terça-feira, 18 de agosto de 2026

Aliados de Trump nas Américas abrem os braços para Israel

Quando uma ofensiva militar matou mais de 1,4 mil pessoas na Faixa de Gaza em 2009, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, expulsou o embaixador de Israel em sinal de protesto. Romperam-se, então, as relações diplomáticas entre os dois países.

Dezessete anos depois, Venezuela e Israel concordaram em criar um mecanismo para a retomada de serviços consulares. Trata-se de um passo limitado, mas que até recentemente parecia impensável.

Já na Colômbia, o governo nacionalista do novo presidente de ultradireita, Abelardo de la Espriella, reverteu recentemente a decisão do seu antecessor, Gustavo Petro, de romper os laços com Israel. Também este havia sido um gesto de protesto, desta vez contra a mais recente guerra em Gaza, que deixou 70 mil mortos desde 2023.

De la Espriella chegou a anunciar que a Colômbia transferirá sua embaixada para Jerusalém e declarou nesta semana que o país se juntará aos Estados Unidos como um dos únicos dois países a reconhecer a "soberania israelense" sobre as Colinas de Golã

Segundo o direito internacional, o território pertence à Síria, mas está sob ocupação israelense desde 1967. A grande maioria da comunidade internacional, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU), não reconhece a anexação das Colinas de Golã por Israel.

"Há uma tendência de reaproximação com Israel como resposta ao avanço da direita radical na região", afirma Isaac Caro, professor da Universidade Alberto Hurtado, no Chile. Segundo ele, governos autoritários da América Latina vinculam as relações com Israel a "um alinhamento ativo com a política externa dos Estados Unidos".

<><> Bolsonarismo pioneiro

O fortalecimento dos laços com Israel virou uma característica da direita radical latino-americana, dentro de uma visão renovada do lugar da região na civilização ocidental judaico-cristã, acrescenta o especialista.

Na Argentina, por exemplo, o presidente ultraconservador Javier Milei transformou a proximidade com Israel em uma característica central tanto de sua política externa quanto de sua própria identidade política.

Daniel Wajner, professor associado de relações internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, aponta para uma "explosão" na atividade diplomática entre Israel e governos latino-americanos. 

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se descreve como "o ditador mais descolado do mundo", foram pioneiros nessa aproximação. Depois vieram Milei e outros líderes. Segundo Wajner, fatores ideológicos, religiosos e estratégicos também explicam o estreitamento dos laços.

<><> Guinada regional à direita

Na Venezuela, as políticas declaradas pelo atual governo, que assumiu o poder após os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em janeiro, continuam baseadas no socialismo populista do chavismo. 

Ainda assim, a retomada dos serviços consulares representa uma vitória diplomática simbólica para Israel.

Por sua vez, o governo socialista da Bolívia rompeu relações com Israel após o bombardeio de um campo de deslocados em Gaza, em 2023. Quando o conservador Rodrigo Paz assumiu a Presidência, no ano passado, restaurou rapidamente os laços diplomáticos.

No Chile, o ex-presidente social-democrata Gabriel Boric foi fortemente crítico ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seu governo. Seu sucessor, o nacional-conservador José Antonio Kast, busca, entre outras iniciativas, retomar a cooperação em defesa com Israel.

<><> Brasil e México mantêm postura crítica 

Em contraste, no Brasil, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assume uma posição fortemente crítica em relação às ações israelenses na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

"O país com mais influência na região que mantém uma postura crítica em relação a Israel é claramente o Brasil", afirma Aranda. O peso demográfico, econômico e político brasileiro constitui um importante contraponto à aproximação promovida por outros governos latino-americanos. 

A postura diplomática brasileira, entretanto, depende neste momento das eleições de outubro. O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, carrega as bandeiras políticas do pai. O candidato tem o apoio de Netanyahu e já disse que, se eleito, realinhará o Brasil a Israel. 

Enquanto Lula adota uma posição particularmente crítica, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, procura preservar maior neutralidade e equilíbrio diplomático. À frente de outro gigante regional, ela criticou as ações de Israel em Gaza, mas manteve as relações diplomáticas. 

Ainda assim, diante das recentes mortes em massa no enclave palestino, a mudança nas relações entre Israel e alguns governos latino-americanos é considerada significativa. 

