O
que está em jogo no julgamento de Musk contra a OpenAI
Os
cofundadores da OpenAI, Elon Musk e Sam Altman, compareceram para as
declarações iniciais nesta terça-feira (28/04) de um julgamento que pode
definir o futuro da empresa dona do ChatGPT e de seu modelo de desenvolvimento
da inteligência artificial.
Há anos
Musk acusa Altman de tê-lo enganado para que investisse milhões na empresa,
alegando que se tratava de uma startup sem fins lucrativos cuja tecnologia
revolucionária seria aberta e beneficiaria o mundo inteiro.
Os dois
cofundaram a OpenAI em 2015 com a ideia de criar um guardião benevolente da
tecnologia e conter rivais como o Google. Musk, CEO da Tesla e da SpaceX,
deixou a OpenAI em 2018 após investir 38 milhões de dólares (R$ 190
milhões). A Microsoft, também ré no
processo, aportou US$ 10 bilhões na empresa em 2023.
A
disputa entre os ex-amigos é travada em um tribunal de Oakland, Califórnia, nos
EUA. Um possível ganho de causa a Musk colocaria pressão sobre OpenAI, já que o bilionário
exige que a empresa volte ao status de organização sem fins lucrativos e abra o
código de suas criações. Ele também pede que Altman seja retirado do conselho
de administração da empresa e uma indenização de 150 bilhões de dólares (R$752
bilhões).
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Por que o julgamento é importante
Observadores
avaliam que o julgamento teria um peso simbólico ao definir as bases de como a IA deveria ser utilizada. Se Musk sair
vitorioso, reforça a percepção de que a tecnologia deve ser aberta e não pode
se limitar a objetivos comerciais ou lucro. Muitos temem que a inteligência
artificial possa destruir empregos e representar uma ameaça existencial à sobrevivência
da humanidade.
Por
outro lado, o ChatGPT é um dos principais concorrentes do chatbot Grok,
desenvolvido por empresas de Musk e lançado em 2023 junto ao X, e ação judicial
é interpretada como uma tentativa do bilionário de tirar um concorrente do
caminho.
O
julgamento ocorre enquanto a OpenAI se prepara para uma possível oferta pública
inicial que pode avaliá‑la em 1 trilhão de dólares (R$ 5 trilhões), segundo a
agência de notícias Reuters.
Atualmente,
a OpenAI é estruturada como uma corporação de benefício público, na qual a
entidade sem fins lucrativos e outros investidores — incluindo a Microsoft —
detêm participações.
Uma
derrota para Altman levaria a um novo arranjo do atual mercado global e
beneficiaria também empresas como Anthropic, Google, DeepSeek e
Meta.
O júri
foi escolhido na segunda-feira, e o julgamento está programado para durar três
semanas. Nesta quarta-feira, Musk depôs ao tribunal.
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OpenAI descarta acusações
O
advogado de Musk, Steven Molo, citou a declaração de missão da OpenAI quando
ela foi criada como uma organização sem fins lucrativos, voltada ao benefício
da humanidade como um todo, e não limitada pela necessidade de gerar
enriquecimento financeiro para ninguém.
Segundo
ele, Altman e seu principal braço direito, Greg Brockman, com a ajuda da
Microsoft, "roubaram uma instituição de caridade cuja missão era o
desenvolvimento seguro e aberto da inteligência artificial".
"Se
permitirmos que se saqueie uma instituição de caridade, todo o fundamento das
doações de caridade nos Estados Unidos será destruído", declarou Musk.
A
OpenAI descarta as acusações. A empresa diz ter criado uma entidade com fins
lucrativos para poder adquirir capacidade computacional e remunerar cientistas
de ponta.
Em sua
declaração inicial, o advogado da OpenAI, William Savitt, disse aos jurados:
"Estamos aqui porque o sr. Musk não conseguiu o que queria com a
OpenAI".
Savitt
afirmou que Musk usou promessas de fornecer
financiamento para pressionar os membros fundadores da OpenAI e tentou assumir
o controle da empresa e fundi-la com a Tesla. Segundo ele, o dono do X queria
construir uma nova empresa com fins lucrativos. No meio das discussões sobre o futuro
da OpenAI, acrescentou Savitt, Musk cortou as doações trimestrais de 5 milhões
de dólares (R$ 25 milhões) que vinha fazendo.
