Aberta
a temporada de caça ao voto
Quem se
habituou a olhar a política brasileira como um poço de defeitos terá, a partir
de hoje, motivos para se sentir ainda mais desanimado. Embora as candidaturas
já estejam nas ruas desde o ano passado, foi dada a largada oficial da campanha
para as eleições deste ano. De agora em diante, os candidatos poderão deixar de
lado a linguagem cifrada que utilizaram até aqui e se dirigir sem subterfúgios
ao eleitor para pedir o voto.
Antes
de prosseguir, é preciso deixar claro um aspecto fundamental. A campanha
eleitoral é extremamente importante e, por essa razão, deve ser acompanhada com
lupa. Não existe democracia sem eleição, da mesma forma que não existe eleição
sem campanha. Esta é, portanto, uma hora decisiva, em que os políticos fazem de
tudo para conquistar a confiança e o voto do eleitor. O momento em que precisam
deixar claro não apenas o que têm a oferecer à sociedade, mas, também, aquilo
que os diferencia dos adversários. Até aqui, tudo bem.
A HORA
DA “DESCONSTRUÇÃO”
O
problema é que, a cada campanha, o debate no Brasil tem se reduzido a uma troca
de acusações permanente — em que as narrativas se mostram mais importantes do
que os fatos. As campanhas no Brasil têm sido marcadas por situações em que as
propostas políticas muitas vezes são mantidas ocultas atrás das estratégias de
marketing. E, muitas vezes, adotam estratégias que, em vez de ressaltar as
propostas do candidato, se concentram em criar embaraços e a “desconstruir” a
imagem do adversário.
“Desconstruir”,
no dicionário das campanhas, nada mais é do que jogar no ventilador os defeitos
do oponente. Simples assim. Nesse ambiente, o eleitor pode ir se preparando
para, nas próximas semanas, presenciar debates acalorados, mas pouco
esclarecedores. E, além disso, para testemunhar uma série de tentativas de
espalhar todas as cascas de banana possíveis no caminho do adversário. Uma
amostra dessa tendência foi dada na quinta-feira passada — quando veio à tona
uma fraude que atingiu a campanha do senador Flávio Bolsonaro.
SERVIÇO
SUJO
Ao
levar ao TSE a documentação para registro da candidatura do filho de Jair
Bolsonaro à Presidência da República, os advogados do PL foram informados de
que ele estava em situação irregular. De acordo com os registros, Flávio teria
deixado o partido e se filiado ao Missão — e não poderia, portanto, sair
candidato pelo PL.
A
primeira suspeita, logo afastada, foi a de que o sistema da Justiça Eleitoral
tinha sido vítima de algum hacker. Logo, porém, surgiram indícios de que o
serviço sujo partiu do próprio Missão.
A
candidatura, no final das contas, foi registrada sem que o episódio tenha sido
totalmente esclarecido. Casos como esse, independentemente de onde partam e a
quem pretendam atingir, não podem ser tratados como meras traquinagens. Eles
devem ser vistos como o que de fato são — ou seja, crimes. E, como tal,
investigados e punidos. Se as dúvidas que surgirem não forem prontamente
esclarecidas, o bate-boca e a troca de acusações que tem marcado a política
brasileira ficará ainda mais quente e o clima ainda mais azedo.
ANDANDO
EM CÍRCULOS
Seria
bom que o Brasil não precisasse perder tempo discutindo molecagens como essa e
se dedicasse ao debate de temas que, por mais importantes que sejam, nunca
ocupam espaço central nas discussões eleitorais. Quer um exemplo? Vamos a ele!
O
Ministério do Planejamento e Orçamento divulgou na terça-feira passada que o
governo não dispõe de R$ 105,5 bilhões para cobrir as despesas assumidas para
este ano — e que serão empurradas para 2027. Qualquer pessoa que já tenha
passado na porta de uma faculdade de economia sabe que a consequência dessa
prática, que é corriqueira no Brasil, é, no final das contas, mais pressão
inflacionária. Embora a campanha eleitoral seja o momento adequado para se
discutir esse assunto, ele tem tudo para ser solenemente ignorado.
