O
novo espírito do capitalismo na era digital
O
capitalismo possui uma característica histórica singular que está na sua
capacidade de transformar crises e críticas em oportunidades de sua própria
renovação. Diferentemente de sistemas econômicos que sucumbem diante das
contestações sociais e crises, o capitalismo frequentemente sobrevive porque
consegue incorporar parte das críticas e demandas que colocam em questão os
seus próprios fundamentos.
Essa é
a tese central de Luc Boltanski e Ève Chiapello em O Novo Espírito do
Capitalismo. Ao analisar o período posterior às revoltas de Maio de 1968, os
autores demonstraram como o capitalismo não apenas absorveu críticas dirigidas
contra a hierarquia, a burocracia, a alienação do trabalho e a falta de
autonomia individual inseridas no padrão de emprego fordista difundido no
segundo após guerra mundial, convertendo-as em princípios de uma nova
organização econômica neoliberal.
A firma
rígida e vertical do passado deu lugar à empresa flexível, inovadora e
organizada em redes. Da mesma forma, os valores associados às críticas
culturais dos anos 1960, como a criatividade, a autonomia e a capacidade de
adaptação, passaram a assumir centralidade na competitividade empresarial.
O
neoliberalismo não eliminou as hierarquias, mas as reconfigurou ao substituir a
supervisão direta pelo autogerenciamento, transferindo para o próprio
trabalhador a responsabilidade do seu desempenho. Sob a lógica do “empresário
de si mesmo”, o indivíduo passou a gozar de uma falsa autonomia em que a
pressão por metas é internalizada e, com isso, o sucesso ou o fracasso
corporativo passaram a ser vistos como mérito ou culpa exclusivamente
individuais, gerando um aumento significativo no esgotamento psicológico e no
burnout, conforme destacam Pierre Dardot e Christian Laval em A nova razão do
mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal e Byung-Chul Han em Psicopolítica: o
neoliberalismo e as novas técnicas de poder.
A
grande capacidade de reconfiguração do capitalismo não tem sido a de somente
resistir aos seus críticos. É de aprender com eles, para se adaptar e continuar
a dominar. Neste sentido que emergem as duas das maiores transformações sociais
em curso neste primeiro terço do século XXI, apropriada ao possível fenômeno
semelhante que se encontra em marcha pela importante atualidade das lutas pela
emancipação feminina e contra as desigualdades raciais.
A
ascensão da chamada SHEeconomy parece expressar uma mudança histórica profunda.
A ampliação da escolaridade feminina, a maior participação das mulheres no
mundo do trabalho, o crescimento da autonomia financeira e a presença crescente
em posições de decisão representam conquistas sociais construídas por décadas
de mobilização.
O
estudo, por exemplo, do Morgan Stanley, um grande banco de investimento e
serviços financeiros multinacionais dos Estados Unido, identificou esse
movimento como uma das grandes tendências econômicas do século XXI, destacando
que, até 2030, cerca de 45% das mulheres estadunidenses entre 25 e 44 anos
poderão estar solteiras. O dado se refere especificamente à condição de
mulheres solteiras, embora esteja inserido em um processo demográfico mais
amplo, marcado pela postergação da maternidade, redução da fecundidade e
transformação dos arranjos familiares.
Mais do
que uma mudança de comportamento, trata-se de uma transformação na própria
organização da sociedade. O capitalismo contemporâneo rapidamente percebeu essa
mudança.
A
autonomia feminina passou a movimentar novos mercados de investimento,
habitação, saúde, educação, previdência, tecnologia e serviços personalizados.
A longevidade feminina tornou-se um setor econômico estratégico. Novas formas
familiares produzem demandas adicionais de consumo.
A
emancipação passou também a ser interpretada como oportunidade econômica. E é
essa a contradição central do capitalismo contemporâneo que pode reconhecer e
incorporar avanços sociais sem necessariamente alterar todas as estruturas que
produzem desigualdade.
