Do
Lula do Velho Testamento ao Lula conciliador: o que restou do programa de 1989
Havia
um outro Lula antes do Lula.
Trinta
e sete anos depois de disputar pela primeira vez a Presidência, Luiz Inácio
Lula da Silva lançou neste domingo sua campanha em busca de um quarto mandato
no Palácio do Planalto. O ato ocorreu em São Bernardo do Campo, onde começou
sua trajetória política.
A
ocasião permite olhar para o ponto de partida. Em 1989, a campanha Lula-Bisol
apresentou um programa econômico que, relido hoje, parece em alguns trechos
pertencer a outro personagem – e a outro Brasil.
Lula
defendia suspender o pagamento da dívida externa e os acordos com o Fundo
Monetário Internacional, fortalecer estatais e bancos públicos, combater a
“ciranda financeira” e duplicar o valor real do salário mínimo no primeiro ano.
Era,
por assim dizer, o Lula do Velho Testamento: mais confrontador, com adversários
econômicos claramente identificados e convencido de que o desenvolvimento
exigia uma mudança profunda nas relações entre Estado, capital e trabalho.
Boa
parte daquele receituário desapareceu. Mas não tudo.
Política
industrial, estatais estratégicas, valorização salarial, segurança energética,
soberania tecnológica e um Estado capaz de orientar investimentos atravessaram
as décadas e estão novamente no programa com que Lula pretende disputar seu
quarto mandato.
Entre o
Lula do Velho Testamento e o Lula conciliador, sobreviveram mais os objetivos
do que os métodos.
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De romper com o FMI a reformar o FMI
Talvez
nenhuma proposta mostre melhor a transformação de Lula do que a dívida externa.
Em 1989, o programa defendia suspender os pagamentos e os acordos com o FMI. A
dívida era tratada como restrição à soberania e à capacidade do Estado de
investir.
Quando
chegou ao poder, Lula tomou o caminho inverso. O Brasil honrou os compromissos,
acumulou reservas de cerca de US$ 300 bilhões e, em 2005, quitou
antecipadamente suas obrigações com o FMI. A busca por autonomia externa
permaneceu. O instrumento mudou: em vez de moratória, reservas; em vez de
romper com o Fundo, pagar a dívida.
O
contraste chega ao programa atual. Agora, Lula propõe reformar e democratizar o
FMI e o Banco Mundial, ao mesmo tempo em que fortalece instituições como o
banco dos BRICS.
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“Precisamos delas”
O
programa de 1989 reservava às empresas públicas um capítulo com título
inequívoco: “Precisamos delas.” A ideia era preservar sob controle estatal
empresas consideradas essenciais ao desenvolvimento e recuperar a capacidade de
planejamento econômico de longo prazo.
Essa
visão sobreviveu, embora dentro de outra estrutura econômica.O programa atual
atribui novamente papel estratégico à Petrobras. Defende mais investimentos em
exploração, refino, gás e transição energética, conteúdo local e até o retorno
da companhia à distribuição de combustíveis. Mas a Petrobras de hoje é uma
empresa de capital aberto, submetida à governança corporativa e com acionistas
privados. O Estado estratégico permaneceu. A estatização como horizonte, não.
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Da “ciranda” ao capital privado como parceiro
Outro
capítulo de 1989 – auge da hiperinflação brasileira – prometia “acabar a
ciranda” financeira. O programa criticava a concentração bancária e o peso das
aplicações financeiras de curto prazo, ao mesmo tempo em que defendia
fortalecer os bancos públicos e direcionar crédito para o investimento
produtivo.
É
justamente aí que aparece uma das maiores mudanças. O programa atual não
pretende substituir o capital privado. Quer mobilizá-lo. Na política
industrial, propõe combinar crédito público e privado, compras governamentais,
concessões, regulação, conteúdo local e incentivos às empresas brasileiras.
