terça-feira, 18 de agosto de 2026

O novo espírito do capitalismo na era digital

O capitalismo possui uma característica histórica singular que está na sua capacidade de transformar crises e críticas em oportunidades de sua própria renovação. Diferentemente de sistemas econômicos que sucumbem diante das contestações sociais e crises, o capitalismo frequentemente sobrevive porque consegue incorporar parte das críticas e demandas que colocam em questão os seus próprios fundamentos.

Essa é a tese central de Luc Boltanski e Ève Chiapello em O Novo Espírito do Capitalismo. Ao analisar o período posterior às revoltas de Maio de 1968, os autores demonstraram como o capitalismo não apenas absorveu críticas dirigidas contra a hierarquia, a burocracia, a alienação do trabalho e a falta de autonomia individual inseridas no padrão de emprego fordista difundido no segundo após guerra mundial, convertendo-as em princípios de uma nova organização econômica neoliberal.

A firma rígida e vertical do passado deu lugar à empresa flexível, inovadora e organizada em redes. Da mesma forma, os valores associados às críticas culturais dos anos 1960, como a criatividade, a autonomia e a capacidade de adaptação, passaram a assumir centralidade na competitividade empresarial.

O neoliberalismo não eliminou as hierarquias, mas as reconfigurou ao substituir a supervisão direta pelo autogerenciamento, transferindo para o próprio trabalhador a responsabilidade do seu desempenho. Sob a lógica do “empresário de si mesmo”, o indivíduo passou a gozar de uma falsa autonomia em que a pressão por metas é internalizada e, com isso, o sucesso ou o fracasso corporativo passaram a ser vistos como mérito ou culpa exclusivamente individuais, gerando um aumento significativo no esgotamento psicológico e no burnout, conforme destacam Pierre Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal e Byung-Chul Han em Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder.

A grande capacidade de reconfiguração do capitalismo não tem sido a de somente resistir aos seus críticos. É de aprender com eles, para se adaptar e continuar a dominar. Neste sentido que emergem as duas das maiores transformações sociais em curso neste primeiro terço do século XXI, apropriada ao possível fenômeno semelhante que se encontra em marcha pela importante atualidade das lutas pela emancipação feminina e contra as desigualdades raciais.

A ascensão da chamada SHEeconomy parece expressar uma mudança histórica profunda. A ampliação da escolaridade feminina, a maior participação das mulheres no mundo do trabalho, o crescimento da autonomia financeira e a presença crescente em posições de decisão representam conquistas sociais construídas por décadas de mobilização.

O estudo, por exemplo, do Morgan Stanley, um grande banco de investimento e serviços financeiros multinacionais dos Estados Unido, identificou esse movimento como uma das grandes tendências econômicas do século XXI, destacando que, até 2030, cerca de 45% das mulheres estadunidenses entre 25 e 44 anos poderão estar solteiras. O dado se refere especificamente à condição de mulheres solteiras, embora esteja inserido em um processo demográfico mais amplo, marcado pela postergação da maternidade, redução da fecundidade e transformação dos arranjos familiares.

Mais do que uma mudança de comportamento, trata-se de uma transformação na própria organização da sociedade. O capitalismo contemporâneo rapidamente percebeu essa mudança.

A autonomia feminina passou a movimentar novos mercados de investimento, habitação, saúde, educação, previdência, tecnologia e serviços personalizados. A longevidade feminina tornou-se um setor econômico estratégico. Novas formas familiares produzem demandas adicionais de consumo.

A emancipação passou também a ser interpretada como oportunidade econômica. E é essa a contradição central do capitalismo contemporâneo que pode reconhecer e incorporar avanços sociais sem necessariamente alterar todas as estruturas que produzem desigualdade.

