terça-feira, 18 de agosto de 2026

O mundo de 1945 está morrendo: qual será a nova ordem mundial?

A ordem construída a partir de 1945 – com a ONU, Bretton Woods (pacto econômico assinado em julho de 1944 por 44 países), FMI, Banco Mundial, GATT/OMC e um sistema de alianças liderado pelos Estados Unidos – está sofrendo uma erosão profunda. Ela sobrevive institucionalmente, mas seu poder está entrando em colapso: perdeu parte importante de sua capacidade de organizar o comportamento das grandes potências. O próprio debate internacional já passou a falar explicitamente em “multipolarização”. O Munich Security Report 2025 adotou justamente esse conceito para descrever a emergência de novos polos de poder e a crescente fragmentação política. E talvez seja mais preciso dizer que não estamos apenas diante do fim de uma ordem mundial, mas do intervalo perigoso entre duas ordens.

Como diz Fritjof Capra em seu bestseller Ponto de Mutação (inspirado na sabedoria tradicional chinesa do I Ching ou O Livro das Mutações), em todo e qualquer sistema chega um momento crítico de virada onde um ciclo de crise e declínio se esgota e dá lugar ao nascimento espontâneo de uma nova ordem, de forma harmoniosa com o tempo.

Mas essa harmonia sempre vem depois. O momento ou período da mudança costuma ser acompanhado por uma “crise de transformação” que quase nunca é isenta de dores, convulsões, contrações. Como acontece, em escala micro, para toda mulher grávida. O parto, quando ela deixa de ser gestante para se tornar mãe, é sempre um momento crítico que nunca acontece sem dor e um pouco de sangue derramado. Em escala macro, algo análogo acontece no parto de uma nova ordem mundial: padrões que envelheceram entram em colapso e desaparecem em agonia convulsiva cedendo lugar a um sistema novo. Isso é exatamente aquilo que estamos vivendo no atual momento histórico: um ponto de mutação.  

O que está desaparecendo? A ordem de 1945 tinha uma arquitetura relativamente clara: Estados Unidos + Europa Ocidental + Japão constituíam o núcleo do sistema econômico e estratégico ocidental; a União Soviética representava o polo adversário durante a Guerra Fria; e, depois de 1991, durante algumas décadas, os EUA chegaram a exercer uma espécie de unipolaridade global.

Esse mundo está acabando. Não significa que os Estados Unidos tenham deixado de ser a maior potência. Continuam possuindo uma capacidade econômica, militar, tecnológica e financeira extraordinária. Mas já não conseguem definir sozinhos as regras do sistema internacional.

Há um dado eloquente: em 2025, os EUA ainda foram responsáveis por 33% dos gastos militares mundiais, mas China e Rússia foram, respectivamente, o segundo e o terceiro maiores investidores militares. Juntos, os três responderam por 51% dos gastos militares globais. Ao mesmo tempo, os gastos militares europeus cresceram 14% e os da Ásia e Oceania, 8,1%. Ou seja: o mundo está se armando porque não sabe ainda quem estabelecerá as regras do próximo sistema.

E o que vem depois? A melhor hipótese é que não haverá uma nova ordem mundial no singular. Haverá uma ordem mundial policêntrica. E essa diferença é fundamental.

Não veremos simplesmente a substituição da hegemonia americana pela hegemonia chinesa. O mais provável é a formação de vários centros de poder, com diferentes capacidades e diferentes áreas de influência:

Estados Unidos – poder militar, financeiro, tecnológico e cultural; China – indústria, comércio, tecnologia, infraestrutura e crescente poder militar; União Europeia – enorme mercado, poder regulatório e capacidade econômica, embora com dificuldade de transformar isso em poder geopolítico; Índia – população, crescimento econômico, tecnologia e posição estratégica; Rússia – poder militar e nuclear, energia e capacidade de perturbação estratégica; potências médias – Brasil, Turquia, Indonésia, Arábia Saudita, Irã, África do Sul, México e outras – ganhando margem de manobra; BRICS ampliado – tornando-se uma plataforma importante para países que desejam reduzir sua dependência das instituições dominadas pelo Ocidente.

