O
que explica derrota histórica de Lula no Senado (e qual recado envia ao STF)
A rejeição do
advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal
Federal (STF) foi uma "derrota histórica" para o
presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) e evidencia a fragilidade do governo,
afirmam analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo
os entrevistados, a decisão de barrar a nomeação foi também um recado para a
Corte, que passa por um momento delicado, com ministros desgastados pelo
escândalo do Banco Master e
o Tribunal dividido sobre a necessidade de um código de conduta para seus
integrantes.
A
rejeição — inédita em 132 anos — acontece a poucos meses da eleição
presidencial, marcada para outubro, num cenário de baixa aprovação
popular de Lula, o que o enfraquece nas articulações no Congresso.
A
expectativa dos analistas ouvidos é que o presidente não terá forças para levar
adiante uma nova nomeação para o Supremo agora, e que o Senado só deve votar um
novo indicado após o resultado da eleição.
Durante
a votação, que acabou com um placar de 42 votos contrários e 34 a favor, coube
à senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) discursar pela rejeição a Messias.
Ela leu
trechos de um editorial do jornal O Estado de S. Paulo contra a indicação, que
destacava a escolha de Lula por nome próximo a ele e as controvérsias
enfrentadas por ministros do STF no caso Master, como Alexandre de
Moraes, cujo
escritório de advocacia da esposa teve um contrato de R$ 129 milhões com o
banco.
O
presidente sofreu forte pressão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), para indicar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao STF, mas optou
por Messias, um servidor público de carreira com ligações históricas com o PT,
tendo ocupado cargos importantes em governos petistas e atuado como assessor
parlamentar do senador Jaques Wagner (PT-BA).
"A
rejeição de Messias tem clara digital de Alcolumbre", acredita o cientista
político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.
A
indicação de Messias seguiu o perfil dos dois ministros anteriores escolhidos
por Lula em seu terceiro mandato — Cristiano Zanin, que foi seu advogado nos
processos derivados da Operação Lava Jato, e Flávio Dino, que foi seu ministro
da Justiça.
A
escolha apenas de nomes de sua confiança foi uma mudança em relação a seus
primeiros dois governos, quando Lula fez escolhas também preocupado com a
representatividade racial e de gênero, indicando o agora aposentado Joaquim
Barbosa e a atual ministra Cármen Lúcia.
Para a
constitucionalista Ana Laura Barbosa, professora de Direito da Escola Superior
de Propaganda e Marketing (ESPM), a derrota de Messias não significa que o
Congresso rejeite nomes da política, já que o preferido seria o senador Rodrigo
Pacheco.
"Talvez
a mensagem, no fim das contas, seja que o Legislativo prefira alguém de
confiança do Legislativo. Ou seja, que o Legislativo queira ter mais poder para
além da aceitação ou rejeição [da indicação presidencial], que talvez queira
mais poder também na escolha", ressalta.
"O
que ficou bastante expresso na fala final da senadora Mara Gabrilli é que
parece estar em jogo uma resposta de que não se quer um sujeito muito próximo
ao Executivo e na esteira de uma aparente tentativa de represália ao
Supremo", acrescenta.
Rafael
Cortez, da Tendências Consultoria, tem visão semelhante. Na sua percepção,
parte do Congresso vê o governo Lula e o STF como aliados.
A Corte
teve papel determinante na reação aos ataques do 8 de Janeiro contra a gestão
petista, quando bolsonaristas radicais invadiram e depredaram as sedes dos Três
Poderes.
Essa
reação culminou na condenação de centenas de manifestantes e altas autoridades
do governo anterior, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além
disso, nota Cortez, é comum que o governo Lula recorra à Corte contra decisões
do Congresso que considera inconstitucionais.
"Então,
tem uma leitura de que uma parte desse esvaziamento do Poder Legislativo [por
uma suposta atuação excessiva do STF] veio com a contribuição do Poder
Executivo", analisa.
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Lula terá mais dificuldades no Congresso
Na
avaliação do analista político Creomar de Souza, sócio-fundador da consultoria
Dharma e professor da Fundação Dom Cabral, a derrota também reflete a fraqueza
de Lula em seu terceiro mandato e um "erro de leitura" do presidente
de não compreender essa dificuldade ao indicar Messias.
"A
rejeição é um indicador de um processo de longo prazo, que é a incapacidade do
governo Lula, nessa terceira administração, de ter uma maioria ou uma base
forte articulada no Congresso Nacional".
"E,
efetivamente, os números na Câmara e no Senado nunca refletiram uma capacidade
de articulação e protagonismo nas duas Casas legislativas, que talvez reflita o
próprio ambiente em que, apesar da derrota de Jair Bolsonaro [na eleição de
2022], o Congresso foi povoado com uma fauna muito mais conservadora."
Para os
dois cientistas políticos ouvidos pela BBC, a rejeição a Messias indica que
Lula terá grande dificuldade para aprovar pautas legislativas de seu interesse
nos últimos meses de seu governo.
Nesta
quinta-feira, a expectativa é que o Congresso derrube seu veto ao PL da
Dosimetria, projeto de lei que reduz penas dos condenados pelos atos do 8 de
Janeiro.
Apesar
disso, ambos dizem que não está claro qual será o impacto eleitoral da derrota
na indicação ao STF.
