quarta-feira, 29 de julho de 2026

A guerra comercial de Trump é contra o mundo

As novas tarifas impostas por Donald Trump não representam uma ofensiva dirigida exclusivamente ao Brasil. Trata-se de uma guerra comercial de alcance global. O Brasil apenas integra uma lista de cerca de 60 países atingidos, entre eles Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Suíça e toda a União Europeia — justamente alguns dos mais tradicionais aliados dos Estados Unidos.

A medida revela uma mudança profunda na política comercial dos Estados Unidos. O governo Trump rompe com os princípios do sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial e substitui a negociação entre Estados pela imposição unilateral da força econômica. As tarifas deixam de ser um instrumento de proteção circunstancial da indústria e passam a funcionar como arma de pressão política e geopolítica.

Além da tarifa de 25%, os Estados Unidos acrescentaram mais 12,5% sobre diversos produtos, elevando a carga para 37,5% em inúmeros casos. Segundo o representante comercial Jamieson Greer, a medida serviria para “corrigir o que é tanto uma violação dos direitos humanos quanto uma prática comercial distorcida, visando melhorar o bem-estar dos trabalhadores em todo o mundo”.

A justificativa, porém, não resiste a uma análise objetiva. Sob um discurso moralizante, procura legitimar uma política protecionista destinada a preservar a competitividade da economia estadunidense diante das transformações da economia mundial.

As novas tarifas passaram a atingir os 60 principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, responsáveis por 99,4% de suas importações. A lista inclui aliados históricos, como Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Suíça, Taiwan e a União Europeia. O Brasil, portanto, não é um caso isolado. Está inserido em uma estratégia global que procura redefinir, pela força, as regras do comércio internacional.

No caso brasileiro, o governo anunciou que aplicará a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e recorrerá aos mecanismos de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou que, diante do caráter arbitrário e injustificado das medidas anunciadas pelos Estados Unidos, o Brasil utilizará todos os instrumentos jurídicos e diplomáticos previstos na legislação nacional e no direito internacional para defender seus interesses.

Segundo estimativas da Câmara Americana de Comércio (Amcham), aproximadamente 3 mil produtos brasileiros, correspondentes a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais, serão atingidos pelas novas tarifas. Para 85,3% dessas vendas — cerca de US$ 10,7 bilhões — as tarifas serão cumulativas, alcançando 37,5%. Entre os setores mais afetados estão máquinas, equipamentos, madeira, móveis e calçados. Ainda assim, aproximadamente 52% das exportações brasileiras permanecerão livres das novas sobretaxas.

É compreensível que parte do setor produtivo defenda prudência. A Abimac recomenda preservar os canais de negociação, enquanto a Confederação Nacional da Indústria alerta para o risco de respostas precipitadas que possam ampliar os prejuízos econômicos.

A ponderação faz sentido, mas esbarra em um fato incontornável: foi o próprio governo dos Estados Unidos que fechou os canais de negociação ao anunciar medidas unilaterais, sem consulta, sem negociação prévia e sem fundamento técnico consistente. Ninguém escolhe o confronto quando existe espaço para o diálogo; mas também não se preserva a soberania aceitando passivamente decisões arbitrárias.

O problema, portanto, vai muito além das tarifas. Estamos diante de uma disputa pela reorganização da economia internacional. A ascensão da China, a expansão do Brics e o fortalecimento das economias emergentes vêm alterando gradualmente a correlação de forças construída após o fim da Segunda Guerra Mundial. A guerra comercial é uma tentativa de retardar essa transição histórica e preservar uma hegemonia que já não encontra o mesmo respaldo econômico de décadas atrás.

O Brics deixou de ser apenas um fórum de concertação política entre grandes países em desenvolvimento. Caminha para constituir um novo polo de poder econômico, financeiro e tecnológico, capaz de ampliar o comércio em moedas nacionais, fortalecer mecanismos próprios de financiamento, reduzir a dependência do dólar e oferecer alternativas às instituições criadas sob a liderança dos Estados Unidos no pós-guerra. É precisamente essa perspectiva que desperta crescente preocupação em Washington.

Nesse contexto, a resposta brasileira não deve limitar-se à reciprocidade tarifária. É indispensável acelerar a diversificação dos mercados externos, ampliar a integração econômica com os países do Brics e fortalecer as relações com o Sul Global. A expansão recente do bloco abre oportunidades concretas de comércio, investimentos, financiamento, infraestrutura e cooperação tecnológica. Reduzir a dependência de um único mercado deixa de ser apenas uma estratégia econômica; torna-se uma necessidade geopolítica.

