terça-feira, 18 de agosto de 2026

Diabetes tipo 1 pode ser identificado antes dos sintomas? Pesquisa busca voluntários para estudo clínico

Durante muito tempo, o diabetes tipo 1 era identificado principalmente quando os sintomas apareciam e os exames confirmavam o diagnóstico. Hoje, a ciência reconhece que a doença autoimune pode passar por diferentes estágios antes de chegar ao diagnóstico clínico, permitindo identificar sinais de que o processo da doença já começou.

É nesse contexto que o rastreamento ganha importância. Por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1, é possível identificar pessoas que apresentam sinais de autoimunidade antes de desenvolverem a hiperglicemia característica do diagnóstico.

Essa mudança de perspectiva também abriu espaço para novas pesquisas clínicas. Uma delas está sendo realizada no CPclin Dasa, em São Paulo, e avalia uma intervenção medicamentosa em pessoas que já apresentam características do chamado estágio 2 do diabetes tipo 1.

A endocrinologista e pesquisadora Denise Franco explicou, em entrevista ao DiabetesCast, que o diagnóstico clínico corresponde a uma fase mais avançada da doença. “O diabetes tipo 1, quando ele é diagnosticado, ele já está no que a gente chama de fase de estágio 3 da doença”, afirmou.

<><> O que acontece antes do diagnóstico?

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode acontecer de forma progressiva, antes de a pessoa apresentar glicemia compatível com o diagnóstico de diabetes.

Uma das formas de identificar essa atividade autoimune é por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1. Na entrevista, Denise cita quatro deles: anti-insulina, anti-IA2, anti-GAD e anti-ZnT8.

A presença de dois ou mais autoanticorpos confirmados, sem alterações da glicose e sem sintomas, caracteriza o chamado estágio 1. Já no estágio 2, além dos autoanticorpos, a pessoa apresenta alterações na glicemia, mas ainda não preenche os critérios para o diagnóstico clínico do diabetes.

Entre as alterações que podem caracterizar o estágio 2 estão glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% e determinadas alterações observadas no teste oral de tolerância à glicose. Os critérios precisam ser confirmados de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

No estágio 3, a hiperglicemia já alcança os valores utilizados para caracterizar o diabetes. É a partir dessa divisão em estágios que o rastreamento passa a ter um papel diferente: em vez de esperar pelo diagnóstico, profissionais podem identificar pessoas que estão em fases anteriores e acompanhar sua evolução.

<><> O que é o rastreamento do diabetes tipo 1?

Rastrear significa procurar sinais da doença antes que ela seja diagnosticada clinicamente. No caso do diabetes tipo 1, isso pode envolver a pesquisa de autoanticorpos no sangue.

A estratégia é especialmente relevante para pessoas que têm parentes próximos com diabetes tipo 1, já que esse grupo apresenta maior risco de desenvolver a doença. Denise explica que, no Brasil, o rastreamento vem sendo iniciado principalmente entre familiares diretos de pessoas com diabetes tipo 1.

A identificação de autoanticorpos, entretanto, não significa que a pessoa já tenha diabetes. Ela indica a presença de um processo de autoimunidade associado à doença e, dependendo da combinação de marcadores e alterações metabólicas, pode indicar uma fase de maior risco de progressão.

É justamente essa identificação precoce que permite acompanhar o paciente e avaliar a possibilidade de intervenções estudadas pela ciência.

<><> Por que tentar retardar a evolução do diabetes tipo 1?

A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa está voltada para pessoas no estágio 2 do diabetes tipo 1. Nessa fase, a pessoa já apresenta pelo menos dois autoanticorpos e alguma alteração da glicemia, mas ainda não tem diagnóstico clínico de diabetes.

O estudo busca avaliar se uma intervenção medicamentosa pode modificar a evolução da doença. Entre os objetivos está verificar se o tratamento consegue postergar o aparecimento do diabetes clínico e preservar por mais tempo a capacidade do organismo de produzir insulina.

