terça-feira, 18 de agosto de 2026

Eleições de 2026 serão um plebiscito sobre se o Brasil é um país ou uma colônia

Começou oficialmente neste domingo (16) o período eleitoral de uma eleição que tende a ficar marcada na história brasileira. Não apenas por quem vai vencê-la, mas pelo que ela passa a significar: a definição do próprio status do Brasil no sistema internacional.

Pela primeira vez, desde a redemocratização, uma eleição presidencial brasileira será disputada sob uma pressão estrangeira tão aberta, oficial e documentada. Os Estados Unidos não escondem sua preferência política, não escondem seus instrumentos de pressão e, talvez mais importante, já não escondem sequer a doutrina que sustenta essa política.

Em dezembro do ano passado, o governo de Donald Trump publicou sua Estratégia de Segurança Nacional. O documento ressuscitou nominalmente a Doutrina Monroe, criada em 1823, e anunciou aquilo que chamou de “Corolário Trump”: a reafirmação da “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.

Não é uma interpretação brasileira sobre as intenções de Washington. É um documento oficial da Casa Branca.

E nele existe uma frase que deveria receber muito mais atenção no Brasil. A estratégia estabelece que os Estados Unidos devem “recompensar e encorajar” governos, partidos políticos e movimentos da região alinhados aos princípios e à estratégia americana.

Não há sutileza.

Washington está dizendo, em papel timbrado, que pretende utilizar o peso da maior potência econômica e militar do continente para premiar forças políticas que se alinhem aos seus interesses.

O Brasil chega à eleição de 2026 exatamente dentro desse tabuleiro.

Desde o ano passado, o governo Trump utiliza contra o país instrumentos econômicos e diplomáticos associados diretamente à situação política brasileira. Ao impor uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, em julho de 2025, a Casa Branca citou nominalmente Jair Bolsonaro, atacou decisões de autoridades brasileiras e mencionou até a capacidade do Brasil de realizar eleições “livres e justas” em 2026.

Mais reveladora era a porta de saída oferecida por Washington. A própria ordem de Trump previa a possibilidade de revisão das medidas caso o Brasil tomasse providências e passasse a se “alinhar suficientemente” aos Estados Unidos em temas de segurança nacional, economia e política externa.

Leia novamente a palavra. Alinhar.

Não negociar. Não estabelecer uma relação entre Estados soberanos em pé de igualdade. Alinhar.

É difícil encontrar palavra mais precisa para descrever a lógica de uma relação entre uma potência e um país que ela trata como área de influência.

O mais perturbador é que parte da política brasileira não parece particularmente incomodada com isso.

Flávio Bolsonaro fez de sua proximidade com Trump um ativo político. Foi a Washington, encontrou-se com o presidente americano e com Marco Rubio e pediu que PCC e Comando Vermelho fossem classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. A medida posteriormente foi adotada pelo governo americano.

A Reuters registrou que auxiliares de Flávio enxergavam na iniciativa uma maneira de elevar o debate sobre criminalidade na eleição e reforçar o alinhamento do candidato brasileiro com Trump.

Meses depois, o episódio ganhou contornos ainda mais extraordinários.

Flávio pediu aos Estados Unidos que adiassem novas tarifas contra produtos brasileiros até depois da eleição. A argumentação apresentada a Washington mencionava justamente o fato de que o cenário político capaz de redefinir a relação bilateral seria alterado pelas urnas em outubro.

Um candidato à Presidência da República negociando com uma potência estrangeira o calendário de medidas econômicas contra o próprio país tendo como horizonte a eleição na qual ele próprio concorre.

É preciso repetir a frase porque a sucessão de absurdos políticos dos últimos anos já corroeu parte da nossa capacidade de espanto.

Há dois séculos de história latino-americana comprimidos nessa cena.

A Doutrina Monroe nasceu no século 19 sob a fórmula de uma América protegida da intervenção europeia. Na prática, transformou-se ao longo do tempo na justificativa para que Washington tratasse o continente como área preferencial de influência.

O Brasil conhece essa história.

Em 1964, o governo americano preparou a Operação Brother Sam para dar suporte aos militares que derrubavam João Goulart. Navios, combustível e armamentos foram colocados à disposição caso houvesse resistência ao golpe.

A diferença é que naquela época era segredo.

Décadas foram necessárias para que documentos desclassificados permitissem conhecer a extensão da atuação americana.

Em 2026, não precisamos esperar a abertura dos arquivos.

Está no site da Casa Branca.

Talvez essa seja uma das transformações mais importantes do nosso tempo. O intervencionismo deixou de exigir constrangimento. Aquilo que antes precisava ser escondido agora pode ser apresentado como política externa, publicado em documentos oficiais, anunciado diante das câmeras e celebrado por aliados locais.

A novidade não é o imperialismo. É a perda da vergonha.

E seria confortável imaginar que o Brasil constitui alguma excepcionalidade nessa política. Não constitui.

Trump já vinculou publicamente o apoio econômico americano ao destino eleitoral de Javier Milei na Argentina. Na Colômbia, entrou diretamente na campanha ao declarar apoio a Abelardo de la Espriella. A Estratégia de Segurança Nacional apenas organizou em linguagem burocrática aquilo que Washington passou a praticar politicamente: a reconstrução de uma esfera de influência no continente.

O que torna o caso brasileiro particularmente grave é a existência de forças políticas internas dispostas a transformar essa relação em credencial eleitoral.

Durante anos, a extrema direita brasileira construiu para si uma espécie de monopólio cenográfico do patriotismo. Vestiu verde e amarelo. Apropriou-se da bandeira. Cantou o hino. Chamou adversários de inimigos da pátria. Transformou qualquer divergência sobre as Forças Armadas em suspeita de antipatriotismo.

Chegamos a 2026 e parte desse mesmo campo político apresenta como demonstração de prestígio a capacidade de obter respaldo de Washington.

É uma contradição difícil de sustentar.

Patriotismo pressupõe soberania. Soberania pressupõe que as decisões fundamentais de um país sejam tomadas por seu povo, segundo seus interesses, dentro de suas instituições.

Não existe soberania sob tutela.