É oportuno recordar uma das formulações mais importantes da diplomacia brasileira: o pragmatismo responsável, concebido pelo chanceler Azeredo da Silveira durante o governo Geisel. O princípio continua atual: manter relações com todos os países, sem alinhamentos automáticos, tendo como referência permanente os interesses nacionais.

A guerra comercial de Trump não é contra o Brasil. É contra a emergência de um mundo multipolar. Ao atingir cerca de 60 países — responsáveis por praticamente todas as importações dos Estados Unidos —, Washington procura preservar uma hegemonia cada vez mais contestada.

Paradoxalmente, porém, essa estratégia tende a produzir o efeito inverso: acelera a aproximação entre os países emergentes, fortalece o Brics, estimula a diversificação das relações comerciais e financeiras e incentiva a construção de uma nova arquitetura econômica internacional, fundada na cooperação entre Estados soberanos e na pluralidade dos centros de decisão.

Para o Brasil, o desafio consiste em transformar essa crise em oportunidade. A resposta não deve ser o isolamento nem o confronto inconsequente, mas a reafirmação de uma política externa independente, orientada pelo pragmatismo responsável, pela diversificação de parceiros e pela defesa intransigente da soberania nacional. Em um mundo em rápida transformação, o Brasil precisa compreender que seu futuro depende menos das pressões de uma potência em declínio do que da capacidade de participar ativamente da construção da nova ordem internacional que já começa a tomar forma.

<><> Trump: EUA vão ganhar dinheiro no Irã assim como ganham com o petróleo da Venezuela

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirma que Washington vai ganhar dinheiro no Irã tal como está ganhando com o petróleo venezuelano.

"Recebemos muito dinheiro, bilhões e bilhões de dólares da Venezuela. A mesma coisa acontecerá com o Irã", disse Trump a repórteres a bordo do avião presidencial.

Na semana passada, a mídia estimou que neste ano os EUA receberam mais de US$ 13 bilhões (R$ 66 bilhões) em vendas de petróleo venezuelano.

Nos termos dos novos acordos entre os EUA e a Venezuela, após a mudança de poder em Caracas, as receitas do petróleo acumulam-se em contas controladas por Washington.

Trump anunciou, em 8 de julho, que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não estava mais em vigor. Os militares dos EUA realizaram várias rodadas de ataques ao Irã desde 8 de julho. O Comando Central do Exército dos EUA (CENTCOM) alegou que isso foi feito em resposta às ações do Irã contra navios comerciais que atravessavam o estreito de Ormuz.

¨      Como os EUA vendem seu gás mais caro no mundo? Analista explica

A torneira que historicamente simboliza o fluxo de combustíveis fósseis serve perfeitamente como metáfora para a crise no Oriente Médio. Enquanto a instabilidade promovida por Washington no estreito de Ormuz, impulsionada pela guerra com o Irã e por sanções unilaterais a outros distribuidores, faz com que a Casa Branca aumente sua exportação.

Nesse sentido, o jargão "guerra de torneira" é uma forma de ilustrar o tipo de política que os "falcões" de Washington têm desempenhado historicamente ao cercear fontes de energia, inclusive de aliados, para poder impor um preço mais elevado na exportação de gás e xisto no mercado internacional, segundo análise de Igor Estima Sardo, doutorando em Ciência Política pela UFRGS e pesquisador associado do ISAPE (Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Essa estratégia americana pode parecer recente, em termos de governo, mas ela perpassa governos diferentes e parece ser uma estratégia mais de Estado. Os EUA estão começando a cercear várias fontes de energia, no caso petróleo e gás, para tentar sufocar seus principais rivais, no caso Rússia e China, e cada vez mais tornar dependentes os seus próprios aliados: as economias europeias e países do Golfo", disse.

Para que a exportação estadunidense seja apresentada como uma alternativa supostamente mais viável, é preciso que os países concorrentes sejam prejudicados. Dessa forma, Sardo elenca alguns pontos, como as sanções contra a Rússia, grande exportadora no setor, e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, a partir desse ato, os EUA passaram a tutelar o petróleo venezuelano.

"No início da guerra na Ucrânia, que começou em 2022, a gente já via essa estratégia de destruição com o Nord Stream [na Alemanha], e isso fez com que os EUA chantageassem a Europa ao impor seu gás mais caro [em relação ao gás russo mais barato]. Também houve o rapto de Maduro na Venezuela neste ano e, no mês seguinte, a guerra no Irã e o choque do petróleo, que causou debilidade nos aliados do Golfo", comenta.