“Eu sei que tem o estágio 2, eu sei que a glicemia está alterada e o uso dessa medicação, se ela vai postergar o aparecimento do diabetes e se ele vai aumentar a chance de ter uma reserva maior de insulina”, explicou Denise.

Essa reserva de insulina é avaliada por meio da dosagem do peptídeo C, exame citado pela pesquisadora durante a entrevista.

A proposta, portanto, não é afirmar que a intervenção já é capaz de impedir ou retardar o diabetes. A pesquisa existe justamente para avaliar se ela consegue alterar a evolução da doença em pessoas que já estão no estágio 2.

<><> O que já existe para pessoas no estágio 2?

A pesquisa clínica faz parte de um cenário em que a ciência já avalia diferentes formas de intervir antes do diagnóstico clínico do diabetes tipo 1.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em março de 2026, um tratamento específico para retardar o início do diabetes tipo 1 no estágio 3 em pessoas a partir de 8 anos que já estejam no estágio 2.

Isso não significa, porém, que toda pessoa identificada no estágio 2 tenha indicação automática para esse tratamento. A utilização depende de avaliação médica, dos critérios previstos para a indicação e da disponibilidade do tratamento.

A pesquisa realizada no CPclin Dasa tem outra finalidade: avaliar, dentro de um estudo clínico, se a intervenção investigada pode retardar a progressão da doença em pessoas que apresentam características de maior risco.

<><> O que já se sabe sobre intervenções antes do diagnóstico?

Durante a entrevista, Denise menciona resultados observados em outros estudos, nos quais determinadas intervenções conseguiram retardar o aparecimento do diabetes tipo 1 por alguns anos em pessoas selecionadas.

“Em alguns estudos a gente consegue um retardo de 3 a 5 anos no aparecimento da doença”, afirmou.

Esse dado não deve ser interpretado como resultado do estudo atualmente realizado no CPclin Dasa. A pesquisa em andamento busca justamente produzir evidências sobre a intervenção investigada em seu próprio protocolo.

Por isso, os resultados de pesquisas anteriores não permitem afirmar que a intervenção estudada atualmente terá o mesmo efeito.

<><> Um exemplo de acompanhamento antes do diagnóstico

Durante o podcast, Denise também relatou o caso de uma família em que dois filhos desenvolveram diabetes tipo 1. Depois que a filha mais velha apresentou um quadro de cetoacidose e foi internada, a mãe passou a acompanhar mais de perto o filho mais novo.

Ao observar uma mudança na hemoglobina glicada ao longo do tempo, a família procurou atendimento médico. O rastreamento identificou a presença de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1.

Segundo o relato apresentado pela pesquisadora, o filho mais novo não precisou iniciar insulina imediatamente e teve uma evolução diferente da irmã.

O episódio é apresentado por Denise como um exemplo da importância de reconhecer a doença mais cedo. Não se trata, porém, de um resultado da pesquisa clínica do CPclin Dasa, mas de um relato de acompanhamento de uma família.

<><> Quem pode participar da pesquisa?

De acordo com as informações apresentadas por Denise no DiabetesCast e com o registro do estudo, a pesquisa está recrutando pessoas de 1 a 35 anos, em São Paulo, que apresentem características compatíveis com os critérios definidos pelo protocolo.

Entre os critérios de inclusão estão:

  • ter histórico documentado de pelo menos dois autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1;
  • apresentar confirmação de pelo menos dois desses autoanticorpos durante a triagem ou pré-triagem;
  • estar no estágio 1b ou estágio 2 do diabetes tipo 1;
  • ter peso corporal de pelo menos 8 kg;
  • estar dentro da faixa etária prevista pelo estudo.

Os autoanticorpos citados na entrevista são anti-insulina, anti-GAD, anti-IA2 e anti-ZnT8.

