terça-feira, 18 de agosto de 2026

Do Lula do Velho Testamento ao Lula conciliador: o que restou do programa de 1989

Havia um outro Lula antes do Lula. 

Trinta e sete anos depois de disputar pela primeira vez a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva lançou neste domingo sua campanha em busca de um quarto mandato no Palácio do Planalto. O ato ocorreu em São Bernardo do Campo, onde começou sua trajetória política.

A ocasião permite olhar para o ponto de partida. Em 1989, a campanha Lula-Bisol apresentou um programa econômico que, relido hoje, parece em alguns trechos pertencer a outro personagem – e a outro Brasil.

Lula defendia suspender o pagamento da dívida externa e os acordos com o Fundo Monetário Internacional, fortalecer estatais e bancos públicos, combater a “ciranda financeira” e duplicar o valor real do salário mínimo no primeiro ano.

Era, por assim dizer, o Lula do Velho Testamento: mais confrontador, com adversários econômicos claramente identificados e convencido de que o desenvolvimento exigia uma mudança profunda nas relações entre Estado, capital e trabalho.

Boa parte daquele receituário desapareceu. Mas não tudo.

Política industrial, estatais estratégicas, valorização salarial, segurança energética, soberania tecnológica e um Estado capaz de orientar investimentos atravessaram as décadas e estão novamente no programa com que Lula pretende disputar seu quarto mandato.

Entre o Lula do Velho Testamento e o Lula conciliador, sobreviveram mais os objetivos do que os métodos.

<><> De romper com o FMI a reformar o FMI

Talvez nenhuma proposta mostre melhor a transformação de Lula do que a dívida externa. Em 1989, o programa defendia suspender os pagamentos e os acordos com o FMI. A dívida era tratada como restrição à soberania e à capacidade do Estado de investir.

Quando chegou ao poder, Lula tomou o caminho inverso. O Brasil honrou os compromissos, acumulou reservas de cerca de US$ 300 bilhões e, em 2005, quitou antecipadamente suas obrigações com o FMI. A busca por autonomia externa permaneceu. O instrumento mudou: em vez de moratória, reservas; em vez de romper com o Fundo, pagar a dívida.

O contraste chega ao programa atual. Agora, Lula propõe reformar e democratizar o FMI e o Banco Mundial, ao mesmo tempo em que fortalece instituições como o banco dos BRICS.

<><> “Precisamos delas”

O programa de 1989 reservava às empresas públicas um capítulo com título inequívoco: “Precisamos delas.” A ideia era preservar sob controle estatal empresas consideradas essenciais ao desenvolvimento e recuperar a capacidade de planejamento econômico de longo prazo.

Essa visão sobreviveu, embora dentro de outra estrutura econômica.O programa atual atribui novamente papel estratégico à Petrobras. Defende mais investimentos em exploração, refino, gás e transição energética, conteúdo local e até o retorno da companhia à distribuição de combustíveis. Mas a Petrobras de hoje é uma empresa de capital aberto, submetida à governança corporativa e com acionistas privados. O Estado estratégico permaneceu. A estatização como horizonte, não.

<><> Da “ciranda” ao capital privado como parceiro

Outro capítulo de 1989 – auge da hiperinflação brasileira – prometia “acabar a ciranda” financeira. O programa criticava a concentração bancária e o peso das aplicações financeiras de curto prazo, ao mesmo tempo em que defendia fortalecer os bancos públicos e direcionar crédito para o investimento produtivo.

É justamente aí que aparece uma das maiores mudanças. O programa atual não pretende substituir o capital privado. Quer mobilizá-lo. Na política industrial, propõe combinar crédito público e privado, compras governamentais, concessões, regulação, conteúdo local e incentivos às empresas brasileiras.

No Novo PAC, celebra um modelo que reúne Orçamento público, estatais, setor privado e financiamentos, além de concessões de infraestrutura. O Estado deixou de aparecer como alternativa ao mercado e passou a ser apresentado como seu indutor.

<><> O salário mínimo: objetivo mantido, método diferente

Em 1989, Lula prometia duplicar o valor real do salário mínimo em apenas um ano. Nunca fez isso. No governo, adotou uma estratégia gradual de ganhos reais do mínimo, combinada com crescimento do emprego, expansão do crédito e transferência de renda. A valorização salarial, porém, permanece no programa atual como elemento explícito da política de redução das desigualdades.É outra constante da trajetória: o objetivo permaneceu; o radicalismo do instrumento diminuiu.

<><> A política industrial foi embora — e voltou

Talvez seja a parte do documento de 1989 que mais surpreenda quando lida hoje. Lula já defendia modernização industrial, desenvolvimento tecnológico, planejamento de longo prazo e menor dependência externa.

Durante anos, parte dessa agenda perdeu espaço com a abertura econômica e a globalização. Nas últimas décadas, porém, política industrial voltou ao centro da disputa internacional, com Estados Unidos, China e Europa investindo pesadamente em tecnologia e cadeias estratégicas.

