terça-feira, 18 de agosto de 2026

Big Techs e crise na fronteira: Brasil vê risco de ‘armadilhas’ dos EUA na eleição

O governo brasileiro teme que as próximas semanas sejam marcadas por ações orquestradas por parte de grandes plataformas digitais, com o objetivo de criar uma turbulência política no país e influenciar a eleição. No mapeamento que se faz em Brasília sobre os riscos para a eleição, uma eventual “armadilha” militar na fronteira com a Colômbia tampouco estaria fora do radar. Com suspensão de vistos, tarifas, sanções e ofensas americanas, Brasília considera que existe uma ingerência do governo Trump desde 2025, que a eleição de outubro é revelante para a estratégia dos EUA e que a ofensiva pode ganhar ainda mais força até outubro.

Ao longos dos últimos meses, membros do governo tentaram entender por onde poderia vir os próximos lances dessa ingerência e de um processo de desestabilização. A principal aposta é de que o instrumento usado para isso seja o impulsionamento de desinformação a partir de fora do país, com a possibilidade de plataformas agindo de forma subterrânea para impactar na opinião pública.

A operação repetiria o modelo que acaba de ser adotado com êxito na eleição Colômbia e, há poucos meses, em Honduras. Ambos garantiram a vitória de aliados de Donald Trump. Trabalhar com o “medo” da população também poderia ser um instrumento que tem sido avaliado como um risco por parte do Brasil para abalar padrões de votos. Para autoridades brasileiras, as cenas de 70 mil imigrantes em Ceuta, a partir da difusão de uma desinformação, reforçaram a tese de uma orquestração para abalar democracias.

No Brasil, chegou a ser considerado como fluxos migratórios poderiam ser instrumentalizados, como no caso de haitianos, afegãos e, principalmente, cubanos. Por enquanto, porém, isso não ocorreu. A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silvas nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e que uma operação de manipulação poderia virar votos suficientes para transformar a eleição em um dos momentos mais tensos do país em décadas.

Membros do governo ainda vão estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, beneficiados por uma forte atividade de narrativas que viriam de fora desses países. No caso do pleito em Bogotá, o que se observou foi uma proliferação intensa de Inteligência Artificial e de DeepFake. Uma das estratégias seria o impulsionamento de desinformação a partir de perfis falsos, criados nos exterior. O material poderia promover mudanças abruptas na opinião pública, faltando poucos dias para a eleição e capaz de virar votos.

O cálculo do envolvimento das plataformas é por conta do impacto de uma reeleição para o setor. O governo estima que as Big Techs seriam os grandes perdedores com a vitória de Lula. Se o petista vencer, a estimativa é de que poderia usar seu quarto mandato para promover uma regulamentação das redes digitais e das Bets. Um possível retorno do ativismo de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de realizar provocações em eleições em todo o mundo, às vésperas do pleito. Esperar até o último momento para fazer a operação também impediria que houvesse tempo suficiente para investigações e eventuais denúncias do envolvimento de um grupo ou outro no processo de desestabilização.

<><> Armadilha na fronteira com Colômbia

O governo brasileiro também vê com preocupação e diz estar “atento” ao anúncio de que militares americanos passarão a agir dentro do território da Colômbia, supostamente para lutar contra cartéis. A informação foi dada pelo próprio secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, nesta semana. Segundo ele, os americanos passarão a agir por terra na América Latina. Ainda que o narcotráfico colombiano esteja localizado longe da fronteira com o Brasil, autoridades não descartam atos “fabricados” perto do território nacional, eventualmente para usar como “isca” para uma ação de militares brasileiros para defender a soberania do país. Neste caso, uma tensão militar estaria criada e, assim, todo o debate político e eleitoral no Brasil seria abalado.

Uma armadilha nessa região do mundo não seria inédito. O governo brasileiro tem em mente a crise que foi criada quando o então presidente colombiano e aliado dos EUA, Alvaro Uribe, orquestrou uma suposta tensão militar na fronteira com o Equador de Rafael Correa, na época. No mapeamento dos riscos, outra hipótese avaliada foi a instrumentalização de algum ato antissemita, causando um impacto popular importante e um suposto envolvimento do Hezbollah, Hamas ou outros grupos que mexem com o imaginário coletivo. Um dos epicentros poderia ser a Tríplice Fronteira, já declarada pelo governo Trump como local “sensível”.

