Medicamento
poderia prevenir trauma infantil, sugere estudo
O
trauma costuma ser tratado como algo que a pessoa carrega consigo: algo a ser
administrado, elaborado ou, às vezes, amenizado. Raramente é visto como algo
que poderia ser impedido antes mesmo de se instalar. Foi exatamente essa
hipótese que um grupo de pesquisadores de Munique, na Alemanha, e Estocolmo, na
Suécia, decidiu testar.
Para
isso, os cientistas tornaram os primeiros dias de vida de camundongos mais
difíceis. As mães receberam muito menos material para construir ninhos e forrar
o ambiente do que normalmente receberiam. Isso foi suficiente para tornar seus
cuidados mais irregulares e os primeiros dias de vida dos filhotes mais
imprevisíveis.
Os
camundongos criados nessas condições adversas cresceram aparentemente
saudáveis, sem sinais visíveis de doença ou qualquer problema evidente.
Mas,
quando os pesquisadores os reuniram em grupos para observar seu comportamento
social, surgiu um padrão recorrente.
Repetidamente,
esses animais terminavam nos níveis mais baixos da hierarquia social, primeiro
na adolescência e depois novamente na vida adulta. A infância difícil não
deixara marcas visíveis, mas parecia ter determinado a posição social que
ocupariam pelo resto da vida.
Quando
alguns deles receberam um medicamento experimental, esse padrão desapareceu.
O
estudo, publicado em junho, foi liderado conjuntamente por Mathias Schmidt, do
Instituto Max Planck de Psiquiatria e Juan Pablo Lopez, do Instituto
Karolinska.
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Como o trauma na infância afeta o cérebro e o corpo?
Tudo
começa com o cortisol, o principal hormônio do estresse do organismo. Quando
ocorre uma situação estressante, o cortisol é liberado em grande quantidade.
Trata-se de uma resposta normal e protetiva do corpo.
Mas tão
importante quanto ativar essa resposta é desligá-la. O organismo precisa
reconhecer que o perigo passou e reduzir gradualmente o estado de alerta.
Isso
ocorre por meio dos receptores de cortisol, estruturas celulares que detectam o
hormônio e enviam ao organismo o sinal para encerrar a resposta ao estresse.
Uma
proteína chamada FKBP51 controla a sensibilidade desses receptores. Segundo a
pesquisa, experiências adversas precoces fazem com que o organismo produza
quantidades excessivas dessa proteína.
Como
consequência, os receptores tornam-se menos sensíveis, o sinal para interromper
a resposta ao estresse não é transmitido adequadamente e o organismo permanece
em estado de alerta por mais tempo do que deveria.
Schmidt
destaca que esse processo ocorre sem que a pessoa necessariamente perceba.
"Sua resposta ao cortisol é algo que você não sente. Você pode acreditar
que lida muito bem com o estresse, mas seu organismo está produzindo cortisol,
e você não sabe disso."
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Um medicamento pode bloquear os efeitos de uma infância difícil?
Os
pesquisadores utilizaram um composto chamado SAFit2, que bloqueia a ação da
proteína FKBP51. Administrado às mães durante o período de estresse, o composto
chegou aos filhotes por meio do leite materno.
Os
camundongos tratados passaram a apresentar desempenho social idêntico ao dos
animais que nunca haviam sido expostos à adversidade. Em outras palavras, o
custo social de um início de vida difícil desapareceu.
O
efeito foi observado não apenas no comportamento, mas também no cérebro.
Os
pesquisadores analisaram a atividade genética em seis regiões cerebrais
relacionadas ao estresse e constataram que as adversidades precoces haviam
deixado marcas amplas nesses circuitos.
O
medicamento reverteu em grande parte essas alterações, especialmente em duas
regiões: o córtex pré-frontal medial e o núcleo accumbens, áreas ligadas ao
controle emocional e aos mecanismos de recompensa.
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O trauma infantil pode ser revertido?
Não com
base nas evidências deste estudo. Na pesquisa conduzida em Munique, o composto
foi administrado durante o período de estresse, e não depois dele. Isto é, o
trabalho demonstra um efeito preventivo, não reparador.
Outros
estudos observaram efeitos comportamentais quando o medicamento foi
administrado a animais adultos, mas ainda não foi comprovado que ele seja capaz
de reverter completamente traumas já estabelecidos.
Além
disso, a prevenção só seria possível se fosse viável identificar indivíduos em
risco antes que o dano ocorresse, questão que esta pesquisa não aborda.
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O medicamento funcionaria em seres humanos?
Ainda é
cedo para saber. O estudo foi realizado apenas com camundongos machos, de modo
que não se sabe se os mesmos efeitos ocorreriam em fêmeas.
Além
disso, o SAFit2 continua sendo um composto experimental. Embora tenha mostrado
resultados promissores em animais, ele ainda não foi desenvolvido nem testado
quanto à segurança em seres humanos.
Mesmo
assim, Schmidt vê um caminho plausível para aplicações clínicas na próxima
década. Segundo ele, os mecanismos biológicos do estresse são "muito,
muito semelhantes em animais e humanos".
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Como o trauma é tratado hoje?
Os
tratamentos atuais para transtornos relacionados ao estresse, incluindo
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão associada a traumas,
dependem em grande medida dos antidepressivos conhecidos como ISRSs, os
inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
Esses
medicamentos atuam nos sistemas ligados à serotonina. Funcionam para muitos
pacientes, mas seu mecanismo de ação ainda não é totalmente compreendido e uma
parcela significativa das pessoas não responde ao tratamento.
Segundo
Schmidt, atuar sobre a FKBP51 permitiria atacar diretamente a origem biológica
do problema.
"Não
estaríamos tratando apenas os sintomas, mas também a causa do transtorno ao
agir diretamente sobre um mecanismo relacionado ao estresse", afirma.
"Medicamentos desse tipo ainda não existem no mercado."
A longo
prazo, ele imagina uma abordagem mais direcionada: identificar pessoas
geneticamente mais vulneráveis ao estresse, que já apresentem níveis elevados
de FKBP51, e tratá-las especificamente após eventos traumáticos agudos.
No
outro extremo estão indivíduos que, por fatores genéticos ou experiências
prévias, demonstram elevada resiliência mesmo diante de condições extremas e
talvez não necessitem de medicação.
Compreender
quem realmente precisa desse tipo de intervenção e alcançá-lo a tempo é um dos
próximos objetivos da pesquisa.
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Quais são os sinais de um trauma não resolvido?
Schmidt
ressalta que o trauma se manifesta de forma altamente individual, tanto do
ponto de vista psicológico quanto fisiológico. Segundo ele, o principal
indicador não é a intensidade da reação, mas sua duração.
Uma
resposta intensa ao estresse logo após um acidente de carro ou um episódio de
violência é considerada normal. Trata-se do organismo fazendo seu trabalho.
O que
preocupa os especialistas é quando essa resposta persiste muito além do
esperado: continuar incapaz de atravessar uma rua um mês depois ou sofrer de
insônia por várias semanas são exemplos citados por Schmidt.
Esses
exemplos não constituem critérios diagnósticos formais, mas ilustram um
princípio importante: se a reação ao estresse não diminui com o tempo, é
recomendável procurar orientação médica.
Por
enquanto, essa continua sendo a principal recomendação prática. Mesmo que um
medicamento como o SAFit2 venha a ser desenvolvido, ele ainda está distante.
Fonte:
DW Brasil

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