Não há
registro, disse Savitt, de promessas feitas a Musk de que a OpenAI permaneceria
uma organização "sem fins lucrativos" para sempre ou de que seu
código seria aberto.
Em
2023, Musk defendia umapausa no desenvolvimento de
tecnologias
deste tipo devido a riscos de segurança, mas desde que adquiriu a xAI pela
Space X, ele deixou de defender limites ao uso de inteligências artificiais.
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Troca de farpas
Antes
de o júri ser acomodado na terça‑feira, a juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers
repreendeu Musk após advogados da OpenAI reclamarem de publicações no X em que
ele atacava Altman como "Scam Altman”. Conhecido por seus comentários
públicos agressivos, Musk concordou em reduzir sua atividade na rede social — o
mesmo fez Altman.
Os réus
responderão por violação de confiança de natureza beneficente e
enriquecimento sem causa.
Além de
Altman e Musk, devem depor o CEO da Microsoft, Satya Nadella, um dos líderes de
tecnologia que ajudaram a financiar o lançamento, no fim de 2022, do
ChatGPT. O chatbot desencadeou o atual boom da inteligência
artificial e impulsionou o mercado de ações a recordes históricos.
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O que está por trás da disputa entre os ex-amigos Elon
Musk e Sam Altman,
A
amarga rivalidade entre Elon Musk e o CEO da
OpenAI, Sam Altman, já dura anos, mas
tem se manifestado principalmente nas redes sociais na forma de
acusações, respostas e provocações.
Na
segunda-feira (27/04), Musk voltou a atacar Altman em uma publicação no X,
chamando-o de "Scam Altman" (Altman golpista, em tradução livre).
Contudo,
desde a terça-feira (28/04), o confronto entre os bilionários da tecnologia passou a ganhar
um palco de maior repercussão: um tribunal federal na
Califórnia, onde a disputa deve concentrar atenções em um julgamento com
duração de um mês.
O
tribunal vai analisar a ação movida por Musk, que acusa Altman — com quem
cofundou a OpenAI — de tê-lo enganado em milhões de dólares e de ter traído a
missão original sem fins lucrativos da empresa responsável pelo ChatGPT.
O
próprio Musk e Altman estão entre os que devem depor em um caso no qual o
futuro da inteligência artificial pode estar em jogo.
E, embora um deles deva sair vencedor, é bem possível que nenhum dos dois saia
ileso.
A
batalha já foi comparada a dois boxeadores pesos-pesados subindo ao ringue. Um
observador, inclusive, a descreve como um confronto entre King Kong e Godzilla.
"Musk
e Altman são figuras gigantescas, colossais e tão distantes da realidade
cotidiana", afirma Sarah Federman, professora da Universidade de San Diego
e especialista em resolução de conflitos.
"E
é justamente isso que torna tão fascinante assistir enquanto entram em
choque."
Um júri
composto por nove pessoas, que prestaram juramento na segunda-feira, ajudará a
definir o desfecho do caso sob a supervisão da juíza Yvonne Gonzalez Rogers.
A
magistrada afirmou que a enorme riqueza, o poder e a fama que Musk e Altman
levam ao tribunal federal de Oakland não lhes garantirão "nenhum
tratamento especial".
Musk
também entrou com ações contra a OpenAI, seu cofundador e presidente Greg
Brockman, além da Microsoft, que, segundo ele, ajudou no plano de monetizar a
empresa.
A
Microsoft, no entanto, nega as acusações.
Musk
pede bilhões de dólares no que seus advogados chamam de "ganhos
indevidos", valor que ele quer destinar ao financiamento do braço sem fins
lucrativos da OpenAI, além de mudanças na empresa, incluindo a saída de Altman.
A
OpenAI, por sua vez, afirma que Musk é movido por inveja e arrependimento por
ter deixado a empresa.
