terça-feira, 18 de agosto de 2026

Aberta a temporada de caça ao voto

Quem se habituou a olhar a política brasileira como um poço de defeitos terá, a partir de hoje, motivos para se sentir ainda mais desanimado. Embora as candidaturas já estejam nas ruas desde o ano passado, foi dada a largada oficial da campanha para as eleições deste ano. De agora em diante, os candidatos poderão deixar de lado a linguagem cifrada que utilizaram até aqui e se dirigir sem subterfúgios ao eleitor para pedir o voto.

Antes de prosseguir, é preciso deixar claro um aspecto fundamental. A campanha eleitoral é extremamente importante e, por essa razão, deve ser acompanhada com lupa. Não existe democracia sem eleição, da mesma forma que não existe eleição sem campanha. Esta é, portanto, uma hora decisiva, em que os políticos fazem de tudo para conquistar a confiança e o voto do eleitor. O momento em que precisam deixar claro não apenas o que têm a oferecer à sociedade, mas, também, aquilo que os diferencia dos adversários. Até aqui, tudo bem.

A HORA DA “DESCONSTRUÇÃO”

O problema é que, a cada campanha, o debate no Brasil tem se reduzido a uma troca de acusações permanente — em que as narrativas se mostram mais importantes do que os fatos. As campanhas no Brasil têm sido marcadas por situações em que as propostas políticas muitas vezes são mantidas ocultas atrás das estratégias de marketing. E, muitas vezes, adotam estratégias que, em vez de ressaltar as propostas do candidato, se concentram em criar embaraços e a “desconstruir” a imagem do adversário.

“Desconstruir”, no dicionário das campanhas, nada mais é do que jogar no ventilador os defeitos do oponente. Simples assim. Nesse ambiente, o eleitor pode ir se preparando para, nas próximas semanas, presenciar debates acalorados, mas pouco esclarecedores. E, além disso, para testemunhar uma série de tentativas de espalhar todas as cascas de banana possíveis no caminho do adversário. Uma amostra dessa tendência foi dada na quinta-feira passada — quando veio à tona uma fraude que atingiu a campanha do senador Flávio Bolsonaro.

SERVIÇO SUJO

Ao levar ao TSE a documentação para registro da candidatura do filho de Jair Bolsonaro à Presidência da República, os advogados do PL foram informados de que ele estava em situação irregular. De acordo com os registros, Flávio teria deixado o partido e se filiado ao Missão — e não poderia, portanto, sair candidato pelo PL.

A primeira suspeita, logo afastada, foi a de que o sistema da Justiça Eleitoral tinha sido vítima de algum hacker. Logo, porém, surgiram indícios de que o serviço sujo partiu do próprio Missão.

A candidatura, no final das contas, foi registrada sem que o episódio tenha sido totalmente esclarecido. Casos como esse, independentemente de onde partam e a quem pretendam atingir, não podem ser tratados como meras traquinagens. Eles devem ser vistos como o que de fato são — ou seja, crimes. E, como tal, investigados e punidos. Se as dúvidas que surgirem não forem prontamente esclarecidas, o bate-boca e a troca de acusações que tem marcado a política brasileira ficará ainda mais quente e o clima ainda mais azedo.

ANDANDO EM CÍRCULOS

Seria bom que o Brasil não precisasse perder tempo discutindo molecagens como essa e se dedicasse ao debate de temas que, por mais importantes que sejam, nunca ocupam espaço central nas discussões eleitorais. Quer um exemplo? Vamos a ele!

O Ministério do Planejamento e Orçamento divulgou na terça-feira passada que o governo não dispõe de R$ 105,5 bilhões para cobrir as despesas assumidas para este ano — e que serão empurradas para 2027. Qualquer pessoa que já tenha passado na porta de uma faculdade de economia sabe que a consequência dessa prática, que é corriqueira no Brasil, é, no final das contas, mais pressão inflacionária. Embora a campanha eleitoral seja o momento adequado para se discutir esse assunto, ele tem tudo para ser solenemente ignorado.

Por quê? Ora... falar em falta de dinheiro a esta altura significa apontar o dedo para um assunto que os políticos preferem manter afastado do eleitor. O orçamento deste ano reservou R$ 4,9 bilhões para cobrir as despesas com a propaganda eleitoral do candidato — sem contar os R$ 110 milhões do dinheiro público que pingam nas contas dos partidos todo mês para bancar a manutenção das estruturas caríssimas que os mantém funcionando.

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Embora falte dinheiro para tudo, para o fundo que financia as campanhas eleitorais e para os partidos políticos, nunca faltou um tostão. O eleitor precisa discutir essas questões e definir suas prioridades. Do contrário, terá a sensação de que o Brasil está andando em círculos e que a situação será a mesma, senão pior, daqui a quatro anos — quando ele for novamente chamado escolher seus governantes.

•        Foi dada a largada; façam suas apostas. Por Gilberto Menezes Côrtes

Os competidores entraram nas baias de largada, depois que as chapas majoritárias e demais postulantes encerraram as inscrições no prazo máximo do Tribunal Superior Eleitoral. E já neste domingo começa a campanha eleitoral no rádio e na TV, além da batalha campal nas redes sociais. Como o TSE não deu cartão vermelho geral antecipado, é grande o risco de o eleitor ser iludido pela Inteligência Artificial. As coordenações das campanhas precisam estar atentas para não reagir após estragos irreversíveis. O triste “caso Discord” está aí para mostrar: é vital agir rápido na “web”.

