Quilombolas
denunciam fechamento de escolas na Bahia e no Piauí
A
TRABALHADORA RURAL Raimunda da Silva Coimbra descobriu no início do ano, ao
rematricular o filho de cinco anos, que ele não poderia mais estudar na escola
que atendia sua comunidade quilombola, em Piatã, na Chapada Diamantina (BA). A
criança foi transferida para outra escola a cerca de 10 quilômetros de onde
vivem.
“O
diretor simplesmente disse que a escola ia fechar, sem dar explicação, sem ter
uma reunião com a comunidade”, lamenta Raimunda, moradora da comunidade do
Barreiro, que tem reconhecimento da Fundação Palmares, mas ainda não foi
demarcada.
Além do
filho dela, outras quatro crianças da comunidade deveriam ser transferidas,
informou a secretaria escolar aos pais. Raimunda conta que parte das famílias
decidiu não matricular as crianças na nova escola, que fica em outra comunidade
quilombola.
Antes
de fechar uma escola quilombola, indígena ou do campo, o poder público precisa
justificar a decisão, avaliar os impactos do fechamento e ouvir a comunidade
escolar, segundo previsto na Lei 12.960/2014. Um conselho municipal de educação
também deve analisar o caso. Em Piatã, contudo, os moradores dizem que esses
procedimentos não foram adotados.
A
Repórter Brasil ouviu nas últimas semanas depoimentos de mães, pais,
pesquisadores e lideranças quilombolas a respeito do fechamento de escolas
quilombolas sem aviso prévio. Além da comunidade na Chapada Diamantina, no
Piauí, os moradores de um quilombo viram as turmas de ensino fundamental serem
fechadas.
Não há
dados oficiais sobre o problema, mas a Conaq (Coordenação Nacional de
Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) aponta mais de 300
unidades paralisadas em quatro anos.
A falta
de dados oficiais é um sinal das falhas nas políticas educacionais voltadas às
comunidades, segundo pesquisadores e lideranças quilombolas ouvidas pela
Repórter Brasil. Para elas, a interrupção da oferta de ensino enfraquece a
educação e as tradições quilombolas e pode comprometer a permanência das
famílias nos territórios.
Na
Bahia, a Defensoria Pública da União foi acionada para acompanhar o caso em
Piatã. “Tentei marcar uma reunião presencial com a prefeitura, mas eles se
recusaram a responder”, afirma Diego Guimarães Camargo, defensor regional de
direitos humanos na Bahia. O órgão encaminhou o caso para apuração do
Ministério Público da Bahia.
O
Ministério Público da Bahia ajuizou Ação Civil Pública para apurar os
acontecimentos e tomar as medidas cabíveis.
A
comunidade fez abaixo-assinado e afirma que tentou marcar reunião com o
secretário de Educação de Piatã, Zalmi de Souza Marques, sem sucesso. “Quando
eu vi retirando as coisas da escola, meu coração partiu. Eu senti um desprezo
[deles], como se a comunidade não tivesse valor nenhum”, diz Raimunda em um
vídeo gravado em março, após a retirada do material didático e do mobiliário da
escola pela prefeitura.
A
Repórter Brasil enviou questionamentos para o e-mail da secretaria de educação
do município e para o WhatsApp do secretário, que recebeu as mensagens, mas não
respondeu.
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Transporte escolar não é seguro e a estrada é perigosa, dizem famílias
A menor
adesão de alunos à escola mais distante tem explicação, segundo as famílias. As
crianças são pequenas, de três a cinco anos, o transporte escolar é “precário”
e o trajeto é feito por rodovia em más condições, dizem as famílias. “Não tem
cinto de segurança, não tem monitor no ônibus escolar, e as estradas são ruins,
cheias de buraco”, diz a trabalhadora.
O dono
da empresa de transporte escolar é réu por fraude em licitação em outra cidade,
Canarana, no semiárido baiano, como revela a Repórter Brasil nesta
segunda-feira (17) na reportagem “Dono de empresa de transporte escolar na
Bahia é réu por fraude em licitação”.