E, com
a corrida rumo à inteligência artificial geral (AGI) avançando a todo vapor, a
empresa acusa Musk de tentar atrapalhar um de seus principais concorrentes.
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A origem da briga
Musk e
Altman cofundaram a OpenAI em 2015 como uma organização sem fins lucrativos,
com a missão de garantir que a AGI beneficiasse toda a humanidade.
A AGI
é, em termos gerais, definida como uma inteligência artificial capaz de superar
a inteligência humana.
Na
época da fundação da OpenAI, Musk já era uma figura de enorme destaque. Era
visto como um tecnólogo incansável que, à frente da Tesla, ajudou a popularizar
os veículos elétricos, enquanto desenvolvia tecnologias inovadoras de foguetes
reutilizáveis na SpaceX.
Altman,
por sua vez, era bastante conhecido dentro do Vale do Silício, embora ainda
pouco fora dele. Como líder da influente incubadora Y Combinator, suas opiniões
— frequentemente publicadas nas redes sociais, em tom quase oracular — eram
acompanhadas de perto por fundadores de startups.
Os dois
foram apresentados por um investidor do Vale do Silício em 2012. Altman, então
na casa dos 20 anos, e 14 anos mais jovem que Musk, acabou apresentando a ideia
da OpenAI ao empresário.
O
desenvolvimento responsável da inteligência artificial era um dos pilares
centrais da proposta.
Dentro
da OpenAI, os dois mantiveram uma relação cordial, unidos pela crença no
potencial da tecnologia.
Durante
uma participação conjunta em uma conferência em 2015, Musk afirmou que a IA era
a tecnologia que "mais poderia transformar a humanidade", mas alertou
que também era "realmente obscura" e "repleta de desafios".
Mas o
que começou como uma organização sem fins lucrativos acabou sendo transformado
em uma entidade com fins lucrativos — de forma ilegal, segundo Musk.
Já a
OpenAI afirma que, em 2017, houve um acordo entre Musk e os demais envolvidos
de que a criação de uma estrutura com fins lucrativos seria o próximo passo
lógico "para avançar a missão".
A
empresa diz que rejeitou a proposta de Musk de assumir o cargo de CEO com
"controle absoluto".
Musk
deixou a OpenAI em 2018, após uma disputa de poder com Altman.
"Pessoal,
já me cansei disso", escreveu Musk em um e-mail alguns meses antes de sua
saída.
"Ou
vocês seguem por conta própria ou continuam com a OpenAI como uma organização
sem fins lucrativos. Não vou mais financiar a OpenAI até que haja um
compromisso firme de vocês em permanecer assim, ou então serei apenas um tolo
basicamente bancando gratuitamente a criação de uma startup."
Em
2022, a OpenAI deu início à revolução da IA voltada ao consumidor com o
lançamento do ChatGPT, que rapidamente ganhou popularidade e alcançou 100
milhões de usuários ativos mensais em poucos meses.
Desde
então, Musk criou sua própria startup de inteligência artificial, a xAI,
responsável pelo chatbot Grok, que ficou atrás dos concorrentes.
Ao
entrar com a ação em 2024, Musk alegou que a OpenAI havia se desviado de sua
missão original e passado a priorizar a "maximização de lucros" para
a Microsoft.
Ele
afirmou ter doado cerca de US$ 40 milhões à OpenAI, após ter sido manipulado
pelos envolvidos, que, segundo ele, o traíram ao tentar transformar a
organização em uma entidade majoritariamente com fins lucrativos.
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Batalha de titãs da tecnologia
Desde
que a ação foi movida, a animosidade entre Musk e Altman tem vindo a público
com frequência.
No ano
passado, Musk e um consórcio de investidores ofereceram US$ 97,4 bilhões para
comprar os ativos da OpenAI.
A
empresa havia sido avaliada em US$ 157 bilhões em uma rodada recente de
financiamento (e agora se aproxima de uma possível abertura de capital, ou IPO,
com valor estimado em cerca de US$ 850 bilhões).
A
OpenAI rejeitou a oferta, e Altman respondeu na plataforma X — rede social de
Musk, anteriormente conhecida como Twitter —: "não, obrigado, mas
compramos o Twitter por US$ 9,74 bilhões, se você quiser".
