Religião
e política: por que a direita está vencendo nessa luta?
Não se
pode, hoje, fazer uma boa análise política e geopolítica do mundo sem levar em
consideração a relação entre a religião e política. Por exemplo, não se pode
entender as disputas eleitorais nas três Américas sem levar em consideração a
aliança entre os políticos da direita e da extrema-direita com os setores do
cristianismo nacionalista e/ou sionista. Alguns poderiam acusar essa relação
entre a religião e política como algo indevido ou uma manipulação da religião
pelos políticos com interesses “impuros”.
Essa
interpretação dessa relação entre a religião e política, um tema importante nas
atuais eleições, se baseia em um dos elementos constitutivos do mundo moderno,
a secularização. Após muitos anos de séries de guerras religiosas, nos séculos
XVI e XVII na Europa, provocadas com a Reforma Protestante e as reações, a
Europa inventou uma solução: tirar Deus da equação política.
Isto é,
como não se pode terminar uma guerra que se combate em nome de Deus e,
portanto, contra o inimigo visto como representante do Diabo, enquanto não se
destrói o reino do diabo. Para poder estabelecer um pacto de paz e restabelecer
uma vida “normal”, a guerra não pode ser feita em nome de Deus, mas deve ser em
nome do Estado ou da nação. Essa separação entre o Estado e a Igreja, ou a
política e religião, foi um grande avanço civilizatório.
Mais do
que um avanço civilizatório, os pensadores da modernidade projetaram o futuro
do desenvolvimento civilizatório a partir da experiência europeia cristã e
tornaram um fato, secularização, em um conceito interpretativo e avaliativo.
Isto é, o conceito de secularização passou a ser critério do progresso ou
retrocesso de uma cultura ou de um país. Culturas, grupos sociais e nações que
ainda misturam a religião e política eram considerados atrasados, e os que
separam completamente o Estado, ou a esfera da vida pública, da Igreja, ou da
religião agora restrito à esfera privada, eram ou ainda são considerados
desenvolvidos, progressistas ou ilustrados.
Na
década de 1970, a teologia da libertação latino-americana (TLLA) rompeu com
esse pressuposto cultural e uma das características fundamentais do mundo
moderno: a separação entre a religião e política. Muitos cristãos de diversas
denominações entram na política, e até mesmo em movimentos revolucionários, em
nome da fé cristã usando linguagem e teorias sociais modernas e até mesmo
marxistas.
A
Igreja Católica sempre teve dificuldade em aceitar o pressuposto da
secularização, mas, na medida em que se integrava ao mundo moderno, ela assumiu
a tarefa de defender sua doutrina social na esfera dos direitos sociais e não
no campo específico da política, muito menos na linha revolucionária ou
institucionalmente transformadora.
Com a
TLLA, muitos cristãos assumiram explicitamente a “política”, entendendo esse
conceito como um que englobava as questões sociais e as políticas (por ex,
eleições e a tomada de poder). A dificuldade da relação entre a fé/religião e a
política, interpretada em grande parte a partir do pressuposto da
secularização, foi ou ainda é um desafio teórico e prático para a esquerda e os
progressistas.
Após
muitas pressões do Vaticano e das direções de outras igrejas cristãs e também
de outros organismos e instituições contra esse movimento de libertação, esse
cristianismo de libertação que assumiu a “fé e política” entrou em crise. Assim
parecia que a expectativa do processo de secularização no mundo inteiro fosse
retomada. Mas, tivemos outro “retorno” de Deus no campo da política com a
entrada do islamismo nos geopolíticos. E depois, a forte intervenção de setores
das igrejas evangélicas, protestantes e pentecostais na política, não somente
em questões sociais e morais, mas também explicitamente eleitorais nas
Américas. Ao entrar na política, uma grande parte deles apoiam e/ou entram em
partidos da direita, defensores do capitalismo e dos valores moralmente
conservadoras.
