IA
do MST vira referência no Sul Global e expõe desafio tecnológico da agricultura
familiar
Iniciativa
pioneira desenvolvida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),
a plataforma do Laboratório de Agroecologia Familiar Digital usa inteligência
artificial (IA) para monitorar temperatura, umidade do solo e presença de
pragas, além de integrar maquinário. O projeto está entre os dez com maior
potencial de impacto no mundo.
Passado
de geração em geração, o trabalho no campo é responsável por produzir quase 70%
dos alimentos que chegam diariamente às mesas dos brasileiros, conforme dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A dimensão da
atividade ajuda a explicar a importância da agricultura familiar no país, que
reúne quase 10,1 milhões de trabalhadores e ocupa pelo menos 67% das regiões
rurais, segundo os dados mais recentes da Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura (Contag).
Do
milho ao arroz, do feijão ao leite, da batata à mandioca, a produção familiar
brasileira é considerada a oitava maior do mundo e representa a principal
atividade econômica em 90% dos municípios com menos de 20 mil habitantes.
Apesar da relevância, menos de 10% dos agricultores familiares têm acesso às
tecnologias disponíveis para facilitar o trabalho no campo, segundo o professor
da Universidade de Brasília (UnB) e diretor do Centro Brasil-China para a
Agricultura Familiar, Sérgio Sauer.
É nesse
cenário que surge a parceria entre o MST, a UnB e a Universidade Agrícola da
China para desenvolver o Laboratório de Agroecologia Familiar Digital. O
projeto implementou uma plataforma chinesa capaz de monitorar, por meio de
sensores, maquinários em tempo real, além da presença de pragas, a temperatura
e a umidade do solo. Os dados são enviados por satélite e podem ser acessados
pelo celular ou computador, permitindo, por exemplo, acionar equipamentos ou
realizar a irrigação de uma área específica do plantio. A tecnologia foi
desenvolvida pela estatal chinesa Sinomach Digital.
"Essa
plataforma foi redesenhada e customizada toda em português, e é a primeira na
América Latina. A cooperação técnica visa também uma troca de conhecimentos,
porque a própria implementação no contexto brasileiro é bastante diferente do
chinês, seja do ponto de vista climático, condições do solo e, principalmente,
modelo de agricultura", explica Sauer.
No
último mês, a iniciativa foi um dos dez projetos selecionados pela Conferência
Mundial de Inteligência Artificial como de maior potencial de impacto social no
mundo — a iniciativa é liderada pela China e reúne outros 28 países, incluindo
o Brasil. Para Sérgio Sauer, o reconhecimento pode estimular investimentos em
novas tecnologias voltadas ao Sul Global. "É um setor que atualmente está
concentrado em poucas superempresas, e iniciativas como essa ajudam a reduzir
essa concentração quase absoluta dos projetos de IA nas mãos de muito
poucos", afirma.
Ouvida
também pela Sputnik Brasil, a diretora de inovação do Ministério do
Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Vivian Libório, afirmou
que a inovação é estratégica para reduzir a penosidade do trabalho no campo,
aumentar a renda e fortalecer a segurança alimentar.
Como
conta, a agenda vai além da inteligência artificial e inclui a articulação com
outros órgãos, como o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços (MDIC), no âmbito da Nova Indústria Brasil, que prevê a tecnificação e
mecanização dos territórios rurais.
"É
fundamental destacar a relevância e a centralidade da agenda de inovação para a
agricultura familiar."
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Tecnologias não são adaptadas à agricultura familiar
Mesmo
crucial para a produção de alimentos no Brasil, a agricultura familiar ainda
enfrenta uma grande barreira para se modernizar e acessar novas tecnologias que
melhorem o trabalho no campo: os altos custos dos equipamentos agrícolas. Isso
acontece porque, segundo o professor da UnB, o desenvolvimento agrícola
brasileiro foi pensando para monocultivos extensivos, como soja, algodão e
milho, voltados para a exportação.