Sobre
essa tensão que se destaca a análise de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi
Bhattacharya encontrada em Feminismo para os 99%. As autoras alertam para o
chamado neoliberalismo progressista, no qual pautas legítimas de
reconhecimento, diversidade e igualdade podem conviver com políticas econômicas
marcadas ortodoxia da financeirização, precarização do trabalho e concentração
de riqueza.
O
problema não está, evidentemente, na conquista da igualdade feminina. O desafio
está na garantia de que essa igualdade não seja limitada a uma parcela
privilegiada, mas permita alcançar a maioria das mulheres, especialmente
aquelas submetidas às maiores vulnerabilidades econômicas e sociais.
O mesmo
debate aparece no campo racial. A ampliação da presença negra nas
universidades, empresas, instituições públicas e espaços de liderança
representa um inquestionável avanço democrático fundamental. A
representatividade importa muito porque permite romper barreiras históricas e
modifica padrões de exclusão.
Entretanto,
a experiência histórica mostra que a diversidade nos espaços de poder precisa
caminhar junto com a transformação das condições materiais que estruturam
desigualdades. Isso porque uma sociedade pode ser mais diversa no topo e
continuar desigual em sua base.
Por
conseguinte, a questão central não estaria em escolher entre representação e
transformação estrutural. Uma sociedade democrática necessita simultaneamente
das duas dimensões. De um lado, a ampliação da presença dos grupos
historicamente excluídos e, de outro, a modificação das estruturas econômicas e
sociais que limitam a difusão das oportunidades.
O
capitalismo do início do século XXI parece caminhar para uma nova etapa em que
a própria vida se transforma em espaço de valorização econômica. Dados pessoais
tornam-se ativos estratégicos, enquanto a inteligência artificial reorganiza o
trabalho, a transição ecológica redefine investimentos e a economia dos
cuidados ganha centralidade.
A
diversidade passa a integrar estratégias empresariais e institucionais. A
SHEconomy, portanto, não seria apenas um fenômeno relacionado às mulheres. Ela
estaria por revelar uma mudança mais ampla com o deslocamento do centro da
acumulação econômica da fábrica para a própria vida social.
No
passado do capitalismo industrial, o principal recurso era a força de trabalho.
No presente do capitalismo digital, a informação, o conhecimento, o tempo, os
comportamentos, os vínculos sociais e os modos de viver tornam-se centrais.
A
grande disputa no segundo quarto do século XXI tenderá a ser definida a partir
dessa nova fase de produzir uma sociedade mais democrática ou apenas um
capitalismo mais sofisticado em sua capacidade de incorporar críticas e novas
demandas da era digital. A história mostra que o capitalismo frequentemente
transforma contestação em inovação. Foi assim depois de 1968. Poderia ser
novamente com as pautas feministas e antirracistas da atualidade?
O
desafio das sociedades contemporâneas parece estar nas lutas pela incorporação
dessas conquistas sem reduzir direitos sociais a estratégias de mercado. A
verdadeira emancipação não será medida apenas pela presença de mulheres e
pessoas negras em posições de liderança, embora isso seja indispensável.
Será
medida pela capacidade de construir uma sociedade em que igualdade, diversidade
e dignidade sejam características estruturais e não apenas novas oportunidades
seletivas de valorização econômica. Essa parece ser uma grande questão trazida
pelo novo espírito do capitalismo digital em transformação por sua capacidade
de adaptação dos mercados em mutação da própria sociedade.
• A infraestrutura do futuro não tem
bandeira. Por Diego Teixeira
Dois
anúncios quase simultâneos chamaram a atenção de quem acompanha economia e
tecnologia. Em Nova York, veio a público que a Nvidia negocia com um grupo de
grandes instituições financeiras, entre elas Apollo, Blackstone, BlackRock,
Brookfield, Goldman Sachs e KKR, um pacote de US$ 500 bilhões destinado a
financiar a infraestrutura da inteligência artificial: chips, geração de
energia e data centers. Do outro lado do mundo, em Xangai, a chinesa Unitree
Robotics abriu a subscrição de sua oferta pública inicial, tornando-se a
primeira fabricante de robôs humanoides de capital aberto no continente. A
procura foi tamanha que as ofertas superaram em mais de 2.700 vezes o volume
inicialmente previsto.