É por isso que a eleição que começa agora carrega uma dimensão que ultrapassa Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

Naturalmente, ninguém votará pensando apenas em política externa. O brasileiro votará preocupado com salário, emprego, segurança, saúde, corrupção, impostos e todas as questões concretas que determinam sua vida. Seria simplório reduzir uma eleição inteira a uma única variável.

Mas algumas eleições acabam adquirindo significados maiores do que a soma de suas pautas.

Esta pode ser uma delas.

A Constituição brasileira escolheu a soberania como primeiro fundamento da República e estabeleceu independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção e igualdade entre os Estados como princípios das relações internacionais do país.

Não são palavras ornamentais colocadas no início da Constituição para ocupar espaço.

São a resposta histórica a uma pergunta que volta a se impor.

Quem decide os rumos do país?

Os brasileiros podem discordar profundamente sobre qual governo desejam, qual modelo econômico preferem, qual política de segurança consideram adequada ou quem deveria ocupar o Palácio do Planalto.

Essa divergência é a democracia.

Há, porém, uma questão anterior a todas elas: se essa decisão pertence aos brasileiros.

Talvez esse seja o plebiscito silencioso que acompanhará a eleição de 2026.

Não exatamente sobre esquerda ou direita. Nem apenas sobre Lula ou Bolsonaro.

Mas sobre se o Brasil pretende exercer plenamente sua soberania ou aceitar novamente o lugar que uma potência estrangeira resolveu reservar para ele em seu hemisfério.

Em 1964, a Operação Brother Sam era secreta.

Em 2026, a Doutrina Monroe tem assessoria de imprensa.

¨      Trump considera novas sanções contra Moraes, diz FT. Por Jamil Chade

O jornal britânico Financial Times revelou, neste domingo, que o governo Donald Trump está considerando aplicar novas sanções contra o juiz Alexandre de Moraes. O ministro já havia sido alvo de medidas por parte da Casa Branca, em 2025. Naquele momento, a alegação eram as supostas violações do brasileiro em relação à liberdade de expressão e o que foi chamado de “caça às bruxas” contra bolsonaristas.

A Lei Magnitsky foi aplicada, com sanções financeira contra o ministro. Mas o gesto foi duramente criticado pelos autores da lei nos EUA e pelos democratas. No final de 2025, diante de uma aproximação comercial entre Lula e Trump, elas foram retiradas.

Mas, em meio a uma nova onda de crises e ataques, Washington estaria revendo sua posição e poderia anunciar as medidas nos próximos dias. Mais uma vez, o argumento central seria seu ataque contra a liberdade imprensa e de expressão.

Se aplicadas, as sanções representariam mais um teste para a já tensa relação entre os dois governos, Ainda que seja contra um ministro do STF, o governo Lula passou a adotar a postura de que uma sanção seria contra as instituições do país.

<><> Ingerência na eleição

O gesto é ainda visto como um sinal de que, em um momento chave da eleição, Trump avalia escalar a ingerência no processo de escolha do próximo presidente.

Tanto o Palácio do Planalto quanto o Itamaraty consideram que a intromissão da Casa Branca para favorecer Flávio Bolsonaro já é uma realidade. O governo estima que, nas próximas semanas, as ações por parte de Washington vão ser multiplicadas.

<><> Jornalista no Maranhão

Desta vez, um dos motivos seria a decisão de Moraes de agir contra um jornalista no Maranhão. O ministro autorizou a quebra de sigilo das comunicações do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, de 40 anos.

O caso seria usado na Casa Branca como “prova” de que o ministro seria um “inimigo” da liberdade de expressão.

Citando pessoas próximas ao poder nos EUA, o jornal destaca que a figura de Moraes é alvo de duras críticas em Washington.

“Ele está perseguindo os apoiadores do presidente. Não apenas Elon Musk, mas também os apoiadores do MAGA no Brasil”, acrescentou uma pessoa familiarizada com o pensamento do governo americano.

“Mesmo que queiramos um bom relacionamento com o Brasil, obviamente esse cara é um inimigo.” A reimposição das medidas Magnitsky estava “sob consideração”, disse outra pessoa.

Mas o caso do Maranhão não é o único. “Havia muitos fatores [e] um padrão consistente de abuso. Este é apenas o mais recente”, acrescentou, referindo-se ao caso do jornalista. “As preocupações nunca desapareceram.”

 

Fonte: ICL Notícias

 

'Geração Lava Jato' prefere Flávio, e idosos podem ser 'novo Nordeste' de Lula, diz diretora do Datafolha

As pesquisas eleitorais têm mostrado uma certa estabilidade na disputa presidencial, sinalizando, no momento, para um segundo turno apertado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com pequena vantagem para o petista.

O detalhamento das sondagens, porém, revela dados interessantes sobre a corrida eleitoral, ressalta a diretora do instituto Datafolha, Luciana Chong, em entrevista à BBC News Brasil.

Ela nota que o crescente eleitorado de idosos, com 60 anos ou mais, desponta como um possível "novo Nordeste" para o PT, em referência à região que tem dado larga vantagem de votos para o partido de Lula desde 2002.

Segundo a última pesquisa Datafolha, em eventual segundo turno, 55% desse grupo declaram apoio ao petista, contra 37% que preferem Flávio, uma diferença de quase vinte pontos percentuais.

Os idosos também chamam atenção por seu engajamento maior na eleição em relação a outros grupos, nota Chong. Na pesquisa espontânea para o primeiro turno, ou seja, quando os entrevistados são perguntados sobre em quem vão votar sem que lhes sejam apresentados os nomes dos candidatos, apenas 34% do eleitorado mais velho responde que ainda não sabe seu candidato, contra 46% dos mais jovens (16 a 24 anos).

"Os idosos são agora 23% dos eleitores. Nunca houve um percentual tão alto de pessoas com 60 anos ou mais dentro do eleitorado. E hoje, porque há a questão da longevidade, uma pessoa de 60 anos, 70 anos, está muito ativa, diferente do que era há algumas décadas. Hoje, as pessoas estão trabalhando, são ativas e querem ir votar", analisa.

"É um segmento importante que está bem engajado com o Lula nesse momento. Acho que também muito por conta de todas as políticas econômicas que acabam acenando para esse grupo, como a valorização do salário mínimo [que aumenta também o valor de benefícios do INSS]", nota Chong.