O
lavrador Tiago de Souza Coimbra tem três filhos, de 4, 5 e 8 anos, mas afirma
que apenas o mais velho frequenta a nova escola, localizada na comunidade
quilombola de Palmeira.
“A
gente trabalha preocupado de acontecer algum acidente na estrada. Se ele fica
doente na escola, é difícil buscar porque a escola não leva de volta nesses
casos, a gente tem que arrumar um jeito de ir lá”, diz.
As
famílias que não matricularam os alunos afirmam ter sofrido pressão de
representantes do governo municipal após a transferência da escola. “Eles ficam
ameaçando a gente, falando que vão cortar o Bolsa Família. Falam que vão mandar
a polícia prender, mas eles estão cientes do motivo de não levar as crianças na
escola”, conta Raimunda.
Para
não ficarem sem o Bolsa Família, alguns pais foram ao CRAS (Centro de
Referência de Assistência Social) de Piatã para justificar a ausência dos
filhos. Ainda assim, a família de Raimunda teve o benefício bloqueado em julho.
“É um dinheiro que faz muita falta porque ajuda muito para comprar um remédio,
uma roupa, ainda mais eu que sou mãe solo”, conta ela.
A
Repórter Brasil procurou o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social, Família e Combate à Fome), responsável pelo programa de transferência
de renda, mas a pasta não respondeu até a publicação da reportagem.
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No Piauí, alunos foram transferidos para escola não quilombola
Em
geral, o fechamento de uma escola quilombola não começa com o encerramento
imediato das atividades, mas aos poucos, explica Tiago Rodrigues Santos, do
Programa de Pós-Graduação em Educação do Campo da UFRB (Universidade Federal do
Recôncavo Baiano).
“Vão se
criando condições para esse fechamento. A gestão começa a dificultar o acesso à
alimentação e ao transporte, deixa degradar as condições físicas da escola,
troca professores, atrasa material didático. De modo geral, a administração
desgasta a escola para depois anunciar que ela não tem condições de funcionar
ou que deixou de ser atrativa para os pais”, afirma Santos.
Essa é
a percepção de Antônio Sousa Silva, liderança da comunidade quilombola Olho
D’Água dos Negros, que fica em Esperantina, no Piauí. A Escola Municipal
Valdivino de Sousa Pires, localizada no território, teve as turmas de ensino
fundamental encerradas gradualmente.
“A
gente tinha até o nono ano na escola e, em vez de evoluir para termos o ensino
médio dentro da comunidade, estamos retrocedendo. É uma angústia para as
famílias”, conta Silva.
Os
alunos do ensino fundamental foram transferidos para a Escola Municipal
Francisco José do Rego Castro, não quilombola, a cerca de 12 quilômetros da
comunidade Olho D’Água dos Negros.
As
famílias relatam que estudantes passaram a enfrentar episódios de racismo após
a transferência. Silva também aponta dificuldades para assegurar o ensino de
história e cultura afro-brasileira e africana, obrigatório pela legislação
educacional.
Para o
Ministério Público do Piauí, a prefeitura não realizou a consulta necessária à
comunidade e descumpriu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
Escolar Quilombola. As normas determinam que a educação quilombola deve
considerar a especificidade étnico-cultural das comunidades e,
preferencialmente, ser ofertada nos próprios territórios.
Em
janeiro, o órgão ingressou com uma ação civil pública para que o município
reabra as turmas de ensino fundamental. O Tribunal de Justiça do Piauí já
concedeu uma decisão liminar (de urgência) para a reabertura da escola, que até
a publicação desta reportagem ainda não havia sido cumprida.
Na
ação, a Secretaria Municipal de Educação justificou a transferência com a
necessidade de evitar turmas multisseriadas — formadas por alunos de diferentes
anos escolares — e afirmou que a medida tenta melhorar a qualidade do ensino
diante do baixo número de estudantes.