À
primeira vista, são notícias de universos distintos. Uma pertence ao mundo das
altas finanças americanas; a outra, à ambição industrial chinesa. Uma fala de
centenas de bilhões de dólares articulados por algumas das maiores gestoras de
ativos do planeta; a outra, do entusiasmo de investidores diante de máquinas
que caminham, correm e começam a ocupar espaços antes reservados aos seres
humanos. Mas, quando afastamos o olhar, ambas contam a mesma história: parte
decisiva da infraestrutura estratégica do século XXI, aquela que condicionará
produtividade, ciência, defesa e poder geopolítico, está sendo erguida por
capital privado, em escala e velocidade que desafiam a capacidade tradicional
dos Estados de planejar, coordenar e determinar os rumos do desenvolvimento.
Vale
refletir na história para compreender a dimensão dessa mudança. Durante quase
dois séculos, as grandes infraestruturas foram construídas pelo Estado ou ao
menos, coordenadas por ele. As ferrovias que integraram os Estados Unidos e a
Europa nasceram de concessões, subsídios e projetos nacionais. A eletrificação
rural americana foi uma política pública do New Deal. Até a internet, hoje
símbolo máximo da economia privada e descentralizada, teve origem em programas
de pesquisa ligados ao Departamento de Defesa americano. Construir
infraestrutura significava exercer soberania e ao definir estradas, redes
elétricas, portos ou telecomunicações, o Estado não desenhava apenas ativos
físicos: desenhava um projeto de nação.
Agora,
a mudança não está apenas em quem paga a conta, mas em quem passa a decidir
onde e em que ritmo o futuro será construído. Quinhentos bilhões de dólares
representam mais do que o Produto Interno Bruto anual da maioria dos países do
mundo. É capital suficiente para alterar a geografia econômica de regiões
inteiras, e sua mobilização não depende necessariamente de tesouros nacionais
ou de orçamentos aprovados por parlamentos. Ela ocorre por meio de fundos,
bancos, gestoras e empresas que administram uma parcela relevante da poupança
global. Somente neste ano, as grandes companhias de tecnologia gastarão
centenas de bilhões de dólares em infraestrutura e capacidade relacionadas à
inteligência artificial. Estamos diante de uma mobilização de recursos comparável,
em ambição, às grandes corridas tecnológicas do século passado, mas com uma
diferença fundamental: se na corrida espacial o Estado ocupava o cockpit, nesta
nova disputa, a parte esmagadora da propulsão está nas mãos do setor privado.
Há um
detalhe particularmente revelador, o gargalo da inteligência artificial deixou
de ser apenas a capacidade computacional e passou a envolver, cada vez mais,
energia. Inteligência artificial em escala exige eletricidade, terra, água,
redes de transmissão, sistemas de refrigeração e licença para operar em
comunidades reais. Depois de décadas fascinados pela ideia do imaterial, a
nuvem, o software, o virtual, redescobrimos que o futuro digital depende de uma
infraestrutura profundamente física. Por trás de cada modelo de linguagem há
concreto, cobre, silício, turbinas e megawatts e quem decide onde instalar essa
infraestrutura também influencia onde surgirão produtividade, empregos
qualificados, capacidade científica e poder econômico. A disputa pela inteligência
artificial é, portanto, também uma disputa por energia e território.
O caso
chinês revela a outra face dessa transformação. Na China, o Estado continua
definindo setores estratégicos e a robótica, ao lado da inteligência artificial
e de outras tecnologias avançadas, ocupa posição central na política
industrial. Poderíamos enxergar aí o contraponto perfeito: o Estado forte
conduzindo o futuro. Mas a trajetória da Unitree mostra que a realidade é mais
complexa, pois o governo pode indicar prioridades, financiar pesquisa e
organizar incentivos, mas é o mercado que, em grande medida, precifica
expectativas, distribui capital e acelera vencedores. A procura extraordinária
por suas ações não nasceu de um decreto. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos
restringem o acesso chinês a determinados componentes e tecnologias, enquanto
Pequim responde fortalecendo suas próprias cadeias produtivas.
