Antes
de Lula, quem foi o último presidente a ter indicado ao STF barrado pelo Senado
Uma
derrota histórica para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu
indicado ao Supremo
Tribunal Federal (STF), Jorge Messias, foi rejeitado pelo Senado.
O nome
do advogado-geral da União recebeu 42 votos contrários e 34 favoráveis — era
necessário o apoio de 41 votos para sua confirmação.
Essa é
a primeira vez que isso ocorre em mais de cem anos. Os últimos casos foram no
final do século 19.
Até
então, na história da República brasileira,
apenas cinco nomes apresentados pela Presidência ao Supremo não haviam sido
referendados pelo Congresso.
Todos
os casos foram durante a gestão do presidente Floriano Peixoto (1839-1895), que
governou o país de 1891 a 1894.
Somente
um deles, o médico Candido Barata Ribeiro (1843-1910), chegou a assumir o posto
— foi ministro da Suprema Corte por dez meses, até ser barrado pelos senadores.
Vale
ressaltar que naquele início de período republicano havia um entendimento
ambíguo sobre um dos requisitos para que alguém fosse nomeado ministro do STF:
em vez de "notório saber jurídico", pedia-se simplesmente
"notório saber".
Quatro
dos cinco nomes rejeitados pelo Senado não tinham formação em direito — e, à
parte o clima de animosidade política, este foi o principal argumento dos
parlamentares.
"Ao
negar […] aprovação à nomeação de Barata Ribeiro para o cargo […], consagrou o
Senado a interpretação de que 'o notável saber refere-se a conhecimentos
jurídicos; não basta ser diplomado em direito, mas é essencial ser notável pelo
conhecimento das matérias que constituem as funções do Supremo Tribunal",
escreveu a historiadora e jurista Lêda Boechat Rodrigues, em seu livro História
do Supremo Tribunal Federal.
Essa
incomum rejeição a nomes apontados pelos chefes de Estado tem suas razões
naquele conturbado momento político em que a República se assentava.
"[Tais
negativas] estão ligadas aos conflitos políticos daqueles primeiros anos, com
Floriano Peixoto pretendendo atuar de modo personalista, daí sua alcunha de
'Marechal de Ferro', confrontando o STF seguidamente", aponta à BBC News
Brasil o jurista Carlos Ari Sundfeld, professor na FGV-Direito.
"Indicar
para o STF pessoas sem formação jurídica […] foi um modo extremo de provocar e
confrontar os outros poderes", afirma Sundfeld.
"Era
um contexto político muito distinto, com a Presidência ocupada por um sujeito
que tinha inclinações autoritárias", avalia à BBC News Brasil a jurista
Ana Laura Barbosa, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM).
"As
indicações [de Peixoto] eram de pessoas sem formação jurídica. A mais
emblemática, a do Barata Ribeiro, foi um exemplo disso. Ele não era
jurista", pontua Barbosa.
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Criação do STF
A
história do STF remonta às estruturas que foram criadas quando a monarquia foi
extinta e era preciso aparelhar institucionalmente o país com instrumentos
semelhantes aos de outras repúblicas do mundo.
O órgão
foi fundado em 1890, no ano seguinte à Proclamação da República. Embora seja
herdeiro da chamada Casa da Suplicação do Reino Português, corte jurídica
importada para a colônia quando a família real se transferiu para o Rio em
1808, tem funcionalidades e especificidades muito diversas daquele antigo
tribunal.
Ao
longo do século 19, o Brasil independente pós-1822 teve como esfera superior
jurídica o Supremo Tribunal de Justiça, cujos membros eram chamados de
conselheiros. No período, contudo, o papel de guardião da Constituição era
prerrogativa do imperador — que gozava do poder moderador.
No
formato contemporâneo, o STF tem 11 membros, com cargos vitalícios — a
aposentadoria é compulsória aos 75 anos. Cabe a essa corte o zelo pela
Constituição, o julgamento de casos em última instância e o julgamento penal
daqueles com foro privilegiado, ou seja, políticos eleitos.
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Candido Barata Ribeiro, o médico
O mais
famoso caso de rejeição do Senado a um nome apresentado pelo presidente foi o
do médico Candido Barata Ribeiro.
Como o
modelo previsto pela primeira Constituição republicana implicava na avaliação
do Senado após a posse do membro do STF, ele chegou a exercer o cargo por dez
meses, de novembro de 1893 a setembro de 1894.