À
Repórter Brasil, o promotor Sinobilino Pinheiro da Silva Junior, autor da ação,
disse que algumas prefeituras têm transferido estudantes de escolas menores
para concentrar matrículas em unidades que atendam aos critérios do ensino
integral. “Um desses critérios é a quantidade de alunos. Na zona rural, o
número de estudantes por escola costuma ser menor, especialmente no Piauí, que
tem um território muito grande”, diz.
A
legislação federal não fixa um número mínimo de alunos para o funcionamento de
uma escola, inclusive na educação em âmbito rural. A existência de turmas
multisseriadas também não é proibida.
Segundo
o promotor, o Piauí está expandindo o ensino integral, modalidade que recebe
mais recursos da União. Essa preferência, contudo, acaba levando ao fechamento
de algumas escolas rurais.
Ele
ressalta ainda não haver evidências de que a centralização de escolas melhora a
qualidade da educação.
“A
gente argumenta que a escola tem, sim, condições e pode funcionar em tempo
integral, para que nossas crianças permaneçam estudando na comunidade e
vivenciando a parte cultural, que é tão importante para o quilombo”, diz Silva.
Procurada pela Repórter Brasil, a Prefeitura de Esperantina não respondeu.
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Dados oficiais não captam fechamento de escolas quilombolas
Apesar
de o número de escolas quilombolas no país ser o maior na série histórica,
computando 2.737 em 2025, pesquisadores ouvidos pela reportagem apontam
lacunas, especialmente nos dados do Censo Escolar, para dimensionar a evolução
do ensino.
O
professor de educação do campo da UFRB, Santos, afirma que a classificação das
escolas depende, em grande medida, das informações prestadas pelas redes
municipais de ensino. Como a maior parte das unidades quilombolas é
administrada por prefeituras, a identificação pode variar conforme o
conhecimento dos gestores, a formação das equipes responsáveis pelo
preenchimento do Censo e a fiscalização dos dados, além da conveniência da
política local.
“Como
isso [classificação como escola quilombola] é declaratório, pode ser, de certa
forma, burlado pelo gestor ou pela direção”, explica Santos. “A legislação que
o movimento quilombola ajudou a construir é de que escolas quilombolas são
aquelas que estão em territórios quilombolas ou que atendem a maioria de
estudantes oriundos de comunidades quilombolas.”
O caso
do Barreiro, em Piatã, ilustra essa dificuldade. Embora atendesse
principalmente crianças quilombolas, a unidade não aparece como nas bases do
Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira),
responsável pelo Censo Escolar.
Além
disso, o Censo Escolar apenas apresenta dados de escolas fechadas e paralisadas
por zona rural ou zona urbana, sem especificar se essas unidades estão dentro
de comunidades tradicionais, o que dificulta o mapeamento.
Procurado,
o MEC (Ministério da Educação) disse que “a oferta de Educação Escolar
Quilombola, bem como eventual fechamento, é de responsabilidade do ente
estadual ou municipal” e que cabe ao Ministério Público fiscalizar.
Já o
Inep respondeu que o Censo é realizado anualmente pelo órgão em parceria com as
redes estaduais e municipais de ensino. E que essas instituições “são
responsáveis pelas informações prestadas ao Censo”.
A Conaq
(Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas)
mantém um levantamento próprio a partir de relatos das comunidades e estima ao
menos 327 escolas quilombolas fechadas entre 2021 e 2024.
“A
gestão municipal não coloca a escola como fechada porque a lei obriga a fazer
consulta com as comunidades, então ela coloca a escola como paralisada, mas, na
prática, ela está fechada há muito tempo”, explica Shirley Pimentel, do
Coletivo de Educação da Conaq.
Um
levantamento da Repórter Brasil com base em informações de endereço e nome de
escolas no Censo Escolar identificou ao menos 38 escolas quilombolas fechadas e
241 que estiveram em algum momento paralisadas nos últimos dez anos.
No caso
da Bahia, a Escola Municipal do Barreiro atendia a educação infantil e era uma
espécie de anexo do CEJC (Centro Educacional José Coimbra), localizado na
comunidade quilombola da Palmeira, para onde foi determinada a transferência de
cinco estudantes.
