“A
redução da maioridade penal será um novo elemento a reforçar o crime e a
violência no Brasil”
Faltando
poucos meses para a próxima eleição legislativa, um dos temas de campanha já
foi adiantado pela Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados: a redução da maioridade
penal de 18 para 16 anos. A proposta, retomada com frequência no debate
público, tem sido defendida por parlamentares que apostam no discurso do
encarceramento com o objetivo de conquistar o apoio do eleitorado. “Propor
penas mais duras, aumento dos efetivos policiais e aumento das taxas de
encarceramento virou uma receita de sucesso eleitoral no Brasil”, afirma Marcos
Rolim ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU ao comentar a medida aprovada no
mês passado.
Rolim
insere-se entre os sociólogos que criticam a falta de horizonte da esquerda e o
oportunismo da direita no enfrentamento de problemas sociais. Na avaliação
dele, o debate brasileiro sobre a redução da maioridade penal é ideológico. Na
área de segurança pública, por sua vez, estabeleceu-se “um impressionante
vazio”, acrescenta o entrevistado. “O que construímos nas últimas décadas foi
(…) um deserto onde dois discursos se destacam: de um lado os setores mais à
direita propondo penas mais graves, mais polícias e mais prisões e, de outro
lado, os setores mais progressistas sugerindo que o caminho para a superação da
violência e do crime se fará com maior distribuição de renda, acesso à educação
etc. Esses dois discursos estão absolutamente equivocados, mas o discurso
repressivo é mais simples, promete resultados de curto prazo e manipula o medo
e o ódio das pessoas”, pondera na entrevista a seguir concedida por e-mail.
Marcos
Rolim defende a construção de políticas públicas baseadas em evidências,
reflete sobre a reformulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para
casos excepcionais envolvendo adolescentes em crimes graves e comenta o
resultado de iniciativas norte-americanas de encarceramento dos jovens no
sistema penal. As evidências, menciona, indicam que as chances de reincidências
no crime são maiores para jovens julgados como adultos.
Marcos
Rolim é doutor e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS), instituição onde também realizou seu pós-doutoramento.
Professor do PPG de Direito e do PPG de Memória Social e Bens Culturais da
Unilasalle (Canoas), é membro fundador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
e da Assembleia Brasil da Anistia Internacional. Entre outras obras, escreveu:
A síndrome da rainha vermelha: policiamento e segurança pública no século XXI
(Zahar/Universidade de Oxford); Desarmamento, evidências científicas
(Palmarinca); Bullying, o pesadelo da escola (Dom Quixote); A formação de
jovens violentos: estudo sobre a etiologia da violência extrema (Appris) e
Justiça restaurativa e política pública: em busca de soluções com base em
evidências (Fórum).
>>>>
Confira a entrevista.
• O que explica a aprovação da redução da
maioridade penal na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na Câmara dos
Deputados no atual contexto sociopolítico do país?
Marcos
Rolim – O Brasil não dispõe de políticas de segurança pública efetivas e, no
plano nacional, temos um impressionante vazio. Temos algumas poucas
experiências exitosas em municípios e alguns programas específicos de sucesso
em certos estados. O quadro mais amplo, entretanto, é marcado pela ineficácia,
pelo desperdício de recursos públicos, pela violência e pela corrupção
policial. O que construímos nas últimas décadas foi, em síntese, um deserto
onde dois discursos se destacam: de um lado os setores mais à direita propondo
penas mais graves, mais polícias e mais prisões e, de outro lado, os setores
mais progressistas sugerindo que o caminho para a superação da violência e do
crime se fará com maior distribuição de renda, acesso à educação etc.
Esses
dois discursos estão absolutamente equivocados, mas o discurso repressivo é
mais simples, promete resultados de curto prazo e manipula o medo e o ódio das
pessoas. Por isso, é muito mais eficiente. A esquerda, ao se recusar a
enfrentar os desafios na área da segurança, permitiu que a direita
hegemonizasse esse campo. A situação fez com que o próprio discurso da direita
passasse a ser reproduzido por segmentos mais tradicionais da esquerda que
procuram sintonia com a demanda punitiva para não perder apoio eleitoral.
Trata-se de mais um exemplo de como a incompetência e a irresponsabilidade
costumam se associar com o oportunismo e a covardia.