Por enquanto, apesar da polarização da campanha, os números da última pesquisa Quaest, divulgada sexta-feira, mostraram um dado surpreendente. Embora o presidente Lula lidere em todos os cenários (no primeiro e no segundo turnos, no confronto simulado com os candidatos mais indicados), a pesquisa espontânea indicou que nada menos de 51% dos pesquisados estão indecisos. Ou seja, pode ser uma eleição decidida pelos Nem-Nem. Nem Lula, nem Bolsonaro, como sonham os demais postulantes.

Lembro que Paulo Maluf era um político que iludia no “cânter”. Ou seja, nas prévias, sempre largava na frente, com pouco mais de 30% das indicações de votos. Quem era Maluf logo dizia seu voto. Mas, as pesquisas escondiam que os indecisos eram de 40% a 45% do total. Quando os indecisos se decidiam, não era por Maluf. Ampliado o bolo dos eleitores definidos, seu quinhão encolhia e perdia o páreo. Agora, os indecisos são 51% ou metade. O conservador Maluf se decidiu por Lula. Assim como as raposas do “centrão”.

Na campanha eleitoral, o maior tempo é de Lula. Além disso, o presidente tem obras e realizações na recomposição dos projetos sociais e ambientais destruídos por Jair Bolsonaro para mostrar. Flávio, por enquanto, tem o apelo da obsessão por livrar o pai da cadeia, caso seja eleito. Os demais postulantes vão bater em Lula e em Flávio, para ver se angariam votos dos indecisos.

<><> Petróleo no fator soberania

A soberania nacional será um dos temas explorados pelo presidente Lula, para fustigar as posições entreguistas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em articulação com o irmão Eduardo, que se instalou nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado, para conspirar contra o Brasil e tentar parar o processo do Supremo Tribunal Federal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de cadeia, o senador instigou e aplaudiu os tarifaços de Trump contra as exportações brasileiras. Ao acionar o princípio da reciprocidade contra os Estados Unidos, o governo Lula chamou o governo Trump à mesa de negociações e pôs o tema na campanha eleitoral para fazer o contraponto da defesa da soberania ao entreguismo da família Bolsonaro.

E veio a calhar a nota da Petrobras, na noite de sexta-feira, de que identificou "a presença de hidrocarbonetos em poço exploratório em perfuração no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, na margem equatorial brasileira. O poço Morpho (1-BRSA-1405-APS) está localizado a cerca de 175 km da costa do estado do Amapá, em lâmina d'água de 2.886 metros". A presidente da estatal, Magda Chambriard, disse que “o otimismo da Petrobras em relação à margem equatorial brasileira se confirma” e acrescentou que, com essa primeira descoberta na costa do Amapá, resultado “da dedicação e da competência da Petrobras”, a companhia “está comprometida com a recomposição das reservas de petróleo e com a segurança energética do país".

O intervalo portador de hidrocarbonetos foi constatado através de perfis elétricos e indicativos em rocha. As operações de perfuração seguem, visando a continuidade da avaliação exploratória, de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas. Não será surpresa se a confirmação das dimensões gigantescas da descoberta, a ser atestada com novas perfurações, coincidir com a reta final das eleições. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, eleito pelo União do Amapá, já se reaproximou do presidente Lula, farejando petróleo e reeleição. A Petrobras é a operadora do bloco e detém 100% de participação na área. O bloco foi adquirido na 11ª Rodada de Licitações da ANP, em 2013, sob o regime de concessão.

<><> Lula mira Rubio e poupa Trump

O presidente Lula, certamente, já sabia dos sinais de óleo que indicam nova província petrolífera no Norte do país (que se junta ao gigante pré-sal da Bacia de Santos, e à revitalizada Bacia de Campos, e o promissor campo de petróleo e gás no litoral de Sergipe-Alagoas), quando disparou torpedos contra as falas do secretário de Estado americano. Marco Rubio, que está redesenhando a doutrina “Donroe” (a doutrina Monroe adaptada à gestão Donald Trump), disse que o Ocidente é a área de influência americana. Lula poupou Trump (de quem espera diálogo).

Geograficamente, sim. Os Estados Unidos fazem parte das Américas e do Caribe. Do ponto de vista comercial e econômico, embora, por seu vasto território, tenha matérias-primas (petróleo, minérios e terras raras), variedade de fontes energéticas renováveis e amplo leque de produção alimentar, o Brasil é competidor dos EUA em soja, milho, laranja, produção de suínos, de frangos, ovos e de carne bovina. Os grandes consumidores estão na Ásia: pela ordem, China, Japão, Índia, Indonésia e Coreia do Sul.

Nunca é demais lembrar. Quando o cerrado do Centro-Oeste foi conquistado, na segunda metade dos anos 70, no governo Geisel, após a destruição, na geadas de junho de 1975, das lavouras de café (e dos consórcios de milho, feijão e mandioca nas “ruas” do café), foi o Japão que financiou as pesquisas da Embrapa que descobriram variedades de soja, milho e algodão adaptáveis ao cerrado. O Japão era o alvo.

A entrada da China como grande compradora de minérios (de Carajás – os alvos iniciais eram a Europa e o Japão), de alimentos e petróleo, mudou a geopolítica econômica do Brasil. Hoje, a China absorve mais de 30% das exportações brasileiras e garante mais de 40% do superávit. Os EUA são o segundo país importador, mas produz déficits bilionários ao Brasil, que serão agravados pelos tarifaços. O bloco da União Europeia é o segundo mais importante para o Brasil.

O Brasil é grande parceiro dos Estados Unidos há dois séculos, mas os mercados que demandam bens “made in Brazil” estão na Ásia e, futuramente, na África. Os EUA terão papel semelhante ao da Argentina (complementariedade econômica), mas Trump cortou temporariamente os elos.

 

Fonte: Por Nuno Vasconcellos, em O Dia/JB

 

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