"O
ministro Candido Barata Ribeiro formou-se em Medicina. Foi o único ministro
empossado do Supremo Tribunal Federal que não tinha formação em Direito",
observou o ex-ministro Celso de Mello no livro Notas Sobre o Supremo
Tribunal.
A
rejeição dos parlamentares ocorreu em sessão secreta.
Nascido
em Salvador e militante abolicionista, o médico tinha uma trajetória política
importante. Havia sido prefeito do Rio de Janeiro, o então Distrito Federal, e
era aliado de Floriano Peixoto.
Antes,
nos últimos anos do império, atuou como responsável pela comissão de vacinação
da então província de São Paulo.
Sua
gestão à frente da Prefeitura do Rio ficou marcada por medidas higienistas, com
demolição de habitações precárias e ações de limpeza urbana para combater
epidemias. Considerado o cortiço mais famoso do Rio, o Cabeça de Porco, na zona
portuária, foi completamente extinto durante sua administração.
Na
época, havia dificuldade de controlar a disseminação de doenças como
tuberculose, varíola e febre amarela.
De 1900
a 1909, Barata Ribeiro atuou como senador. Compôs, portanto, a mesma casa que
havia vetado seu nome para o Supremo.
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Inocêncio Galvão de Queiroz, engenheiro
Inocêncio
Galvão de Queiroz (1841-1903), conforme informações do livro Marechal
Graduado Inocêncio Galvão de Queiroz - Dados Biográficos, do escritor e
militar Laurênio Lago (1869-1954), nasceu em Valença, na Bahia, e era graduado
em matemática, ciências físicas e engenharia civil.
Queiroz
começou sua carreira militar em 1859 e lutou na Guerra do
Paraguai, entre 1864 e 1870. No histórico conflito, integrou a
chamada comissão dos engenheiros. Voltou promovido a capitão.
Trabalhou
como engenheiro no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas ao
longo dos anos 1870. Ainda no período monárquico, foi diretor de Obras
Militares da então província de Alagoas, ocupou o mesmo cargo também na Bahia e
foi comandante de Armas da província do Amazonas.
Galvão
de Queiroz foi nomeado ministro do STF em setembro de 1894. Não chegou a tomar
posse. O Senado, em sessão secreta, rejeitou seu nome em outubro do mesmo ano.
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Francisco Raymundo Ewerton Quadros, engenheiro
Outro
dos cinco nomes rejeitados pelo Senado foi o militar Francisco Raymundo Ewerton
Quadros (1841-1919).
De
acordo com o pesquisador e biógrafo Zêus Wantuil de Freitas (1924-2011), no
livro Grandes Espíritas do Brasil, Quadros era filho de um capitão
maranhense e se mudou para o Rio ainda jovem, onde se formou em matemática,
ciências físicas e engenharia. Seguiu carreira militar, ocupando diversos
postos no exército.
O
biógrafo pontua que ele se tornaria aliado de Floriano Peixoto, sendo que, na
época desse governo, Quadros dirigiu o Arsenal de Guerra e comandou a Escola
Militar do Rio de Janeiro.
No
âmbito pessoal, o militar era conhecido divulgador do espiritismo de base kardecista,
cuja doutrina seguia pelo menos desde 1872. Tornou-se médium, fundou um grupo
espírita no Rio em 1881 e, três anos mais tarde, se tornou o primeiro
presidente da Federação Espírita Brasileira.
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Antônio Caetano Sève Navarro, o subprocurador da República
O
pernambucano Antônio Caetano Sève Navarro (1841-1898) formou-se em direito no
Recife em 1861. No início da carreira, mudou-se para o Rio Grande do Sul, onde
trabalhou como promotor público e, depois, juiz de paz. No Estado, atuou em
Caçapava, Santana do Livramento e Bagé.
A
partir dos anos 1870, empreendeu carreira política como deputado na mesma
província do sul do país. Segundo informações compiladas pelo Superior Tribunal
Militar (STM), ele ocupou esse cargo eletivo em seis ocasiões, até o fim do
império.
Em
março de 1891 ele se tornou subprocurador da República no Distrito Federal. Foi
quando se aproximou de Floriano Peixoto, que então era o vice-presidente da
República.
Em
agosto de 1894 ele foi nomeado ministro do STM. No mês seguinte, o presidente
Peixoto o designou para o STF — mas a negativa do Senado veio antes de sua
posse.
