O
que fazer com as crianças que chegaram sozinhas a Ceuta e que a Espanha não
sabe a quem devolver
Aconteceu
poucas horas depois da entrada de dezenas de milhares de pessoas do Marrocos em
Ceuta, cidade espanhola no norte da África: enquanto agentes e militares
espanhóis se esforçavam para conduzir a multidão de estrangeiros até a
fronteira para que retornassem ao lado marroquino, uma criança se agarrou ao
pescoço de um dos agentes uniformizados e suplicou, entre lágrimas, que a
deixasse ficar.
"Não,
Marrocos não", dizia ela, chorando em seu idioma.
Algumas
mulheres intervieram e traduziram suas palavras.
Até
que, por fim, um oficial superior se pronuncia.
"Ela
não pode ir sem estar acompanhada", diz aos seus subordinados,
conduzindo-a para instalações próximas da Guarda Civil (que integra as forças
de segurança de âmbito nacional na Espanha).
A cena
resume um dos desafios que a mais recente crise migratória na fronteira sul
representa para a Espanha.
No
último dia 30 de julho, cerca de 72 mil pessoas provenientes do Marrocos
entraram ilegalmente em Ceuta, nadando ou escalando montanhas.
Embora
a grande maioria tenha retornado ao Marrocos em menos de 48 horas, centenas de
menores permanecem na cidade, cujo centro de acolhimento ficou totalmente
sobrecarregado.
As leis
espanholas impedem a deportação de menores estrangeiros desacompanhados quando
não há garantias para sua segurança e desenvolvimento no país de origem.
Os
menores que continuam em Ceuta perambulam e dormem pelas ruas da cidade,
alimentando-se graças à solidariedade de moradores e trabalhadores
humanitários, enquanto aguardam uma resposta das autoridades locais — uma
situação que o presidente da cidade autônoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, e
organizações de apoio à infância classificaram como uma "emergência
humanitária".
Tanto o
governo espanhol quanto o marroquino expressaram a intenção de devolver as
crianças às suas famílias no Marrocos.
Mas os
especialistas e os precedentes indicam que, em muitos casos, isso não é
possível devido às exigências legais e à falta de colaboração entre os Estados,
ou porque os menores não dispõem de um ambiente seguro e adequado para onde
retornar em seu país.
Enquanto
vários parceiros europeus, liderados pela Itália, questionam a política
migratória do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, e diversas regiões
do país se mostram relutantes em receber as crianças de Ceuta, a Espanha
enfrenta um grande dilema sobre o destino desses menores.
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Qual é a situação dos menores em Ceuta
Até
terça-feira (11/08), as autoridades espanholas haviam identificado 1.527
menores estrangeiros em Ceuta.
Mas as
ONGs que trabalham no local alertam que há mais crianças nas ruas da cidade.
"Ninguém
sabe quantas são porque ninguém as contou, e muitas esperam todos os dias em
longas filas diante da delegacia de polícia para serem identificadas e poder
iniciar o processo de acesso ao sistema de acolhimento", disse à BBC News
Mundo, de Ceuta, Jennifer Zuppiroli, especialista em migrações da ONG de apoio
à infância Save the Children.
Segundo
Zuppiroli, "a maioria dorme na rua e a única comida que recebe é a que
lhes é dada por alguns moradores ou ONGs".
Poucos
têm abrigo à noite, graças a algumas associações de moradores. A maioria passa
os dias e as noites nas ruas e praias de Ceuta.
"Há
muitas meninas e elas estão em perigo; isto é uma emergência", enfatiza
Zuppiroli.
Ela
afirma que a maioria é marroquina, mas que também encontrou menores de países
africanos tão distantes quanto o Sudão.
"Muitos
nos contam que fogem de famílias abusivas, e encontramos meninas que fogem de
casamentos forçados e de abusos sexuais", relata Zuppiroli.