O
paradoxo está justamente aí: os Estados disputam soberania tecnológica, mas as
redes de capital, conhecimento, energia e suprimentos necessárias para
sustentar essa soberania são cada vez mais globais.
É nesse
ponto que uma notícia de economia e tecnologia se transforma em uma questão
institucional. Durante boa parte da história moderna, imaginamos que o
progresso seria limitado pela escassez de capital ou pela falta de tecnologia.
Hoje, em determinados setores, ocorre quase o contrário: há capital disponível
em volumes inéditos e tecnologias cuja capacidade evolui em ciclos cada vez
mais curtos. O recurso escasso passa a ser a capacidade das instituições,
concebidas para um mundo mais lento, de acompanhar essa velocidade, estabelecer
limites, criar incentivos e dar direção coletiva a transformações que já estão
em curso. Talvez não estejamos ficando sem inteligência nem sem dinheiro.
Estamos descobrindo que nossas instituições podem não evoluir na mesma
velocidade daquilo que inteligência e capital, combinados, já são capazes de
construir.
É
importante, contudo, evitar dois exageros. O primeiro é o pânico fácil, a
narrativa de máquinas inevitavelmente fora de controle, que frequentemente
serve mais ao entretenimento do que à compreensão. O segundo é a nostalgia de
um Estado onipotente, capaz de prever e coordenar sozinho todas as
transformações. A iniciativa privada produziu parte extraordinária do progresso
material das últimas décadas justamente porque assume riscos, experimenta e se
adapta com uma velocidade que a burocracia dificilmente reproduz.
A
questão, portanto, não é escolher entre Estado e mercado, mas sim, compreender
seus papéis! Mercados são mecanismos extraordinários de alocação de capital,
mas não foram concebidos para definir, sozinhos, objetivos coletivos de longo
prazo. Uma ferrovia do século XIX transportava mercadorias, mas também
expressava uma visão de integração territorial e desenvolvimento nacional. Que
visão de sociedade está incorporada a um data center financiado por fundos
globais e submetido, em última instância, à lógica econômica do retorno sobre o
capital?
Essa
pergunta também tem endereço brasileiro. Se a infraestrutura da inteligência
começa a ser definida em grandes rodadas de financiamento em Nova York, em
políticas industriais em Pequim e em decisões corporativas tomadas por empresas
que operam globalmente, o Brasil precisa decidir se pretende ser apenas
consumidor das tecnologias produzidas pelos outros ou se quer participar de sua
construção. Isso exige energia competitiva, infraestrutura digital, formação de
pessoas, segurança jurídica, marcos regulatórios capazes de atrair investimento
sem abandonar o interesse público e, sobretudo, uma classe dirigente, pública e
privada, disposta a pensar em décadas, e não apenas em ciclos eleitorais ou
resultados trimestrais.
Quem
vive o setor de tecnologia percebe que a diferença entre a velocidade da
inovação e a velocidade da adaptação institucional deixou de ser uma questão
burocrática. Tornou-se uma das principais variáveis de competitividade entre
países.
Talvez
estejamos entrando em uma fase inédita da civilização, na qual uma parcela
crescente do futuro deixa de ser desenhada exclusivamente nos gabinetes e passa
também a ser precificada nos mercados. Isso não precisa ser interpretado como
uma ameaça. Pode representar uma oportunidade extraordinária, desde que
compreendamos a dimensão da transformação. O grande desafio não será apenas
construir máquinas mais inteligentes ou Estados mais fortes. Será desenvolver
instituições capazes de evoluir suficientemente rápido para orientar o encontro
entre tecnologia, capital e interesse público. Porque a pergunta decisiva do
nosso tempo talvez já não seja quem tem capacidade de construir o futuro. Essa
resposta começa a ficar evidente. A pergunta realmente importante é outra: para
quem esse futuro será construído?
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em A Terra é Redonda/JB

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