Por outro lado, a maior dificuldade de Lula está entre a população adulta, na faixa de 35 a 44 anos, que a diretora do Datafolha chama de "geração Lava Jato", em referência à operação que desmantelou um grande esquema de corrupção envolvendo a Petrobras e diferentes partidos políticos durante os governos de Dilma Rousseff (2010 a 2016).

É um grupo que passou boa parte de sua vida governada por governos petistas e acompanhou a grande repercussão do escândalo. Nessa faixa etária, Flávio aparece com 53% das intenções de voto em eventual segundo turno, contra 38% de Lula.

"Quando a gente pergunta qual o principal problema do país, eles citam a corrupção mais do que os outros grupos", destaca.

Para Chong, o período eleitoral de campanha, que começou em 16 de agosto, e a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV (a partir do dia 28) ainda são capazes de influenciar o voto do eleitor, apesar da importância das redes sociais como meio de informação hoje.

Até o momento, porém, ela vê pouco espaço para algum candidato romper a forte polarização entre Flávio e Lula, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) ou o novato Renan Santos (Missão).

Na sua visão, essa é mais uma eleição movida pela rejeição, em que o eleitor escolhe o seu candidato não tanto pelas propostas, mas em contraponto ao que mais rejeita, seja o presidente ou o filho de Jair Bolsonaro (PL).

Isso, diz Chong, contribui para o cenário de segundo turno apertado que vem sendo apontado nas pesquisas eleitorais, apesar da ampla vantagem de Lula nos levantamentos de primeiro turno.

"A gente vê que Lula vence todos os outros com percentuais parecidos, porque, para esse eleitor [anti-Lula], tanto faz se é Flávio, se é Caiado, se é Zema; ele é contra Lula. É mais um voto anti-Lula do que naqueles candidatos que estão ali apresentados. Então, quando houver realmente um segundo turno definido, toda essa direita vai se unir. Não vai ser uma eleição fácil", avalia.

Confira a seguir os principais destaques da entrevista, em que Chong rebate críticas de que o Datafolha "errou o resultado da disputa presidencial de 2022" e conta sobre como ferramentas de inteligência artificial estão sendo usadas para aprimorar instrumentos de checagem das pesquisas do instituto, que são realizadas de forma presencial, nos chamados pontos de fluxo (áreas de grande circulação de pessoas) das cidades onde ocorre o levantamento.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Quais tendências do eleitorado chamam sua atenção nesta eleição?

Luciana Chong - O voto feminino, que em 2022 foi superimportante para a eleição do Lula, se mantém. As mulheres têm uma resistência maior ao candidato Flávio, assim como tinham em relação ao Jair Bolsonaro. Vemos também o voto dos mais jovens um pouco mais com o Lula, e os evangélicos sempre mais alinhados à família Bolsonaro.

Esse ano, estamos fazendo essa pergunta aos entrevistados: "Numa escala de bolsonarista a petista, de 1 a 5, em que grau você se coloca?". É para entendermos se a pessoa é um bolsonarista raiz, se é um bolsonarista moderado, se é um petista raiz, um petista moderado. E, no meio, aparecem os não alinhados, que é um grupo superimportante, que pode decidir a eleição. A intenção de voto desse grupo é um pouco mais para Lula do que para Flávio, mas isso pode mudar. É um grupo mais suscetível a mudanças.

·        E como é o perfil social dos não alinhados?

Chong - Eles são mais jovens, têm escolaridade média, principalmente, e são mais de cidades grandes. Não têm partido político de preferência. E existe um índice alto de eleitores sem religião. É um perfil que não está tão engajado ainda com a eleição, algo que vemos com os jovens, por exemplo, pois eles têm um índice alto que responde que não sabe em quem vai votar na pesquisa espontânea. Esperamos agora, com o início da propaganda eleitoral, que esse grupo se engaje também. Vamos conseguir entender um pouco para que lado eles vão.

·        As mulheres são a maioria do eleitorado, representam quase 53% dos eleitores. Com a vantagem que Lula tem entre elas, é possível dizer que o eleitorado feminino se tornou um novo Nordeste para o PT?

Chong - Acho que não, porque o Nordeste ainda tem uma força maior. Quando a gente vê o eleitorado feminino por faixa etária, por exemplo, as mais jovens são mais Lula e as mais velhas também, mas essa faixa intermediária já não é tanto, que é justamente uma faixa de idade que chamamos aqui de "geração Lava Jato", porque é a geração que cresceu vendo a Lava Jato. Então, é mais crítica em relação ao governo do PT, ao Lula, principalmente na questão da corrupção.

Talvez um segmento que esteja mais perto do que seria o Nordeste para o Lula sejam os mais velhos. Se você vê na faixa de 60 anos ou mais, aí sim ele tem uma vantagem muito maior. E aí parece um voto mais consolidado, pois os mais velhos também são os que estão mais engajados [na eleição]. O índice de eleitores que dizem que não sabe em que vai votar é menor [entre os idosos].

A vontade de votar é maior do que a dos mais jovens. Então, é um segmento importante e que está bem engajado com o Lula nesse momento. Acho que também muito por conta de todas as políticas econômicas que o Lula vem fazendo, que acabam acenando para esse grupo, como a valorização do salário mínimo [que aumenta também o valor de benefícios do INSS] e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil.

·        Então, o grupo que viveu a maior parte da sua vida política sob os governos do PT é o que menos vota em Lula?

Chong – Sim, no total da amostra, nessa faixa etária, de 35 a 44 anos, o Flávio fica na frente. E, quando perguntamos qual é o principal problema do país, eles citam a corrupção mais do que os outros grupos.

·        Com o envelhecimento da população, os eleitores idosos estão ganhando peso na eleição, mas eles não são obrigados a votar a partir de 70 anos. Qual a importância desse grupo?

Chong – Os idosos são agora 23% dos eleitores. Nunca houve um percentual tão alto de pessoas com 60 anos ou mais dentro do eleitorado. É um grupo que, de fato, só vai crescer. E hoje, porque há a questão da longevidade, uma pessoa de 60 anos, 70 anos, está muito ativa, diferente do que era há algumas décadas. Hoje, as pessoas estão trabalhando, são ativas e querem ir votar. Então, é um segmento importante. Vamos ter que ver como vai ser a abstenção, mas, pela intenção de voto, a gente vê que eles têm um engajamento maior.

