Quem
está falando de política com a Gen Z? questiona Lau Schultz
O
Brasil tem entre 45 e 50 milhões de jovens, pessoas com idade entre 15 e 29
anos, segundo o último levantamento do IBGE. Uma população diversa,
majoritariamente preta ou parda e urbana. É também uma população que cresce em
meio a múltiplas crises e incertezas sobre o futuro, muitas vezes
compartilhando suas inseguranças e perspectivas nas redes sociais.
Em
relação à política, uma pesquisa do Next Generation Brasil 2025, do British
Council, aponta para o distanciamento dos jovens em relação ao tema, indicando
que 33% dizem não confiar em nenhuma instituição pública. Ao mesmo tempo, o
levantamento mostra que esse afastamento não significa necessariamente apatia,
já que 22% afirmam que se engajariam mais se tivessem contato direto com
líderes políticos e 23% se as plataformas políticas fossem mais claras.
Para
discutir sobre as contradições, desejos e perspectivas desses jovens
brasileiros em relação à política, o Pauta Pública desta semana recebe Lau
Schultz, criadora de conteúdo digital, especialista em Direito do Estado e
cofundadora do Política Essencial, curso criado para traduzir o politiquês. Na
entrevista com Andrea Dip, ela analisa a aproximação de parte da juventude com
pautas conservadoras e afirma que “parece que o conservadorismo é a nova
rebeldia dos jovens”. Para Lau, a dificuldade que essa geração tem em
vislumbrar um futuro também tem feito com que a identificação pessoal aos
candidatos sobressaia à identificação por um projeto político concreto.
Leia os
principais pontos da conversa:
• A pesquisa do Next Generation Brasil
mostra que a relação dos jovens brasileiros com a política é marcada pelo
distanciamento, mas ao mesmo tempo um interesse de se aproximarem mais do tema.
O que você acha que pesa mais nesse cenário?
Acredito
que, primeiramente, há um distanciamento da linguagem. A institucionalidade
talvez não consiga se manter constantemente traduzida para as gerações atuais.
Primeiro, é muito difícil entender o funcionamento dessas instituições, qual o
papel e a importância delas na nossa sociedade. Por essa falta de entendimento
e compreensão, talvez as pessoas não se vejam representadas da forma como
deveriam.
Como
vivemos em tempos de algoritmo, tem muito mais algo ligado aos nossos afetos e
as nossas emoções do que a racionalidade da política demonstra. Então é muito
mais fácil que eu consuma aquilo que se traduz como política pelo meio do
algoritmo das redes sociais do que me engajar com aquilo que transcende o meu
celular, porque o engajamento, essa satisfação imediata, vem das redes sociais
e não efetivamente do engajamento com a realidade e com a política que tem essa
intermediação por meio das instituições, dos sindicatos e do trabalho.
• Pensando no seu público, que é na sua
maioria jovem, como funciona o diálogo com você? Como você acredita que eles
querem se relacionar com a política? Principalmente a partir da lógica das
redes sociais?
Tem
muitas pessoas, principalmente jovens, que têm a vontade de entender por que
efetivamente certas coisas acontecem. Mas, quando ligam o noticiário e veem o
jornalismo falando de uma operação policial e não entendem o básico do processo
penal, o papel do Ministério Público e todo o conteúdo, eu diria que essa falta
de compreensão motiva as pessoas a buscarem por influenciadores das redes
sociais, que atuam como divulgadores de informações. Eu me coloco nessa
categoria e aí existe da nossa parte o compromisso em fazer essa tradução [do
noticiário] e, consequentemente, promover uma aproximação com os temas.
Fiz
muito esse trabalho na época do julgamento do Bolsonaro. Tenho formação em
Direito, o que me dá certa habilidade para falar sobre questões relacionadas ao
direito constitucional. Na época, eu acompanhava todo o processo do julgamento
e depois explicava e fazia apontamentos nas minhas redes sociais. Essa tradução
levava mais familiaridade e, consequentemente, fazia as pessoas se engajarem
com o tema, porque elas entendiam e queriam fazer parte.
• Há entre os adolescentes e jovens
adultos uma desesperança no futuro por conta dessas múltiplas crises que a
gente está vivendo. Mas você acha que também falta um componente de utopia? O
sonhar com o que a gente possa construir juntos em comunidades?
