Democracias
em crise, teorias em transe
Já se
tornou lugar comum observar que a democracia liberal está em crise. Desde a
eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, em 2016, é
impossível escamotear um processo que estava em curso há tempos. No país mais
poderoso do mundo, cuja democracia gosta de se apresentar como modelo para
todas as outras, o processo eleitoral levou ao poder um sujeito francamente
despreparado, carente dos mínimos requisitos cognitivos ou morais para o
exercício do cargo.
Seu
triunfo foi ancorado na degradação total do debate público, já antes deplorado
por sua superficialidade e imediatismo. Qualquer tentativa de discussão
relevante era soterrada no confronto com o candidato republicano, cujo estilo
era baseado em gabolices, mentiras deslavadas e ofensas dirigidas aos
adversários. Como escreveu um comentarista, “fazer campanha contra Donald Trump
significa ser arremessado num pátio de escola” (Empoli, 2022, p. 111).
Ainda
assim, ele foi capaz de conquistar a indicação do Partido Republicano,
derrotando lideranças consolidadas, como o governador Jeb Bush e o senador Ted
Cruz, e outsiders de melhor pedigree, como a ex-presidente da corporação
Hewlett-Packard (HP), Carly Fiorina; de reunir em torno de si todo o seu
partido; de ganhar as eleições (ainda que graças às peculiaridades do sistema
eleitoral estadunidense, já que Hillary Clinton ficou à sua frente nos votos
populares); e de cumprir os quatro anos de mandato, a despeito das muitas
evidências de incompetência, irresponsabilidade e ilegalidade. Em grande
medida, o sistema político da democracia “mais consolidada do mundo” curvou-se
a Donald Trump e a seus métodos.
A
vitória do improvável candidato republicano em 2016 acendeu o alerta nos
cientistas políticos anglófonos, mas não foi um caso isolado. Naquele mesmo ano
de 2016, outras demonstrações eloquentes da crescente irracionalidade dos
processos eleitorais foram visíveis pelo mundo afora. Um exemplo foi a vitória
do Brexit, no pleito realizado no Reino Unido.
Mesmo
os defensores da saída da Comunidade Europeia, a começar pelo futuro
primeiro-ministro Boris Johnson, tinham consciência de que a medida era
potencialmente desastrosa e imaginavam que sua campanha no plebiscito seria
forçosamente derrotada, servindo apenas como maneira de credenciá-los à
liderança da oposição.
Na periferia do capitalismo, na Colômbia,
sempre em 2016, o processo de paz foi derrotado no referendo convocado para
sacramentá-lo. O acordo que colocava fim a décadas de uma guerra civil que
deixara cerca de trinta mil mortos, construído após intensas e delicadas
negociações, foi rejeitado por pequena margem de votos.
A
campanha contrária ao acordo mobilizou argumentos cuja relação com o processo
de paz era, no mínimo, obscura – por exemplo, relativos à ameaça da chamada
“ideologia de gênero”, tornada tema central a partir de observações laterais
sobre a reparação a famílias atingidas pelo conflito (González, 2017, p.
114-26; Rodríguez Rondón, 2017, p. 128-48).
Estendendo
o intervalo de tempo, seria possível elencar muitos outros exemplos, mas estes
bastam. As democracias liberais estavam em crise. Sua aposta central – de que
um público desprovido de incentivos à participação e à informação política
seria capaz, ainda assim, de chegar a decisões minimamente racionais quando
chamado a opinar – mostrava-se cada vez menos factível.
Em
2020, Donald Trump foi derrotado na pretensão de permanecer no cargo, mesmo
depois de promover uma agitação golpista destinada a questionar o resultado das
urnas. Mas as transformações que ele impôs à política estadunidense não
evaporaram por causa disso, isto é, a derrota de Donald Trump não significou a
derrota do trumpismo ou, menos ainda, do seu estilo de fazer política. Pelo
contrário, uma grande quantidade de pretendentes a cargos públicos mimetiza seu
jeito agressivo e despreocupado seja com a verdade factual, seja com a correção
moral.
A força
que o ex-presidente mantém, seu poder intimidatório em todo o espaço político
da direita, faz com que seus epígonos prestem vassalagem a ele. Em 2024, uma
vitória por larga margem, desta vez também nos votos populares, reconduziu-o à
presidência, sem que ele tivesse mudado de discurso ou de métodos — antes pelo
contrário, parece ter reforçado suas apostas. Foi definitivamente enterrada a
ilusão, alimentada por alguns após o pleito de 2020, de que a democracia
liberal poderia voltar à sua morna normalidade.
