Jão
conta como a morte do pai mudou sua relação com a música, a fé e as redes
sociais
"Na
hora em que tudo aconteceu/ a padaria serviu pães, o hospital fez mães",
canta Jão na primeira faixa de seu novo álbum, Memórias Póstumas, que ele
compôs em homenagem a seu pai, Carlos Alberto Balbino, que morreu no ano
passado de arritmia.
A
crueza com que ele se aproxima da perda, algo que atravessa toda a sua
discografia e que atrai fãs e detratores em igual medida, foi a maneira que o
cantor encontrou de lidar com o luto enquanto se afastou dos holofotes por um
ano e meio.
"Quando
você passa por isso, é exposto a um sentimento que ninguém nunca te ensinou,
porque não existe comparação. Você é apresentado a uma nova lente da
vida", diz Jão ao receber a BBC News Brasil no Museu de Arte de São Paulo
(Masp), onde gravou um de seus novos clipes.
"Parece,
inclusive, que quem já perdeu pessoas tem uma ligação quase familiar,
sanguínea, entre si. A gente se entende de uma maneira que eu não entendia
antes."
A ideia
do artista, um dos mais populares da atualidade no país, principalmente entre
os jovens da geração Z, era se afastar do trabalho para descansar e maturar seu
próximo trabalho, após uma turnê que reuniu 500 mil pessoas em estádios de 13
cidades do país, com três apresentações esgotadas no Nubank Parque, o antigo
Allianz Parque, casa do Palmeiras, em São Paulo.
Era a
primeira pausa após quase uma década, desde que despontou nas redes sociais
cantando covers de artistas como Marília Mendonça e Adele.
Desde
então, ele havia lançado quatro álbuns autorais, alcançado quase 2 bilhões de
reproduções no Spotify, lotado shows em festivais como Rock in Rio e visto seu
cachê chegar a R$ 1 milhão por show, mesmo patamar de astros do sertanejo como
Gusttavo Lima.
O CNPJ
só tinha o que comemorar. Mas o CPF estava cheio de questões mal resolvidas,
como o luto pela avó, de quem era muito próximo, mas de quem mal pôde se
despedir, depois que precisou deixar o velório às pressas para cair na estrada
para mais um show.
Mal
sabia que, no meio do descanso, teria de lidar com mais uma morte, a do pai,
que o fez perder toda a vontade de compor, cantar ou até de escutar música.
"Foi
um momento muito difícil, porque, neste período em que tinha perdido minha avó,
eu nunca tinha lidado com essa questão da vida e da morte, da insignificância
das coisas. Era algo que rodeava minha cabeça e estava me afligindo", ele
relembra.
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Isolamento no interior
O hiato
na cidade natal, no interior paulista, na pequena Américo Brasiliense, de 38
mil habitantes, tampouco foi fácil.
Se, por
um lado, era reconfortante reencontrar-se com o estilo de vida sossegado que o
formou, o cantor viu sua privacidade ser violada ao ser fotografado com alguns
quilos a mais, o cabelo grande e a barba por fazer em registros que viralizaram
nas redes.
"Parecia
que um dia eu estava fazendo um show para 50 mil pessoas e agora estava lá,
indo à padaria com minha mãe, resgatando uns gatos com minha irmã, vivendo essa
vida que eu vivia [na adolescência]", ele conta.
"Passei
muito tempo renegando não minhas origens, mas achando que tinha que ir para a
cidade grande, com a mentalidade de que sou cosmopolita, aí quando cheguei [no
interior] entendi o quanto o cotidiano dali sou eu. É uma coisa que te dá um
tapa na cara, porque as distrações são menores, o dia tem começo, meio e
fim."
O ponto
de virada aconteceu quando Jão saiu para correr de madrugada — a única hora em
que encontrava privacidade — e, ao escutar o álbum mais recente da neozelandesa
Lorde, Virgin, tão confessional quanto seu Memórias Póstumas, teve uma crise de
choro e chegou à conclusão de que a música ainda era a melhor maneira de lidar
com o luto.
Começou
a escrever e, nos meses seguintes, compôs mais de 50 canções, entre elas a
maior parte das 14 que compõem seu novo disco, lançado na noite do último
domingo (26/7).