Ter esses critérios não significa inclusão automática na pesquisa. Depois do contato inicial, o voluntário passa por uma avaliação e por exames para que a equipe confirme se ele atende a todas as exigências do protocolo.

<><> Como é a segurança de uma pesquisa clínica?

Antes de chegar aos voluntários, uma pesquisa clínica passa por diferentes etapas de avaliação. Denise explica que o estudo citado no podcast é uma pesquisa global e que houve análise por comitês de ética antes de sua realização.

Durante a pesquisa, os participantes são acompanhados pela equipe responsável e os acontecimentos relacionados ao estudo são monitorados.

“Uma pesquisa clínica para chegar como essa, que é uma pesquisa, ela não veio só no Brasil, ela é uma pesquisa global”, afirmou Denise. Segundo ela, os participantes são acompanhados e os pesquisadores recebem informações sobre o que acontece durante o desenvolvimento do estudo.

A participação em uma pesquisa clínica também não significa obrigação de permanecer no estudo. As condições, riscos, benefícios esperados, procedimentos e direitos do voluntário devem ser apresentados antes da participação, dentro do processo de consentimento informado.

<><> Por que a pesquisa clínica é importante?

Antes de um medicamento chegar aos pacientes, ele precisa passar por etapas de pesquisa que avaliam diferentes aspectos de sua segurança e eficácia. A participação de voluntários permite que os pesquisadores produzam essas evidências.

Durante a entrevista, Denise lembrou que medicamentos utilizados atualmente também passaram por pesquisas clínicas antes de serem disponibilizados.

“Não tem chance de a gente ter uma medicação nova se a gente não passa pela pesquisa clínica”, afirmou.

Os resultados de uma pesquisa também não ficam restritos ao centro onde o estudo foi realizado. Segundo Denise, os dados são compartilhados entre centros de pesquisa e os resultados precisam ser divulgados, incluindo aqueles que não apresentam o efeito esperado.

<><> Uma nova possibilidade de acompanhamento do diabetes tipo 1

A identificação de pessoas em fases anteriores ao diagnóstico muda a maneira como o diabetes tipo 1 pode ser acompanhado. O objetivo do rastreamento é reconhecer sinais de autoimunidade e alterações metabólicas antes do diagnóstico clínico, permitindo que essas pessoas sejam acompanhadas de forma adequada.

Para Denise, essa possibilidade representa uma mudança em relação ao que acontecia anos atrás.

“Hoje eu tenho uma opção pra isso, né? Então eu posso usar o rastreamento justamente porque eu tenho que fazer com o paciente”, afirmou.

A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa faz parte desse cenário. Ao estudar uma intervenção em pessoas que já estão no estágio 2, os pesquisadores buscam responder se é possível modificar a evolução do diabetes tipo 1 antes que o diagnóstico clínico seja estabelecido.

<><> Como saber se posso participar?

Pessoas que acreditam se enquadrar nos critérios apresentados podem procurar o CPclin Dasa para obter informações sobre o recrutamento e passar pela triagem.

A elegibilidade não é determinada apenas pela idade ou pela presença de autoanticorpos. A equipe de pesquisa precisa avaliar cada voluntário e confirmar se todos os critérios previstos no protocolo são atendidos.

Para quem tem um familiar próximo com diabetes tipo 1, a possibilidade de rastreamento também merece atenção. A identificação de autoanticorpos pode permitir que pessoas em fases pré-clínicas sejam reconhecidas e acompanhadas por profissionais especializados.

>>> Importante: os critérios de participação apresentados nesta matéria são baseados nas informações apresentadas pela pesquisadora durante o DiabetesCast e no registro oficial da pesquisa. A confirmação dos critérios atuais, da disponibilidade de vagas e da elegibilidade deve ser feita diretamente com o centro de pesquisa responsável pelo estudo.

 

Fonte: Um Diabético

 

Nenhum comentário: