terça-feira, 18 de agosto de 2026

Argentina: as ruas puseram um freio aos saques de Milei

O governo de Javier Milei sofreu recentemente uma derrota dupla. A primeira ocorreu nas ruas, com a mobilização massiva em protesto contra seu projeto de liberar a compra de terras por estrangeiros. A segunda, nos corredores do Congresso argentino, onde ele não conseguiu reunir votos suficientes para aprovar a lei tal como foi apresentada. Ambas apontam para o mesmo sentido: um projeto de poder que começa a mostrar os limites de sua força.

A lei que o governo buscava impor, sob o nome de “Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada”, não era uma iniciativa isolada nem um simples ajuste normativo. Fazia parte de uma série mais ampla de ataques à soberania nacional: habilitar mecanismos para aprofundar a estrangeirização da terra, facilitar o controle externo sobre recursos estratégicos e abrir caminho para que o território argentino, seus bens comuns e a capacidade de decisão sobre eles fiquem cada vez mais subordinados a interesses alheios ao país.

Nas ruas, milhares de pessoas se mobilizaram contra essa ofensiva. O governo respondeu como sempre responde quando o povo se organiza: com gás lacrimogêneo e balas de borracha, com feridos e detidos. A repressão não foi um excesso isolado. É um método. Sempre que o ataque encontra resistência, o Estado mostra sua face mais violenta para tentar disciplinar aqueles que não consegue convencer.

Porque é isso que começa a se desintegrar: a hegemonia, a capacidade de convencer. Nas ruas, percebe-se o cansaço diante de um ajuste econômico que castiga as maiorias populares enquanto beneficia um punhado de setores concentrados. Essa austeridade não é um capricho técnico nem um desvio de um plano bem-intencionado. É a forma que assume, na Argentina, uma estratégia mais ampla da nova direita internacional para subjugar os povos do Sul Global: reduzir salários, entregar recursos naturais, desmantelar direitos e chamar a pilhagem de “modernização”. Milei não administra essa estratégia a partir de uma posição autônoma; ele a executa como aliado incondicional de um hiperimperialismo que hoje atravessa uma fase decadente e, por isso mesmo, mais perigosa: precisa se apropriar do que resta ao Sul Global para sustentar uma ordem que já não consegue garantir o bem-estar nem mesmo em seus próprios centros.

No Congresso, a outra frente, o governo também não conseguiu o que buscava. As tentativas de comprar votos parlamentares, de formar maiorias à base de cargos, promessas e pressões, não deram certo. Ele teve que recuar. Primeiro, em relação ao cerne da mal chamada “Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada”. Depois, com a reforma da Lei de Combate a Incêndios, resignando-se a uma versão reduzida. Dois recuos que revelam a fragilidade de um projeto que se acreditava imbatível.

A mobilização contra a estrangeirização da terra revelou algo mais profundo do que a rejeição a uma lei específica. Mostrou um ponto de ruptura na capacidade da classe dominante de organizar o consenso em torno de uma ordem social que beneficia apenas a ela mesma. Esse consenso, que durante meses pareceu sólido, começou a se romper. Resta saber qual será o caminho de organização dessa raiva que se tornou visível sob a chuva, ao redor do Congresso.

Vijay Prashad vem apontando, a partir do Instituto Tricontinental, que o ciclo atual do capitalismo global não oferece saídas dentro de suas próprias regras: a crise é administrada transferindo seus custos para o Sul Global, enquanto as burguesias locais, transformadas em parceiras secundárias dessa ordem, aplicam internamente as receitas que o capital financeiro internacional elabora externamente. Prashad insiste que nenhum ajuste desse tipo se sustenta sem uma batalha cultural paralela, destinada a apresentar como inevitável o que é, na realidade, uma opção política a serviço de interesses concretos. Quando essa batalha cultural começa a perder terreno, como ocorreu na Argentina, abre-se uma fresta que nenhuma repressão consegue fechar por completo.

Algo disso ficou evidente na bandeira que circulou repetidamente entre milhares de pessoas na multidão, a mesma que os jogadores da Seleção desfraldaram após a vitória contra a Inglaterra na última Copa do Mundo, com o slogan “As Malvinas são argentinas”. Desde a Guerra das Malvinas, em 1982, essa partida não é mais apenas mais um jogo. O de 1986, poucos anos após a guerra, foi inesquecível: é a partida da “Mão de Deus” e do melhor gol da história, ambos assinados por Diego Maradona. O futebol carrega consigo a reivindicação das Ilhas Malvinas, hoje transformadas em base da OTAN sob domínio britânico e em plataforma para a pilhagem de petróleo e outros bens comuns do Atlântico Sul. Essa bandeira tocou uma fibra sensível do povo argentino, a de uma soberania cuja reivindicação nunca foi totalmente abandonada, nem mesmo quando o poder vigente insiste em negociá-la.