No Novo
PAC, celebra um modelo que reúne Orçamento público, estatais, setor privado e
financiamentos, além de concessões de infraestrutura. O Estado deixou de
aparecer como alternativa ao mercado e passou a ser apresentado como seu
indutor.
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O salário mínimo: objetivo mantido, método diferente
Em
1989, Lula prometia duplicar o valor real do salário mínimo em apenas um ano.
Nunca fez isso. No governo, adotou uma estratégia gradual de ganhos reais do
mínimo, combinada com crescimento do emprego, expansão do crédito e
transferência de renda. A valorização salarial, porém, permanece no programa
atual como elemento explícito da política de redução das desigualdades.É outra
constante da trajetória: o objetivo permaneceu; o radicalismo do instrumento
diminuiu.
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A política industrial foi embora — e voltou
Talvez
seja a parte do documento de 1989 que mais surpreenda quando lida hoje. Lula já
defendia modernização industrial, desenvolvimento tecnológico, planejamento de
longo prazo e menor dependência externa.
Durante
anos, parte dessa agenda perdeu espaço com a abertura econômica e a
globalização. Nas últimas décadas, porém, política industrial voltou ao centro
da disputa internacional, com Estados Unidos, China e Europa investindo
pesadamente em tecnologia e cadeias estratégicas.
Lula
também voltou a ela. Seu programa atual pretende aprofundar a
neoindustrialização com foco em inteligência artificial, minerais críticos,
inovação, produtividade e soberania tecnológica. Defende ainda agregar valor
aos minerais antes da exportação, verticalizar cadeias e aumentar o conteúdo
tecnológico da produção brasileira. Nesse ponto, existe uma linha clara entre
1989 e 2026.
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Agora há responsabilidade fiscal
Há,
contudo, uma expressão no programa atual que ajuda a medir a distância
percorrida: responsabilidade fiscal. O documento promete manter o arcabouço
fiscal, controlar o crescimento das despesas, melhorar a qualidade do gasto e
buscar juros mais baixos com inflação controlada e política fiscal responsável.
É difícil imaginar esse vocabulário ocupando posição semelhante no programa de
1989.
O
terceiro mandato também passou a apresentar proteção social e equilíbrio das
contas públicas como objetivos simultâneos. A conciliação, portanto, não é
apenas política. Virou parte do modelo econômico. O Lula conciliador É isso que
distingue mais claramente os dois Lulas.
Em
1989, o mundo econômico era organizado em campos mais nítidos: trabalhadores e
capital, Estado e mercado, produção e especulação, soberania e credores
internacionais.
O
programa atual combina Estado e mercado: crédito público e privado, estatais e
concessões, política industrial e investimento empresarial. A diferença é que o
Estado já não aparece como substituto do mercado, mas como agente capaz de
orientá-lo. Em 1989, Lula queria redistribuir o poder econômico; em 2026, quer
direcionar o capital para os objetivos de seu projeto de desenvolvimento.
¨ Lula: o Brasil está
pronto para muito mais
Em um
pronunciamento direto e de forte apelo popular, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva convocou a sociedade brasileira a refletir sobre o futuro do país e a
importância da soberania do voto popular. Com uma fala direcionada às famílias
trabalhadoras, Lula ressaltou que o Brasil alcançou um patamar de maturidade
institucional e econômica que permite alçar voos ainda maiores.
“Hoje
eu posso dizer para vocês: o Brasil está pronto como nunca esteve para muito
mais. E eu quero participar dessa história junto com você, porque é para você
que eu quero que o Brasil melhore, não é para mim”, afirmou.
O voto
como expressão de soberania popular
O cerne
da mensagem de Lula concentrou-se na despersonalização da política em favor do
projeto coletivo de nação. Ao abordar a decisão eleitoral, o presidente
destacou que a escolha nas urnas não deve ser encarada como uma concessão
individual a candidatos, mas como uma aposta consciente no próprio futuro e nas
aspirações de cada cidadão.
- Consciência de
classe e projeto: Lula enfatizou que o eleitor deve colocar em
primeiro plano suas próprias demandas por dignidade, emprego e bem-estar
social.