Por
quê? Ora... falar em falta de dinheiro a esta altura significa apontar o dedo
para um assunto que os políticos preferem manter afastado do eleitor. O
orçamento deste ano reservou R$ 4,9 bilhões para cobrir as despesas com a
propaganda eleitoral do candidato — sem contar os R$ 110 milhões do dinheiro
público que pingam nas contas dos partidos todo mês para bancar a manutenção
das estruturas caríssimas que os mantém funcionando.
Publicidade
Embora
falte dinheiro para tudo, para o fundo que financia as campanhas eleitorais e
para os partidos políticos, nunca faltou um tostão. O eleitor precisa discutir
essas questões e definir suas prioridades. Do contrário, terá a sensação de que
o Brasil está andando em círculos e que a situação será a mesma, senão pior,
daqui a quatro anos — quando ele for novamente chamado escolher seus
governantes.
• Foi dada a largada; façam suas apostas.
Por Gilberto Menezes Côrtes
Os
competidores entraram nas baias de largada, depois que as chapas majoritárias e
demais postulantes encerraram as inscrições no prazo máximo do Tribunal
Superior Eleitoral. E já neste domingo começa a campanha eleitoral no rádio e
na TV, além da batalha campal nas redes sociais. Como o TSE não deu cartão
vermelho geral antecipado, é grande o risco de o eleitor ser iludido pela
Inteligência Artificial. As coordenações das campanhas precisam estar atentas
para não reagir após estragos irreversíveis. O triste “caso Discord” está aí
para mostrar: é vital agir rápido na “web”.
Por
enquanto, apesar da polarização da campanha, os números da última pesquisa
Quaest, divulgada sexta-feira, mostraram um dado surpreendente. Embora o
presidente Lula lidere em todos os cenários (no primeiro e no segundo turnos,
no confronto simulado com os candidatos mais indicados), a pesquisa espontânea
indicou que nada menos de 51% dos pesquisados estão indecisos. Ou seja, pode
ser uma eleição decidida pelos Nem-Nem. Nem Lula, nem Bolsonaro, como sonham os
demais postulantes.
Lembro
que Paulo Maluf era um político que iludia no “cânter”. Ou seja, nas prévias,
sempre largava na frente, com pouco mais de 30% das indicações de votos. Quem
era Maluf logo dizia seu voto. Mas, as pesquisas escondiam que os indecisos
eram de 40% a 45% do total. Quando os indecisos se decidiam, não era por Maluf.
Ampliado o bolo dos eleitores definidos, seu quinhão encolhia e perdia o páreo.
Agora, os indecisos são 51% ou metade. O conservador Maluf se decidiu por Lula.
Assim como as raposas do “centrão”.
Na
campanha eleitoral, o maior tempo é de Lula. Além disso, o presidente tem obras
e realizações na recomposição dos projetos sociais e ambientais destruídos por
Jair Bolsonaro para mostrar. Flávio, por enquanto, tem o apelo da obsessão por
livrar o pai da cadeia, caso seja eleito. Os demais postulantes vão bater em
Lula e em Flávio, para ver se angariam votos dos indecisos.
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Petróleo no fator soberania
A
soberania nacional será um dos temas explorados pelo presidente Lula, para
fustigar as posições entreguistas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em
articulação com o irmão Eduardo, que se instalou nos Estados Unidos desde
fevereiro do ano passado, para conspirar contra o Brasil e tentar parar o
processo do Supremo Tribunal Federal que condenou o ex-presidente Jair
Bolsonaro a 27 anos de cadeia, o senador instigou e aplaudiu os tarifaços de
Trump contra as exportações brasileiras. Ao acionar o princípio da
reciprocidade contra os Estados Unidos, o governo Lula chamou o governo Trump à
mesa de negociações e pôs o tema na campanha eleitoral para fazer o contraponto
da defesa da soberania ao entreguismo da família Bolsonaro.