Mas nenhuma fibra sensível, por si só, é suficiente para mudar o rumo de um país. A revolta que se viu nas ruas precisa se organizar, encontrar um canal, transformar-se em projeto. Caso contrário, corre o risco de se esgotar na própria intensidade do momento, de se dissipar em frustração assim que a onda da mobilização baixar. A tarefa que se coloca, então, não é apenas resistir ao próximo ataque. É construir a força política capaz de sustentar ao longo do tempo o que as ruas mostraram em meio à tempestade: que há um limite, que esse limite deve ser defendido e que a Pátria não se vende.

¨      Que fatores podem levar Milei a perder as próximas eleições na Argentina em 2027?

A pouco mais de um ano das eleições presidenciais, todas as pesquisas apontam para o seguinte panorama.

>>> 1 – Um terço da sociedade apoia Milei

Há duas razões que explicam esse apoio. Primeiro, por suas ideias, pela confiança e identificação com suas propostas (na forma e no conteúdo), pelo lado positivo. E, segundo, por ser considerado uma espécie de criptonita anti-peronista, por ser o único capaz de derrotar o adversário e impedir o retorno do “comunismo”.

O primeiro motivo vem perdendo peso gradualmente com o passar do tempo; e o segundo é o único que lhe permite compensar essa queda e, assim, manter seu apoio entre 30% e 40%.

Ou seja: sua reconhecida incapacidade de resolver os problemas econômicos cotidianos é compensada por sua liderança única para derrotar o rival.

E, é claro: para desfrutar desse apoio, tem sido fundamental o respaldo do poder econômico e da mídia. Eles o consideram o garante do atual modelo econômico.

>>> 2 – Existem dois terços da sociedade que não apoiam Milei

Há duas razões que explicam essa rejeição. Primeiro, por não concordarem com suas ideias, porque nunca votaram nele nem confiam nele, pois pensam de maneira muito diferente dele. Segundo, porque se desiludiram à medida que ele governava e perderam a confiança nele.

Esse bloco social heterogêneo poderia se “unir” eleitoralmente se encontrasse uma candidatura que os representasse.

Para que isso seja alcançado, é necessário não cair na armadilha da confusão/caos que atomiza e fragmenta (e não por questões de ideias, mas por outras razões menores).

Dito de outra forma: só será possível aglutinar a maioria desses dois terços que não apoiam Milei se for formada uma aliança com uma base comum (ideológica) antimileista, com generosidade para ceder em diferenças secundárias e com responsabilidade para encontrar o método adequado para escolher a candidatura.

Nesta altura, é insuficiente a estratégia monopolista do diagnóstico crítico a Milei. Não basta para convencer eleitoralmente a maioria desses dois terços. É necessário mostrar um caminho com certezas.

Se as PASO (eleições primárias) forem eliminadas, o caminho da reclamação/lamentação deverá caducar imediatamente. A urgência estará em dispor de uma ferramenta política/eleitoral para decidir entre as alternativas que queiram estar “juntas” por coincidências ideológicas. Por exemplo: a via mexicana (pesquisa de opinião, em que cada parte propõe a sua, com metodologia comum e com 4 a 5 perguntas consensuais). Essa opção não precisa ser vinculativa; poderia servir como ponto de encontro e base consultiva. Outro exemplo: estabelecer os parâmetros mínimos para fazer parte desse espaço (compromisso de não apoiar Milei nos próximos 12 meses, chegar a um acordo sobre as 10 primeiras medidas do próximo governo, endossar a urgência de eliminar a proibição de Cristina Fernández de Kirchner, etc.).

A futura derrota eleitoral de Milei dependerá de como esses dois pontos evoluírem.

Se Milei estagnar definitivamente (preso em seu terço), como vem acontecendo nos últimos meses, tudo ficará nas mãos da oposição.

Se a oposição se fragmentar, como vem acontecendo nos últimos meses, e ainda se distrair com o que não é importante e adiar o que deveria ter feito para ontem, então bastará a Milei seu terço, pois uma queda na participação eleitoral se traduz em uma porcentagem de votos válidos suficiente para ele vencer.

A disputa política e eleitoral está servida. E o que for feito nos próximos meses será mais decisivo do que a reta final da campanha, por melhor que seja o slogan ou o jingle.

