O
que é o Transtorno do Devaneio Excessivo e como ele impacta a saúde?
Você já
se pegou perdido em pensamentos, criando mundos imaginários ou diálogos
inteiros em sua mente enquanto o mundo real parecia passar despercebido? Embora
sonhar acordado seja algo comum e, muitas vezes, saudável, há situações em que
isso ultrapassa os limites do controle e passa a comprometer a vida cotidiana.
Esse
fenômeno é conhecido como transtorno do devaneio excessivo, uma condição ainda
pouco reconhecida oficialmente pela medicina, mas que tem chamado a atenção de
especialistas e pacientes ao redor do mundo.
Entenda
o que é o transtorno do devaneio excessivo, como ele se manifesta, seus
possíveis gatilhos, impactos na saúde mental e física, e os caminhos possíveis
para diagnóstico e tratamento. Também discutiremos como a ciência está olhando
para esse fenômeno e quais são os principais relatos de quem vive com essa
condição. Entender o transtorno é o primeiro passo para desmistificá-lo e
promover mais saúde e qualidade de vida.
• O que é o Transtorno do Devaneio
Excessivo?
O
transtorno do devaneio excessivo, também chamado de Maladaptive Daydreaming
(MD) em inglês, é caracterizado por fantasias intensas, prolongadas e
recorrentes que substituem significativamente a interação com o mundo real.
Essas
fantasias geralmente são muito vívidas, envolvem personagens fictícios,
cenários elaborados e até trilhas sonoras internas, funcionando como uma
espécie de fuga da realidade.
Diferentemente
do devaneio comum, que costuma ser breve e inofensivo, o transtorno é marcado
pela perda de controle sobre a atividade imaginativa. Pessoas com esse quadro
podem passar horas imersas em suas fantasias, negligenciando responsabilidades
diárias, relações pessoais e o autocuidado. Esse comportamento pode interferir
profundamente na vida acadêmica, profissional e social do indivíduo.
Apesar
de não estar listado oficialmente no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais), muitos profissionais da saúde mental reconhecem o
transtorno a partir de relatos consistentes de pacientes e de pesquisas
emergentes sobre o tema.
• Sintomas e comportamentos comuns
Entre
os principais sintomas do transtorno do devaneio excessivo, destacam-se:
• Fantasias vívidas e complexas,
frequentemente com enredos contínuos, como se fossem séries ou filmes internos;
• Movimentos repetitivos durante o
devaneio, como balançar o corpo, andar em círculos ou fazer expressões faciais;
• Dificuldade de concentração em tarefas
do cotidiano devido à invasão frequente dos devaneios;
• Desejo de se isolar para continuar o
devaneio sem interrupções;
• Sensação de euforia ou alívio emocional
ao mergulhar nas fantasias;
• Culpa ou frustração por perder tempo e
deixar de realizar atividades importantes;
• Capacidade preservada de distinguir
fantasia e realidade, diferentemente de condições psicóticas.
É
importante destacar que, mesmo sabendo que os cenários imaginados não são
reais, a pessoa pode preferir a fantasia à realidade, especialmente em
contextos de estresse ou sofrimento emocional.
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Causas possíveis
Embora
as causas exatas do transtorno do devaneio excessivo ainda não sejam totalmente
compreendidas, estudos e relatos indicam alguns fatores que podem contribuir
para o desenvolvimento da condição:
• Traumas na infância ou vivências de
abuso emocional, físico ou negligência;
• Isolamento social e dificuldades de
integração com outras pessoas;
• Condições psiquiátricas associadas, como
depressão, ansiedade, TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e TDAH (Transtorno
de Déficit de Atenção e Hiperatividade);
• Falta de estímulo cognitivo ou ambientes
monótonos, que incentivam a fuga para o mundo interno;
• Alto nível de criatividade, muitas vezes
presente em pessoas com habilidades artísticas, narrativas ou sensibilidade
emocional aguçada.