O mesmo
se pode dizer do Brasil. Jair Bolsonaro, que a seu modo reproduziu por aqui
tudo o que Donald Trump fez nos Estados Unidos, está inelegível, mas o
bolsonarismo, como forma de fazer política, continua mais vivo do que nunca.
Conforme
os processos judiciais contra Jair avançam, alguns políticos podem julgar
conveniente ganhar alguma distância, mas sem renunciar aos métodos que se
mostraram tão eficazes. Essa distância, como mostrou o caso de Pablo Marçal,
candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024, pode ser tomada até mesmo pela
radicalização dos aspectos mais grotescos do bolsonarismo. Em suma, parece que
a emergência daquilo que a ciência política convencional chama de “populismo de
direita” é um fenômeno de longo prazo, com o qual teremos que aprender a
conviver.
Algo
desse fenômeno já era visível no crescimento, em vários pontos do mundo
capitalista desenvolvido, de uma direita extremada, que se imaginava superada a
partir dos trente glorieuses (as três décadas de relativa
prosperidade e paz social que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial).
O
grande exemplo é a França, em que o então Front National, sob a
liderança de Jean-Marie Le Pen, rondou os 15% dos votos já nas eleições
presidenciais de 1988 e chegou ao segundo turno em 2002. Mas ele representava
um estilo de direita radicalizada mais tradicional, cujo discurso xenófobo,
autoritário, iliberal, reacionário, antissemita, com indisfarçada simpatia pelo
nazismo parecia reeditar os anos 1930 ou 1940. Le Pen se alimentava das
mesmas emoções políticas que Donald Trump ou Jair Bolsonaro, mas com um formato
discursivo e de mobilização das bases bem mais convencional.
A
ciência política se debruçou sobre a recém-detectada crise da democracia e não
tardou a identificar suas causas, explicadas em best-sellers acadêmicos que
focavam no caso dos Estados Unidos e generalizavam a partir dele. Uma
grande parte da culpa foi atribuída à crescente erosão das barreiras que
limitavam a influência dos cidadãos comuns (desinformados, com baixa
competência política) sobre as decisões governamentais. O “populismo”, bête
noire dessa literatura (e do jornalismo político também), refere-se
precisamente à postura de buscar uma pretensa vontade popular de forma
ininterrupta, legitimando-se por meio dela em cada tomada de decisão.
Não se
trata de uma novidade; a ideia de que vivemos uma era de “campanha permanente”
está consolidada há tempos. De fato, uma revisão da literatura sobre campanha
permanente mostra que muitas das facetas da crise da democracia detectadas
décadas depois já estão presentes lá.
Na
definição clássica de Blumenthal, a campanha permanente combina criação de
imagem e cálculo estratégico, transformando o governo em “instrumento concebido
para sustentar a popularidade de um funcionário eleito” (Blumenthal, 1980, p.
7). Com isso, a cisão entre um momento integralmente de disputa, a campanha
eleitoral, e outro em que a disputa era temperada com negociação e cooperação,
o governo, é eliminada, com a lógica belicosa da campanha se impondo de forma
contínua.
Sob
esse ponto de vista, um elemento importante a ser considerado na crise atual é
que ela é efeito também, a longo prazo, da adesão dos agentes políticos aos
incentivos que o ambiente institucional dá a determinados comportamentos. O
principal aspecto a ser levado em conta, aqui, é o hiato entre a progressiva
abertura da política aos grupos dominados, com a expansão do sufrágio, e a
permanência das desigualdades no acesso às posições de poder.
O
resultado é uma combinação entre o modelo liberal de elites que disputam o
governo e a promessa democrática de igualdade, que, para funcionar, deveria
garantir certa impermeabilidade entre as tarefas de governo e os processos
eleitorais competitivos, como já apregoava Joseph Schumpeter (1976) em sua
clássica descrição normativa da democracia concorrencial. Em particular,
governo e oposição precisavam manter uma identidade forte como integrantes de
uma mesma elite que tinha a responsabilidade de conduzir a nação.
No
entanto, o acesso às posições de poder depende do voto popular, o que leva a
incentivos conflitantes com a manutenção dessa identidade. O apelo retórico ao
“povo”, próprio do discurso político em ambientes democráticos, é o exemplo
mais óbvio, mas nem de longe o mais importante.
Um
estudo do final da década de 1990, no âmbito da discussão sobre campanha
permanente entre legisladores, mostra que há um aumento constante do tempo
dedicado a interagir com os eleitores (ou a cortejar potenciais financiadores
de campanha), com consequente redução da socialização com outros congressistas,
logo da produção do “sentimento de um ‘nós’ coletivo” (Brady; Fiorina, 2000, p.