¨      Pesquisa mostra que quase 62% dos argentinos querem tirar Milei do poder

O governo de Javier Milei chega à segunda metade do mandato sob forte desgaste político. A piora na avaliação da gestão e os impactos da política econômica ultraliberal sobre o cotidiano dos argentinos já começam a se refletir no cenário eleitoral. 

É o que mostra a nova pesquisa da consultoria Zuban Córdoba, divulgada neste domingo (2), segundo a qual 61,9% dos entrevistados votariam por uma mudança de governo nas eleições presidenciais de 2027, enquanto apenas 33,4% apoiariam a continuidade da atual administração. 

O levantamento foi realizado entre 22 e 26 de julho, com cerca de 1.500 entrevistados, e indica que a desaprovação ao governo chegou a 65%. 

Segundo a consultoria, a combinação entre dificuldades econômicas, perda de confiança no projeto libertário e desgaste político torna cada vez mais difícil uma recuperação da popularidade de Milei às vésperas da disputa presidencial.

A economia aparece como o principal fator de insatisfação. Para 53,9% dos entrevistados, a situação econômica pessoal está pior do que no início do governo. 

Os responsáveis pela pesquisa afirmam que a percepção social não acompanha o discurso oficial sobre recuperação econômica e que o eleitorado passa a cobrar resultados concretos em renda, salários e atividade econômica.

O estudo também revela forte rejeição a uma das propostas defendidas pelo governo: a flexibilização das regras para aquisição de terras por estrangeiros. 

Segundo a pesquisa, 77% dos argentinos defendem que a compra de terras por capitais estrangeiros continue sujeita a limitações, enquanto apenas 16,7% apoiam a liberalização. O tema ganhou destaque após o governo sinalizar mudanças na legislação sobre recursos estratégicos e propriedade rural.

Na projeção eleitoral, o peronismo aparece numericamente à frente do partido governista. 

Em um cenário com as principais forças políticas, o peronismo reúne 31,3% das intenções de voto, contra 28% do La Libertad Avanza.

Quando a consulta reduz as opções de resposta e concentra a disputa entre os principais blocos, o peronismo aparece com 35,3%, ante 33,8% do partido de Milei, enquanto 24,3% dos entrevistados permanecem indecisos. 

Os pesquisadores avaliam que o terceiro ano de mandato representa um momento decisivo para qualquer governo, quando a população passa a exigir o cumprimento das promessas feitas durante a campanha. 

Na avaliação da consultoria, sem uma melhora perceptível nas condições de vida, especialmente em salários e reativação da economia, a recuperação política do governo tende a permanecer limitada.

¨      Deterioração do apoio eleitoral a Milei está associada à precariedade econômica, aponta pesquisa

Uma pesquisa exclusiva realizada pela consultoria Projection revelou, no domingo (16/08), uma deterioração progressiva nas perspectivas eleitorais da administração liderada pelo presidente Javier Milei na Argentina.

O estudo aponta que o impacto das medidas econômicas sobre a população enfraqueceu a base do partido governista, colocando o peronismo na vanguarda das preferências para as próximas eleições gerais.

Segundo o relatório, seis em cada dez argentinos classificam a gestão econômica atual como negativa ou muito negativa para suas famílias. Da mesma forma, 62% dos entrevistados afirmaram não projetar expectativas de melhora no curto prazo.

A pesquisa detalha que quase 60% dos cidadãos tiveram que recorrer a empréstimos por meio de cartões de crédito ou solicitações financeiras para cobrir suas despesas.

Essa percepção de deterioração é mais aguda entre mulheres, adultos com mais de 55 anos e residentes da Capital Federal e da Grande Buenos Aires.

O relatório destaca uma contração contínua do chamado “núcleo duro” do partido governista, que atualmente está entre 25% e 30%, quando meses atrás atingia 35%.

Um estudo recente do Public Opinion Monitor (MOP) da Zentrix Consultora revelou que 87,4% dos argentinos dizem que seu salário continua perdendo terreno diante da inflação, e 61,9% entraram em dívida nos últimos seis meses, mais da metade deles para cobrir despesas básicas como alimentação e serviços.

Na pesquisa da Zentrix, 86,6% dos entrevistados dizem que são necessários dois ou mais empregos para chegar ao fim das contas. Dois em cada três argentinos consomem sua renda antes do dia 20 de cada mês, e apenas 9,3% afirmam que a renda chega ao fim do mês.