·        A campanha eleitoral e a propaganda gratuita em televisão e rádio ainda têm relevância para mexer nas intenções de voto?

Chong – Eu acho que sim, porque, quando a gente faz pesquisas para medir o grau de confiabilidade nos meios de informação, as redes sociais são as em que as pessoas menos confiam, apesar de serem as mais utilizadas. Claro, atinge as pessoas muito mais rápido e tem muito mais conteúdo rodando, mas as pessoas ainda confiam mais nos meios tradicionais, como TV, rádio, jornais.

·        O Renan Santos, que disputa pela primeira vez uma eleição, tem aparecido na frente de nomes tradicionais, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. De onde vem esse apoio? Tem espaço para ele crescer mais, nesse cenário tão polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro?

Chong – Ele tem apoio em um segmento muito nichado, entre os mais jovens, que é onde consegue ter algum destaque. O conhecimento dele ainda é muito baixo, então ele não consegue ainda chegar nas outras faixas de idade. Ele pode ter um crescimento, porque agora, que começa a campanha mesmo, ele vai começar a aparecer nos debates, nas entrevistas e vai se tornar mais conhecido. Mas eu acho que ainda não ameaça essa polarização.

É a primeira eleição, ele está construindo o nome dele, na verdade, não para esse ano, mas para daqui a quatro anos, oito anos.

·        Por que Caiado não consegue decolar, mesmo concorrendo por um grande partido?

Chong – Ele foi governador por dois mandatos. Lá em Goiás, ele é super conhecido, mas no Brasil ainda não. Então, eu acho que, conforme ele for se tornando mais conhecido agora, pode ser que ele também tenha crescimento.

Assim, essa eleição está sendo marcada por várias denúncias de todos os lados, então tem denúncia contra o Flávio, tem denúncia contra o Lula. Então, a gente não sabe, daqui para frente, como isso vai seguir. E aí, talvez, seja uma chance do Caiado conquistar um eleitor mais à direita.

·        Durante a redemocratização, nunca ocorreu de um candidato a presidente que ficou em segundo lugar no primeiro turno conseguir virar e ganhar a eleição no segundo turno. Este ano, porém, há alguns candidatos na direita que tendem a transferir votos para Flávio Bolsonaro no segundo turno, segundo o atual cenário das pesquisas eleitorais. É um cenário mais desafiador para Lula?

Chong – Sem dúvida, é o que a gente viu em 2022. Na última eleição, o Lula ainda tinha uma vantagem maior em relação ao Bolsonaro no primeiro turno. Só que, quando começou o segundo turno, essa vantagem desapareceu e eles foram seguindo muito empatados até o final. A diferença foi mínima. Então, eu acho que isso pode se repetir, sim.

Hoje, as simulações de segundo turno não servem para muita coisa, porque estamos falando para o eleitor se posicionar em relação a algo que ainda está distante.

Mas hoje, quando a gente faz essas simulações, a gente vê que o Lula vence todos os outros com percentuais parecidos, porque, para esse eleitor [anti-Lula], tanto faz se é o Flávio, se é o Caiado, se é o Zema, ele é contra o Lula. É mais um voto anti-Lula do que naqueles candidatos que estão ali apresentados. Então, quando tiver realmente um segundo turno definido, toda essa direita vai se unir. Não vai ser uma eleição fácil.

·        O TSE deve julgar em breve a ação da campanha do Flávio Bolsonaro que questiona a pesquisa eleitoral da Atlas Intel, que, ao final do questionário sobre intenção de voto, reproduzia um áudio entre o candidato e o banqueiro Daniel Vorcaro e questionava o entrevistado sobre essa gravação. Essa pesquisa está suspensa por uma decisão do ministro Kássio Nunes Marques, presidente do TSE. Como o Datafolha está acompanhando esse julgamento? Isso gera alguma preocupação?

Chong – Sim, e ainda tiveram outras ações do Kássio nesses meses: ele propôs a criação daquele selo de acurácia, em que a gente se colocou contra. O objetivo da pesquisa não é acertar o resultado final. Não faz sentido você premiar as empresas que estão acertando.

Por que a pesquisa é importante? Justamente para contar a história da eleição, entender quais segmentos são mais importantes para cada candidato, como as pessoas estão se posicionando e entendendo a eleição. Então, esse selo vai contra tudo o que a gente entende por pesquisa. Depois, ele veio também dizendo que queria que a gente registrasse os bairros onde vai ser realizada a pesquisa antes de a pesquisa acontecer. Isso seria gravíssimo, inviabilizaria a pesquisa.

Todo ano de eleição, a gente sabe que os políticos querem, de alguma forma, tentar proibir as pesquisas. Eles consomem muita pesquisa, acreditam nas pesquisas, porque contratam e usam mesmo para as campanhas, mas são contra as pesquisas divulgadas, que é o mais importante para o eleitor ter acesso.

Então, eu acho que essa decisão do ministro contra a Atlas é muito ruim, porque realmente o áudio estava no final do questionário. De forma alguma interferiu na hora de dar a resposta dos entrevistados. E os institutos já têm que ser muito transparentes. Já têm que registrar a metodologia, registrar o questionário, entregar os bairros em que é realizado. As ferramentas de controle já são suficientes. Então, acho que não precisaria de outras coisas, ainda mais agora, faltando pouquíssimo tempo para a eleição.

·        Como você disse, questionamentos aos institutos não são novidade. Surpreende essa movimentação vindo do TSE?

Chong – Sim, porque acho que nunca foi assim, tão perto da eleição. A resolução [do TSE com regras para as pesquisas] já foi publicada no início do ano.

·        Outros institutos apoiaram o selo proposto por Kássio Nunes Marques, como o Atlas Intel e o Paraná Pesquisas. Um argumento a favor é que ajudaria a tornar institutos menores mais conhecidos. Por que você discorda?