<><> Estratégia da Casa Branca prejudica aliados no Golfo

Ao longo do atual conflito entre Washington e Teerã, muito se questionou como as bases norte-americanas nos países árabes do Golfo não conseguiram protegê-los dos contra-ataques iranianos. Para Sardo, isso é proposital, pois é uma forma de "fechar as torneiras" dos aliados na região do estreito de Ormuz, rota vital a nível mundial para o fluxo de petróleo.

"A guerra [no Oriente Médio] deixou isso claro: as petromonarquias do Golfo, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã, realmente estão bem protegidas pelo guarda-chuva militar dos EUA, mas, quando a guerra estourou, todos se mostraram extremamente vulneráveis, e isso foi uma estratégia deliberada para que cada vez mais se tornassem dependentes dos EUA, tanto militar quanto economicamente", destaca.

O especialista aponta que a "negligência" militar norte-americana força os Estados árabes a buscarem mais autonomia. Mesmo alinhados aos EUA e com divergências em relação ao Irã, esses países tentam reduzir com o tempo a dependência estratégica de Washington.

"A gente começa a ver que muitos desses países do Golfo estão começando a perceber que a aliança com os EUA não tem sido benéfica, e é muito capaz que eles possam caminhar para uma espécie de política mais autonomista. Já que muitos aliados [de outras regiões] estão, na verdade, tentando se tornar mais autônomos e abandonar o alinhamento automático com Washington", observa.

<><> Efeitos colaterais nos Estados Unidos e o fator BRICS

Outro ponto levantado pelo analista é que, embora a Casa Branca pareça se beneficiar a curto prazo, essa dinâmica tende a intensificar crises internas, como a alta inflação que afeta o cotidiano da população. Além disso, a urgência climática sinaliza uma inevitável transição para novas fontes de energia, um cenário de mudança estrutural no qual o BRICS surge como um dos atores com maior potencial de benefício.

"Existe uma pressão inflacionária forte nos EUA, porque a estratégia de Trump, em termos não só da 'guerra de torneira', mas também em relação às tarifas contra vários países, inclusive o Brasil, está gerando insatisfação interna. É visível que, no longo prazo, isso talvez possa, inclusive, fortalecer o BRICS, que estão cada vez mais conduzindo essa transição energética", conclui.

Além das rotas comerciais e de recursos naturais importantes para a economia em nível global, as crises também são uma forma de ativo geopolítico como forma de desestabilização de um concorrente para beneficiar um certo grupo econômico de determinado país em detrimento de diversas regiões.

¨      Nobel de Economia diz que desdolarização é um efeito não intencional dos EUA

O economista Roger Myerson, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2007, afirmou em coletiva nesta segunda-feira (27), na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP (FEAUSP), que a atual concentração de riqueza no mundo resulta da combinação entre avanços em inteligência artificial e um aumento da corrupção governamental.

O professor norte-americano da Universidade de Chicago participou do 4th International Workshop on Game Theory and Economic Applications (IWGTEA), ao lado dos também laureados Paul Milgrom (2020) e Alvin Roth (2012).
Segundo Myerson, a
tecnologia da informação, acelerada nos últimos anos pela inteligência artificial, reduziu o custo de administração de grandes organizações, o que favoreceu a formação de empresas com poder de quase-monopólio e, consequentemente, o acúmulo de riqueza em poucas mãos. "Monopólios criam riqueza monopolista. Estamos num momento em que um pequeno grupo de empresas acumula muita riqueza."

O economista disse ainda que esse fenômeno coincide com um momento de corrupção governamental mais alta do que no passado, o que reforça a concentração.
Myerson também abordou o tema da corrupção sob a ótica da teoria dos jogos, ao comentar sobre até que ponto o eleitorado deveria tolerar políticos corruptos: "temos que tolerar tanta corrupção quanto a do nosso segundo candidato favorito", disse.

Em resposta a pergunta da Sputnik Brasil sobre desigualdade, Myerson ponderou que políticas redistributivas poderiam ajudar a mitigar o quadro, mas alertou que o igualitarismo em excesso também tem custo para o crescimento econômico. "O problema da desigualdade é grande, e está piorando."

O Nobel também relacionou a desigualdade ao financiamento eleitoral, afirmando que, "se os ricos conseguem comprar eleições com doações de campanha, a capacidade da democracia de redistribuir riqueza fica limitada".