"Vigarista",
retrucou Musk em um comentário na publicação.
Mensagens
privadas com Mark Zuckerberg também mostram Musk perguntando ao chefe da Meta
se ele estaria "aberto à ideia de fazer uma oferta pela propriedade
intelectual da OpenAI comigo e outros?".
O
interesse de Musk em comprar a empresa pode acabar confundindo o cenário do
julgamento, afirma Dorothy Lund, professora da Faculdade de Direito da
Universidade de Columbia.
"Musk
já tentou assumir o controle da OpenAI várias vezes. Foi rejeitado", disse
à BBC.
"Por
isso, não é absurdo pensar que suas motivações possam ser um pouco
questionáveis neste caso. A própria juíza responsável pelo processo, Yvonne
Gonzalez Rogers, já chamou atenção para isso."
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Detalhes pitorescos
Também
é esperado que o tribunal ouça o depoimento do CEO da Microsoft, Satya Nadella,
dos ex-cientistas da OpenAI Mira Murati e Ilya Sutskever, e da ex-integrante do
conselho da OpenAI Shivon Zilis, que é mãe de quatro dos filhos de Musk.
Nos
preparativos para o julgamento, vieram à tona detalhes curiosos da vida privada
dos bilionários envolvidos, enquanto seus advogados travam disputas acaloradas
sobre quais provas e testemunhos devem ou não ser apresentados ao júri.
Por
exemplo, a juíza decidiu que não será permitido mencionar no tribunal o suposto
uso, pelo chefe da Tesla, de "rhino ket" — como a ketamina é chamada
na gíria do Vale do Silício.
A
equipe jurídica de Musk também virou notícia. Um de seus advogados tem
trabalhado como palhaço nas horas vagas, segundo o Business Insider.
Outro,
que também atua como produtor em Hollywood, teve o perfil publicado
recentemente pela revista Vanity Fair.
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O que está em jogo
O que
está em jogo neste caso é de grande magnitude para Musk e para a OpenAI — e,
potencialmente, para todos nós.
No fim
de 2023, Musk defendia uma pausa no desenvolvimento da inteligência artificial.
Em meio
a essa onda de preocupação com o ritmo acelerado dos avanços tecnológicos,
Altman chegou a ser afastado temporariamente do cargo de CEO da OpenAI, após
suspeitas de que teria enganado membros do conselho.
Agora,
com a xAI — empresa que foi recentemente adquirida pela SpaceX, sua companhia
de foguetes que se prepara para abrir capital —, Musk está profundamente
envolvido na corrida rumo à inteligência artificial geral (AGI).
"Se
Musk vencer, isso pode significar a derrota de um concorrente-chave na corrida
pela AGI", afirmou Rose Chan Loui, diretora executiva do Centro Lowell
Milken de Filantropia e Organizações Sem Fins Lucrativos da UCLA.
"Quem
vencer essa corrida terá um enorme poder."
Chan
Loui avalia que Musk tenta se posicionar como a pessoa mais adequada para
representar, de forma justa, os interesses da OpenAI enquanto organização sem
fins lucrativos.
"Embora
eu reconheça que ele trouxe visibilidade ao tema, há preocupação de que não
seja imparcial, já que lidera sua própria e grande empresa de IA", disse.
Para
Sarah Federman, autora do livro Corporate Reckoning, a
credibilidade de quem move esse tipo de ação é um fator central.
O
julgamento entre Musk e Altman ocorre justamente no momento em que o público
começa a compreender melhor como a inteligência artificial está sendo integrada
ao dia a dia.
Ambos
foram pioneiros em levar essa tecnologia ao grande público.
O
processo pode lançar nova luz sobre suas ambições e intenções em relação ao
desenvolvimento de uma tecnologia que já é utilizada por uma parcela crescente
da população mundial.
Em King
Kong contra Godzilla, "todos os mortais lá embaixo tentam escapar
enquanto esses gigantes se enfrentam", diz Federman.
"No
fim, um vence, mas o que fica é um rastro com o qual o resto de nós terá de
conviver."
Fonte:
BBC News Mundo

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