Os números são piores para os mais jovens. Entre os consultados entre 18 e 39 anos, 85,5% relatam ter ficado sem renda antes do dia 20, em comparação com 60,6% na faixa etária de 40 a 59 anos.

67,1% dos argentinos consideram que os dados de inflação publicados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) não refletem a evolução dos preços reais no dia a dia, e apenas 29,6% consideram os números oficiais confiáveis.

¨      Governo argentino interpreta erroneamente estudo para alegar que Brasil liderou uma “campanha anti-Argentina”

“Quem colocou mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo do Brasil, 25% dos recursos saíram do governo do Brasil”, afirmou Milei em 26 de julho à Radio Mitre.  A acusação foi feita um dia após o mandatário argentino participar da oficialização de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência pelo Partido Liberal e como adversário de Lula na eleição de 2026.  Em 2 de agosto, Milei voltou a acusar Lula e chamá-lo de “corrupto” em uma entrevista para o veículo La Nación. Três dias depois, o chanceler argentino Pablo Quirno fez novas críticas no veículo Infobae. “22% das mensagens da campanha anti-Argentina vieram do Brasil, seguido por México”, disse. “É evidente que também há dinheiro envolvido nisso. Não tenho provas para incriminar ninguém no governo, mas certamente veio do Brasil”, afirmou o ministro das Relações Exteriores.

Embora não tenham mencionado diretamente, o presidente e o chanceler argentino fizeram referência nas redes sociais e em veículos de comunicação aos resultados de um estudo da consultoria Monitor Digital. Mas o levantamento foi interpretado de forma errônea para sustentar as acusações contra o Brasil. 

Em sua conta do X, Milei compartilhou várias vezes um infográfico da conta Encuestas Argentinas que replicou os dados da Monitor Digital.  Esse estudo foi publicado cinco dias depois do fim da Copa do Mundo, em 19 de julho, em que a Argentina alcançou o segundo lugar.

Durante e após o Mundial, milhares de mensagens difundidas nas redes sociais e em veículos de comunicação acusaram os argentinos de serem arrogantes, provocadores, racistas e violentos. A consultoria identificou que a conversa sobre a Argentina nas redes sociais foi liderada por publicações do Brasil com 22,1%; seguida de México com 14,8% e Estados Unidos com 13% durante o período estudado. 

Mas o Monitor Digital não se concentrou em publicações feitas somente durante o campeonato, e sim em um período que se estendeu de dezembro de 2022 a julho de 2026. Além disso, o ranking incluído no estudo, e replicado por Milei, mostra o número de publicações que mencionam a Argentina sem especificar se são elogios ou críticas. O único caso em que se analisa o teor das mensagens sobre o país é no mês de julho, quando se registrou “54,7% de sentimento positivo frente a 44,9% negativo”, mas sem especificar de quais países eram as publicações.  

<><> Publicações orgânicas 

A consultoria responsável pelo estudo afirmou que a conversa sobre a Argentina foi “impulsionada principalmente por uma audiência jovem, masculina, fãs de futebol e de língua espanhola”. “Trata-se de um grupo social muito definido no universo das redes globais que vem impulsionando o intenso debate sobre os argentinos, bem diferente da crença generalizada de que a discussão é promovida por interesses específicos de certos países que querem lançar uma campanha 'anti-Argentina’”, diz o relatório.

Uma conclusão similar foi publicada em 26 de julho pela consultoria Inteligência Analítica em um estudo com o título “A conversa hostil sobre Argentina”, que analisou a interação nas redes sociais durante e depois da final da Copa do Mundo. 

O estudo analisou 587.907 publicações de 325.627 usuários no X e identificou que as contas possuíam, em média, 7,46 anos e que apenas 0,29% delas foram criadas após o início da Copa do Mundo. Além disso, houve uma média de 1,81 publicações por conta. “Esse é o perfil de uma participação massiva de baixa intensidade (...) Uma operação coordenada apresenta o padrão oposto: menos contas, mais volume em cada”, explica a consultoria.

O estudo também identificou que os usuários não formaram grupos fechados que interagiram entre si, algo típico em campanhas orquestradas. Pelo contrário, a estrutura era a de uma conversa aberta entre estranhos.  O governo brasileiro anunciou em 4 de agosto que irá manter as relações com a Argentina reduzidas ao nível de encarregado de negócios “enquanto persistirem os ataques verbais do presidente Javier Milei contra as instituições brasileiras”, segundo disse uma fonte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil à AFP.

 

Fonte: Por Julian Bokser, para Globetrotter/Vermelho/Opera Mundi/Checamos AFP

 

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