Lula também voltou a ela. Seu programa atual pretende aprofundar a neoindustrialização com foco em inteligência artificial, minerais críticos, inovação, produtividade e soberania tecnológica. Defende ainda agregar valor aos minerais antes da exportação, verticalizar cadeias e aumentar o conteúdo tecnológico da produção brasileira. Nesse ponto, existe uma linha clara entre 1989 e 2026.

<><> Agora há responsabilidade fiscal

Há, contudo, uma expressão no programa atual que ajuda a medir a distância percorrida: responsabilidade fiscal. O documento promete manter o arcabouço fiscal, controlar o crescimento das despesas, melhorar a qualidade do gasto e buscar juros mais baixos com inflação controlada e política fiscal responsável. É difícil imaginar esse vocabulário ocupando posição semelhante no programa de 1989.

O terceiro mandato também passou a apresentar proteção social e equilíbrio das contas públicas como objetivos simultâneos. A conciliação, portanto, não é apenas política. Virou parte do modelo econômico. O Lula conciliador É isso que distingue mais claramente os dois Lulas. 

Em 1989, o mundo econômico era organizado em campos mais nítidos: trabalhadores e capital, Estado e mercado, produção e especulação, soberania e credores internacionais.

O programa atual combina Estado e mercado: crédito público e privado, estatais e concessões, política industrial e investimento empresarial. A diferença é que o Estado já não aparece como substituto do mercado, mas como agente capaz de orientá-lo. Em 1989, Lula queria redistribuir o poder econômico; em 2026, quer direcionar o capital para os objetivos de seu projeto de desenvolvimento.

¨      Lula: o Brasil está pronto para muito mais

Em um pronunciamento direto e de forte apelo popular, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou a sociedade brasileira a refletir sobre o futuro do país e a importância da soberania do voto popular. Com uma fala direcionada às famílias trabalhadoras, Lula ressaltou que o Brasil alcançou um patamar de maturidade institucional e econômica que permite alçar voos ainda maiores.

“Hoje eu posso dizer para vocês: o Brasil está pronto como nunca esteve para muito mais. E eu quero participar dessa história junto com você, porque é para você que eu quero que o Brasil melhore, não é para mim”, afirmou.

O voto como expressão de soberania popular

O cerne da mensagem de Lula concentrou-se na despersonalização da política em favor do projeto coletivo de nação. Ao abordar a decisão eleitoral, o presidente destacou que a escolha nas urnas não deve ser encarada como uma concessão individual a candidatos, mas como uma aposta consciente no próprio futuro e nas aspirações de cada cidadão.

  • Consciência de classe e projeto: Lula enfatizou que o eleitor deve colocar em primeiro plano suas próprias demandas por dignidade, emprego e bem-estar social.
  • Autonomia do eleitor: “Você não precisa votar em mim. Vote em você, vote no seu desejo, vote no seu sonho, vote na crença que você tem de quem pode fazer as coisas pelo Brasil”, pontuou.
  • Tranquilidade democrática: Para o presidente, o voto consciente garante a paz de espírito necessária para quem constrói o país diariamente.

<><> Antítese do retrocesso

Ao alertar para os riscos da desilusão política e das escolhas contraditórias aos interesses da classe trabalhadora, Lula traçou uma linha clara contra projetos que representem a destruição de direitos e o empobrecimento da população.

“Durma tranquilo. Se você fizer isso, você pode dormir tranquilo. O que você não pode é votar em alguém que pensa exatamente o contrário ao que você sonha”, advertiu.

A declaração reforça a estratégia do governo de conectar a estabilidade socioeconômica à necessidade de continuidade de políticas de inclusão, soberania nacional e justiça distributiva, projetando um horizonte de desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.

¨      Reeleição de Lula fortalece a democracia e o desenvolvimento do País, afirma Alckmin

O vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o ato de oficialização da candidatura realizado na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Em discurso marcado por referências ao movimento sindical, à redemocratização e à retomada da indústria, Alckmin afirmou que um novo mandato de Lula representaria a continuidade das conquistas sociais, econômicas e ambientais obtidas pelo país.

As declarações foram feitas pelo próprio Alckmin durante a cerimônia de oficialização da candidatura de Lula. Ao lembrar o papel histórico da Vila Euclides nas mobilizações de trabalhadores contra a ditadura, o vice-presidente recorreu a uma metáfora futebolística para relacionar a luta democrática do fim dos anos 1970 ao atual projeto político liderado pelo presidente. “Uma alegria, presidente, estar aqui na Vila Euclides. Aqui quem faz o gol é a democracia.”

Alckmin afirmou que as mobilizações conduzidas pelos trabalhadores mostraram que direitos sociais e justiça tributária dependem da existência de liberdade política. “Foi aqui que os trabalhadores nos ensinaram que justiça tributária só ocorre com liberdade política. Foi aqui que o time entrou não para empatar, porque jogou contra a ditadura, contra a opressão, contra a carestia. Entrou para ganhar, presidente Lula”, declarou.