Questionado sobre a desdolarização, Myerson explicou que o déficit comercial crônico dos Estados Unidos é o espelho de um superávit na conta de capital do país: o mundo inteiro busca manter reservas em títulos do Tesouro americano, considerados o ativo líquido mais seguro do planeta. "Se a dívida do governo federal dos Estados Unidos é considerada a forma mais líquida de manter riqueza, o mundo inteiro vai querer manter dívida federal americana."

Segundo o economista, essa demanda global por dívida americana é o que obriga os EUA a sustentar o déficit em conta corrente. "A única forma de garantir que todo mundo tenha os ativos líquidos de que precisa é os Estados Unidos manterem um déficit comercial."

Para Myerson, a atual administração americana busca reverter esse déficit, mas o único caminho possível para isso seria o mundo passar a confiar menos na dívida dos Estados Unidos e buscar alternativas, o que corresponde, na prática, à própria definição de desdolarização. "Não acho que seja isso que eles querem, mas tinha motivo para achar que sim."

¨      Gastos bilionários com IA acendem alerta do Fed sobre risco de pressão inflacionária, diz mídia

Investimentos bilionários em IA, de chips a data centers, já preocupam o Fed, que vê risco de pressão inflacionária enquanto big techs divulgam nesta semana projeções de gastos que podem moldar tanto o mercado quanto futuras decisões sobre juros.

A disparada dos investimentos em inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma preocupação das big techs e de seus acionistas. O volume bilionário destinado a softwares, data centers, chips e minerais críticos já aparece no radar da Reserva Federal dos EUA (Fed) como possível fonte de pressão inflacionária nos Estados Unidos e, por extensão, em outras economias.

Segundo apuração de um portal de notícias no Brasil, o tema ganha força nesta semana, quando o Fed anuncia sua decisão de política monetária e gigantes como Meta (empresa proibida na Rússia por atividade extremista), Microsoft, Amazon, Apple, SK Hynix e Qualcomm divulgam resultados. Além de receita e lucro, o mercado acompanhará atentamente as projeções de gastos com IA, que vêm crescendo de forma acelerada.

Para investidores consultados pela mídia, o risco é que parte desses aportes não gere o retorno prometido. Para bancos centrais, o desafio é estimar quanto custará erguer a infraestrutura necessária para que os ganhos de produtividade da IA finalmente apareçam.

A ata mais recente do Fed já aponta que esse ciclo de investimentos pode elevar a inflação no curto prazo, uma vez que a expansão da IA aumenta a demanda por equipamentos, eletricidade, softwares e serviços, pressionando preços e custos energéticos.

Um relatório da divisão de pesquisa especializada em energia, tecnologia, clima e transição industrial de um famoso portal norte-americano, projeta que data centers podem quadruplicar o consumo de energia até 2035, chegando a responder por um quinto da eletricidade gerada nos EUA.

A equipe técnica do Fed citou a IA como um dos fatores que levaram à revisão para cima das projeções de inflação deste ano e do próximo. Além dos custos diretos, o banco central norte-americano avalia que o investimento empresarial pode manter a economia crescendo acima do potencial, tornando a inflação mais persistente.

Estimativas do Morgan Stanley, um dos maiores bancos de investimento do mundo, mostram a dimensão do movimento. Segundo suas estimativas, os gastos com data centers previstos para 2026 saltaram de US$ 575 bilhões (mais de R$ 2,9 trilhões) para cerca de US$ 850 bilhões (mais de R$ 4,3 trilhões), e o volume total de investimentos ligados à IA pode alcançar US$ 10 trilhões (aproximadamente R$ 51 trilhões) nos próximos anos.

O debate já entrou na política monetária. A ata do Fed indica que, se a demanda associada à IA sustentar a inflação, novos aumentos de juros podem ser necessários para reconduzir o índice à meta de 2%.

No Brasil, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também acompanha o tema e avalia que a IA pode ser inflacionária na fase de construção, mas eventualmente desinflacionária quando a produtividade avançar.

Há, porém, a hipótese de que a tecnologia continue pressionando preços mesmo após amadurecer, devido ao alto custo de operação, energia, chips e mão de obra especializada. Parte desses custos pode ser repassada ao consumidor, inclusive via inclusão de novos serviços digitais nos índices de inflação, como ocorreu com streaming e aplicativos de transporte. Ferramentas de IA e serviços de nuvem podem ser os próximos itens a ganhar peso nas cestas de preços.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

 

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