Chong – Porque vai contra o objetivo e a função da pesquisa. Se eu concordar com essa ideia, estou dizendo que a pesquisa tem que acertar o número final do TSE. E não é isso. A pesquisa tem que contar a história da eleição. A pesquisa é feita ao longo do período eleitoral para contar essa história e vai até a véspera da votação. A pesquisa de véspera é a última e, então, ela não pode ser comparada com a urna do TSE.

Tem sempre essas críticas de que "o instituto errou". Não acho certo falar que o instituto errou ou acertou. Tem alguns institutos que falam: "Ah, eu sou o que mais acerta".

Não é por aí, porque a pesquisa de véspera termina no sábado à tarde, ela não pode ser comparada com o resultado do TSE da votação de domingo. Porque as pessoas deixam para decidir depois, ou pode ser que o eleitor mude de ideia. Pode ser que, quando sair o resultado da pesquisa de véspera, por exemplo, sábado à tarde, a pessoa queira fazer um voto útil em algum sentido para tentar resolver a eleição em primeiro turno.

A única pesquisa que poderia ser comparada com o resultado do TSE seria a pesquisa de boca de urna realizada no dia da eleição. O Datafolha fazia isso quando ainda não tinha a urna eletrônica. Agora, a apuração é tão rápida que não justifica mais uma pesquisa cara. Mas seria a única que poderia confirmar: "Esse instituto acertou, esse instituto errou".

Do jeito que é hoje, não dá para criar um selo para premiar institutos, que é uma ideia que vai contra a razão de ser da pesquisa.

·        Em 2022, os institutos foram acusados de errar porque subestimaram os votos no Bolsonaro no primeiro turno. O resultado do TSE ficou acima da margem de erro do Datafolha. Isso não poderia indicar alguma necessidade de melhoria da metodologia, por exemplo?

Chong – O TSE não tem capacidade técnica de avaliar as metodologias dos institutos. Cada instituto vai adotar a metodologia que considera melhor. Não tem uma regra: "Essa é a melhor ou a outra pior". Cada um vai utilizar aquela em que acredita mais.

De fato, a gente ficou distante do número final [no primeiro turno de 2022], mas o que é importante? A pesquisa, durante o período eleitoral, apontou, durante todo o caminho, que era uma eleição polarizada, que os dois candidatos [Lula e Jair Bolsonaro] iriam para o segundo turno, que não teria uma chance da terceira via com Simone Tebet ou Ciro Gomes, que aquela polarização ia ser até o final.

Então, as pesquisas apontaram tudo isso, né? Apontaram o voto dos evangélicos, apontaram o voto das mulheres. É isso que é importante. E, quando chega no final, teve uma mudança de última hora dos eleitores do Ciro e da Tebet, que optaram pelo voto útil: "Ah, não tem chance mesmo, vou votar no Bolsonaro".

Essas mudanças acontecem cada vez com mais frequência. Acho que isso não é um sinalizador de que as pesquisas erraram, é um sinalizador de que tem mudança e cada vez mais rápido.

·        Como o Datafolha está usando inteligência artificial (IA) nas pesquisas?

Chong – Nós usamos como ferramenta para os nossos processos, fazer a checagem do material. O pesquisador vai com o tablet e as entrevistas são gravadas, a gente recebe esse áudio aqui na nossa sede, do Brasil inteiro. Aí, a IA transcreve essas entrevistas, e a gente consegue comparar com o que o pesquisador anotou no questionário.

Então, eu sei, por exemplo, se você respondeu que vai votar no Renan Santos, mas um pesquisador colocou que você não sabe. E, se está incoerente, a gente já consegue identificar isso rapidamente e ouvir as outras entrevistas desse pesquisador e identificar alguns problemas de forma bem rápida. Usamos as ferramentas da IA para esse auxílio, em várias etapas, mas não para criar questionário.

·        Essa checagem é feita em uma amostra da pesquisa.

Chong – Temos que checar pelo menos 20% do material de cada pesquisador. Se a gente identifica algum problema, aí a gente checa 100%, e, se for necessário, a gente faz a reposição desse material. Mas tudo tem que ser muito rápido, porque fazemos o [trabalho de] campo em dois, três dias.

A gente também consegue saber, pelo GPS do tablet, se o pesquisador realmente está no lugar determinado. O pesquisador vai para uma cidade, por exemplo, e tem dois pontos onde tem que fazer a pesquisa. Então, são todos controles de qualidade que a gente vai, a cada eleição, aprimorando justamente para garantir que essa coleta seja bem feita, porque tudo começa ali. Se tem algum problema de coleta, você não consegue resolver depois.

·        Com os avanços tecnológicos, a pesquisa online é cada vez mais comum. Por que o Datafolha mantém a pesquisa presencial?

Chong – Porque ainda é a melhor forma de garantir a melhor representatividade do universo. A gente está falando do Brasil, que é muito desigual. O que a gente vê na Região Sudeste e Região Sul é um cenário. Você vai para o Norte, o Nordeste, é outro completamente diferente.

A pesquisa eleitoral tem que ser representativa. Então, eu tenho que ter eleitores de cidades de pequeno, médio e grande porte. Eu tenho que ter eleitores com nível fundamental, que hoje, na nossa amostra, são mais de 30%. No online, eu não consigo ter essa representatividade, eu vou ter um percentual muito baixo de pessoas com baixa escolaridade. Eu não vou ter pessoas que moram em municípios pequenos do Norte, do Nordeste, mesmo do Sudeste.

A gente faz pesquisas online para outras coisas, como pesquisa de mercado, com outros públicos, outros segmentos. Funciona super bem, mas, para isso, ainda não dá. Numa pesquisa online, você tem que fazer uma ponderação muito maior dos resultados [na etapa de processamento dos dados] para conseguir representar o universo de eleitores. Na nossa pesquisa presencial, as nossas ponderações são mínimas, são só ajustes.

·        Você comentou sobre a importância da liberdade metodológica. É positivo ter diferentes metodologias no mercado e ferramentas de agregação de pesquisas, que mostram a tendência predominante das sondagens eleitorais?

