Educação
bancária
A
disseminação acelerada de modelos de linguagem como o ChatGPT nos ambientes
escolares instalou um diagnóstico que se repete com variações mínimas entre
professores, gestores e formuladores de políticas públicas: os alunos estão
terceirizando seus trabalhos, redigindo ensaios com um comando de voz e
resolvendo exercícios com a colagem de enunciados em interfaces de inteligência
artificial, o que, à primeira vista, parece configurar uma epidemia de preguiça
intelectual e desonestidade acadêmica em massa.
No
entanto, uma investigação mais detida revela que o alarme em torno da
tecnologia oculta um mal-estar muito anterior e muito mais estrutural, que diz
respeito ao fim (telos) do próprio trabalho escolar. A educação básica
institucional, ao organizar-se como transmissão de um repertório fixo de dados,
fórmulas, datas, nomes e classificações, converteu o ato de aprender em uma
sequência previsível de operações de memorização e reprodução cujo significado
raramente é interrogado pelos próprios sujeitos do processo.
Esse
modelo, que Paulo Freire chamou de educação bancária, é anterior à inteligência
artificial e já operava, na prática, como um algoritmo, estabelecendo um
circuito fechado de depósito, arquivamento e devolução de informações.
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Educação bancária é educação algorítmica
O uso
da inteligência artificial pelos alunos para realizar tarefas escolares não
deveria causar surpresa. Estudantes fogem do estudo como o diabo foge da cruz.
Antes da inteligência artificial, já existiam a cópia de textos da internet,
trabalhos feitos por colegas (ou até por profissionais), a “pesca” (ou “cola”)
nas provas e outras estratégias para conseguir aprovação sem ter real
familiaridade com o conteúdo ensinado.
Mesmo
entre os alunos que não recorrem a esses meios, muitos não compreendem de fato
o que respondem nas avaliações, pois se limitam a decorar as informações que
serão cobradas. Nesse tipo de aprendizado “decoreba”, é comum o estudante
esquecer o que “aprendeu” logo depois da prova.
Grande
parte do desinteresse que o aluno manifesta na escola não nasce de uma apatia
espontânea, mas de um currículo que raramente se preocupa em cultivar o sentido
daquilo que se aprende. Sem enxergar relevância pessoal ou intelectual nas
tarefas propostas, o estudante tende a terceirizar o trabalho.
Essa
falta de vontade decorre de um modelo pedagógico em que ensinar consiste
essencialmente em transmitir um inventário de conteúdos, avaliando a
aprendizagem pela capacidade de repeti-los com exatidão. A aula torna-se,
assim, uma rotina de exposição de definições, datas e procedimentos, ao passo
que o estudo se reduz à internalização temporária desses elementos para uma
prova. É nesse vácuo que a inteligência artificial encontra espaço.
Ora, se
o que a escola demanda é a produção de textos padronizados, a resolução de
equações por meio de passos prescritos ou a descrição de fenômenos segundo uma
narrativa única, então um modelo de linguagem ou um sistema de álgebra
computacional executa tais tarefas com eficiência frequentemente superior à do
aluno. O problema não reside na ferramenta, mas na natureza da demanda.
Paulo
Freire conceituou a educação bancária como um ato de depósito: o educador
deposita comunicados nos educandos, que os arquivam e os repetem, sem que haja
verdadeiro encontro com o saber ou com a realidade. O estudante é reduzido a um
receptor passivo de conteúdos, fazendo com que a atividade intelectual se torne
indistinguível de um gesto mecânico. Sob essa perspectiva, a educação bancária
pode ser compreendida como uma arquitetura algorítmica: uma série finita de
passos definidos para a transmissão e verificação de dados, cujo sentido não se
discute, apenas se executa.
O
recurso à inteligência artificial apenas materializa, em outra escala, a lógica
que já comandava o cotidiano escolar. O estudante que entrega um trabalho feito
pelo chatbot não faz mais do que automatizar uma tarefa que, desde o princípio,
lhe era apresentada como procedimento impessoal e repetitivo. Nessa medida, a
terceirização é o sintoma mais visível da falência do modelo bancário.
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O pensamento que imita a máquina
Se a
educação é capaz de funcionar como um algoritmo, é porque o próprio pensamento
moderno se submeteu a uma racionalidade que tem na máquina seu modelo ideal.
Esse argumento é apresentado na Dialética do esclarecimento. Theodor Adorno e
Max Horkheimer mostram como o Esclarecimento, no afã de livrar os homens do
medo e da superstição, reduziu a razão a uma função instrumental.
A
natureza, a sociedade e o próprio sujeito passam a ser computados,
classificados e manipulados por um aparato lógico que só reconhece como
verdadeiro aquilo que pode ser medido, repetido e calculado.