Segundo
a historiadora Rodrigues, nessa época Navarro atuava como procurador-geral da
Fazenda na então capital federal e, "para facilitar a aprovação de seu
nome pelo Senado", pediu para ser aposentado.
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Demosthenes da Silveira Lobo, o diretor-geral dos Correios
Ele era
coronel e comandava, como diretor-geral, os Correios na época: Demosthenes da
Silveira Lobo foi outra tentativa infrutífera de Floriano Peixoto de emplacar
um aliado no STF. Segundo a imprensa da época, foi por pouco: faltaram dois
votos para que seu nome fosse aprovado pelos senadores.
Os
jornais ressaltavam, contudo, que lhe faltava a base de conhecimentos
necessários para o cargo. Notas foram publicadas alfinetando o indicado pelo
presidente, dizendo que ele era visto comprando livros de direito para se
preparar para a função.
A
professora Barbosa, da ESPM, ressalta que, assim como Barata Ribeiro, Lobo
"também não tinha formação jurídica". "Esse elemento forçou
fundamentos para a rejeição [por parte dos senadores], deste e dos demais
nomes", salienta ela. "Além dos contextos [políticos] específicos que
estavam postos."
"Notadamente,
quando se vê as qualificações dessas indicações, o Senado fez bem em
rejeitá-las. O notável saber jurídico seria um tanto difícil de aparecer
ali", comenta à BBC News Brasil o jurista Rubens Beçak, professor na
Universidade de São Paulo (USP).
"Mas
é preciso lembrar que as rejeições foram feitas em um momento de confrontação
política do Senado frente ao então presidente Floriano Peixoto, que peitava, de
certa maneira, as instituições", ressalta Beçak.
O
jurista concorda que oficialmente o Senado se fiou no argumento de falta de
"saber jurídico" mas que "numa análise mais detida", o que
provocou os vetos aos nomes foi "o elemento político".
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O Senado como contrapeso
Na
história da República brasileira, membros do STF são indicados pelo presidente,
mas precisam ser aprovados pelo Senado. Trata-se do mesmo modelo dos Estados
Unidos — e muito semelhante à maior parte das democracias do mundo.
A
jurista Ana Laura Barbosa argumenta que a necessidade de aval do Senado é o que
garante o "fundamento relevante de legitimidade" para que os
integrantes da Corte possam, no exercício da função, tomar as decisões.
Ou
seja, embora o nome apontado não seja eleito pelos cidadãos, é apontado por
alguém eleito, o presidente, e aprovado ou não por um colégio de parlamentares
eleitos.
A ideia
de ter de submeter o nome ao parlamento também é, em teoria, um modo de reduzir
decisões que possam soar como autoritárias pelo chefe de Estado em um regime
democrático.
"A
participação do Senado, aprovando ou não a escolha dos ministros, decorre do
modelo de freios e contrapesos recíprocos entre Executivo e Legislativo no
exercício de funções-chave", explica o jurista Sundfeld.
É o
mesmo que ocorre, por exemplo, quando o presidente indica um novo embaixador.
Ou, no sentido inverso, pela possibilidade de sanção ao veto, pelo chefe do
Executivo, aos projetos de lei aprovados pelo Legislativo.
"O
modelo de freios e contrapesos nas nomeações para cargos vitais é comum nos
países democráticos, com variações de forma segundo os países", completa o
professor.
O
formato adotado no Brasil é igual ao dos Estados Unidos, ou seja, os nomes são
apontados pelo presidente e precisam ser aprovados pelos senadores. Lá, a
chamada Suprema Corte foi fundada em 1789.
"Nosso
sistema é uma cópia do feito pelos Estados Unidos", salienta à BBC News
Brasil o jurista Renato Ribeiro de Almeida, doutor em Direito de Estado pela
USP.
Almeida
aponta que há uma "influência histórica da tradição norte-americana"
para o modelo, semelhante em muitos países.
O
jurista Beçak observa que todos os países latino-americanos buscaram seguir o
sistema implementado nos Estados Unidos. "Não foi a cópia pela
cópia", diz. "Mas a história justificava a busca por um modelo
exitoso."
Na
França, o denominado Conselho Constitucional é formado por juízes que exercem
mandatos de três anos. Um terço da composição é indicada pelo presidente da
República, um terço pelo presidente do Senado e um terço pelo presidente da
Assembleia Nacional dos deputados.
Fonte:
BBC News Brasil

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