"São
grandes áreas de plantação com uma única cultura ou as enormes fazendas para a
pecuária. Com isso, as máquinas e tecnologias disponíveis são de grande porte e
não adaptadas à agricultura de pequena escala. Já a China tem uma outra
trajetória tecnológica industrial, justamente devido à reforma agrária do
século XX que possibilitou desenvolver um conjunto de técnicas, tecnologias e
ferramentas adaptadas à pequena escala de produção", destaca.
O
professor exemplifica os microtratores, que podem custar duas ou três vezes
mais no Brasil do que na China. Para Sauer, a diferença ajuda a mostrar que o
problema não está apenas em disponibilizar novas ferramentas, mas em
desenvolver tecnologias que possam ser incorporadas à realidade da agricultura
familiar e que tragam ganhos tanto para a produção quanto para o trabalho no
campo.
"Assim
como ela é utilizada no agronegócio e ajuda nos processos de gestão dos
cultivos e controle ambiental, por exemplo, a tecnologia no campo diminui
custos e amplia a margem de retorno para o grande produtor. Nós entendemos que,
se a agricultura familiar tiver acesso a isso, também vai ter esse tipo de
ganho", afirma.
O
professor ressalta que esse processo ainda exige pesquisas para entender como
uma ferramenta desse tipo pode ser utilizada em sistemas baseados em diferentes
culturas e formas de plantio.
"A
agricultura familiar de pequena escala, que em geral é baseada em policultivos,
além de misturar, fazer plantio consorciado, faz vários diferentes tipos de
produção. Portanto, a demanda de conhecimento é maior", explica.
Segundo
Sauer, essa modernização também pode reduzir o esforço físico dos trabalhadores
e melhorar as condições de vida das famílias que vivem e trabalham no campo.
"Todos os avanços tecnológicos na área de inteligência artificial são
fruto do estudo, do conhecimento humano. Portanto, todas as pessoas que
trabalham no campo devem ter o direito de acesso a essas tecnologias",
afirma.
Libório
ressalta que, durante algum tempo, a inteligência artificial foi vista como
algo distante da realidade da agricultura familiar, mas que experiências
recentes mostram seu potencial para fortalecer a produção e a segurança
alimentar. Os algoritmos podem interpretar dados sobre solo, clima e pragas
para gerar planos de plantio personalizados, aumentando a eficiência produtiva
e reduzindo tempo e custos.
Na
experiência chinesa, sensores e plataformas digitais já fazem o monitoramento
integrado em tempo real, coletando informações sobre umidade, nutrientes e
pragas e enviando os dados diretamente ao celular ou computador do gestor, o
que permite intervenções rápidas.
No
Brasil, diz a diretora de inovação do MDA, o governo também trabalha em
projetos para criar um centro de acúmulo de informações e big data, capaz de
avaliar os impactos da tecnologia no uso dos solos, além de aspectos
relacionados à sustentabilidade e à recuperação de áreas degradadas. Ela,
porém, ressalta que é necessário ampliar o acesso a essas ferramentas.
"A
gente precisa avançar também na democratização de escala. Na China, a
plataforma de inteligência artificial aplicada à agricultura familiar já
monitora mais de 2 milhões de tratores e beneficia dezenas de milhões de
agricultores"
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Acesso à energia e Internet são desafios
Uma das
principais dificuldades apontadas por Sauer é a falta de infraestrutura. Mesmo
com ferramentas capazes de coletar e transmitir informações em tempo real,
parte dos agricultores familiares ainda enfrenta dificuldades para acessar
serviços básicos que permitem o funcionamento desses sistemas. Um dado
simboliza o tamanho do desafio: mais de 52% dos imóveis rurais sequer contam
com conectividade às redes 4G e 5G.
"O
Brasil teve, recentemente, o chamado Programa Luz para Todos, mas não chegou a
toda a população do campo. Então, energia é uma das questões de fundo dos
desafios ou uma das lacunas fundantes da agricultura familiar. Se não tem rede
elétrica, como é que vai ter sinal de Internet ou mesmo poder carregar um
celular?", questiona.
Por
isso, o professor defende que o acesso à tecnologia seja acompanhado por
políticas públicas e investimentos em ciência e tecnologia voltados
especificamente para a agricultura familiar. Segundo ele, as soluções
desenvolvidas nas últimas décadas foram pensadas principalmente para grandes
produtores. Programas de crédito, por exemplo, beneficiaram sobretudo a parcela
mais estruturada do setor.
