Diabetes
tipo 1 pode ser identificado antes dos sintomas? Pesquisa busca voluntários
para estudo clínico
Durante muito tempo, o diabetes tipo 1 era
identificado principalmente quando os sintomas apareciam e os exames
confirmavam o diagnóstico. Hoje, a
ciência reconhece que a doença autoimune pode passar por diferentes estágios
antes de chegar ao diagnóstico clínico, permitindo identificar sinais de que o
processo da doença já começou.
É nesse contexto que o rastreamento ganha
importância. Por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes
tipo 1, é possível identificar pessoas que apresentam sinais de autoimunidade
antes de desenvolverem a hiperglicemia característica do diagnóstico.
Essa mudança de perspectiva também abriu
espaço para novas pesquisas clínicas. Uma delas está sendo realizada no CPclin Dasa, em São Paulo,
e avalia uma intervenção medicamentosa em pessoas que já apresentam
características do chamado estágio 2 do diabetes tipo 1.
A endocrinologista e pesquisadora Denise
Franco explicou, em entrevista ao DiabetesCast, que o diagnóstico clínico
corresponde a uma fase mais avançada da doença. “O diabetes tipo 1, quando ele
é diagnosticado, ele já está no que a gente chama de fase de estágio 3 da
doença”, afirmou.
<><> O que acontece antes do
diagnóstico?
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune.
Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar as células beta do
pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode acontecer
de forma progressiva, antes de a pessoa apresentar glicemia compatível com o
diagnóstico de diabetes.
Uma das formas de identificar essa atividade
autoimune é por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes
tipo 1. Na entrevista, Denise cita quatro deles: anti-insulina, anti-IA2,
anti-GAD e anti-ZnT8.
A presença de dois ou mais autoanticorpos
confirmados, sem alterações da glicose e sem sintomas, caracteriza o chamado
estágio 1. Já no estágio 2, além dos autoanticorpos, a pessoa apresenta
alterações na glicemia, mas ainda não preenche os critérios para o diagnóstico
clínico do diabetes.
Entre as alterações que podem caracterizar o
estágio 2 estão glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, hemoglobina glicada
entre 5,7% e 6,4% e determinadas alterações observadas no teste oral de
tolerância à glicose. Os critérios precisam ser confirmados de acordo com a
avaliação clínica e laboratorial.
No estágio 3, a hiperglicemia já alcança os
valores utilizados para caracterizar o diabetes. É a partir dessa divisão em
estágios que o rastreamento passa a ter um papel diferente: em vez de esperar
pelo diagnóstico, profissionais podem identificar pessoas que estão em fases
anteriores e acompanhar sua evolução.
<><> O que é o rastreamento do
diabetes tipo 1?
Rastrear significa procurar sinais da doença
antes que ela seja diagnosticada clinicamente. No caso do diabetes tipo 1, isso
pode envolver a pesquisa de autoanticorpos no sangue.
A estratégia é especialmente relevante para
pessoas que têm parentes próximos com diabetes tipo 1, já que esse grupo
apresenta maior risco de desenvolver a doença. Denise explica que, no Brasil, o
rastreamento vem sendo iniciado principalmente entre familiares diretos de
pessoas com diabetes tipo 1.
A identificação de autoanticorpos,
entretanto, não significa que a pessoa já tenha diabetes. Ela indica a presença
de um processo de autoimunidade associado à doença e, dependendo da combinação
de marcadores e alterações metabólicas, pode indicar uma fase de maior risco de
progressão.
É justamente essa identificação precoce que
permite acompanhar o paciente e avaliar a possibilidade de intervenções
estudadas pela ciência.
<><> Por que tentar retardar a
evolução do diabetes tipo 1?
A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa
está voltada para pessoas no estágio 2 do diabetes tipo 1. Nessa fase, a pessoa
já apresenta pelo menos dois autoanticorpos e alguma alteração da glicemia, mas
ainda não tem diagnóstico clínico de diabetes.