É significativo que já existam análises econômicas descrevendo um futuro sistema comercial como um “patchwork”, com diferentes conjuntos de regras organizados em torno de EUA, China, BRICS+ e outros agrupamentos. 

O BRICS é candidato a construir a nova ordem? Sim, poderá ser um dos arquitetos, mas provavelmente não será o único. O BRICS representa uma mudança importante porque expressa algo que a ordem de 1945 nunca conseguiu incorporar adequadamente: o peso político e econômico crescente do chamado Sul Global.

Mas existe uma contradição: o BRICS reúne países com interesses extremamente diferentes – democracias e regimes autoritários, exportadores de energia e grandes consumidores, países alinhados com Washington e países adversários dos EUA.

Portanto, dificilmente será uma espécie de “novo Ocidente”. Seu papel mais provável é outro: pressionar pela transformação das instituições existentes e criar alternativas parciais a elas. Há inclusive, dentro do próprio universo BRICS, uma formulação explícita de que o objetivo seria uma ordem “policêntrica”. 

O problema é que a transição pode ser muito perigosa. A história mostra que os períodos de transição entre ordens internacionais são particularmente instáveis. O perigo não está apenas na existência de várias potências: está na ausência de regras aceitas por todas elas. A ONU é o melhor exemplo. Continua existindo, mas seu Conselho de Segurança reflete uma distribuição de poder de 1945. Enquanto isso, o mundo econômico, demográfico e tecnológico mudou radicalmente. Hoje, sua capacidade de bloquear decisões internacionais continua concentrada em cinco membros permanentes.

É uma das grandes contradições do século 21: temos instituições do século 20 tentando administrar um mundo do século 21. E líderes anacrônicos tipo Donald Trump tentando fazer o mesmo. Isso ajuda a explicar a crescente sensação de paralisia do sistema multilateral. A própria sucessão de António Guterres ocorre em um contexto de críticas à perda de autoridade da ONU, ao bloqueio diplomático e ao fortalecimento de fóruns alternativos, como o G20. 

A questão militar torna tudo ainda mais preocupante. Estamos entrando em uma época de rearmamento generalizado. Em 2025, os gastos militares mundiais chegaram a aproximadamente US$ 2,887 trilhões, o maior nível jamais registrado, com crescimento pelo 11º ano consecutivo. 

O sistema nuclear também está mudando. Nove países possuíam aproximadamente 12.241 armas nucleares no início de 2025. Agora surge o alerta para uma nova corrida nuclear em um momento de enfraquecimento dos mecanismos de controle de armamentos. Isso significa que a nova ordem poderá nascer não da cooperação, mas do equilíbrio do medo.

E há uma quarta dimensão: tecnologia. A ordem de 1945 foi construída em torno de território, exércitos, petróleo, indústria e armas nucleares. A próxima será construída também em torno de: IA + semicondutores + dados + energia + espaço + biotecnologia + ciberespaço. Quem controlar essas infraestruturas terá poder para impor padrões aos demais.

A disputa entre Washington e Pequim, portanto, não é simplesmente uma disputa comercial. É uma disputa sobre quem definirá a arquitetura tecnológica do século 21.

Então, como será a nova ordem? Pode-se apostar em cinco características:

1. Multipolar: Não haverá um único centro incontestável de poder.

2. Policêntrica: Diferentes países exercerão liderança em diferentes áreas.

3. Competitiva: Cooperação e rivalidade existirão simultaneamente.

4. Regionalizada: América Latina, Europa, Oriente Médio, África e Ásia terão maior autonomia estratégica.

5. Mais transacional: Alianças baseadas em valores poderão ceder espaço a acordos baseados em interesses.

Essa última característica talvez seja a mais importante, e a pergunta do século 21 poderá deixar de ser: “De que lado você está?”, e passar a ser: “O que você tem a oferecer?”

E o Brasil?