"É
necessário políticas de governo, é necessário investimentos em ciência e
tecnologia pensando nesse público. Os agricultores familiares não têm acesso às
tecnologias porque elas não foram planejadas, desenhadas para esse
público."
Agora,
acrescenta Libório, a meta é garantir que essas tecnologias sejam adequadas às
condições dos territórios, capacitar os agricultores e implementá-las em
escala.
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IA, segurança alimentar e sustentabilidade
O
debate sobre o uso da inteligência artificial no campo também alcança um dos
principais desafios para os países: a segurança alimentar. Para Sauer,
ferramentas capazes de melhorar a produção e as condições de trabalho podem
fortalecer esse setor tão essencial para o abastecimento da população. Mesmo
assim, o professor ressalta que o combate à fome não depende apenas da
quantidade de alimentos produzidos.
"Quando
nós falamos sobre agricultura familiar, a agricultura familiar é a grande
produtora de alimentos. Então, se nós falarmos de tecnologias que melhoram a
produção ou melhoram as condições de trabalho, já estamos falando de um
elemento importantíssimo no tema da segurança alimentar, que é justamente a
produção de alimentos", afirma.
Segundo
Sauer, a capacidade de produção de alimentos já supera a demanda mundial, mas
milhões de pessoas continuam sem acesso a uma alimentação adequada.
"Para
além da produção do alimento, as pessoas devem ter garantido o direito a se
alimentar independentemente se tem capacidade de compra ou não."
A
questão também passa pelos impactos ambientais da produção. Segundo o
professor, quase 70% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa estão
relacionadas ao sistema agroalimentar, o que torna a busca por formas mais
sustentáveis de cultivo parte do debate.
Nesse
cenário, a inteligência artificial pode auxiliar na diversificação da produção
e na adaptação dos agricultores às mudanças climáticas. "Se nós tivermos
uma agricultura inteligente que ajuda os agricultores familiares a diversificar
sua produção, isso significa impactos menores sobre o meio ambiente, significa
diversificação, adaptação também às mudanças climáticas que já estão em
curso", conclui.
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União de soluções do Sul Global
Sobretudo,
a cooperação entre países do Sul Global também pode contribuir para ampliar a
autonomia tecnológica na agricultura familiar, segundo Libório. Para ela, esse
processo não significa romper com conhecimentos produzidos em outros países,
mas criar condições para que as tecnologias possam ser adaptadas às
necessidades locais e utilizadas de forma autônoma.
"A
autonomia tecnológica não significa rejeitar todo o conhecimento externo, mas
significa ter a capacidade de adaptar, replicar e controlar as tecnologias que
usamos."
No
âmbito do BRICS, a diretora aponta três frentes de cooperação que podem ajudar
nesse processo: o desenvolvimento conjunto de chips e sensores, a criação de
plataformas de código aberto e interoperabilidade de dados e o investimento em
capital humano. Nesse último eixo, ela cita a possibilidade de bolsas de estudo
e intercâmbios entre pesquisadores, mas também a participação dos próprios
agricultores familiares, para que eles não sejam apenas usuários finais das
ferramentas desenvolvidas.
A ideia
é que os produtores também tenham papel ativo na internalização da tecnologia
nas comunidades e nos territórios rurais, aproximando o desenvolvimento
tecnológico das necessidades de quem efetivamente trabalha no campo.
Segundo
Libório, a entrada do Brasil na Organização Mundial de Cooperação e
Inteligência Artificial também faz parte desse esforço de construir uma
governança compartilhada. A participação brasileira, afirma, busca contribuir
para a construção de soluções que não sejam simplesmente importadas ou
reproduzidas a partir de modelos elaborados para outras realidades. "Não
para impor modelos prontos, que não dialogam com a nossa realidade e nem levam
em consideração as particularidades da complexidade que é a agricultura
brasileira", explica. A diretora destaca que essas diferenças se
manifestam de acordo com cada região e bioma, o que exige tecnologias capazes
de responder à complexidade dos diferentes territórios rurais do país.
Fonte:
Sputnik Brasil

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