algo como
'grandes organizações criminosas' ou 'organizações criminosas
estratégicas'."
A
ideia, segundo ele, seria criar mecanismos capazes de atingir as finanças
dessas organizações com a mesma eficácia das sanções aplicadas a grupos
terroristas, mas sem importar automaticamente a lógica militarizada associada a
grupos ideológicos como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico. Na prática, isso
permitiria ampliar a cooperação internacional contra lavagem de dinheiro,
empresas de fachada e redes transnacionais de apoio sem alterar a natureza
jurídica desses grupos.
Atualmente,
PCC e CV operam cada vez mais além das fronteiras nacionais. O poder desses
grupos depende não apenas da violência, mas da capacidade de movimentar
recursos através do sistema financeiro internacional, ocultar patrimônio,
infiltrar-se em setores econômicos legítimos e estabelecer conexões com redes
criminosas em diferentes países. Ainda assim, os mecanismos disponíveis para
enfrentá-las continuam divididos entre instrumentos concebidos para o combate
ao crime comum e ferramentas criadas para guerras contra organizações
terroristas.
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O fantasma da Guerra ao Terror
É
justamente aí que surge a principal preocupação de Neumann. Para ele, o
problema da classificação como terrorismo é jurídico e político. Ao longo das
últimas duas décadas, o conceito de terrorismo passou a ser associado a
respostas militares, operações de contraterrorismo e estratégias de eliminação
física de inimigos — uma lógica, que, segundo o pesquisador, produziu
resultados ambíguos após os ataques de 11 de Setembro de 2001.
"O
que a guerra ao terror essencialmente causou foi uma militarização da luta
contra grupos e, frequentemente, essa militarização não dizimou de fato esses
grupos; na verdade, permitiu que se tornassem ainda maiores. Foi
contraproducente", argumentou.
Na
visão dele, existe o risco de que o mesmo raciocínio seja reproduzido no
combate ao crime organizado:
"Minha
preocupação com a designação de terrorista é que, uma vez que são chamados de
terroristas, é só isso que eles são. E tudo o que é feito contra eles se resume
a usar os militares para matá-los, essencialmente."
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Questão de soberania
O
anúncio desta quarta-feira mostra como a classificação já começou a produzir
efeitos concretos.
Para o
governo Trump, o enquadramento dessas organizações como terroristas amplia o
alcance dos instrumentos disponíveis para atingir suas finanças, incluindo
bloqueio de ativos, sanções econômicas, compartilhamento de inteligência e
responsabilização de operadores financeiros, intermediários, empresas de
fachada e redes de apoio
O
governo brasileiro, porém, vem sustentando que a medida cria tensões com o
ordenamento jurídico nacional e pode abrir precedentes indesejados para a
atuação extraterritorial dos EUA. Pela Lei Antiterrorismo brasileira (Lei
13.260/2016), a caracterização do terrorismo exige motivações políticas,
ideológicas, religiosas ou discriminatórias — requisitos que, segundo a
interpretação predominante no governo e no Supremo Tribunal Federal, não se
aplicam a organizações como PCC e CV.
Nos
meses que antecederam a designação americana, o Itamaraty buscou convencer
Washington de que as facções brasileiras deveriam continuar sendo tratadas como
organizações criminosas transnacionais, e não como grupos terroristas. O
governo brasileiro argumentou que já existe cooperação bilateral em áreas como
inteligência financeira, combate à lavagem de dinheiro, rastreamento de armas e
repressão ao narcotráfico, sem necessidade de recorrer ao enquadramento
antiterrorista.
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Trama eleitoral
Os
esforços diplomáticos brasileiros ocorreram paralelamente à atuação de membros
e aliados da família Bolsonaro junto a integrantes do governo de Donald Trump
em defesa da classificação das facções brasileiras como organizações
terroristas.
Em ano
eleitoral, a discussão passou a integrar o debate político e tornou-se um dos
principais temas de segurança pública explorados pelo senador Flávio Bolsonaro,
pré-candidato à Presidência da República, e seus aliados.
A
oposição argumenta que a medida representa um reconhecimento internacional da
gravidade da crise de segurança pública no país e reforça argumentos favoráveis
a políticas mais duras de combate ao crime organizado, incluindo o uso das
Forças Armadas.
Já o
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) argumenta que PCC e CV
representam ameaças graves à segurança pública, mas não se enquadram na
definição jurídica de terrorismo prevista pela legislação nacional. Nesse
contexto, tem defendido o trabalho da Polícia Federal em operações como a
Carbono Oculto — que desarticulou uma rede de lavagem de dinheiro e sonegação
fiscal bilionária envolvendo o PCC no setor de combustíveis — e também a
cooperação internacional com os EUA, especialmente para sufocar o fluxo de
tráfico de armas para o Brasil.
O
debate envolve ainda preocupações relacionadas à soberania. Autoridades
brasileiras argumentam que a classificação americana pode ampliar o alcance
extraterritorial das leis dos Estados Unidos sobre atividades econômicas,
sistema financeiro, empresas e mecanismos de cooperação internacional.
Uma
pesquisa divulgada em 20 de junho pelo instituto Quaest mostrou que 60% dos
brasileiros concordam com a classificação do PCC e do Comando Vermelho como
organizações terroristas. Para Neumann, o apoio popular a esse tipo de medida é
compreensível diante do impacto da violência associada às facções, mas faz um
alerta: que essa abordagem raramente resolve o problema de forma duradoura.
"É
verdade que esses grupos estão causando muitos danos e muita gente
provavelmente pensa que 'basta matá-los', mas [essa abordagem] não é, de fato,
a solução efetiva."
Fonte:
BBC News

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