Aqui está talvez a parte mais interessante para nós. Um mundo multipolar pode ser uma oportunidade histórica para o Brasil. Nosso país possui território, alimentos, água, energia, biodiversidade, minerais estratégicos, capacidade agrícola, mercado interno e posição diplomática privilegiada.

Em uma ordem rigidamente bipolar, o Brasil tende a ser pressionado a escolher um lado. Em uma ordem policêntrica, pode tentar negociar com todos. Mas existe uma condição: transformar tamanho em estratégia. Caso contrário, o Brasil poderá ser apenas fornecedor de commodities para as novas potências.

Se conseguirmos construir autonomia tecnológica, industrial, energética e diplomática, poderemos ocupar uma posição muito mais importante.

Mas existe, entretanto, um cenário ainda mais sombrio: talvez não estejamos caminhando diretamente para uma nova ordem mundial. Talvez estejamos entrando primeiro em uma desordem mundial prolongada.

Um sistema em que ninguém possui força suficiente para mandar no mundo, mas várias potências possuem força suficiente para impedir que as outras mandem: esta é uma situação potencialmente perigosa.

Porque a velha ordem pode continuar existindo no papel – ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, tratados – enquanto sua autoridade diminui na prática. O velho edifício permanece de pé, mas seus moradores já não obedecem às mesmas regras. Essa talvez seja a imagem mais precisa do momento histórico atual.

E é justamente por isso que a questão fundamental não é apenas “qual será a nova ordem mundial?”

É outra: quem terá o poder de desenhá-la? Porque estamos provavelmente diante de uma das maiores disputas pela arquitetura do mundo desde 1945 – e, desta vez, não está escrito que os vencedores serão necessariamente os mesmos que venceram a Segunda Guerra Mundial…

¨      O que há embaixo do topete de Trump? Por Fernando Lavieri

Em 30 de novembro de 1964, Ernesto Che Guevara (1928-1967) era ministro da Indústria de Cuba quando em um ato político, em Santiago de Cuba, ele, em meio ao discurso, desenvolveu uma de suas ideias mais famosas: “no se puede confiar em el imperialismo ni tantito así, nada!” (Não se pode confiar no imperialismo, nem um tantinho assim, nada!). No mês seguinte, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, entre diversos alertas e denúncias contra o imperialismo estadunidense, ele repetiria a frase.

Pois é, Che estava certo e a sua frase permanece atual. No contexto eleitoral brasileiro é dessa forma que o presidente do Brasil deve enxergar Donald Trump e o esquema imperialista de seu país. Pouco importa a sua capacidade de costurar acordos e reuniões na Casa Branca, na ONU ou em Brasília, não se pode confiar no que está abaixo daquele topete. Na verdade, não seria surpresa um ataque direto ao presidente Lula; seja como ocorreu na Venezuela, quando do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, ou qualquer outra proposta terrorista das quais o Tio San é especialista. Donald Trump quer o controle absoluto da América Latina, o imperialismo estadunidense, fará de tudo para impedir a reeleição de Lula.

Donald Trump é o produto político mais bem acabado, mais legítimo da extrema direita estadunidense, e, como tal, não tem limites. Ele demonstra autoritarismo na condução política dos Estados Unidos. Age contra universidades e instituições de Estado, profissionais que as chefiam, jornalistas, ênfase as mulheres, imigrantes e estudantes. Ele é mentiroso contumaz, racista, misógino, abusador, xenófobo, assassino, terrorista e que tais; Trump, tem o rei na barriga, ele repaginou a Doutrina Monroe de 1823. No Brasil o seu ideário e carranca monstruosa se fortaleceram muito por meio do bolsonarismo e da Fifa. É fundamental lembrar que Trump já colocou no bolso do paletó quase todos os países latino-americanos, bem dizer, apenas Brasil e México ainda resistem.

