Inteligência
artificial – opressão ou ócio criativo?
Enquanto
o capitalismo transformou o ócio em defeito, em preguiça, e o trabalho em
virtude, os gregos antigos exaltavam o ócio como a liberdade de fazer ou não
fazer. Na era moderna, muitos autores elogiaram o ócio, como Jean-Jacques
Rousseau, Paul Lafargue e outros. Karl Marx defendeu a utopia de uma sociedade
comunista sem Estado, onde o trabalho não viria do mercado, mas dos produtores
associados que abririam espaço para o ócio criativo.
A
questão que se coloca hoje para debate é saber se a Inteligência artificial, ao
eliminar postos de trabalho, vai contribuir ou não para uma sociedade que
revaloriza o ócio. Essa questão está no centro do debate sobre a Inteligência
artificial. Na realidade, a Inteligência artificial pode tanto favorecer uma
revalorização do ócio quanto aprofundar uma sociedade ainda mais centrada no
trabalho. O resultado dependerá menos da tecnologia em si do que da forma como
ela for organizada socialmente.
Na
Grécia Antiga, especialmente entre filósofos como Platão e Aristóteles, o ócio
(scholé, em grego) era considerado uma condição essencial para uma vida
plenamente humana. A palavra scholé é, inclusive, a origem da palavra “escola”.
Ela significava o tempo livre dedicado ao aprendizado, à contemplação e à
formação intelectual.
Os
gregos distinguiam dois tipos de tempo: o tempo do trabalho (ascholía):
dedicado às necessidades práticas da vida, como produzir alimentos, construir e
administrar a casa, e o tempo do ócio (scholé): destinado ao estudo, à
filosofia, às artes, à política e à reflexão sobre a vida. Para muitos
pensadores gregos, o trabalho existia para tornar possível o ócio, e não o
contrário. O trabalho é um meio, o ócio é um fim. Durante o ócio, o ser humano
pode desenvolver a virtude, a sabedoria e alcançar a felicidade (eudaimonia).
Nunca é
demais recordar, porém, que o ideal de ócio era reservado principalmente aos
cidadãos livres do sexo masculino, com exclusão das mulheres, escravos,
estrangeiros e muitos trabalhadores. O ócio não significava inatividade, mas o
tempo livre para a contemplação, a filosofia, a arte e a participação política.
O trabalho manual era delegado aos escravos, enquanto os cidadãos livres podiam
dedicar-se ao cultivo do espírito.
Essa
visão de ócio foi retomada, em diferentes épocas, por pensadores como
Jean-Jacques Rousseau e, de forma mais radical, por Paul Lafargue, que
denunciava a “religião do trabalho” criada pela sociedade industrial. Para ele,
o progresso técnico deveria libertar os seres humanos da necessidade de
trabalhar excessivamente.
Em seu
livro O direito à preguiça, Paul Lafargue fulminou a exaltação do trabalho pelo
capitalismo e elogiou as virtudes da preguiça. No alto do Calvário, o
proletariado deve dirigir sua prece não ao Pai, mas à Preguiça: “Ó Preguiça,
tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres
virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas”.
A
acídia – apatia mental e física, sensação de vazio, indiferença e falta de
interesse – foi considerada por Santo Tomás de Aquino e outros teólogos como
pecado capital. Só no final da Idade Média é que a acídia foi equiparada à
tristeza e à indiferença, e deixou de ser um pecado capital. Mas, no
Iluminismo, o ócio não podia ser generalizado para a sociedade com um todo.
Ressignificado como preguiça, o ócio acessível a todos era visto como utopia
inatingível.
Rejeitado
pelo capitalismo que via no trabalho assalariado uma de suas condições de
possibilidade, essa utopia passou a fazer parte do imaginário marxista que
anunciava a possibilidade da passagem do reino da necessidade para o reino da
liberdade: o Estado desapareceria e o homem não estaria mais sujeito às
condições degradantes impostas pela divisão do trabalho
O
capitalismo moderno transformou o trabalho em fundamento da identidade social.
Diferente do mercantilismo, que via o ouro como riqueza, para Adam Smith o
trabalho é a verdadeira fonte de toda a riqueza de uma nação, é a fonte do
valor. No capitalismo, o ócio é visto com desconfiança porque o sistema
valoriza a produção constante, transformando o tempo livre em culpa. O tempo
vale dinheiro e o descanso serve apenas para recuperar as energias para
produzir mais. O trabalhador perde o domínio do próprio tempo, dedicado quase
todo ao lucro de outros.
Na
literatura, o trabalho chegou a ser divinizado. Um bom exemplo é a frase de
Camilo Castelo Branco, mestre do romantismo português, ao afirmar em seu livro
A mulher fatal (1870) que “O trabalho é preceito e remédio divino”. Por outro
lado, o historiador inglês E. P. Thompson afirmou em sua obra Tempo, disciplina
de trabalho e capitalismo industrial (1967) que “A disciplina do tempo se
tornou uma das mais importantes características da sociedade industrial”. E. P.
Thompson mostra como o relógio e a organização industrial transformaram o tempo
em instrumento de controle dos trabalhadores.
Karl
Marx propunha que os trabalhadores tivessem tempo para desenvolver a totalidade
de suas personalidades. Para ele, em uma sociedade sem a divisão rígida do
trabalho, as pessoas não precisariam ficar presas a uma única profissão ou
identidade econômica durante toda a vida. Em vez disso, poderiam desenvolver
diferentes capacidades e atividades conforme seus interesses e as necessidades
da sociedade.