Chong – Sim, acho super válido, porque se torna uma pauta. A gente está falando da pesquisa online porque tem instituto que faz pesquisa online. Quanto mais a gente discute pesquisa, metodologias e tudo mais, melhor é para o mercado de pesquisa, e vamos aprimorando cada vez mais.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

A teoria da revolução permanente

Embora seja mais lembrado como um dos principais dirigentes da Revolução ocorrida na Rússia em 1917, Leon Trotsky também apresentou contribuições fundamentais para compreender aquele processo, sistematizadas na teoria da revolução permanente. Essa sistematização foi realizada pela primeira vez por Leon Trotsky no livro Balanço e perspectiva, escrito em 1906.

Sua compreensão teórica partia das ideias expressas por Karl Marx e Friedrich Engels na análise da dinâmica da revolução de 1848, mostrando que aquele processo dirigido pela burguesia poderia significar a antessala da revolução socialista.

Essa aproximação de sua compreensão teórica com a de Marx e Engels foi assim apresentada por Leon Trotsky, em 1929: “A teoria da revolução permanente foi formulada pelos grandes comunistas de meados do século XIX, Marx e seus discípulos, para enfrentar a ideologia burguesa, que, como se sabe, pretende que, após o estabelecimento de um Estado ‘nacional’ ou democrático, todas as questões possam ser resolvidas pela via pacífica da evolução e das reformas. Marx não considera a revolução burguesa de 1848 senão como o prólogo imediato da revolução proletária”.

Essa aproximação também pode ser depreendida de textos do próprio Marx e Engels. Em texto clássico, assim analisavam o que chamavam de “reivindicações da democracia pequeno-burguesa”: “Quanto mais os indivíduos ou frações que compõem essa democracia avançarem, tanto mais assumirão como suas essas reivindicações e os poucos que reconhecem no que foi compilado acima o seu próprio programa julgariam que desse modo teriam proposto o máximo que se pode esperar da revolução. Porém essas reivindicações de modo algum podem bastar ao partido do proletariado. Ao passo que os pequeno burgueses democráticos querem levar a revolução a cabo de maneira mais célere possível e mediante a realização, quando muito, das demandas acima mencionadas, é de nosso interesse e é nossa tarefa tornar a revolução permanente até que todas as classes proprietárias, em maior ou menor grau, tenham sido alijadas do poder, o poder estatal tenha sido conquistado pelo proletariado e a associação dos proletários tenha avançado, não só em um país, mas em todos os países dominantes no mundo inteiro, a tal ponto que a concorrência entre os proletários tenha cessado nesses países e que ao menos as forças produtivas decisivas estejam concentradas nas mãos do proletariado”.

Leon Trotsky, em suas formulações teóricas, além de destacar o protagonismo dos trabalhadores na revolução, mostrou que as condições objetivas permitiam a tomada do poder pelos trabalhadores. Trotsky entedia que o desfecho desse processo dependia da dinâmica da luta de classes em âmbito internacional, na medida em que “a conciliação do desenvolvimento desigual da economia e da política só pode ser obtida na escala mundial”.

Trotsky afirmava: “Um país pode estar ‘maduro’ para a ditadura do proletariado e, contudo, não estar maduro ainda para a construção independente do socialismo, ou mesmo para grandes medidas de socialização. Não se deve tomar nunca como ponto de partida a harmonia pré-estabelecida da evolução social”.

Na obra de Leon Trotsky, essas elaborações teóricas estão relacionadas aos desdobramentos da análise da revolução russa de 1905. No desenvolvimento de sua teoria, além da análise do processo revolucionário russo e da situação do país diante da guerra contra o Japão, sistematizadas em Balanço e Perspectivas e em 1905 (1908), Leon Trotsky também escreveu A revolução permanente (1929), sob o impacto da revolução na China, em 1927.

Os dois primeiros mostram o debate direta com as principais dirigentes do Partido Operário Socialdemocrata da Rússia, no começo do século XX, e o terceiro se constitui em uma polêmica direcionada à ideia de “socialismo em um só país”, defendida por Joseph Stálin e seus epígonos.

Os marxistas russos apresentaram diferentes interpretações sobre a revolução de 1905. Na Rússia, a burguesia era um pilar de sustentação do czarismo e estava ligada de forma íntima ao imperialismo europeu. Essa situação impactava no processo revolucionário. Segundo Leon Trotsky, as tarefas da revolução democrática seriam incorporadas em um processo maior, de derrocada capitalista e de transformação da sociedade. O proletariado russo não precisaria esperar a revolução socialista nos demais países para tomar o poder, assumindo em sua revolução tarefas que a burguesia havia abandonado, ainda que a manutenção do poder soviético dependesse da vitória da revolução na Europa, sob risco de degenerar, como de fato ocorreu.

Não era interesse da burguesia russa, economicamente submissa aos países dominantes, a defesa da nação e de um desenvolvimento capitalista autônomo. Na Rússia, segundo Leon Trotsky, “o Estado tentava aproveitar-se dos grupos econômicos em desenvolvimento e subordiná-los a seus interesses financeiros e militares específicos. Os nascentes grupos econômicos dominantes tentaram se servir do Estado para assegurar seus privilégios na forma de privilégios de classe. Nesse jogo de forças sociais, a resultante foi muito mais favorável ao poder do Estado do que foi na história da Europa ocidental. Esse intercâmbio de serviços entre o Estado e os grupos sociais superiores, que se expressava na distribuição mútua de direitos e obrigações, de encargos e privilégios, se realizava à custa das massas trabalhadoras, e na Rússia foi ele foi menos vantajoso para a aristocracia e o clero do que nas monarquias de classes medievais da Europa ocidental”.

Leon Trotsky salienta que os países dominados, além de terem processos diferentes entre si, não repetem de forma mecânica o caminho dos países economicamente dominantes. Na Rússia conviviam concentrações industriais desenvolvidas com relações semifeudais no campo. Trotsky dizia que “a originalidade nacional representa o produto sumário e mais geral da desigualdade do desenvolvimento histórico”.

Esse processo, na compreensão de Leon Trotsky, é expressão da “aproximação das distintas etapas do caminho e à confusão de distintas fases, ao amálgama de formas arcaicas e modernas”.