O
pensamento que emula a máquina não é, portanto, uma inovação contemporânea, mas
o resultado de um longo processo histórico que submeteu a cognição à forma da
operação abstrata e impessoal. A equação matemática, a regra gramatical e a
cronologia factual tornam-se os conteúdos por excelência de uma educação que
prepara o indivíduo para funcionar no interior de uma totalidade administrada.
A
instituição escolar moderna incorporou profundamente essa lógica. Os currículos
se organizam como sequências lineares de tópicos, as avaliações padronizadas
mensuram a retenção de informações e o sucesso pedagógico é aferido mediante
taxonomias que transformam competências complexas em rubricas mensuráveis.
Nesse
ambiente, a diferença entre o raciocínio do aluno e o processamento da máquina
se torna cada vez mais tênue, e a inteligência artificial chega não como
intrusa, mas como consumação lógica de um sistema que já treinava os sujeitos a
pensar algoritmicamente. As tarefas escolares que hoje são delegadas ao
computador sempre foram, no fundo, computáveis. A novidade é que a presença
maciça da inteligência artificial retira o véu de naturalidade que cobria essa
estrutura, expondo a como um artefato histórico passível de transformação.
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Os fins da educação
A
inquietação gerada pela inteligência artificial no campo educacional tem o
mérito de tornar inadiável um debate que, de outro modo, permaneceria latente:
a crise de sentido de uma educação reduzida a algoritmo. Os diagnósticos de
Paulo Freire iluminam as raízes dessa crise, mostrando que a prática bancária
produz um tipo de ensino cujas tarefas já estão, estruturalmente, disponíveis
para a automação. A terceirização do trabalho discente não é, assim, o problema
original, mas o efeito visível de um modelo que separou o conhecimento da
experiência e o convertendo-o em mercadoria informacional.
Diante
desse cenário, configuram se duas grandes frentes de resposta. A primeira, que
já se esboça em discursos oficiais e em produtos edtech, consiste no reforço do
controle sobre o corpo e a atenção do estudante. Para garantir que as tarefas
sejam executadas sem o auxílio de uma inteligência externa, propõem se
dispositivos de monitoramento cada vez mais invasivos: tiaras de aprendizado
que medem ondas cerebrais para avaliar o engajamento e softwares de
reconhecimento facial que calculam o nível de atenção dos alunos.
Trata
se de uma aposta na pressão e na vigilância como garantias da “autenticidade”
do trabalho escolar. Sob o prisma freiriano, essa proposta aprofunda a
heteronomia e converte a educação em um novo capítulo da dominação: o aluno é
vigiado, medido e classificado segundo parâmetros de produtividade, enquanto a
escola se transforma num espaço de adestramento para a docilidade algorítmica.
A
segunda frente, de inspiração freiriana, reconhece na crise uma oportunidade
para refundar o sentido da educação. Uma educação emancipadora não nega a
técnica, mas a subordina a finalidades humanas, recusando se a fazer do domínio
técnico um fim em si mesmo. Em vez de serem combatidas, as ferramentas de
inteligência artificial podem ser problematizadas, apropriadas criticamente e
postas a serviço de projetos que exijam investigação, diálogo e produção de
significado. O essencial é deslocar o eixo do trabalho pedagógico da
memorização e da repetição para a experiência reflexiva.
Isso
implica substituir as tarefas que se esgotam na reprodução de informações por
desafios que mobilizem a capacidade de formular perguntas, de interpretar
contextos e de construir argumentos. Em lugar de provas que aferem a exatidão
de dados, avaliações que acompanhem percursos de pesquisa, criação e
autoanálise. Aqui é importante negritar o fato de que tal movimento requer
reorganização dos currículos para cultivar o interesse necessário para o
aprendizado.
A
finalidade da educação deixa de ser a simples acumulação de saberes e se
desloca para o que resta de irredutivelmente humano: a capacidade de formular
perguntas que nenhum algoritmo antecipa, o juízo ético diante de respostas
automatizadas, a sensibilidade para atribuir sentido à existência, a coragem de
imaginar futuros que não estão nos dados e a capacidade de habitar a incerteza
com lucidez, responsabilidade e desejo de transformação.
Assim,
por mais que a inteligência artificial por muitas vezes atrapalhe o
aprendizado, ela não está fazendo nada mais do que tornar mais evidentes as
precariedades de nossa educação. Nesse sentido, ela nos empurra para uma
encruzilhada entre a administração total da aprendizagem, que converte o aluno
em objeto de uma tecnologia de controle, e a aposta na autonomia, que o
reconhece como sujeito de sua própria formação.
O que
está em jogo não é apenas o uso ou a proibição da inteligência artificial, mas
a decisão ética e política sobre o tipo de sociedade que a educação se propõe a
formar.
Fonte:
Por Cristian Arão, em A Terra é Reonda

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