Veículos
de imprensa espanhóis reuniram depoimentos de menores que expressam o desejo de
permanecer na Espanha e construir um futuro para poder ajudar suas famílias.
Muitos
menores marroquinos não veem perspectivas em seu país de origem, onde, embora a
economia esteja crescendo, um em cada quatro jovens formados em universidades
está desempregado e 25% dos jovens entre 15 e 24 anos nem estudam nem
trabalham, segundo o Conselho Econômico, Social e Ambiental do Marrocos.
Os
habitantes de Ceuta veem os que chegaram à cidade durante a mais recente crise
correndo pelas ruas ou jogando futebol descalços entre os galpões industriais
ao lado dos quais muitos deles se instalaram.
As
promessas falsas de uma acolhida favorável na Espanha, que receberam por meio
das redes sociais, estão longe da realidade que encontraram até agora.
O
procedimento padrão deveria ser alojá-los no centro de acolhimento, mas a
capacidade do local, de cerca de 30 vagas, não é suficiente.
A
ministra espanhola da Juventude e da Infância, Sira Rego, afirmou que
"houve uma situação de sobrecarga que já está sendo controlada. É verdade
que há muitas crianças e adolescentes, e o procedimento leva tempo".
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O que o governo espanhol pretende fazer com as crianças de Ceuta
Madri e
Rabat manifestaram publicamente sua intenção de que os menores sejam devolvidos
ao Marrocos.
Félix
Bolaños, ministro da Justiça do governo espanhol, afirmou: "Estamos
trabalhando com o governo marroquino para que possamos garantir que todos os
menores que estão em Ceuta possam se reunir com suas famílias no
Marrocos".
O
ministro da Justiça do Marrocos, Abdelatif Uahbi, declarou em uma entrevista
que seu país "mantém sua determinação de recuperar suas crianças e menores
que se encontram na Espanha, incluindo aqueles que entraram recentemente na
cidade de Ceuta".
E o
principal partido de oposição na Espanha, o conservador Partido Popular (PP),
concorda com o governo espanhol que a prioridade é repatriar os menores ao
Marrocos.
Mas não
é tão simples.
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Por que é tão difícil devolvê-los ao Marrocos
As
convenções internacionais de proteção à infância às quais a Espanha aderiu,
assim como a própria legislação espanhola, exigem um procedimento com garantias
e individualizado para cada menor, em que prevaleça o seu interesse e do qual
participem órgãos como o Ministério Público, a fim de assegurar seu
desenvolvimento e bem-estar.
E tudo
isso leva tempo.
Além
disso, é frequente que, diante da falta de garantias em seus países de origem,
os menores permaneçam na Espanha.
As
devoluções coletivas são totalmente proibidas, como deixou claro o Tribunal
Supremo da Espanha ao considerar ilegal a devolução de um grupo de oito menores
marroquinos que atravessaram para Ceuta em 2021, um precedente que deverá ser
levado em conta agora.
A lei
também exige que a identidade do menor seja comprovada de forma inequívoca, o
que frequentemente requer longos processos de cooperação consular que muitas
vezes não são concluídos.
As
autoridades espanholas também têm, de acordo com a própria legislação do país,
a obrigação de realizar um estudo socioeconômico e de segurança para verificar
se o retorno não exporá o menor a situações de abandono, risco ou
vulnerabilidade extrema.
O menor
tem direito à assistência jurídica durante o processo e a que as decisões lhe
sejam comunicadas em um idioma que possa compreender.
Sua
opinião também deve ser ouvida e levada em consideração, inclusive se expressar
o desejo de não retornar ao seu país.
Uma vez
concluída a avaliação, o retorno só pode ser realizado se sua família tiver
sido localizada e ficar comprovado que a reunificação familiar é viável e
segura, ou se as autoridades do país de origem garantirem sua entrega a um
centro adequado de proteção de menores em seu território.