"Não
vejo como um elemento determinante para o resultado eleitoral. Eu acho que tem
esses eleitores que, digamos assim, respondem a essa agenda, são eleitores que
dificilmente iriam votar no governo Lula", afirma Cortez.
"Mais
do que esse jogo eleitoral, é uma disputa institucional, no campo das relações
de poder, num momento em que o presidencialismo brasileiro, o arcabouço
institucional brasileiro, passa por um reequilíbrio", acrescentou.
¨
Como imprensa internacional noticiou rejeição a Messias
A rejeição do
advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal
Federal (STF) repercutiu na imprensa internacional.
A
indicação do nome de Jorge Messias foi aprovada pela Comissão de Constituição
de Justiça, após uma longa sabatina na quarta-feira (29/4). Mas no plenário,
posteriormente, o nome foi rejeitado com 42 votos contra e 34 a favor.
O
jornal espanhol El País destacou que o Senado
brasileiro impôs "uma derrota histórica a Lula ao rejeitar
sua indicação para o Supremo Tribunal Federal".
"Normalmente,
o Senado ratificaria, com diferentes graus de dificuldade, o indicado
apresentado pelo Palácio da Alvorada, mas desta vez não o fez", escreveu o
jornal espanhol.
"A
rejeição de Messias é um sinal de
alerta para Lula, cuja lendária capacidade de mobilizar e forjar
alianças está agora em questão."
Segundo
o jornal espanhol, "as relações com o chefe do Senado [Davi Alcolumbre]
estão completamente rompidas, o que é especialmente perigoso na véspera da
campanha eleitoral, justamente quando Lula mais precisa que o Congresso aprove
leis como a que reduz a jornada de trabalho e acaba com a escala 6x1 — de seis
dias consecutivos de trabalho seguidos de um dia de folga."
"Ele
precisa disso mais do que nunca. Sua popularidade está em baixa histórica, e as
pesquisas indicam que ele está empatado com o principal candidato de direita, o
senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente."
"Agora
Lula terá que tentar reconstruir o diálogo com o Senado, encontrar alguém que
consiga passar pelo processo de sabatina e fazer isso rapidamente. A oposição
está confiante de que ele não terá sucesso, que a vaga permanecerá em aberto e
que a responsabilidade recairá sobre o presidente eleito em outubro."
O
jornal argentino Clarín destacou que a rejeição de Messias é "uma severa
derrota para Lula e uma vitória
para a oposição, representada pelo senador e pré-candidato
presidencial Flávio Bolsonaro".
Após a
rejeição, "o presidente Lula terá que enviar um novo nome para preencher a
vaga deixada por Luis Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal",
afirmou o jornal argentino.
A
agência de notícias Associated Press (AP) afirmou em texto que o Senado
brasileiro "desferiu um golpe político" em Lula e que a rejeição de
Messias é "um sinal de que o veterano líder não é popular
entre muitos parlamentares". O texto da AP foi reproduzido em sites como o
Washington Post e ABC News, nos Estados Unidos.
"O
presidente do Senado brasileiro, Davi Alcolumbre, defendeu abertamente outro
candidato antes de Lula escolher Messias como seu indicado", afirma o
texto da AP. "A imprensa brasileira vem noticiando há meses que o senador
estava em desacordo com Lula por este não ter escolhido o ex-senador Rodrigo
Pacheco."
A AP
cita o analista político Creomar de Souza, que afirma que Lula vinha tendo
dificuldades para trabalhar com o Congresso desde que retornou ao cargo, e que
a rejeição de Messias seria "a prova definitiva disso".
A
agência Bloomberg afirmou que a indicação de Messias por Lula para suceder
Barroso "fazia parte de um esforço maior para alcançar um eleitorado
religioso e político em rápido crescimento".
"Visto
como uma ponte para os evangélicos, Messias teria se tornado a terceira escolha
do presidente para integrar a Suprema Corte durante seu mandato atual",
diz a Bloomberg.
"A
derrota provavelmente agravará as tensões entre o governo de Lula e o
Legislativo, onde o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, preferia Rodrigo
Pacheco, ex-líder da Casa. A eleição provocou resistência até mesmo entre
alguns aliados do governo."
Segundo
a Bloomberg, a rejeição de Messias "evidencia a crescente influência de
partidos de direita aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro no Senado
brasileiro, órgão que detém o poder de destituir membros da Suprema
Corte".
"O
ex-presidente e seus apoiadores há tempos criticam o Supremo Tribunal Federal,
alegando que suas campanhas contra as chamadas notícias falsas e a
desinformação online levaram à perseguição política de figuras
conservadoras."
A
agência de notícias Reuters noticiou que "nos últimos meses, o governo
Lula organizou um esforço de lobby sem precedentes para tentar garantir a
aprovação de Messias, depois que os parlamentares reagiram inicialmente de
forma negativa à sua nomeação em novembro pelo líder de esquerda."
"Nas
últimas semanas, a equipe de Lula buscou apoio de senadores de todo o espectro
político, argumentando que Messias poderia ajudar a aliviar as tensões entre o
Congresso e a Suprema Corte, de acordo com fontes familiarizadas com o
assunto."
A
Reuters destacou que a escolha de Messias, "um batista, também foi vista
como um gesto para a crescente comunidade cristã evangélica do Brasil, que
representa 27% da população do país".
Fonte:
BBC News Brasil

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