- Autonomia do
eleitor: “Você
não precisa votar em mim. Vote em você, vote no seu desejo, vote no seu
sonho, vote na crença que você tem de quem pode fazer as coisas pelo
Brasil”, pontuou.
- Tranquilidade
democrática: Para
o presidente, o voto consciente garante a paz de espírito necessária para
quem constrói o país diariamente.
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Antítese do retrocesso
Ao
alertar para os riscos da desilusão política e das escolhas contraditórias aos
interesses da classe trabalhadora, Lula traçou uma linha clara contra projetos
que representem a destruição de direitos e o empobrecimento da população.
“Durma
tranquilo. Se você fizer isso, você pode dormir tranquilo. O que você não pode
é votar em alguém que pensa exatamente o contrário ao que você sonha”, advertiu.
A
declaração reforça a estratégia do governo de conectar a estabilidade
socioeconômica à necessidade de continuidade de políticas de inclusão,
soberania nacional e justiça distributiva, projetando um horizonte de
desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.
¨ Reeleição de Lula
fortalece a democracia e o desenvolvimento do País, afirma Alckmin
O
vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a reeleição do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva durante o ato de oficialização da candidatura realizado na Vila
Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Em discurso marcado por
referências ao movimento sindical, à redemocratização e à retomada da
indústria, Alckmin afirmou que um novo mandato de Lula representaria a
continuidade das conquistas sociais, econômicas e ambientais obtidas pelo país.
As
declarações foram feitas pelo próprio Alckmin durante a cerimônia de
oficialização da candidatura de Lula. Ao lembrar o papel histórico da Vila
Euclides nas mobilizações de trabalhadores contra a ditadura, o vice-presidente
recorreu a uma metáfora futebolística para relacionar a luta democrática do fim
dos anos 1970 ao atual projeto político liderado pelo presidente. “Uma alegria,
presidente, estar aqui na Vila Euclides. Aqui quem faz o gol é a democracia.”
Alckmin
afirmou que as mobilizações conduzidas pelos trabalhadores mostraram que
direitos sociais e justiça tributária dependem da existência de liberdade
política. “Foi aqui que os trabalhadores nos ensinaram que justiça tributária
só ocorre com liberdade política. Foi aqui que o time entrou não para empatar,
porque jogou contra a ditadura, contra a opressão, contra a carestia. Entrou
para ganhar, presidente Lula”, declarou.
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Alckmin relembra papel dos trabalhadores na redemocratização
Ao
reconstruir simbolicamente a mobilização de 1979, Alckmin disse que a
organização política partiu das fábricas e dos sindicatos e contou com o apoio
de diferentes setores da sociedade. “E esse time de 79, quem fez a armação foi
dentro das fábricas. Quem escalou o time foram os sindicatos, na defesa, a zaga
da legalidade, com a coragem e o senso de justiça de Sobral Pinto e Pere
Bandeira de Mello.”
O
vice-presidente também citou trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes,
juristas e organizações da sociedade civil como participantes daquele processo.
“A armação e o meio de campo foram os trabalhadores, artistas, cientistas,
estudantes, juristas, a sociedade civil organizada, unida. E quem marcou o gol
foi o Brasil.”
Na
sequência, Alckmin colocou a classe trabalhadora no centro das transformações
políticas daquele período e atribuiu a Lula protagonismo na articulação daquele
movimento. “O centroavante, presidente, foi a valorosa classe trabalhadora, que
rompeu barreiras, que avançou, suou a camisa para a vitória. E quem empolgou a
camisa 10, ou melhor, a camisa 13 da esperança, foi ele, ele mesmo, Luiz Inácio
Lula da Silva.”
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Vice-presidente associa reeleição à continuidade das conquistas
Ao
tratar da atual disputa política, Alckmin afirmou que o grupo reunido em torno
de Lula está mais amplo e citou nomes como Fernando Haddad, Márcio França,
Simone Tebet e Marina Silva. “E hoje, presidente, estamos aqui de volta com um
time ainda renovado mais ainda em São Paulo, com Fernando Haddad, Márcio
França, Simone Tebet, Marina Silva, para garantir o avanço das conquistas.”