Em contraste, segundo os mencheviques, haveria na Rússia uma revolução burguesa clássica, que faria a transição para o modo de produção capitalismo, levando a conquistas democráticas como reforma agrária, legalização dos partidos de oposição, voto republicano, entre outras.

Para os mencheviques, conforme afirma Pavel Akselrod em congresso realizado no ano de 1906, “as relações sociais na Rússia não amadureceram além do estágio da revolução burguesa: a história impele os trabalhadores e os revolucionários, com força crescente, na direção do revolucionarismo burguês – tornando-os servidores políticos involuntários da burguesia – em vez de conduzi-los na direção de um genuíno revolucionarismo socialista e da preparação tática e organizacional do proletariado para o exercício do poder político. No entanto, é a busca profunda e consequente desse objetivo que distingue a social-democracia, enquanto partido de classe do proletariado, de todos os outros grupos políticos ou ideológicos que possam reivindicar a denominação de socialistas”.

Nessa interpretação, os marxistas teriam o papel de organizar os trabalhadores em uma espécie de fração socialista do bloco dirigido pela burguesia, pressionando-o para que as conquistas do proletariado fossem a maioria possível. Leon Trotsky polemizou abertamente com essa perspectiva. Em 1908, afirmava: “a simples definição da revolução russa como uma revolução burguesa não diz nada acerca de seu desenvolvimento interno e não significa, por certo, que o proletariado deve adaptar sua tática à democracia burguesa porque esta última seria a única pretendente legítima do poder estatal”. Escrevendo em 1919, Trotsky dizia que “o ponto de vista menchevique partia do princípio de que nossa revolução seria burguesa, isto é, que sua consequência natural seria a transferência do poder à burguesia e a criação de condições para a existência de um parlamento burguês”.

Vladímir Lênin e Leon Trotsky divergiam dessa visão, particularmente no que se refere ao papel dirigente da burguesa, descartando qualquer possibilidade de unidade estratégica com estes setores na revolução. Contudo, Lênin não compartilhava da mesma perspectiva de Trotsky sobre o processo revolucionário de conjunto. Para o dirigente bolchevique, “embora reconhecendo a inevitabilidade do caráter burguês da revolução vindoura, apresentava como tarefa da revolução a criação de uma república democrática sob a ditadura do proletariado e do campesinato”.

Na compreensão de Vladímir Lênin, nessa ditadura democrática de operários e camponeses, a burguesia não assumiria a direção do processo, mas o proletariado e o campesinato não conseguiriam superar o programa da própria burguesia nem atacariam de forma radical a propriedade privada. Vladímir Lênin afirmava: “Objetivamente, a marcha histórica das coisas colocou agora ao proletariado russo exatamente a tarefa da revolução democrático burguesa (todo o conteúdo da qual nós designamos, por uma questão de brevidade, pela república); esta mesma tarefa se coloca a todo o povo, isto é, a toda massa da pequena burguesia e do campesinato; sem esta revolução é inconcebível qualquer desenvolvimento minimamente amplo da organização de classe independente para a revolução”.

Essa é a interpretação que embasa a análise que Vladímir Lênin fez da Revolução de Fevereiro, que rapidamente teria se esgotado, levando à necessidade de superação do regime burguês pelo poder dos sovietes, em 1917. Leon Trotsky, embora não negasse a necessidade de resolver as tarefas da revolução burguesa, entendia que o proletariado deveria assumir a direção do processo. Comentava a assim posição de Vladímir Lênin: “Lênin não resolvia, de antemão, a questão das relações políticas entre as duas partes da eventual ditadura democrática: o proletariado e os camponeses. Não excluía a possibilidade de os camponeses serem representados na revolução por um partido especial, independente não só da burguesia, mas também do proletariado, e capaz de fazer a revolução democrática se unido ao partido do proletariado na luta contra a burguesia liberal”.

Para Leon Trotsky, em oposição a Vladímir Lênin, a revolução não iria se limitar a formar uma república burguesa, com um governo democrático de coalizão de classes, para garantir ao capitalista russo o tempo necessário para se desenvolver. Contudo, a despeito dessa divergência, o centro de sua polêmica eram principalmente os mencheviques, que “tentavam sempre e em todas as partes descobrir indícios de desenvolvimento de uma democracia burguesa, e quando não encontravam, os imaginavam. Exageravam a importância de qualquer declaração ou discurso ‘democrático’ e subestimavam, ao mesmo tempo, a força do proletariado e as perspectivas e as perspectivas de sua luta”.

Leon Trotsky era enfático ao afirmar que a revolução na Rússia não repetiria a mesma dinâmica das revoluções burguesas ocorridas na Europa. Em 1906, dizia que “seria um erro grave simplesmente igualar nossa revolução com os acontecimentos dos anos 1789-1793 ou 1848. Analogias históricas, pelas quais o liberalismo vive e das quais se nutre, não podem substituir a análise social”.

Leon Trotsky enfatizava: “A história não se repete. Por mais que se queira comparar a revolução russa com a Grande Revolução Francesa, nem por isso a primeira se transforma em uma simples repetição da segunda. O século XIX não passou em vão”. Para Trotsky, as tarefas da revolução, tanto as democráticas como as socialistas, só poderiam ser realizadas pela ditadura revolucionária do proletariado.

O processo era assim apresentado: “a revolução começa como burguesa, mas rapidamente provoca poderosos conflitos de classes e só chega à vitória se transferir o poder à única classe capaz de se colocar à frente das massas oprimidas: o proletariado. Uma vez no poder, o proletariado não quer e nem pode se limitar ao marco de um programa democrático-burguês. A revolução só poderá ser levada a cabo se a revolução russa se converter em uma revolução do proletariado europeu. Então, será superado o programa democrático-burguês da revolução, junto com seu marco nacional, e a dominação política temporária da classe operária russa irá se prolongar até a uma ditadura socialista permanente. Mas se a Europa não avançar, então a contrarrevolução burguesa não tolerará o governo das massas trabalhadoras na Rússia e empurrará o país para trás – muito para trás da república democrática dos operários e camponeses. O proletariado, então, chegando ao poder, não deve se limitar ao marco da democracia burguesa, mas deve empregar a tática da revolução permanente, isto é, anular os limites entre o programa mínimo e o programa máximo da socialdemocracia, passar para reformas sociais cada vez mais profundas e buscar um apoio direto e imediato para a revolução na Europa ocidental”.