Oficialmente,
é como se a unidade escolar no Barreiro não existisse, o que, para
pesquisadores e lideranças entrevistadas pela Repórter Brasil, é uma forma de
enfraquecer a educação e a tradição quilombola e, consequentemente, a
permanência das comunidades no próprio território.
“A
educação precisa ser uma pauta efetiva da sociedade brasileira, porque nós
estamos há séculos negando à população quilombola uma educação de qualidade
diferenciada”, defende Santos, da UFRB.
Liderança
na comunidade do Barreiro, Josemar de Oliveira acredita que a medida também é
uma forma de apagar as tradições.
“Como
na Bocaina houve um enfrentamento direto por causa da mineração, a gente
entende que o fechamento da escola é uma forma indireta de esvaziar a
comunidade, para que as famílias se mudem do território para ficar mais
próximas de outras escolas”, afirma.
Oliveira
faz referência à luta das comunidades quilombolas de Bocaina e Mocó, também na
Chapada Diamantina, que conseguiram barrar provisoriamente a atuação da
mineradora inglesa Brasil Iron nos territórios por meio de ações judiciais
dentro e fora do país. Na ocasião, moradores afirmaram que as atividades de
prospecção da empresa teriam rachado casas, destruído roças e assoreado a
nascente do córrego Bebedouro, usado para abastecimento de água na época de
seca.
• Dono de empresa de transporte escolar na
Bahia é réu por fraude em licitação
QUILOMBOLAS
DA COMUNIDADE DO BARREIRO, na cidade de Piatã, na Chapada Diamantina (BA),
reclamam que os veículos usados no transporte escolar são precários e
inseguros. A empresa responsável, a Araujo Alves Empreendimentos, atua na
região desde 2021 e teve seu contrato prorrogado pela 11ª vez com um contrato
no valor de mais R$ 3,2 milhões até o final do ano. O dono da empresa, Diego
Santos Alves, é réu por fraude à licitação em outra cidade, Canarana, no
semiárido baiano.
Segundo
a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, o pregão realizado em
Canarana em 2019 para contratar serviços de transporte escolar e locação de
veículos foi direcionado à empresa de Alves.
O
certame tinha valor estimado em R$ 5,3 milhões e era custeado com recursos do
FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Uma perícia também
apontou sobrepreço de 38,7% no valor homologado para o transporte escolar.
Documentos
da investigação obtidos pela Repórter Brasil mostram que o responsável pelo
pregão admitiu ter simulado o certame. Segundo seu depoimento, empresas foram
apresentadas como concorrentes sem saber que participavam do processo, e
cotações foram formuladas para que a Araujo Alves apresentasse a proposta mais
vantajosa.
A
prorrogação do contrato em Piatã ocorreu um mês depois de Alves se tornar réu.
Ele negou, em depoimento, ter participado da fraude. Disse desconhecer as rotas
do transporte escolar e afirmou que subcontratava motoristas e veículos sem
conhecimento da Prefeitura de Canarana.
Ao
comentar os problemas relacionados à política de transporte escolar, Shirley
Pimentel, pesquisadora do Coletivo de Educação da Conaq (Coordenação Nacional
de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), afirma que a falta
de fiscalização dos recursos públicos e o fechamento de escolas podem favorecer
o desvirtuamento de políticas importantes como a do transporte escolar.
Para a
pesquisadora, a questão é especialmente relevante para comunidades quilombolas,
já que 91% das escolas quilombolas estão na zona rural, segundo dados do Censo
Escolar de 2025.
“Se tem
escola no território, não tem uma demanda maior de contratação de transportes
escolares, por exemplo”, explica. “Existe esse interesse dos municípios de
centralizar a gestão das escolas, colocar estudantes de várias comunidades numa
unidade só, que a gente chama de nucleação, em que existe essa visão
burocrática e eleitoreira de baratear o custo das escolas, mas se gasta no
transporte. E essa visão não considera a qualidade de vida e de oferta de
educação escolar para as próprias comunidades”, critica.
Fonte:
Repórter Brasil

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