<><> Ambos os lados enxergam vantagens

O interesse israelense não se limita a conquistar governos aliados. As relações bilaterais remontam à criação do Estado de Israel, em 1948, e abrangem migração, comércio e segurança. 

O apoio latino-americano em organismos multilaterais, como as Nações Unidas, sempre serviu de antídoto a um isolamento internacional de Israel.

Wajner afirma que a decisão de governos da região de melhorar as relações com Israel oferece a ambos os lados "legitimidade, cooperação e influência". Israel precisa de parceiros internacionais, enquanto os governos latino-americanos encontram oportunidades de cooperação econômica, tecnológica e militar.

Por sua vez, países da América Latina podem recorrer a Israel como parceiro em áreas como cibersegurança, inteligência artificial e defesa.

¨      O sonho de Marco Rubio. Por Christian Lynch

Marco Rubio se deita em Washington depois de um dia de telefonemas com Caracas e de sanções assinadas contra Havana, e adormece com a facilidade de quem tem a consciência tranquila. Como todo homem público de vocação missionária, ele sonha, e o sonho tem enredo fixo: uma república imensa, ordeira e armada, cercada de nações agradecidas que lhe devem a segurança e o pouco de prosperidade que lhes toca. No centro da cena está o filho de imigrantes cubanos, explicando ao continente inteiro, em espanhol fluente, o que o continente deve fazer.

<><> Marco Rubio também tem um sonho, e esse sonho guarda pouca semelhança com o de Martin Luther King.

O que King anunciou em 1963 era a promessa jeffersoniana levada ao limite: a América como nova república romana, terra da liberdade e de braços abertos, obrigada a estender a todos os homens os direitos que declarara evidentes por si mesmos. Rubio sonha com a outra Roma, aquela que organizou o mundo conhecido em províncias, protetorados e cidades aliadas, todas gravitando em torno da capital e dos patrícios reunidos no Senado, que os americanos instalaram num edifício batizado de Capitólio.

Os Estados Unidos sempre tiveram essas duas faces, e a segunda costumou vestir-se com as roupas da primeira. Polk anexou metade do México em nome do Destino Manifesto. McKinley entrou em Cuba para libertá-la do jugo espanhol e saiu de lá com Guantánamo, a Emenda Platt e o direito de intervir na ilha sempre que lhe conviesse; ficou ainda com Porto Rico e com as Filipinas, cuja anexação foi justificada como tutela civilizatória sobre povos julgados incapazes de se governar. Theodore Roosevelt separou o Panamá da Colômbia para abrir um canal e converteu a doutrina Monroe em título de polícia hemisférica. A série prosseguiria pelas ocupações do Haiti, da Nicarágua e da República Dominicana. Para cada Jefferson houve muitos Polk e muitos McKinley, e a contabilidade nunca favoreceu os primeiros.

Os Estados Unidos sempre puseram o próprio interesse nacional em primeiro lugar, à maneira de qualquer potência que se preze, e nisso se distinguem da maioria dos países da América Latina. O mal da relação hemisférica esteve menos no zelo americano pelos próprios interesses do que na dificuldade dos vizinhos em cuidar dos seus, e na disposição de tomar a tutela estrangeira por benefício e a subordinação por destino. A novidade do momento está no desaparecimento do disfarce. O império costumava oferecer alguma coisa em troca da obediência: a Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt, o Ponto IV, a Aliança para o Progresso, os empréstimos, a promessa de industrialização, o argumento de que a segurança hemisférica e o desenvolvimento da região formavam uma causa só. Havia hipocrisia em tudo isso, e a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude, o que supõe ao menos que a virtude valha alguma coisa. Agora nada se oferece em troca. Restam tarifas, sanções pessoais, interferência eleitoral aberta e, no limite, a invasão. O lado escuro da lua virou breu justamente quando os Estados Unidos passaram a se sentir decadentes.