Segundo
o vice-presidente, a permanência de Lula no Palácio do Planalto teria impacto
direto sobre a preservação das instituições democráticas e a expansão das
políticas públicas. “A reeleição do presidente Lula, ela fortalece a
democracia. Ela faz avançar ainda mais as conquistas da nossa população.”
Alckmin
enumerou indicadores e áreas que, segundo ele, apresentaram avanço durante o
governo. “Cresceu o emprego, cresceu a renda, cresceu o PIB, cresceu a
educação, cresceu a saúde, cresceu a proteção ao meio ambiente”, afirmou,
utilizando a sequência para sustentar a defesa da continuidade do projeto
governista.
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Retomada industrial ganha destaque no discurso
Ao
falar no ABC paulista, região historicamente associada à indústria
automobilística, Alckmin reservou parte do pronunciamento para destacar a
política industrial. “E estando aqui no ABC, nesse centro da indústria,
permita, presidente Lula, que fale um minuto da nova Indústria Brasil.”
O
vice-presidente comparou o atual cenário industrial com o período do governo
anterior e mencionou o encerramento de unidades de diferentes montadoras. “No
governo passado, fechou, só para citar a indústria automobilística, fechou a
Mercedes-Benz aqui em São Paulo, em Aracemápolis, fechou a Ford na Bahia,
fechou a Troller no Ceará.”
Em
contraposição, Alckmin citou investimentos e operações industriais instalados
em antigas unidades produtivas. “Com o presidente Lula, onde tinha a Mercedes,
hoje está a GWM produzindo veículos. E uma segunda fábrica, presidente, no
Espírito Santo, começando. Onde estava a Ford, hoje está a BYD produzindo
veículos para o Brasil inteiro. Onde estava a Troller, presidente, está a
General Motors associada.”
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Alckmin cita reabertura de fábrica e avanço das exportações
O
vice-presidente mencionou ainda a retomada das atividades de uma unidade
industrial em Jacareí, no interior paulista, como exemplo da recuperação do
setor. “A Vibraz aqui do lado, em Jacareí, fechou há cinco anos atrás, reabriu
mês passado com 480 trabalhadores e vai crescer muito mais.”
Outro
ponto destacado foi o desempenho das exportações e a celebração de acordos
comerciais. “Cresceu, presidente, a exportação. O presidente Lula fez acordo
Mercosul-Singapura, que está alavancando a indústria de máquinas.
Mercosul-EFTA, Mercosul-União Europeia, aguardada há 25 anos.”
Alckmin
afirmou que os entendimentos comerciais já estariam produzindo resultados para
as vendas brasileiras ao exterior. “Em dois meses de vigência, aumentou 4% a
exportação brasileira”, declarou, antes de manifestar confiança no resultado da
disputa eleitoral e reforçar a unidade da coligação.
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Soberania encerra defesa de novo mandato de Lula
Na reta
final do pronunciamento, o vice-presidente voltou a citar a importância
simbólica da Vila Euclides e afirmou que o grupo político está mobilizado em
torno da candidatura. “Tenho confiança absoluta. Nós estamos aqui nessa
histórica Vila Euclides, unidos, unidos, unidos, para uma grande vitória, etc,
etc, etc.”
Alckmin
vinculou a campanha à defesa da soberania nacional, do país e da população. “E
é em defesa da soberania, é em defesa do nosso PICS, é em defesa do nosso
Brasil, é em defesa do povo, que vamos juntos.”
O
vice-presidente encerrou o discurso com uma mensagem de mobilização e defesa da
independência nacional. “Terra boa, gente brasileira, vamos juntos. É pátria
livre, pátria livre, soberania. Um grande abraço.”
Fonte:
Por André Vieira, em Brasil 247

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