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O riso para sobreviver ao luto
A
melancolia, porém, não é o elemento central do disco. Nos quase 50 minutos, há
espaço para sonoridades mais luminosas, resultado também da parceria de Jão com
o namorado, Pedro Tófani, que o ajudou a escrever a maior parte das canções, e
do trabalho de produtores de diferentes gerações.
Entre
eles estão Zebu, colaborador mais frequente de Jão e também responsável por
sucessos de Anitta e Pabllo Vittar, e Marco Mazzola, que trabalhou com alguns
dos pilares da Tropicália, como Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, além
de grandes nomes da MPB, entre eles Chico Buarque e Milton Nascimento.
Em
Aurora, uma das faixas mais solares do disco, Jão canta que só quer "ser
feliz de novo", sobre uma base de bateria e percussão que imprime um tom
esperançoso à canção.
Já em
Curioso, conduzida por um riff de guitarra, ele diz que deixa a luz entrar, que
"o mundo ainda gira", que ainda sabe cantar e que "os homens
ainda saem todo dia para trabalhar".
Essas
faixas são um espelho da forma como ele tem encarado o luto. "Estava
conversando com minha irmã, e a gente lida com o que está acontecendo de uma
maneira até desconfortável para as outras pessoas: ficamos o tempo inteiro
rindo", diz Jão.
"A
gente ri de tudo, porque é engraçado que eu estava planejando um álbum chamado
Memórias Póstumas e isso [a morte do pai] tenha acontecido. Que coisa idiota,
sabe? Isso permeia o álbum, essa ideia do ridículo, da insignificância das
coisas."
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Relação 'conflituosa' com fé e espiritualidade
Foi
nesse período que o artista também teve tempo para refletir sobre sua relação
com outras dimensões da vida, como a fé. Embora se considere uma pessoa
"muito espiritual", que já tenha passeado "por absolutamente
todas as religiões", ele diz manter uma relação "bem
conflituosa" com a espiritualidade.
"Acho
que minha vó teve muita influência nisso. Minha vó era quase uma bruxa. Ela era
de tudo. Praticava catolicismo, porque é uma coisa padrão no interior de São
Paulo, mas foi de todos os lugares", conta.
"Eu
não sei se sou uma pessoa cética, mas sou muito convicto das coisas em que
acredito e é difícil me render às coisas. A espiritualidade te pede rendimento,
então, para mim, o maior conflito é esse", acrescenta. "Mudou para
pior [durante o luto]."
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Redes sociais e críticas
Ao fim
do período de reclusão, Jão diz que hoje consegue olhar para a experiência com
mais distanciamento e enxergar algum crescimento em meio à dor.
O medo
de voltar e descobrir que não havia mais ninguém disposto a ouvi-lo deu lugar à
percepção de que o afastamento das redes foi, na verdade, um dos aspectos mais
positivos do hiato.
"Não
entendo por que as pessoas não fazem isso, não entendo o que tanto buscam que
não dá para parar, respirar, renovar o que está fazendo. Não sei se elas gastam
muito dinheiro e precisam mostrar, se é medo de não ter construído nada sólido,
não conseguir se desapegar", diz ele.
"Eu
fiquei muito ansioso, mas sabia que, se não tivesse feito isso, não teria nem
perspectiva de como voltar."
Foi
nesse período também que Jão consolidou sua visão sobre seus detratores, que
ridicularizam nas redes sociais o caráter melancólico e emocional de suas
músicas.
"Se
eu for balizar minhas escolhas pelo que o Sérgio de Araçatuba pensa sobre mim,
minha carreira não acontece. Eu sabia onde estava me metendo, sabia que as
pessoas iam falar sobre mim e ter opiniões diferentes. Tem muitas pessoas no
Brasil, que é absurdamente grande, elas são de lugares diferentes, têm
formações e ideias diferentes, então encaro como parte do que escolhi fazer da
minha vida."
A
julgar pela audição do disco, que reuniu 11 mil fãs no vale do Anhangabaú, no
centro de São Paulo, com ingressos esgotados em pouco mais de um minuto, Jão
não parece ter motivos para se preocupar com a possibilidade de não haver mais
quem o ouça.
Mas o
próximo teste será o retorno aos palcos, em 25 de setembro, no Nubank Parque,
onde promete revisitar todas as fases da carreira, ainda que o tempo possa ter
mudado sua relação com parte desse repertório: "Jamais serei o artista que
renegará o passado".
Fonte:
BBC News Brasil

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