O estudo busca avaliar se uma intervenção
medicamentosa pode modificar a evolução da doença. Entre os objetivos está
verificar se o tratamento consegue postergar o aparecimento do diabetes clínico
e preservar por mais tempo a capacidade do organismo de produzir insulina.
“Eu sei que tem o estágio 2, eu sei que a
glicemia está alterada e o uso dessa medicação, se ela vai postergar o
aparecimento do diabetes e se ele vai aumentar a chance de ter uma reserva
maior de insulina”, explicou Denise.
Essa reserva de insulina é avaliada por meio
da dosagem do peptídeo C, exame citado pela pesquisadora durante a entrevista.
A proposta, portanto, não é afirmar que a
intervenção já é capaz de impedir ou retardar o diabetes. A pesquisa existe
justamente para avaliar se ela consegue alterar a evolução da doença em pessoas
que já estão no estágio 2.
<><> O que já existe para pessoas
no estágio 2?
A pesquisa clínica faz parte de um cenário em
que a ciência já avalia diferentes formas de intervir antes do diagnóstico
clínico do diabetes tipo 1.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) aprovou, em março de 2026, um tratamento específico para
retardar o início do diabetes tipo 1 no estágio 3 em pessoas a partir de 8 anos
que já estejam no estágio 2.
Isso não significa, porém, que toda pessoa
identificada no estágio 2 tenha indicação automática para esse tratamento. A
utilização depende de avaliação médica, dos critérios previstos para a
indicação e da disponibilidade do tratamento.
A pesquisa realizada no CPclin Dasa tem outra
finalidade: avaliar, dentro de um estudo clínico, se a intervenção investigada
pode retardar a progressão da doença em pessoas que apresentam características
de maior risco.
<><> O que já se sabe sobre
intervenções antes do diagnóstico?
Durante a entrevista, Denise menciona
resultados observados em outros estudos, nos quais determinadas intervenções
conseguiram retardar o aparecimento do diabetes tipo 1 por alguns anos em
pessoas selecionadas.
“Em alguns estudos a gente consegue um
retardo de 3 a 5 anos no aparecimento da doença”, afirmou.
Esse dado não deve ser interpretado como
resultado do estudo atualmente realizado no CPclin Dasa. A pesquisa em
andamento busca justamente produzir evidências sobre a intervenção investigada
em seu próprio protocolo.
Por isso, os resultados de pesquisas
anteriores não permitem afirmar que a intervenção estudada atualmente terá o
mesmo efeito.
<><> Um exemplo de acompanhamento
antes do diagnóstico
Durante o podcast, Denise também relatou o
caso de uma família em que dois filhos desenvolveram diabetes tipo 1. Depois
que a filha mais velha apresentou um quadro de cetoacidose e foi internada, a
mãe passou a acompanhar mais de perto o filho mais novo.
Ao observar uma mudança na hemoglobina
glicada ao longo do tempo, a família procurou atendimento médico. O
rastreamento identificou a presença de autoanticorpos relacionados ao diabetes
tipo 1.
Segundo o relato apresentado pela
pesquisadora, o filho mais novo não precisou iniciar insulina imediatamente e
teve uma evolução diferente da irmã.
O episódio é apresentado por Denise como um
exemplo da importância de reconhecer a doença mais cedo. Não se trata, porém,
de um resultado da pesquisa clínica do CPclin Dasa, mas de um relato de
acompanhamento de uma família.
<><> Quem pode participar da
pesquisa?
De acordo com as informações apresentadas por
Denise no DiabetesCast e com o registro do estudo, a pesquisa está recrutando
pessoas de 1 a 35 anos, em São Paulo, que apresentem características
compatíveis com os critérios definidos pelo protocolo.
Entre os critérios de inclusão estão:
- ter
histórico documentado de pelo menos dois autoanticorpos relacionados ao
diabetes tipo 1;
- apresentar
confirmação de pelo menos dois desses autoanticorpos durante a triagem ou
pré-triagem;
- estar
no estágio 1b ou estágio 2 do diabetes tipo 1;
- ter
peso corporal de pelo menos 8 kg;
- estar
dentro da faixa etária prevista pelo estudo.