Sobre essa tensão que se destaca a análise de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya encontrada em Feminismo para os 99%. As autoras alertam para o chamado neoliberalismo progressista, no qual pautas legítimas de reconhecimento, diversidade e igualdade podem conviver com políticas econômicas marcadas ortodoxia da financeirização, precarização do trabalho e concentração de riqueza.

O problema não está, evidentemente, na conquista da igualdade feminina. O desafio está na garantia de que essa igualdade não seja limitada a uma parcela privilegiada, mas permita alcançar a maioria das mulheres, especialmente aquelas submetidas às maiores vulnerabilidades econômicas e sociais.

O mesmo debate aparece no campo racial. A ampliação da presença negra nas universidades, empresas, instituições públicas e espaços de liderança representa um inquestionável avanço democrático fundamental. A representatividade importa muito porque permite romper barreiras históricas e modifica padrões de exclusão.

Entretanto, a experiência histórica mostra que a diversidade nos espaços de poder precisa caminhar junto com a transformação das condições materiais que estruturam desigualdades. Isso porque uma sociedade pode ser mais diversa no topo e continuar desigual em sua base.

Por conseguinte, a questão central não estaria em escolher entre representação e transformação estrutural. Uma sociedade democrática necessita simultaneamente das duas dimensões. De um lado, a ampliação da presença dos grupos historicamente excluídos e, de outro, a modificação das estruturas econômicas e sociais que limitam a difusão das oportunidades.

O capitalismo do início do século XXI parece caminhar para uma nova etapa em que a própria vida se transforma em espaço de valorização econômica. Dados pessoais tornam-se ativos estratégicos, enquanto a inteligência artificial reorganiza o trabalho, a transição ecológica redefine investimentos e a economia dos cuidados ganha centralidade.

A diversidade passa a integrar estratégias empresariais e institucionais. A SHEconomy, portanto, não seria apenas um fenômeno relacionado às mulheres. Ela estaria por revelar uma mudança mais ampla com o deslocamento do centro da acumulação econômica da fábrica para a própria vida social.

No passado do capitalismo industrial, o principal recurso era a força de trabalho. No presente do capitalismo digital, a informação, o conhecimento, o tempo, os comportamentos, os vínculos sociais e os modos de viver tornam-se centrais.

A grande disputa no segundo quarto do século XXI tenderá a ser definida a partir dessa nova fase de produzir uma sociedade mais democrática ou apenas um capitalismo mais sofisticado em sua capacidade de incorporar críticas e novas demandas da era digital. A história mostra que o capitalismo frequentemente transforma contestação em inovação. Foi assim depois de 1968. Poderia ser novamente com as pautas feministas e antirracistas da atualidade?

O desafio das sociedades contemporâneas parece estar nas lutas pela incorporação dessas conquistas sem reduzir direitos sociais a estratégias de mercado. A verdadeira emancipação não será medida apenas pela presença de mulheres e pessoas negras em posições de liderança, embora isso seja indispensável.

Será medida pela capacidade de construir uma sociedade em que igualdade, diversidade e dignidade sejam características estruturais e não apenas novas oportunidades seletivas de valorização econômica. Essa parece ser uma grande questão trazida pelo novo espírito do capitalismo digital em transformação por sua capacidade de adaptação dos mercados em mutação da própria sociedade.

•        A infraestrutura do futuro não tem bandeira. Por Diego Teixeira

Dois anúncios quase simultâneos chamaram a atenção de quem acompanha economia e tecnologia. Em Nova York, veio a público que a Nvidia negocia com um grupo de grandes instituições financeiras, entre elas Apollo, Blackstone, BlackRock, Brookfield, Goldman Sachs e KKR, um pacote de US$ 500 bilhões destinado a financiar a infraestrutura da inteligência artificial: chips, geração de energia e data centers. Do outro lado do mundo, em Xangai, a chinesa Unitree Robotics abriu a subscrição de sua oferta pública inicial, tornando-se a primeira fabricante de robôs humanoides de capital aberto no continente. A procura foi tamanha que as ofertas superaram em mais de 2.700 vezes o volume inicialmente previsto.