Os termos são do próprio Rubio e de seus assessores, e a Venezuela mostra o que eles significam na prática. A operação de janeiro removeu Maduro do poder e o levou a responder a processo em Nova York, sem tocar no resto do regime. Sua vice-presidente assumiu o governo interino, os quadros do chavismo permaneceram nos seus postos, a máquina repressiva continuou de pé, e Washington passou a decidir quem manda em Caracas. O que mudou foi o destino da renda, com o petróleo e os minerais do país submetidos a um arranjo administrado pela Casa Branca, celebrado como bom negócio para os Estados Unidos. A ditadura foi conservada inteira e apenas trocou de patrão. Rubio administra o conjunto como vice-rei, diante de uma presidente encarregada que obedece com presteza. Cuba é o capítulo seguinte, e para Rubio é também pessoal. A ilha está sob asfixia econômica calculada para produzir mudança de regime antes do fim do mandato de Trump, agora que perdeu o patrocinador venezuelano e não encontrará outro. Rubio avisou que qualquer válvula de escape ao cerco será fechada assim que aparecer. O que se desenha para depois é a restauração da relação de protetorado interrompida em 1959, que Miami nunca deixou de tomar por horizonte natural.

<><> A eleição brasileira foi incorporada à agenda externa americana como assunto doméstico de Washington

O Brasil recebeu a sua parte: tarifas aplicadas sob justificativa explicitamente política, sanções pessoais contra autoridades do Judiciário, intervenção no processo eleitoral e proximidade ostensiva com a família Bolsonaro. A eleição brasileira foi incorporada à agenda externa americana como assunto doméstico de Washington.

A legitimação vem das urnas, e é aí que o arranjo alcança sua forma acabada. Na prática, limpa e livre é a eleição que produz o resultado desejado, e a Venezuela forneceu a contradição exemplar: a intervenção foi justificada pela fraude de 2024 e terminou no reconhecimento da número dois do fraudador, enquanto os vencedores daquele pleito ficavam de fora do acordo. O Brasil mostra a outra face do método, com emissários do Departamento de Estado enviados para questionar a confiabilidade das urnas meses antes da votação, de sorte que a suspeita esteja pronta antes da apuração. O certificado de lisura é expedido por quem indultou os invasores do Capitólio e sancionou o ministro que julgou os invasores do Planalto. Compõe-se assim a fantasia de uma unanimidade continental: uma fileira de governos amigos com selo americano de qualidade democrática, todos empenhados na tarefa de fazer os Estados Unidos grandes de novo.

<><> Fazer a América grande de novo significa submeter o continente, por razão de Estado, às necessidades vitais da política americana

A invasão é recurso extremo e permanecerá excepcional, mas o programa que ela inaugura dispensa tropas para valer no continente inteiro: guerra às drogas segundo prioridades americanas, cooperação policial em matéria de imigração, hostilidade a juízes e jornalistas e abertura legislada em favor de empresas americanas. Cada país deve produzir a sua réplica subordinada do governo Trump, e cada réplica dependerá do reconhecimento de Washington para se sustentar, na condição de província oficiosa, sem o ônus da anexação e sem o direito de divergir. Fazer a América grande de novo significa submeter o continente, por razão de Estado, às necessidades vitais da política americana, e subordinar as economias da região às exigências da competição geopolítica com a China.

Filho de cubanos chegados a Miami em 1956, antes da Revolução, Rubio construiu retrospectivamente para a família uma identidade de exílio. Apresenta-se como o latino mais americano que qualquer americano branco e o católico mais devoto que qualquer protestante, com um catolicismo militante atravessado pela passagem mórmon da infância e pela frequência evangélica da vida adulta. São credenciais de fé que nenhum episcopaliano de Boston precisaria apresentar. É o zelo do converso, e o império romano conheceu bem esse tipo. Trajano e Adriano vieram da Bética (atual Andaluzia), Septímio Severo veio de Leptis Magna, na Líbia. Os administradores mais empenhados das províncias saíam com frequência das próprias províncias, porque o provinciano que chega ao centro precisa provar que é mais romano que os romanos. Rubio carrega um sobrenome que a base eleitoral do partido associa a quem deve ser barrado na fronteira. Cabe-lhe, por isso, mostrar-se mais radical que o vice-presidente Vance, que não carrega nenhum.

O cálculo de Miami já foi descrito por gente do próprio partido: quem derrubar Havana depois de Caracas vira herói eterno na Flórida e chega a 2028 com credencial de libertador. Vice-rei da Venezuela desde janeiro, ele é desde já aspirante a imperador das Américas.