Esse processo cheio de particularidades levou o proletariado russo ao poder. Como parte de uma onda revolucionária internacional, outros países passaram por importantes lutas, chegando a tomar o poder por alguns meses, no caso da Hungria, ou sendo esmagada, no caso da Alemanha. Essas derrotas sofridas pelos trabalhadores europeus, somado à tentativa dos países imperialista de esmagar militarmente o poder soviético na Rússia, levou a um período de refluxo das lutas dos trabalhadores.

Leon Trotsky, analisando a situação política do período, afirma que, “até 1923, foram as derrotas dos movimentos e das insurreições do pós-guerra, devido, em um primeiro momento, à ausência e, em um segundo à imaturidade e a debilidade dos partidos comunistas”. Segundo Trotsky, observa-se, a partir de 1923, uma “mudança desfavorável na correlação de forças entre as classes no âmbito da política. O proletariado foi debilitado na Alemanha pela capitulação da direção em 1923; foi enganado e traído na Inglaterra por uma direção com a qual a Internacional Comunista tinha formado um bloco em 1926; na China, a política do CEIC lançou o proletariado na armadilha do Kuomintang em 1926-27”.

Esse processo de derrota da revolução e de refluxo nas lutas dos trabalhadores levaram ao fortalecimento da burocracia stalinista na União Soviética. Em 1929, Leon Trotsky alertava: “A revolução socialista começa no âmbito nacional, mas nele não pode permanecer. A revolução proletária não pode ser mantida em limites nacionais, senão sob a forma de um regime transitório, mesmo que este dure muito tempo, como demonstra o exemplo da União Soviética. No caso de existir uma ditadura proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam inevitavelmente, ao mesmo passo que os êxitos. Se o Estado proletário continuar isolado, ele, ao cabo, sucumbirá vítima dessas contradições. Sua salvação reside unicamente na vitória do proletariado dos países avançados. Desse ponto de vista, a revolução nacional não constitui um fim em si, apenas representa um elo na cadeia internacional. A revolução internacional, a despeito de seus recuso e refluxos provisórios, represente um processo permanente”.

Esses elementos mostram a atualidade da teoria da revolução permanente na medida em que a luta dos trabalhadores segue como um elemento político fundamental na realidade do capitalismo em âmbito internacional. O combate à ordem vigente permanece sendo uma perspectiva estratégica para muitos setores da esquerda. Nesse sentido, a vigência das ideias de Leon Trotsky e o legado de sua defesa da revolução proletária são elementos que apontam para a necessidade da vitória da revolução e a reflexão acerca do papel das organizações políticas dos trabalhadores.

¨      Por que o mundo deveria prestar mais atenção na África Oriental?

A região da África Oriental — que abrange países costeiros, como Quênia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Burundi, Etiópia, Somália, Djibuti, Eritreia e Sudão do Sul — vem chamando atenção nos últimos meses.

Ela reúne temas ligados a rotas comerciais e disputas territoriais, dentre as quais destacam-se as tensões em torno do rio Nilo; os conflitos na Somália, no Sudão do Sul e em partes da Etiópia; e a crescente competição entre China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia, Turquia e países do Golfo por influência econômica e militar.

A região também ocupa uma posição estratégica por abrigar o chifre da África e por estar próximo ao estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais passagens marítimas para o comércio entre a Europa e a Ásia. Ao mesmo tempo, projetos de infraestrutura, iniciativas de integração regional e a exploração de minerais críticos e gás natural ampliam sua relevância econômica e geopolítica, enquanto as rotas comerciais e marítimas reforçam a disputa por influência sobre o território e os recursos da região.

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Jacqueline Wahbeh, pesquisadora, professora e mestre em história pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), aborda a posição da Etiópia na região. Embora o país seja uma das principais potências políticas e militares da África Oriental, a especialista avalia que esse protagonismo é disputado com o Egito.

Um dos principais pontos dessa disputa está no uso das águas do rio Nilo. A construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), no Nilo Azul, tornou-se foco de tensão entre os dois países e também o Sudão. Para Adis Abeba, o projeto amplia a geração de eletricidade e pode beneficiar outros países da região, enquanto Cairo mantém preocupações sobre a disponibilidade de água.

Acima de tudo, Wahbeh enxerga que a construção da barragem também pode representar uma oportunidade de desenvolvimento regional, caso haja um acordo entre os países envolvidos. O projeto poderia gerar empregos e estimular a industrialização.

"Se houvesse um acordo para que […] esse desenvolvimento pudesse ser sentido por todos os países da região, ele seria extremamente positivo."

A posição da Etiópia também é condicionada pela ausência de acesso direto ao mar. Boas relações com Eritreia, Somália e Djibuti são, portanto, estratégicas para o escoamento e a entrada de mercadorias. A região é ainda mais crucial pela proximidade com o mar Vermelho e o canal de Suez, importantes vias comerciais entre Ásia e Europa, além do petróleo.

Essa localização faz com que conflitos e instabilidades tenham potencial de repercussão internacional, sobretudo com os conflitos no Oriente Médio. Assim, a região é "um ponto extremamente estratégico entre Oriente e Ocidente".

<><> Conflitos que transbordam fronteiras

Outros países da região também ajudam a explicar a complexidade desse cenário. As disputas em países como Sudão do Sul, Uganda e República Democrática do Congo ultrapassam as fronteiras nacionais e provocam um grande fluxo de refugiados.

A crise não pode ser entendida, portanto, apenas como um problema interno, avalia a pesquisadora, já que diferentes interesses externos contribuem para sua manutenção, especialmente de atores ligados à dinâmica do mar Vermelho.

"Isso teria a ver muito mais com uma série de outros envolvidos e outros interesses que financiam esse acontecimento."

Por fim, a pesquisadora destaca que muitos desses pontos de tensão têm origem em fronteiras estabelecidas durante o período colonial.

"Grande parte dos conflitos hoje […] não vai estar exclusivamente vinculada aos países como uma entidade política."

 

Fonte: Por Michel Goulart da Silva, em A Terra é Redonda/Sputnik Brasil