149).
Os
autores observam que medidas aparentemente democratizantes, como a maior
abertura do comportamento parlamentar à exposição pública, levam à maior
antecipação dos efeitos eleitorais, já que cada voto no legislativo e cada
discurso na tribuna podem se tornar tema de campanha.
Até
mesmo a imoderação no uso de ferramentas excepcionais como o filibuster (a
obstrução do trabalho legislativo), que por vezes aparece como sintoma
expressivo da crise atual da democracia, já é registrada como um aspecto da
campanha permanente (Brady; Fiorina, 2000, p. 144). A restrição a seu uso
dependia da solidariedade de base entre governo e oposição, à crença de que,
embora adversários, compartilhavam uma responsabilidade comum. É isso que se
rompe.
Ao
mesmo tempo, uma das características da campanha permanente é o uso
ininterrupto das sondagens de opinião tanto para avaliar a popularidade do
governo quanto para determinar as políticas a serem adotadas – privilegiando
aquelas que prometem melhores resultados imediatos, em termos de apoio público.
Uma crítica clássica à democracia, sua temporalidade curta, torna-se ainda mais
gritante: não se trata de chegar bem na próxima eleição, mas na próxima
sondagem. Fica esvaziado o papel da liderança política, agora condenada a
reproduzir o que os institutos de pesquisa dizem que é a vontade de seus
potenciais constituintes.
De
fato, o que a literatura lamenta é a erosão da divisão estrita do trabalho
político entre governantes e governados. Uma fronteira quase intransponível
deveria separar o momento da campanha, em que os cidadãos comuns são chamados a
decidir, e o momento do governo, que cabe às elites políticas. Quando essa
fronteira é apagada, o jogo das elites, em que governo e oposição, cada um no
seu papel, mantinham o compromisso básico com o bom funcionamento do sistema,
fica inviabilizado.
A cada
momento, os líderes devem fazer acenos à sua base. Com isso, uma das vantagens
reconhecidas do sistema representativo – o fato de que o corpo de
representantes, mais homogêneo, mais acomodado e mais racional, amortece os
conflitos políticos – é anulado. Os líderes políticos devem manter um discurso
e uma prática aguerridos todo o tempo, porque é isso que fortalece a
identificação partidária de seus liderados.
A
campanha permanente, de forma mais moderada, e o “populismo” hoje
diagnosticado, de maneira mais radical, são manifestações do mesmo problema: a
difícil compatibilização entre a fachada democrática do sistema e sua operação
efetivamente censitária. Na leitura de Pierre Bourdieu, a solução passava pela
abstenção, apatia e desinteresse de um eleitorado que introjetava sua própria
impotência, lendo a impermeabilidade do campo político às demandas vindas de
baixo como a demonstração de uma incapacidade pessoal (Bourdieu, 1979, p. 464).
Mas agentes políticos souberam mobilizar essa situação em benefício próprio,
sem desafiar – ou apenas fingindo que desafiavam – as assimetrias de base que
limitam o alcance das democracias realmente existentes.
Há um
ponto em que o acúmulo e a aceleração das transformações levam a uma ruptura,
com a emergência de uma elite política que marca com clareza sua diferença em
relação à anterior. Há outra descontinuidade, talvez sutil, porém
significativa. A campanha permanente anterior ao diagnóstico da crise da
democracia ainda era vista como uma busca de controle do público pelos
governantes, por meio do uso intensivo de sondagens de opinião e do acesso aos
meios eletrônicos de comunicação. Já o “populismo” é percebido como um
alinhamento do líder à mentalidade rasa e desinformada de sua base.
Isso é
considerado um problema porque o bom funcionamento da democracia liberal
dependeria de uma espécie de pacto de cavalheiros, em que os integrantes da
elite política disputam os votos do povo mas, uma vez passadas as eleições,
entendem que a vontade popular não passa de uma esmaecida figura de retórica e
fazem seus acordos entre si. Respeitam, em suma, a regra sugerida por
Schumpeter: a divisão do trabalho político deve ser estrita e a passividade do
eleitorado precisa ser garantida a todo custo.
Assim,
a crise da democracia da década de 2010 leva a respostas parecidas com aquelas
da crise de governabilidade de quatro décadas antes: reforço das hierarquias
sociais e restrição dos procedimentos democráticos ao momento eleitoral, de
maneira a garantir a legitimação da dominação e um grau indeterminado de accountability de
resultados.