À primeira vista, são notícias de universos distintos. Uma pertence ao mundo das altas finanças americanas; a outra, à ambição industrial chinesa. Uma fala de centenas de bilhões de dólares articulados por algumas das maiores gestoras de ativos do planeta; a outra, do entusiasmo de investidores diante de máquinas que caminham, correm e começam a ocupar espaços antes reservados aos seres humanos. Mas, quando afastamos o olhar, ambas contam a mesma história: parte decisiva da infraestrutura estratégica do século XXI, aquela que condicionará produtividade, ciência, defesa e poder geopolítico, está sendo erguida por capital privado, em escala e velocidade que desafiam a capacidade tradicional dos Estados de planejar, coordenar e determinar os rumos do desenvolvimento.

Vale refletir na história para compreender a dimensão dessa mudança. Durante quase dois séculos, as grandes infraestruturas foram construídas pelo Estado ou ao menos, coordenadas por ele. As ferrovias que integraram os Estados Unidos e a Europa nasceram de concessões, subsídios e projetos nacionais. A eletrificação rural americana foi uma política pública do New Deal. Até a internet, hoje símbolo máximo da economia privada e descentralizada, teve origem em programas de pesquisa ligados ao Departamento de Defesa americano. Construir infraestrutura significava exercer soberania e ao definir estradas, redes elétricas, portos ou telecomunicações, o Estado não desenhava apenas ativos físicos: desenhava um projeto de nação.

Agora, a mudança não está apenas em quem paga a conta, mas em quem passa a decidir onde e em que ritmo o futuro será construído. Quinhentos bilhões de dólares representam mais do que o Produto Interno Bruto anual da maioria dos países do mundo. É capital suficiente para alterar a geografia econômica de regiões inteiras, e sua mobilização não depende necessariamente de tesouros nacionais ou de orçamentos aprovados por parlamentos. Ela ocorre por meio de fundos, bancos, gestoras e empresas que administram uma parcela relevante da poupança global. Somente neste ano, as grandes companhias de tecnologia gastarão centenas de bilhões de dólares em infraestrutura e capacidade relacionadas à inteligência artificial. Estamos diante de uma mobilização de recursos comparável, em ambição, às grandes corridas tecnológicas do século passado, mas com uma diferença fundamental: se na corrida espacial o Estado ocupava o cockpit, nesta nova disputa, a parte esmagadora da propulsão está nas mãos do setor privado.

Há um detalhe particularmente revelador, o gargalo da inteligência artificial deixou de ser apenas a capacidade computacional e passou a envolver, cada vez mais, energia. Inteligência artificial em escala exige eletricidade, terra, água, redes de transmissão, sistemas de refrigeração e licença para operar em comunidades reais. Depois de décadas fascinados pela ideia do imaterial, a nuvem, o software, o virtual, redescobrimos que o futuro digital depende de uma infraestrutura profundamente física. Por trás de cada modelo de linguagem há concreto, cobre, silício, turbinas e megawatts e quem decide onde instalar essa infraestrutura também influencia onde surgirão produtividade, empregos qualificados, capacidade científica e poder econômico. A disputa pela inteligência artificial é, portanto, também uma disputa por energia e território.

O caso chinês revela a outra face dessa transformação. Na China, o Estado continua definindo setores estratégicos e a robótica, ao lado da inteligência artificial e de outras tecnologias avançadas, ocupa posição central na política industrial. Poderíamos enxergar aí o contraponto perfeito: o Estado forte conduzindo o futuro. Mas a trajetória da Unitree mostra que a realidade é mais complexa, pois o governo pode indicar prioridades, financiar pesquisa e organizar incentivos, mas é o mercado que, em grande medida, precifica expectativas, distribui capital e acelera vencedores. A procura extraordinária por suas ações não nasceu de um decreto. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos restringem o acesso chinês a determinados componentes e tecnologias, enquanto Pequim responde fortalecendo suas próprias cadeias produtivas.