>>>
Reformulações do ECA
A
redução da maioridade penal é um novo capítulo dessa novela de quinta
categoria. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabeleceu o tempo
máximo de três anos para o cumprimento de medidas em meio fechado. Isso
significa que, no Brasil, onde adolescentes podem ser encarcerados a partir dos
12 anos, há um limite de duração dessa medida. Como regra geral, isso faz todo
o sentido, mas há alguns poucos casos que não. Assim, por exemplo, se um jovem
de 16 anos é responsabilizado por matar três pessoas, em circunstâncias
absurdas de violência, o ECA diz que ele será colocado em liberdade aos 19
anos. Isso, obviamente, ofende o senso comum de justiça e transmite a noção de
que a responsabilização não foi efetiva. Esse é um ponto do ECA que deveria ter
sido reformulado há muito tempo. Nesse caso, a Lei seria alterada fixando-se um
limite maior para determinados perfis agravados que, repito, são raros. A
maioridade poderia ser mantida aos 18 anos, mas, em alguns casos, adolescentes
autores de atos especialmente graves poderiam permanecer no sistema
socioeducativo por prazos maiores.
Essa
foi a opção, aliás, de muitos outros países na região. No Uruguai e no Chile,
esse prazo pode ser de até 10 anos; no Panamá, até 12 anos; no México, limites
de até 7 ou 10 anos; na Costa Rica, até 15 anos e na Colômbia, até 8 anos.
Nesses países, ao completar 18 anos, os jovens de perfil agravado em
cumprimento de medidas em meio fechado seguem nos estabelecimentos
socioeducativos, evitando-se, assim, a transferência para presídios de adultos.
Ocorre
que a esquerda brasileira nunca concordou com esse caminho, aferrando-se aos
termos do ECA. Essa escolha facilitou o caminho da direita na pauta da redução
da maioridade penal. Nenhuma surpresa.
• Por que há uma insistência em reduzir a
maioridade penal desde a promulgação da Constituição?
Marcos
Rolim – Propor penas mais duras, aumento dos efetivos policiais e aumento das
taxas de encarceramento virou uma receita de sucesso eleitoral no Brasil. A
equação é simples: pessoas atemorizadas pelo avanço do crime e vítimas
indignadas com o sofrimento a que foram expostas se inclinam facilmente em
direção a medidas punitivas. Essa dinâmica envolve todas as classes sociais,
mas é especialmente significativa entre as populações mais pobres porque os
pobres são as vítimas mais comuns de muitos crimes. Os ricos temem a violência
e o crime, mas estão muito mais
protegidos. Então, o sujeito é candidato a algum cargo e percebe que se começar
a repetir que “bandido bom é bandido morto” aumentará sua votação. O que parece
atualizar aquela máxima de que, todo dia, um malandro e um otário saem de casa.
>>>
Receitas ideológicas
O ponto
é que não se constrói uma solução consistente para qualquer problema real com
receitas ideológicas, mas com diagnósticos competentes e políticas públicas
baseadas em evidências. Direita e esquerda debatem o tema da maioridade penal
há décadas com base em ideologias. Nenhum dos campos ancora suas posições em
evidências científicas que são, no mais, amplamente desconhecidas.
Nos
Estados Unidos, por exemplo, várias iniciativas de tratar adolescentes com
prisão foram aplicadas. Um dos programas de maior apoio popular por lá ficou
conhecido como Scared Straight. A ideia era a de “dar um susto” em adolescentes
que haviam cometidos atos infracionais, fazendo com que eles passassem curtos
períodos em prisões de adultos. Uma revisão sistemática Campbell de Petrosino e
colaboradores (2013) analisou nove
Estudos Clínicos Randomizados (RCTs), com 946 jovens em oito jurisdições
por um período de 25 anos. Os resultados mostraram que o programa é muito
eficiente para aumentar o crime (odds ratio [probabilidade] de 1,72 de
reincidência para participantes X grupos de controle).
O
programa reforçou a identidade delinquente dos jovens, agenciou a aprendizagem
social com os condenados adultos e estimulou a admiração pelos presos mais
violentos; normalizou o cárcere como “destino” e aumentou a dessensibilização
dos jovens pelas punições. As evidências mostram que a chance de reincidir é,
aproximadamente, duas vezes maior para quem foi julgado como adulto do que para
quem permaneceu no sistema juvenil. Muito bem, é essa bela porcaria que o
Congresso Nacional acaba de aprovar.