<><> Alckmin relembra papel dos trabalhadores na redemocratização

Ao reconstruir simbolicamente a mobilização de 1979, Alckmin disse que a organização política partiu das fábricas e dos sindicatos e contou com o apoio de diferentes setores da sociedade. “E esse time de 79, quem fez a armação foi dentro das fábricas. Quem escalou o time foram os sindicatos, na defesa, a zaga da legalidade, com a coragem e o senso de justiça de Sobral Pinto e Pere Bandeira de Mello.”

O vice-presidente também citou trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes, juristas e organizações da sociedade civil como participantes daquele processo. “A armação e o meio de campo foram os trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes, juristas, a sociedade civil organizada, unida. E quem marcou o gol foi o Brasil.”

Na sequência, Alckmin colocou a classe trabalhadora no centro das transformações políticas daquele período e atribuiu a Lula protagonismo na articulação daquele movimento. “O centroavante, presidente, foi a valorosa classe trabalhadora, que rompeu barreiras, que avançou, suou a camisa para a vitória. E quem empolgou a camisa 10, ou melhor, a camisa 13 da esperança, foi ele, ele mesmo, Luiz Inácio Lula da Silva.”

<><> Vice-presidente associa reeleição à continuidade das conquistas

Ao tratar da atual disputa política, Alckmin afirmou que o grupo reunido em torno de Lula está mais amplo e citou nomes como Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva. “E hoje, presidente, estamos aqui de volta com um time ainda renovado mais ainda em São Paulo, com Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet, Marina Silva, para garantir o avanço das conquistas.”

Segundo o vice-presidente, a permanência de Lula no Palácio do Planalto teria impacto direto sobre a preservação das instituições democráticas e a expansão das políticas públicas. “A reeleição do presidente Lula, ela fortalece a democracia. Ela faz avançar ainda mais as conquistas da nossa população.”

Alckmin enumerou indicadores e áreas que, segundo ele, apresentaram avanço durante o governo. “Cresceu o emprego, cresceu a renda, cresceu o PIB, cresceu a educação, cresceu a saúde, cresceu a proteção ao meio ambiente”, afirmou, utilizando a sequência para sustentar a defesa da continuidade do projeto governista.

<><> Retomada industrial ganha destaque no discurso

Ao falar no ABC paulista, região historicamente associada à indústria automobilística, Alckmin reservou parte do pronunciamento para destacar a política industrial. “E estando aqui no ABC, nesse centro da indústria, permita, presidente Lula, que fale um minuto da nova Indústria Brasil.”

O vice-presidente comparou o atual cenário industrial com o período do governo anterior e mencionou o encerramento de unidades de diferentes montadoras. “No governo passado, fechou, só para citar a indústria automobilística, fechou a Mercedes-Benz aqui em São Paulo, em Aracemápolis, fechou a Ford na Bahia, fechou a Troller no Ceará.”

Em contraposição, Alckmin citou investimentos e operações industriais instalados em antigas unidades produtivas. “Com o presidente Lula, onde tinha a Mercedes, hoje está a GWM produzindo veículos. E uma segunda fábrica, presidente, no Espírito Santo, começando. Onde estava a Ford, hoje está a BYD produzindo veículos para o Brasil inteiro. Onde estava a Troller, presidente, está a General Motors associada.”

<><> Alckmin cita reabertura de fábrica e avanço das exportações

O vice-presidente mencionou ainda a retomada das atividades de uma unidade industrial em Jacareí, no interior paulista, como exemplo da recuperação do setor. “A Vibraz aqui do lado, em Jacareí, fechou há cinco anos atrás, reabriu mês passado com 480 trabalhadores e vai crescer muito mais.”

Outro ponto destacado foi o desempenho das exportações e a celebração de acordos comerciais. “Cresceu, presidente, a exportação. O presidente Lula fez acordo Mercosul-Singapura, que está alavancando a indústria de máquinas. Mercosul-EFTA, Mercosul-União Europeia, aguardada há 25 anos.”

Alckmin afirmou que os entendimentos comerciais já estariam produzindo resultados para as vendas brasileiras ao exterior. “Em dois meses de vigência, aumentou 4% a exportação brasileira”, declarou, antes de manifestar confiança no resultado da disputa eleitoral e reforçar a unidade da coligação.

<><> Soberania encerra defesa de novo mandato de Lula

Na reta final do pronunciamento, o vice-presidente voltou a citar a importância simbólica da Vila Euclides e afirmou que o grupo político está mobilizado em torno da candidatura. “Tenho confiança absoluta. Nós estamos aqui nessa histórica Vila Euclides, unidos, unidos, unidos, para uma grande vitória, etc, etc, etc.”

Alckmin vinculou a campanha à defesa da soberania nacional, do país e da população. “E é em defesa da soberania, é em defesa do nosso PICS, é em defesa do nosso Brasil, é em defesa do povo, que vamos juntos.”

O vice-presidente encerrou o discurso com uma mensagem de mobilização e defesa da independência nacional. “Terra boa, gente brasileira, vamos juntos. É pátria livre, pátria livre, soberania. Um grande abraço.”

 

Fonte: Por André Vieira, em Brasil 247

 

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