É
necessário, no entanto, explicar o que levou a essa situação: isto é, o que
levou à ruptura do pacto de cavalheiros. Os autores das correntes hegemônicas
na ciência política, como aqueles antes citados, tendem a indicar duas grandes
causas. Uma delas é a reversão da expectativa de melhoria do padrão de vida
material, que era constante nos países capitalistas centrais desde o final da
Segunda Guerra Mundial.
Pela
primeira vez em décadas, as pessoas se defrontavam com a perspectiva de ter uma
vida material inferior à de seus pais (em termos de consumo, patrimônio e
estabilidade), o que minou a confiança no sistema e ampliou a vulnerabilidade a
discursos transgressores. A ideia subjacente é que o regime democrático se
legitima por seus resultados e, portanto, os consensos que o definem definham à
medida que esses resultados se tornam piores.
A outra
causa é a emergência dos novos circuitos de informação, sobretudo com a
disseminação das plataformas sociodigitais baseadas na internet. Sem eles,
certamente o desgaste da democracia liberal seria expresso de outra forma.
Alguns de seus aspectos mais evidentes se relacionam com a degradação do debate
público, a decadência dos critérios de adesão à realidade factual para balizar
as tomadas de posição e a crescente agressividade retórica. Assim, de uma
maneira talvez surpreendente, os meios de comunicação de massa, que sempre
foram desprezados nas obras da teoria da democracia (Miguel, 2000, p. 51-77),
tornaram-se protagonistas das explicações sobre sua crise.
Ao
reconhecer a importância da perda da expectativa de melhoria nas condições de
vida como fator explicativo da crise da democracia, a ciência política
hegemônica introduz um elemento material em sua narrativa. Giuliano da Empoli
(2022, p. 170) dá um passo além e alerta, com sua verve característica, que:
“não se pode fechar os olhos para o fato de, um pouco em todos os lugares, os
eleitores demonstrarem o sentimento de ter perdido o controle de seu destino
por causa de forças que ameaçam seu bem-estar, sem que as classes dirigentes
mexam um dedo para ajudá-los.”
Mas,
uma vez mais, impõe-se a pergunta: por que isso acontece? Os modelos de
funcionamento da democracia eleitoral explicam que, uma vez que o acesso ao
poder depende da capacidade de obter a maioria dos votos, há um incentivo
natural para que os governantes tentem satisfazer as vontades dos eleitores.
Ou
talvez “vontades” não seja o termo correto, desde o momento em que Schumpeter
elucidou que o cidadão comum não é capaz de tê-las quando estão em jogo
questões públicas; o que o governante faz é se esforçar para transmitir aos
cidadãos a impressão de que sua vida está melhorando. Trata-se de uma impressão
subjetiva, influenciada pelo peso relativo que cada pessoa dá a diferentes
aspectos de sua existência, por informações incompletas, por expectativas de
futuro não necessariamente razoáveis e por atribuições de responsabilidade nem
sempre esclarecidas.
Para
citar um exemplo anedótico, mas sobre o qual há evidência histórica: cidadãos
deixam de apoiar administradores locais por causa do aumento da quantidade de
ataques de tubarões, isto é, eventos sobre os quais eles não teriam qualquer
responsabilidade. O tema mereceria mais discussão (numa sociedade de
risco, a gestão desse tipo de problema não é mesmo responsabilidade das
autoridades?), mas o ponto é que o eleitor comum, desinformado e pouco ativo,
tem dificuldade para diferenciar atribuições de União, Estados e Municípios ou
de Executivo, Legislativo e Judiciário e daquilo que está ou não sujeito ao
arbítrio de seus representantes.
De
maneira mais rigorosa, nos anos 1970, Claus Offe sintetizou a dupla função de
um governo democrático numa sociedade capitalista: garantir a reprodução do
capital (sem a qual a economia entra em paralisia) e prover legitimidade ao
sistema (isto é, o consentimento ativo dos dominados), indicando ainda que as
duas funções tendem a entrar em conflito, já que os capitalistas pressionam
pela priorização do processo de acumulação e o eleitorado espera, ao contrário,
melhores serviços públicos e políticas de bem-estar mais amplas (Offe, 1984).
A crise
indicaria que, de alguma maneira, a segunda função passou a ser preenchida de
forma bem mais precária, o que abriu caminho para o desafio “populista” às
democracias liberais.
Na
leitura da ciência política convencional, parece ser um infortúnio aleatório
ou, talvez, o efeito de uma lamentável decadência da qualidade da elite
política. No entanto, uma abordagem mais estrutural da crise permite uma
compreensão alargada do processo. Ela parte de uma temporalidade distinta e,
também, de uma compreensão mais complexa do próprio sentido de democracia.
Fonte:
Por Luis Felipe Miguel, em A Terra é Redonda

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