Zuppiroli
afirma que, na prática, a repatriação muitas vezes acaba sendo impossível
porque as autoridades espanholas não obtêm a colaboração das autoridades do
Marrocos ou de outros países de origem.
"O
mais complicado é garantir que a família esteja lá para recebê-lo quando
voltar. É preciso localizar a família no Marrocos, avisá-la, e é necessário que
a criança concorde em retornar e que a família a aceite", explica a
representante da Save the Children.
"Nos
casos de crianças marroquinas, é muito difícil obter informações sobre a
família do lado marroquino", acrescenta a especialista.
Nos
dias que se seguiram à última crise em Ceuta, um porta-voz de Rabat citado pela
agência Efe afirmou que seu país receberia os menores marroquinos
desacompanhados se a Espanha eliminasse "os obstáculos judiciais e
administrativos que impedem isso".
A Save
the Children lembra que "essas restrições constituem, na verdade, um marco
de proteção à infância, de modo que a Espanha não pode eliminá-las; o que deve
ser feito é agilizar os procedimentos, não suprimi-los".
A BBC
News Mundo solicitou informações ao Ministério das Relações Exteriores do
Marrocos e à Embaixada do Marrocos em Madri, mas não obteve resposta.
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A alternativa controversa à repatriação
Enquanto
se aguarda que seja possível devolver os menores às suas famílias no Marrocos,
o governo de Pedro Sánchez pretende distribuí-los por outras regiões da
Espanha, para aliviar a superlotação em Ceuta.
A
ministra Rego afirmou: "Trata-se de estabelecer contato com a família e,
naturalmente, coordenar com o Marrocos para poder proceder à reunificação
familiar. E, depois, aqueles cujo retorno não for possível serão integrados ao
sistema de acolhimento do nosso país com todas as garantias".
O
governo espanhol prevê iniciar a transferência "gradual" dos menores
para comunidades autônomas com vagas disponíveis, mas tem encontrado obstáculos
impostos pelas coalizões que governam essas regiões.
Não é a
primeira vez que isso acontece.
Como os
centros de acolhimento das Ilhas Canárias, de Ceuta e de Melilla costumam estar
sobrecarregados pela pressão migratória, o governo de Sánchez promoveu mudanças
legais para obrigar as comunidades autônomas que até então se recusavam a
receber e atender os menores a acolhê-los.
O
Partido Popular suavizou sua posição inicial e agora se mostra aberto a uma
distribuição dos menores de Ceuta que seja "justa, bem financiada e
planejada", em cumprimento da lei.
Mas o
partido de extrema direita Vox, que governa em coalizão com o PP em várias
comunidades autônomas, insiste em sua rejeição a aceitar crianças estrangeiras
e questiona se elas realmente são menores de idade.
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Olhar para o futuro
O
governo espanhol suspendeu recentemente as folgas de todos os seus militares em
Ceuta em meio a rumores e comentários nas redes sociais que falam de uma nova
tentativa iminente de entrada massiva na cidade.
Rut
Bermejo, pesquisadora de migrações do Real Instituto Elcano, um centro espanhol
de análise internacional, disse à BBC News Mundo que "a chegada de menores
estrangeiros desacompanhados à Espanha está se multiplicando".
"Não
podemos pensar que isso vá mudar muito, portanto não há outra opção senão
melhorar o sistema de acolhimento", acrescenta.
Embora
vários países europeus pareçam se inclinar mais para políticas de restrição do
que de acolhimento, Bermejo lembra que "a Espanha está crescendo e
alcançando números recordes de filiação à Seguridade Social graças aos
trabalhadores estrangeiros".
Para
ela, "todos esses menores são um investimento para o futuro em um país que
precisa de mais crianças, e não podemos deixar de respeitar seus direitos
humanos".
No
entanto, a convergência de fatores legais, políticos, sociais e humanos torna a
busca por uma solução equilibrada um desafio complexo para o futuro desses
menores.
Fonte:
BBC News Mundo

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