A comunidade que se anuncia ao continente tem a forma do protetorado, e o modelo está à vista desde 1898. Chama-se Porto Rico. Os porto-riquenhos têm cidadania sem voto presidencial, mercado e moeda americanos e um representante no Congresso sem direito a votar no plenário, numa condição que não é a de estado nem a de nação. Ninguém entra nos Estados Unidos. Gravita-se em torno deles, e gravitar é descrito como privilégio: acesso ao mercado, ao dólar, ao modo de vida, à proteção militar contra a China. Uma parte da direita latino-americana já adotou essa descrição e a repete sem constrangimento, o que poupa Washington do trabalho de sustentá-la sozinha e transfere para as capitais da região a maior parte da responsabilidade pelo que vier depois.

Rubio acorda satisfeito. A cidade ainda está quieta, e da janela se vê o Capitólio, com a cúpula branca, as colunas e a estátua armada no alto. O edifício foi erguido por arquitetos que copiaram Roma com aplicação de provincianos e terminaram por construir algo mais romano que Roma. A latinidade imperial saiu do Mediterrâneo e se mudou para as Américas, e o homem que a encarna nasceu em Miami, filho de um barman e de uma arrumadeira de hotel. Ele toma o café, veste o terno e vai trabalhar no sonho.

¨      Alô, Estados Unidos: “Não somos quintal de ninguém”. Por Márcia Carmo

Numa resposta ao governo Trump, o ministro da Defesa do governo chileno de Kast, Fernando Barros, disse que cada país é “soberano” para definir seus próprios investimentos na área militar e de combate ao crime organizado. “No caso do Chile, não somos o quintal (‘pátio trasero’) de nenhum país. Somos um país muito orgulhoso da nossa realidade.”, disse ao ser perguntado sobre a ‘Doutrina Monroe’ durante entrevista à imprensa chilena. O Chile é governado desde março pelo presidente da extrema-direita José Antonio Kast que já disse, publicamente, após encontro com o presidente Lula, que “se o Brasil vai bem, o Chile vai bem também”.

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<><> ‘Escudo das Américas’

As declarações do ministro do Chile foram feitas pouco depois do discurso do secretário de guerra do governo Trump, Pete Hegseth, convocando os países da América Latina ao incremento de gastos militares, a colaborar no combate ao crime organizado e ainda a que saiam do Tribunal Penal Internacional, como medidas que fazem parte do chamado ‘Escudo das Américas’. Barros afirmou ao canal 24 Horas, de Santiago, que o Chile não assinou o programa completo proposto pelo governo Trump e que o governo Kast está analisando a proposta apresentada por Washington.

O ‘Escudo das Américas’ foi lançado por Trump, junto com seus aliados conservadores da América Latina, em março deste ano. O grupo reúne 19 países, entre eles, Argentina, Paraguai, Bolívia e Equador. O governo Trump pretende que o Escudo combata o tráfico de drogas e realize ações conjuntas para “evitar a entrada de migrantes irregulares” nos Estados Unidos.

<><> Soberania nacional

As respostas do ministro chileno podem estar indicando que há limites para os planos de ‘domínio explícito’ da região por parte dos Estados Unidos no século 21, a partir da chamada ‘Doutrina Monroe’ (‘América para os americanos’), que surgiu no século 19. Nas últimas décadas, em tempos democráticos, a China passou a ser o principal parceiro comercial da maioria dos países da América Latina. A atual geopolítica não é a mesma de tempos atrás. No entanto, na Era Trump, como sugeriu o ministro chileno é preciso estar atento e deixando claro que há limites.
“Primeiro é preciso que se respeite a soberania nacional, a legislação, a Constituição de cada país.”, disse Barros. Ele disse que a colaboração com os Estados Unidos pode ser positiva em determinadas áreas, como informação, inteligência e tecnologia. “Mas não precisamos mais do que isso.”, disse, segundo a imprensa chilena.

<><> Brasil e México (‘Bramex’) e outros ‘combates’

Os governos do Brasil e do México não participaram da reunião de lançamento do ‘Escudo das Américas’. São os dois maiores países da América Latina, governados por Lula e por Claudia Sheinbaum, com ideologias e posturas diferentes das que reúnem os integrantes do ‘Escudo das Américas’. Lula e Sheinbaum conversaram, na quinta-feira, por videoconferência, sobre a soberania e a democracia na região, além de colaborações entre a Petrobras e a petroleira estatal mexicana Pemex. Sintonizados, os dois falaram ainda sobre a importância de outros combates – o da pobreza e da exclusão social.

 

Fonte: DW Brasil/Meio/Brasil 247

 

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