O paradoxo está justamente aí: os Estados disputam soberania tecnológica, mas as redes de capital, conhecimento, energia e suprimentos necessárias para sustentar essa soberania são cada vez mais globais.

É nesse ponto que uma notícia de economia e tecnologia se transforma em uma questão institucional. Durante boa parte da história moderna, imaginamos que o progresso seria limitado pela escassez de capital ou pela falta de tecnologia. Hoje, em determinados setores, ocorre quase o contrário: há capital disponível em volumes inéditos e tecnologias cuja capacidade evolui em ciclos cada vez mais curtos. O recurso escasso passa a ser a capacidade das instituições, concebidas para um mundo mais lento, de acompanhar essa velocidade, estabelecer limites, criar incentivos e dar direção coletiva a transformações que já estão em curso. Talvez não estejamos ficando sem inteligência nem sem dinheiro. Estamos descobrindo que nossas instituições podem não evoluir na mesma velocidade daquilo que inteligência e capital, combinados, já são capazes de construir.

É importante, contudo, evitar dois exageros. O primeiro é o pânico fácil, a narrativa de máquinas inevitavelmente fora de controle, que frequentemente serve mais ao entretenimento do que à compreensão. O segundo é a nostalgia de um Estado onipotente, capaz de prever e coordenar sozinho todas as transformações. A iniciativa privada produziu parte extraordinária do progresso material das últimas décadas justamente porque assume riscos, experimenta e se adapta com uma velocidade que a burocracia dificilmente reproduz.

A questão, portanto, não é escolher entre Estado e mercado, mas sim, compreender seus papéis! Mercados são mecanismos extraordinários de alocação de capital, mas não foram concebidos para definir, sozinhos, objetivos coletivos de longo prazo. Uma ferrovia do século XIX transportava mercadorias, mas também expressava uma visão de integração territorial e desenvolvimento nacional. Que visão de sociedade está incorporada a um data center financiado por fundos globais e submetido, em última instância, à lógica econômica do retorno sobre o capital?

Essa pergunta também tem endereço brasileiro. Se a infraestrutura da inteligência começa a ser definida em grandes rodadas de financiamento em Nova York, em políticas industriais em Pequim e em decisões corporativas tomadas por empresas que operam globalmente, o Brasil precisa decidir se pretende ser apenas consumidor das tecnologias produzidas pelos outros ou se quer participar de sua construção. Isso exige energia competitiva, infraestrutura digital, formação de pessoas, segurança jurídica, marcos regulatórios capazes de atrair investimento sem abandonar o interesse público e, sobretudo, uma classe dirigente, pública e privada, disposta a pensar em décadas, e não apenas em ciclos eleitorais ou resultados trimestrais.

Quem vive o setor de tecnologia percebe que a diferença entre a velocidade da inovação e a velocidade da adaptação institucional deixou de ser uma questão burocrática. Tornou-se uma das principais variáveis de competitividade entre países.

Talvez estejamos entrando em uma fase inédita da civilização, na qual uma parcela crescente do futuro deixa de ser desenhada exclusivamente nos gabinetes e passa também a ser precificada nos mercados. Isso não precisa ser interpretado como uma ameaça. Pode representar uma oportunidade extraordinária, desde que compreendamos a dimensão da transformação. O grande desafio não será apenas construir máquinas mais inteligentes ou Estados mais fortes. Será desenvolver instituições capazes de evoluir suficientemente rápido para orientar o encontro entre tecnologia, capital e interesse público. Porque a pergunta decisiva do nosso tempo talvez já não seja quem tem capacidade de construir o futuro. Essa resposta começa a ficar evidente. A pergunta realmente importante é outra: para quem esse futuro será construído?

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em A Terra é Redonda/JB

 

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