¨      A reeleição de Lula ameaçada pela invasão cibernética dos EUA. Por Jeferson Miola

Sem nenhum apego pela soberania nacional, o ministro da Defesa Múcio Monteiro disse que “se os Estados Unidos quiserem invadir o Brasil, temos que abrir o portão” – o que significa facilitar a invasão do país sem apor nenhuma resistência ao invasor.

A infeliz declaração deste ministro que é a pessoa errada, na hora errada, para o cargo errado, é ainda mais preocupante porque é pronunciada no contexto da guerra Trump-bolsonarista contra a reeleição do presidente Lula e, sendo ele, Múcio, quem exerce a direção superior das Forças Armadas e é o titular do “órgão incumbido de coordenar o esforço integrado de defesa, visando contribuir para a garantia da soberania, em prol da sociedade brasileira” [competências do Ministério da Defesa, Lei 14.600/2023].

Os EUA contam com a colaboração interna da extrema-direita entreguista nesta ofensiva contra o Brasil, que é travada em duas dimensões interligadas.

A primeira dimensão, visível e declarada, se materializa nos ataques à soberania, à economia, ao judiciário e ao Presidente da República. O arsenal são as medidas como tarifaço, sanções, classificação de facções criminosas como terroristas e retirada de visto da embaixadora em Washington.

A segunda dimensão, articulada com a anterior, é operada de modo oculto, clandestino, por big techs sediadas nos Estados Unidos que usam inteligência artificial, deepfakes, disseminação de desinformação e mentiras nas plataformas digitais.

Processo bidimensional análogo, que combina ações visíveis e operações clandestinas está em curso em Cuba. Por um lado, o governo Trump impõe restrições mortais de combustível à Ilha, e em paralelo a CIA atua com uma força-tarefa secreta para desestabilizar e mudar o regime.

Indícios evidenciam que o ataque ao Brasil segue o padrão de interferência externa observada nas eleições na Colômbia, Honduras e Peru.

A corrida migratória de mais de 50 mil marroquinos em Ceuta, impulsionada pela notícia falsa disseminada nas plataformas digitais de que a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol estaria liberada, reacendeu o alerta sobre o papel das redes sociais em golpes, crises, conflitos, desestabilização e destruição da democracia nos países alvos de ataques cibernéticos.

A esse respeito, a cientista política estadunidense Barbara F. Walter descreve no livro Como as guerras civis começam e como impedí-las que, “à medida que as informações falsas [propagadas via redes sociais] penetravam nos países e atraíam cada vez mais atenção, um padrão muito claro emergiu: as facções étnicas cresceram, as divisões sociais se aprofundaram, o ressentimento contra imigrantes se agravou, populistas truculentos foram eleitos e a violência começou a aumentar”.

A autora entende que as redes funcionam como “veículo que leva ao poder outsiders com impulsos autocráticos surfando uma onda de apoio popular”.

<><> O Brasil ante a invasão dos EUA

A resposta do governo brasileiro à primeira dimensão da guerra Trump-bolsonarista contra a reeleição do presidente Lula foi internacionalmente elogiada, sendo destacada a altivez no enfrentamento do tarifaço. Nos últimos dias, a reação soberana do Brasil avançou com o início do processo de reciprocidade à guerra tarifária.

O mesmo, no entanto, não se pode afirmar a respeito dos bombardeios cibernéticos que deformam a opinião pública e que criam uma realidade distópica com desinformação, mentiras, notícias falsas, destruição de reputações e ataques ao sistema eleitoral.

As pesquisas eleitorais podem servir de termômetro para a aferição dos efeitos da distopia criada a partir do ambiente digital.

Chama atenção o congelamento das intenções de votos expressos nas pesquisas, que captam um cenário de empate congelado, com Lula estacionário num teto eleitoral baixo, apesar das realizações do governo; e Flávio Bolsonaro sustentando um estranho padrão de resiliência, a despeito do que se conhece da família de gângsteres e os recentes escândalos de corrupção.

Em outros tempos, de realidades nem tão distópicas, um personagem enlameado como Flávio Bolsonaro provavelmente teria como única opção renunciar à candidatura.