Os autoanticorpos citados na entrevista são
anti-insulina, anti-GAD, anti-IA2 e anti-ZnT8.
Ter esses critérios não significa inclusão
automática na pesquisa. Depois do contato inicial, o voluntário passa por uma
avaliação e por exames para que a equipe confirme se ele atende a todas as
exigências do protocolo.
<><> Como é a segurança de uma
pesquisa clínica?
Antes de chegar aos voluntários, uma pesquisa
clínica passa por diferentes etapas de avaliação. Denise explica que o estudo
citado no podcast é uma pesquisa global e que houve análise por comitês de
ética antes de sua realização.
Durante a pesquisa, os participantes são
acompanhados pela equipe responsável e os acontecimentos relacionados ao estudo
são monitorados.
“Uma pesquisa clínica para chegar como essa,
que é uma pesquisa, ela não veio só no Brasil, ela é uma pesquisa global”,
afirmou Denise. Segundo ela, os participantes são acompanhados e os
pesquisadores recebem informações sobre o que acontece durante o desenvolvimento
do estudo.
A participação em uma pesquisa clínica também
não significa obrigação de permanecer no estudo. As condições, riscos,
benefícios esperados, procedimentos e direitos do voluntário devem ser
apresentados antes da participação, dentro do processo de consentimento
informado.
<><> Por que a pesquisa clínica é
importante?
Antes de um medicamento chegar aos pacientes,
ele precisa passar por etapas de pesquisa que avaliam diferentes aspectos de
sua segurança e eficácia. A participação de voluntários permite que os
pesquisadores produzam essas evidências.
Durante a entrevista, Denise lembrou que
medicamentos utilizados atualmente também passaram por pesquisas clínicas antes
de serem disponibilizados.
“Não tem chance de a gente ter uma medicação
nova se a gente não passa pela pesquisa clínica”, afirmou.
Os resultados de uma pesquisa também não
ficam restritos ao centro onde o estudo foi realizado. Segundo Denise, os dados
são compartilhados entre centros de pesquisa e os resultados precisam ser
divulgados, incluindo aqueles que não apresentam o efeito esperado.
<><> Uma nova possibilidade de
acompanhamento do diabetes tipo 1
A identificação de pessoas em fases
anteriores ao diagnóstico muda a maneira como o diabetes tipo 1 pode ser
acompanhado. O objetivo do rastreamento é reconhecer sinais de autoimunidade e
alterações metabólicas antes do diagnóstico clínico, permitindo que essas
pessoas sejam acompanhadas de forma adequada.
Para Denise, essa possibilidade representa
uma mudança em relação ao que acontecia anos atrás.
“Hoje eu tenho uma opção pra isso, né? Então
eu posso usar o rastreamento justamente porque eu tenho que fazer com o
paciente”, afirmou.
A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa
faz parte desse cenário. Ao estudar uma intervenção em pessoas que já estão no
estágio 2, os pesquisadores buscam responder se é possível modificar a evolução
do diabetes tipo 1 antes que o diagnóstico clínico seja estabelecido.
<><> Como saber se posso
participar?
Pessoas que acreditam se enquadrar nos
critérios apresentados podem procurar o CPclin Dasa para obter informações
sobre o recrutamento e passar pela triagem.
A elegibilidade não é determinada apenas pela
idade ou pela presença de autoanticorpos. A equipe de pesquisa precisa avaliar
cada voluntário e confirmar se todos os critérios previstos no protocolo são
atendidos.
Para quem tem um familiar próximo com
diabetes tipo 1, a possibilidade de rastreamento também merece atenção. A
identificação de autoanticorpos pode permitir que pessoas em fases pré-clínicas
sejam reconhecidas e acompanhadas por profissionais especializados.
>>> Importante: os critérios de participação apresentados nesta
matéria são baseados nas informações apresentadas pela pesquisadora durante o
DiabetesCast e no registro oficial da pesquisa. A confirmação dos critérios
atuais, da disponibilidade de vagas e da elegibilidade deve ser feita
diretamente com o centro de pesquisa responsável pelo estudo.
Fonte:
Um Diabético

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