E veio
a calhar a nota da Petrobras, na noite de sexta-feira, de que identificou
"a presença de hidrocarbonetos em poço exploratório em perfuração no bloco
FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, na bacia sedimentar da Foz do Amazonas,
na margem equatorial brasileira. O poço Morpho (1-BRSA-1405-APS) está
localizado a cerca de 175 km da costa do estado do Amapá, em lâmina d'água de
2.886 metros". A presidente da estatal, Magda Chambriard, disse que “o
otimismo da Petrobras em relação à margem equatorial brasileira se confirma” e
acrescentou que, com essa primeira descoberta na costa do Amapá, resultado “da
dedicação e da competência da Petrobras”, a companhia “está comprometida com a
recomposição das reservas de petróleo e com a segurança energética do país".
O
intervalo portador de hidrocarbonetos foi constatado através de perfis
elétricos e indicativos em rocha. As operações de perfuração seguem, visando a
continuidade da avaliação exploratória, de forma segura e com respeito ao meio
ambiente e às pessoas. Não será surpresa se a confirmação das dimensões
gigantescas da descoberta, a ser atestada com novas perfurações, coincidir com
a reta final das eleições. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, eleito pelo
União do Amapá, já se reaproximou do presidente Lula, farejando petróleo e
reeleição. A Petrobras é a operadora do bloco e detém 100% de participação na
área. O bloco foi adquirido na 11ª Rodada de Licitações da ANP, em 2013, sob o
regime de concessão.
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Lula mira Rubio e poupa Trump
O
presidente Lula, certamente, já sabia dos sinais de óleo que indicam nova
província petrolífera no Norte do país (que se junta ao gigante pré-sal da
Bacia de Santos, e à revitalizada Bacia de Campos, e o promissor campo de
petróleo e gás no litoral de Sergipe-Alagoas), quando disparou torpedos contra
as falas do secretário de Estado americano. Marco Rubio, que está redesenhando
a doutrina “Donroe” (a doutrina Monroe adaptada à gestão Donald Trump), disse
que o Ocidente é a área de influência americana. Lula poupou Trump (de quem
espera diálogo).
Geograficamente,
sim. Os Estados Unidos fazem parte das Américas e do Caribe. Do ponto de vista
comercial e econômico, embora, por seu vasto território, tenha matérias-primas
(petróleo, minérios e terras raras), variedade de fontes energéticas renováveis
e amplo leque de produção alimentar, o Brasil é competidor dos EUA em soja,
milho, laranja, produção de suínos, de frangos, ovos e de carne bovina. Os
grandes consumidores estão na Ásia: pela ordem, China, Japão, Índia, Indonésia
e Coreia do Sul.
Nunca é
demais lembrar. Quando o cerrado do Centro-Oeste foi conquistado, na segunda
metade dos anos 70, no governo Geisel, após a destruição, na geadas de junho de
1975, das lavouras de café (e dos consórcios de milho, feijão e mandioca nas
“ruas” do café), foi o Japão que financiou as pesquisas da Embrapa que
descobriram variedades de soja, milho e algodão adaptáveis ao cerrado. O Japão
era o alvo.
A
entrada da China como grande compradora de minérios (de Carajás – os alvos
iniciais eram a Europa e o Japão), de alimentos e petróleo, mudou a geopolítica
econômica do Brasil. Hoje, a China absorve mais de 30% das exportações
brasileiras e garante mais de 40% do superávit. Os EUA são o segundo país
importador, mas produz déficits bilionários ao Brasil, que serão agravados
pelos tarifaços. O bloco da União Europeia é o segundo mais importante para o
Brasil.
O
Brasil é grande parceiro dos Estados Unidos há dois séculos, mas os mercados
que demandam bens “made in Brazil” estão na Ásia e, futuramente, na África. Os
EUA terão papel semelhante ao da Argentina (complementariedade econômica), mas
Trump cortou temporariamente os elos.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia/JB

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