A polarização em si e o antipetismo fomentado odiosamente pela mídia hegemônica há pelo menos 20 anos não explicam o fenômeno. Além disso, é improvável a existência de uma fraude orquestrada dos institutos de pesquisa, porque os levantamentos das campanhas também detectam essa fotografia.

Até mesmo quando caíram as intenções de voto do Flávio devido aos 61 milhões recebidos de Daniel Vorcaro não houve deslocamento de eleitores para Lula ou para os demais candidatos de direita e ultradireita. Existirá alguma engrenagem poderosa, que opera para destruir a imagem de Lula e preservar a do filho do Bolsonaro?

É de se suspeitar, portanto, de algo mais sério e profundo, como a manipulação da opinião pública através das plataformas digitais, no contexto de uma guerra cibernética coordenada desde o estrangeiro.

<><> A guerra cibernética para impedir a reeleição do Lula

Na estratégia de intervencionismo e desestabilização regional, Trump articula organicamente seus aliados no hemisfério latinoamericano.

Peter Thiel, dono da Palantir Technologies, empresa especializada em big data e inteligência artificial que trabalha para agências de defesa, forças de segurança e grandes corporações norte-americanas no mundo, passou a viver em Buenos Aires, a sede do “vice-reinado” da potência imperial na América do Sul.

“Com certeza ele [Thiel] não se instalou na Argentina para comer parrilla [churrasco]”, afirmou o professor e cientista político José Luís Fiori.

Reynaldo Aragon, jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia alerta que, com o biombo do combate extraterritorial a facções criminosas transnacionais, “a Casa Branca instituiu um programa para autorizar empresas privadas norte-americanas a executarem operações cibernéticas sob direção e controle [de Washington], com operações clandestinas de vigilância e operações capazes de produzir efeitos concretos sobre sistemas, redes e infraestruturas” dos países-alvo.

Ele explica que “as chamadas Cyber Effects Operations podem manipular, interromper, negar acesso, degradar ou destruir sistemas de informação, redes e infraestrutura física ou virtual controlada digitalmente”.

Trata-se, efetivamente, de um complexo arsenal de guerra cibernética que confronta o Brasil com uma debilidade estrutural. Nosso país não dispõe de uma institucionalidade civil, com comando e inteligência civil de defesa cibernética. Essa área sensível e estratégica é praticamente toda controlada pelas Forças Armadas, sobretudo o Exército.

<><> Os militares e a invasão cibernética do Brasil

A defesa cibernética do Brasil está sob a responsabilidade fundamental dos militares através do Comando de Defesa Cibernética [ComDCiber], implantado em outubro de 2014, que atribuiu ao Exército a coordenação do sistema de defesa cibernética nacional que integra a Marinha e a Aeronáutica.

Mesmo as instituições civis com atuação na área e vinculadas à Presidência da República são dirigidas por militares, como é o caso [1] do Gabinete de Segurança Institucional [GSI], órgão colonizado por militares que durante o período Bolsonaro teve um papel central na trama golpista, e é responsável pela coordenação de cibersegurança do Estado; e [2] o Comitê Nacional de Cibersegurança [CNCiber], colegiado integrado por órgãos governamentais e representantes da sociedade civil, porém presidido pelo até hoje militarizado GSI.

Quando se despediu da chefia da Comunicação do Exército, cargo que ocupou durante toda a gestão do general-conspirador Villas Bôas para assumir a função de porta-voz do Bolsonaro, o general Rêgo Barros discursou orgulhoso que “o Exército Brasileiro mergulhou de cabeça no ‘submundo’ das mídias sociais, e se tornou o órgão público com maior influência no mundo digital no Brasil”.

A responsabilidade pela defesa da soberania popular e da democracia brasileira contra a intervenção estrangeira está ao encargo sobretudo daquele setor que promoveu a trama golpista.

A ameaça é concreta, com traidores do Brasil se aliando à potência agressora para tentar promover, mais uma vez, um golpe na democracia para se apoderarem das riquezas do povo brasileiro e colocarem o País de joelhos perante Trump.

A reeleição do presidente Lula está ameaçada pela invasão cibernética dos EUA. Estamos diante do monumental e urgente desafio de defender a soberania nacional e popular desde a perspectiva civil e democrática.

 

Fonte: Por Jamil Chade, em ICL Notícias

 

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