Acho
que fica difícil sonhar em coletivo se os laços comunitários estão cada vez
mais dissolvidos. A gente observa um discurso neoliberal sendo empurrado goela
abaixo de todo mundo. Um discurso de que o empreendedorismo coloca todo mundo
como chefe de si mesmo, como se não precisasse mais estar sujeito a uma lógica
de trabalho e nem dividir espaço com pessoas diferentes. Você trabalha da sua
casa, com a sua própria vigilância, porque você é o seu próprio chefe, e você
não precisa mais se sujeitar ao diferente.
Vemos
isso refletido no discurso hegemônico que diz que o empreendedorismo é o futuro
dessa juventude que vai trabalhar de forma autônoma, vai dispensar a carteira
assinada, que é vista como uma prisão. O que traduz essa insatisfação com a
lógica capitalista de trabalho – que de fato é exaustiva. Que não reflete o
salário, não reflete as necessidades e aquilo que a Constituição estipula que o
salário mínimo deveria satisfazer, mas não satisfaz nem de longe.
O que a
gente observa é essa canalização de uma insatisfação, que é legítima, para um
direcional que não será a solução para essa precarização do trabalho. Ainda que
a prática não se traduza dessa forma, o discurso é sustentado assim. E muitas
pessoas estão aderindo e passamos a ver CEOs de MEI, pessoas que se identificam
com o discurso empreendedor mesmo não tendo as condições materiais que as
coloquem nessa posição.
Se o
maior laço comunitário que a gente podia observar, que acontecia no trabalho,
que é a maior parte do tempo da vida de um ser humano médio, está cada vez mais
dissolvido, fica ainda mais difícil a gente conseguir vislumbrar esse futuro.
Futuro que busque chegar, de forma coletiva, em um lugar diferente do qual
estamos, porque [estamos vivendo um momento] em que a gente já não tem ou
sequer quer ter a experiência de coletividade.
• Como você acha que os jovens vão votar
nessas eleições? O que você acha que são os principais assuntos, as principais
pautas? E, como a gente faz essas conversas também?
Infelizmente,
parece que o conservadorismo é a nova rebeldia dos jovens. Acredito que o voto
seja mais conservador, seja mais voltado para políticos que sustentam esse
discurso, ainda que na prática a sua própria vida pessoal contrarie isso. Para
o lado do masculinismo, temos a candidatura do influenciador Breno Vieira
Faria, do perfil Café com Teu Pai, que movimenta discursos misóginos. Ele já
foi acusado disso e é uma pessoa que tem um público gigantesco. Ele, assim como
inúmeros outros, está levando as pessoas pela questão da identificação.
[A
identificação pessoal] talvez seja o motivo que vai fazer esses jovens saírem
de casa para votar. Eles acreditam nessa nessa pauta, não necessariamente no
projeto político, porque, na maior parte das vezes, sequer tem um projeto. E
não conseguir vislumbrar um futuro também faz com que seja dispensável um
projeto desse político, basta com que haja uma identificação pessoal, e essa
identificação pessoal é suficiente para mobilizar um voto, o que é muito
triste. Quando a gente está falando de política, o mínimo que a gente precisa
fazer é votar em pessoas com projetos.
Por
outro lado, a gente vê uma falta de condições materiais no campo da esquerda.
Depois de Lula, quem será? A gente pode até mobilizar o voto à esquerda, mas
com que projeto? A gente está se colocando no mesmo lugar de se satisfazer com
a mera identificação sem entregar um projeto que sustente o Brasil daqui a 10
anos. Porque, daqui a 10 anos, falando de forma muito íntima, eu imagino o
Nikolas Ferreira na presidência, um país fundamentalista, um país teocrático,
uma coisa desesperadora. Então, como que a gente vai mobilizar e falar de um
projeto coletivo, uma utopia futura, se a gente não está entregando condições,
a gente não está entregando elementos para que essas pessoas visualizem?
Eu
tenho uma certa descrença, uma certa desesperança no futuro da esquerda. É
muito importante que a gente coloque novas lideranças, que a gente veja novas
pessoas assumindo esse protagonismo. Essa eleição não é um fim em si mesma. A
gente tem uma continuidade de futuro para vocês. E até aqui, infelizmente, até
o momento, acaba ficando mais na desesperança mesmo. Mas ainda tem margem [de
disputa]. Isso que é importante a gente pensar.
Fonte:
Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo e Natália Perez, da
Agencia Pública

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