Não há
um único gatilho, mas sim uma combinação de fatores psicológicos, emocionais e
ambientais que podem predispor alguém ao transtorno.
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O impacto na saúde mental e física
O
transtorno do devaneio excessivo pode ter consequências sérias quando não
identificado e tratado. A principal delas é a perda de funcionalidade, já que a
pessoa deixa de realizar atividades essenciais para seu bem-estar e
desenvolvimento. Isso pode incluir desde a higiene pessoal até a execução de
tarefas no trabalho ou nos estudos.
A longo
prazo, os impactos incluem:
• Quadros de ansiedade e depressão,
agravados pela percepção de improdutividade e isolamento;
• Insônia e distúrbios do sono,
especialmente quando o devaneio se intensifica durante a noite;
• Problemas de saúde física, como
sedentarismo, má alimentação e dores musculares decorrentes de posições
mantidas por longos períodos;
• Dificuldades de relacionamento, já que
os laços sociais reais são substituídos por vínculos imaginários com
personagens das fantasias;
• Baixa autoestima e sentimento de
inadequação social.
Esses
efeitos fazem com que o transtorno vá além de um simples hábito inofensivo,
passando a ser um obstáculo real para uma vida saudável e plena.
• Diagnóstico: um desafio clínico
Um dos
maiores desafios em relação ao transtorno do devaneio excessivo é o
diagnóstico, justamente por não estar oficialmente reconhecido nos manuais de
saúde mental. Muitos pacientes vivem anos com os sintomas sem sequer saber que
há um nome para o que sentem.
Hoje,
alguns profissionais utilizam a Escala de Devaneio Excessivo de Somer (nomeada
em homenagem ao psicólogo Eli Somer, que cunhou o termo em 2002) para avaliar a
intensidade e frequência dos devaneios. Essa escala inclui perguntas sobre a
duração dos episódios, o impacto na vida cotidiana e a dificuldade em controlar
os devaneios.
No
entanto, o diagnóstico ainda depende, em grande parte, de uma anamnese
cuidadosa e da escuta ativa por parte do profissional, além da disposição do
paciente em compartilhar seu mundo interno.
• Tratamento e estratégias de
enfrentamento
Embora
ainda não exista um protocolo oficial de tratamento, algumas abordagens têm se
mostrado eficazes para lidar com o transtorno do devaneio excessivo:
• Psicoterapia cognitivo-comportamental
(TCC): ajuda o paciente a identificar gatilhos, modificar padrões de pensamento
e desenvolver estratégias para retomar o controle da mente.
• Técnicas de mindfulness e meditação:
promovem o foco no presente e reduzem a tendência a escapar para fantasias.
• Organização da rotina: criar horários
fixos e metas realistas pode ajudar a reduzir o tempo gasto em devaneios.
• Grupos de apoio online: comunidades de
pessoas que compartilham experiências semelhantes têm se tornado uma ferramenta
poderosa de acolhimento e troca de estratégias.
• Tratamento de comorbidades: em muitos
casos, tratar a depressão, a ansiedade ou o TDAH subjacente pode atenuar os
sintomas do transtorno.
O
transtorno do devaneio excessivo ainda é uma condição envolta em dúvidas e
preconceitos, mas seu impacto na saúde é real e merece atenção. Ao compreender
que sonhar acordado pode deixar de ser apenas um hábito inofensivo e passar a
interferir na vida cotidiana, damos o primeiro passo para promover o
autoconhecimento e a busca por ajuda profissional.
Se você
se identificou com os sintomas descritos, saiba que não está sozinho. Cada vez
mais pessoas ao redor do mundo estão reconhecendo o transtorno e encontrando
caminhos de cuidado e acolhimento. O importante é lembrar: fugir da realidade
pode parecer seguro, mas viver plenamente é o verdadeiro desafio e também a
maior conquista.
Fonte:
Olhar Digital

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