Uma
característica dessa nova compreensão da relação “religião/fé e politica” é a
sua linguagem pré-moderna ou não ilustrada. Na linguagem dominante da TLLA,
encontrávamos dois tipos de discurso, o religioso e o das ciências sociais
modernas, no interior dessa relação fé e política.
Ao
falar da motivação e a razão pela qual os cristãos deveriam entrar no campo da
política, a estrutura do discurso era do tipo: “Deus, na Bíblia, nos ensina que
devemos entrar na luta política para ser solidários com nossos irmãos pobres e
oprimidos”.
Mas, ao
falar de como e onde atuar na luta, o discurso muda e o sujeito da frase é
outro. Por exemplo, ao explicar as razões do sofrimento, a frase: “o sistema
capitalista é o causador do sofrimento dos pobres”. (Para entender essa frase
que fala da relação entre o sofrimento dos pobres e o sujeito do causador desse
sofrimento, o sistema capitalista, é preciso aprender, a fazer um curso rápido
sobre o que é e como funciona o capitalismo.) Depois disso, para a solução:
“nós precisamos nos organizar e lutar para atingirmos à vitória”.
O que
eu quero chamar atenção é que “Deus” como sujeito da frase só aparece para
motivar pessoas religiosas a entrar na luta sócio-política – o que é uma
linguagem religiosa – e desaparece quando temos uma linguagem não religiosa
quando se fala do sujeito da libertação. Há uma mistura entre a linguagem
religiosa e a moderna secular, no sentido que separou o tema da luta política
da esfera religiosa.
Por
outro lado, pessoas cristãs e igrejas que entram na relação “religião e
política” em nome da fé cristã “tradicional”, não moderna e muito menos pedindo
transformações sociais, usam uma linguagem religiosa “pura”.
Deus é
o sujeito de todas as frases fundamentais da argumentação. Seja na explicação
causa – por ex., “Deus está punindo os pecadores com os seus sofrimentos” –,
seja na solução – por ex., “Deus com suas bênçãos vai providenciar a sua
prosperidade e sua cura”. Não há conflito ou confusão entre a identidade
pessoal marcada pela sua fé religiosa e a linguagem que explica as causas dos
problemas e expressa os desejos de soluções.
Não é à
toa que pessoas e grupos que tem a sua identidade marcada pela figura de um
Deus todo poderoso que atende e resolve os pedidos dos seus fieis são
anticiências porque ciência, por definição elimina Deus nas explicações e nas
soluções. Quanto mais complicadas as explicações científicas naturais, sociais
e antropológicas, mais pessoas tendem a simplificar a realidade. E a religião
de Deus onipotente é a melhor provedora ou vendedora desse desejo de
simplificação, especialmente as que dividem o mundo entre os nossos amigos e
inimigos.
A
tentação dos “batizados” da ilustração é simplificar o problema e dizer que a
religião é a inimiga do desenvolvimento da civilização. Os convencidos dessa
solução podem manter a sua identidade de ilustrado, mas vão perder na luta
real. A direita aprendeu como usar ou manipular essa linguagem religiosa “pura”
para seus interesses políticos e econômicos. Para os que querem transformar
essa situação da relação religião e política na direção de humanização do
mundo, precisamos resolver dois problemas.
Primeiro,
a desenvolver uma linguagem que seja capaz de colocar Deus como sujeito da
frase, não somente na chamada à luta, mas também nas frases no interior do
discurso que trata da ação e de conflitos na luta. Segundo, ter um
discernimento mais claro sobre que com tipo de fé religiosa estamos lidando. Na
tradição da TLLA, temos a diferença entre a fé em um Deus que exige sacrifícios
de vidas humanas, um Deus que justifica até o assassinato de crianças, que a
tradição bíblica chama de “ídolo”, e a fé em Deus da Vida, um Deus que dá vida
para todas pessoas.
Fonte:
Por Jung Mo Sung, em IHU

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