Em A
Ideologia Alemã (1846), ele e Engels afirmaram: “Na sociedade comunista, em que
ninguém tem uma esfera exclusiva de atividade, mas cada um pode aperfeiçoar-se
no ramo que desejar, a sociedade regula a produção geral e me possibilita fazer
hoje uma coisa e amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado à
noite, fazer análises críticas depois do jantar, exatamente como penso, sem
nunca me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico”.
No
século XX, como analisou Max Weber em A ética protestante e o espírito do
capitalismo, a ética do trabalho adquiriu um valor moral: trabalhar muito
passou a ser considerado uma virtude, enquanto o ócio foi frequentemente
associado à preguiça ou à improdutividade. Mesmo quando a produtividade
aumentou enormemente graças às máquinas, a expectativa social continuou sendo a
de trabalhar cada vez mais, e não menos.
Em Karl
Marx, há uma crítica profunda a essa lógica. Ao distinguir o reino da
necessidade do reino da liberdade, Marx demonstra que, enquanto a sobrevivência
exige trabalho, o desenvolvimento pleno das capacidades humanas ocorre no tempo
livre. Em uma sociedade comunista madura, imaginava ele, a redução da jornada
de trabalho permitiria ampliar o tempo dedicado à criação, à ciência, à arte e
às relações humanas. Seu ideal não era a eliminação completa do trabalho, mas a
superação do trabalho alienado e compulsório.
Nesse
contexto, a Inteligência artificial representa uma novidade histórica. Pela
primeira vez, não apenas o trabalho físico, mas também uma parcela
significativa do trabalho intelectual pode ser automatizada. Isso abre
possibilidades inéditas. Se a riqueza produzida pela Inteligência artificial
for amplamente distribuída, seria possível reduzir jornadas, ampliar férias,
antecipar aposentadorias, fortalecer políticas como renda básica e permitir que
mais pessoas se dediquem ao estudo, à cultura, ao cuidado e à criação
artística.
Nesse
cenário, o ócio recuperaria um sentido próximo ao dos gregos: não a ausência de
atividade, mas a liberdade de escolher atividades dotadas de significado.
Mas
existe um cenário oposto. Se os ganhos de produtividade permanecerem
concentrados nas empresas proprietárias da tecnologia, a Inteligência
artificial poderá gerar desemprego, precarização e aumento da desigualdade. Em
vez de uma sociedade do ócio criativo, teríamos uma sociedade dividida entre
uma minoria altamente qualificada e uma maioria submetida à insegurança
econômica. Paradoxalmente, muitos dos que mantiverem seus empregos poderão
trabalhar ainda mais, enquanto outros ficarão excluídos do mercado.
A
maioria dos que se dedicaram à reflexão crítica da Inteligência artificial tem
insistido que a questão central não é tecnológica, mas política: quem se
apropriará dos ganhos de produtividade? A mesma tecnologia que poderia reduzir
a jornada para vinte ou vinte e cinco horas semanais também pode ser usada para
intensificar o controle sobre os trabalhadores e concentrar renda.
A
Inteligência artificial cria condições materiais para uma revalorização do
ócio, mas não a garante. Ela torna tecnicamente possível realizar um antigo
sonho compartilhado, de maneiras diferentes, pelos gregos, por Paul Lafargue e
por Karl Marx: libertar parte crescente da humanidade da necessidade de dedicar
a maior parte da vida ao trabalho. No entanto, transformar essa possibilidade
em realidade dependerá das escolhas feitas sobre distribuição da riqueza,
organização do trabalho, proteção social e acesso universal aos benefícios da
automação.
Verificamos,
assim, um confronto entre a visão otimista e a pessimista. A visão otimista –
defendida por teóricos e tecnólogos – baseia-se na premissa de que a
Inteligência artificial pode assumir as tarefas repetitivas, burocráticas e
operacionais (tanto manuais quanto cognitivas), liberando o ser humano para
focar em atividades de maior valor agregado.
Com
robôs e algoritmos lidando com a produção em massa e o processamento de dados,
o trabalho humano poderia se concentrar em estratégia, criatividade pura,
filosofia, artes, ciências e cuidado interpessoal. Além disso, o ganho massivo
de produtividade deveria resultar na diminuição da jornada de trabalho semanal
(semana de quatro dias, por exemplo), permitindo mais tempo livre para o
desenvolvimento pessoal, lazer e comunidade.
Por
outro lado, numa visão pessimista, economistas e sociólogos alertam para os
riscos estruturais de uma transição desregulada, onde a tecnologia é capturada
primariamente para a redução de custos de mão de obra, gerando o risco de
desemprego e da desigualdade. Nesse cenário, haveria substituição de
trabalhadores cognitivos. Ao contrário de revoluções industriais anteriores,
que atingiram principalmente a força física, a Inteligência artificial
generativa impacta diretamente postos de trabalho intelectuais e de escritório
(redatores, programadores, analistas financeiros, designers, profissionais de
atendimento).
Isso
provocaria o esvaziamento da classe média profissional, com valorização extrema
de um pequeno grupo de especialistas altamente qualificados (que desenvolvem e
controlam as tecnologias), enquanto a base de trabalhadores corre o risco de
ser empurrada para a informalidade ou para funções precarizadas de prestação de
serviços mal remunerados. A concentração de riqueza seria outra decorrência: os
ganhos de produtividade gerados pela Inteligência artificial tendem a se
concentrar desproporcionalmente nas mãos dos detentores do capital tecnológico
(grandes corporações), ampliando o fosso da desigualdade social e econômica
global.
Em
suma, a Inteligência Artificial pode inaugurar uma nova civilização do tempo
livre ou uma nova era de desigualdade. A tecnologia, por si só, não decidirá
entre esses dois caminhos: essa decisão continuará sendo essencialmente social
e política.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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