O presidente Lula deve perceber que as eleições do Brasil estão contaminadas, aliás, como sempre ocorreu. Há dólares, muitos dólares circulando, a CIA atua ao entardecer nos corredores do Poder e, mais recentemente, as big techs tentam influenciar as mentes e corações em todas as telas. Tanto o Partido dos Trabalhadores quanto o governo federal devem exercer força política e manobrar os instrumentos da República (sem contar evidentemente com André Mendonça e Cássio Nunes Marques) para impedir a destruição da parca democracia brasileira. Repetindo: Che Guevara estava certo! Não se pode confiar no imperialismo ianque.

¨      Investimento alemão despenca nos EUA sob incerteza tarifária do governo Trump, diz mídia

Investimentos de empresas alemãs nos EUA despencaram no primeiro semestre de 2026, quase 80% menos que no ano anterior, em meio à incerteza gerada pelas ameaças tarifárias do governo Trump.

Os investimentos de empresas alemãs nos Estados Unidos caíram drasticamente no primeiro semestre de 2026, atingindo € 4,3 bilhões (aproximadamente R$ 25,93 bilhões), o menor nível em três anos e quase 80% abaixo do registrado no mesmo período de 2024.

Segundo o levantamento do Instituto Alemão de Economia divulgado pela mídia britânica, a queda aprofunda uma tendência iniciada com o segundo mandato de Donald Trump.

Desde 2025, o governo norte‑americano tem ameaçado parceiros comerciais com tarifas de importação para obter concessões favoráveis a Washington. Para evitar sobretaxas, a União Europeia (UE) chegou a firmar um acordo que incluía um compromisso de investimento de US$ 600 bilhões (mais de R$ 3,128 trilhões), mas a incerteza regulatória continua afetando decisões empresariais.

Historicamente, empresas alemãs investiam em média € 15,8 bilhões (cerca de R$ 95,27 bilhões) no primeiro semestre dos anos pré‑pandemia de COVID-19, quase quatro vezes o nível observado em 2026. O período entre 2020 e 2023, porém, foi marcado por distorções provocadas pela pandemia, incluindo anos de saídas líquidas de capital.

De acordo com a mídia, a análise dos fluxos até 2025 mostra que lucros reinvestidos e empréstimos internos permaneceram elevados, enquanto o capital próprio — novos aportes, descontadas liquidações — ficou abaixo da média. Isso indica que empresas já instaladas continuam operando e reinvestindo nos EUA, apesar da cautela em expandir operações.

Segundo a pesquisadora Samina Sultan, consultada pela apuração, o comportamento revela que o mercado norte‑americano segue atraente, mas a disposição para aplicar novo capital diminuiu diante das incertezas políticas e tarifárias. A hesitação reflete o receio de mudanças abruptas nas regras de comércio exterior.

O cenário sugere que a relação econômica permanece robusta, mas sob tensão: empresas mantêm operações e reinvestimentos, enquanto adiam decisões de expansão até que o ambiente regulatório se estabilize.

<><> Analista britânico: sucesso econômico da Rússia virou um golpe para o Ocidente

Os sucessos econômicos da Rússia foram um golpe para o Ocidente, disse o especialista militar britânico Alexander Mercouris em seu canal no YouTube.

"Quando, para surpresa dos EUA, do Ocidente e da Ucrânia, a Rússia começou a superá-los em volumes de produção, eles não reconsideraram a sua visão da economia russa, que se revelou fundamentalmente errada", disse ele.

Em vez disso, explicou o especialista, começaram a inventar desculpas ridículas para a sua política de sanções falhada. De acordo com Mercouris, eles apenas limitaram-se às esperanças de que o Ocidente teria que impor um pouco mais de restrições e organizar vários ataques à infraestrutura russa para ter sucesso. Mas esse plano falhou.

"Essa economia, com seus vastos recursos, não está sobrecarregada por nenhum dos cenários que o Ocidente parece ter esperado", resumiu o analista.

Moscou declarou repetidamente que considera as sanções da UE ilegais e ineficazes. As autoridades russas observaram que as restrições estão a prejudicar, em particular, a economia europeia.

 

Fonte: Por Luis Pellegrini, em Brasil 247/Sputnik Brasil

 

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