• Que alternativas poderiam impedir o
ingresso e o envolvimento dos jovens menores de 18 anos no mundo do crime?
Marcos
Rolim – Há muitos programas e iniciativas que produzem resultados
impressionantes de prevenção, afastando jovens de alternativas criminais em
todo o mundo. Um dos estudos mais conhecidos é o Perry Preschool Project,
experimento randomizado conduzido em Michigan, nos EUA, a partir dos anos 1960
com crianças afrodescendentes de 3 a 4 anos em situação de pobreza. O
acompanhamento longitudinal, com quatro décadas de dados, mostrou reduções
estatisticamente significativas em prisões e condenações até os 40 anos de
idade, tanto para homens quanto para mulheres.
O
Nurse-Family Partnership, desenvolvido por David Olds, consiste em visitas
domiciliares de enfermeiras a gestantes de primeira gravidez, de baixa renda,
até os dois anos de vida da criança. Os três ensaios clínicos randomizados
originais (Elmira, Memphis e Denver) mostraram significativa redução de prisões
e melhora em indicadores de negligência e maus-tratos. Em regra, revisões
sistemáticas sobre prevenção seletiva mostram um padrão importante: programas
para jovens em conflito com a lei centrados em elementos repressivos ou
punitivos tendem a ser ineficazes, enquanto programas que fortalecem vínculos
sociais positivos de jovens em risco (controle social informal e de apoio)
tendem a funcionar.
As
pessoas interessadas no tema podem acompanhar mais de perto os registros de
eficiência de diferentes programas de prevenção acessando o Blueprints for
Healthy Youth Development, da Universidade do Colorado Boulder, que certifica
programas como “Promissores”, “Modelo” ou “Modelo+”, conforme padrões rigorosos
de evidência experimental, e o CrimeSolutions, do Instituto Nacional de Justiça
dos EUA (National Institute of Justice), que classifica programas por nível de
evidência e é atualizado com regularidade.
• Como as práticas punitivistas interferem
e dificultam a implementação de outras medidas para recuperar jovens
adolescentes envolvidos com o crime?
Marcos
Rolim – A demanda punitiva no Brasil faz com que os gestores públicos na União,
nos estados e nos municípios nem sequer cogitem investir em programas de
prevenção social, especialmente programas de prevenção terciária (voltados a
jovens que já se envolveram com o crime) porque precisam de voto e não possuem
a coragem cívica necessária para bancar o debate diante de uma opinião pública
hostil.
O fato
é que há uma série de dinâmicas que pioram o prognóstico para jovens envolvidos
com o crime quando eles são tratados como se fossem adultos e passam a cumprir
penas em estabelecimentos prisionais. Quando definimos a idade da maioridade
penal, estamos decidindo apenas em que sistema os condenados serão recebidos:
se no socioeducativo ou no prisional. A escolha dessa maioria irresponsável e
ignorante que coloniza o Parlamento
brasileiro foi a de encaminhar jovens a partir de 16 anos com perfil agravado
para o sistema prisional. Ou seja, o que o Congresso decidiu foi desistir da
socioeducação. Essa escolha conta hoje, no Brasil, com o apoio da maioria dos
eleitores, o que também não surpreende, porque a esquerda, com raras exceções,
desistiu de travar esse debate há muito tempo.
<><>
Resultados
O que
iremos colher por conta dessa decisão é uma precipitação dos vínculos criminais
desses jovens encaminhados aos presídios de adultos; uma ruptura muito mais
séria dos seus vínculos familiares e escolares; uma socialização com pares mais
experientes no crime, seguido pelo aumento das taxas de reincidência e do
número de jovens violados sexualmente nas prisões. Tudo isso produzindo maior
estigma social após cumprimento das penas; ou seja: dificultando a reinserção
social. Em síntese, a redução da maioridade penal será um novo elemento a
reforçar o crime e a violência no Brasil.
Fonte:
Entrevista com Marcos Rolim, para Patrícia Fachin, em IHU

Nenhum comentário:
Postar um comentário