"Só
sim é sim": UE debate uniformizar definição de estupro
O
Parlamento Europeu aprovou nesta terça feira (28/04) uma proposta em favor de
uma definição jurídica do que deve ser considerado estupro do ponto de vista
penal.
Fruto
de uma iniciativa suprapartidária, o texto teve 447 votos a favor e 160 contra.
Cabe agora a análise do Conselho da União Europeia (UE), que atua como
colegislador ao lado do Parlamento.
O marco
legal do estupro gera dissenso entre os 27 Estados-membros da UE há décadas.
Hoje, as definições variam consideravelmente entre os países.
O
objetivo da proposta é "criar uma regulamentação uniforme em toda a UE que
garanta que, nas relações sexuais, apenas um 'sim' realmente signifique 'sim',
e que todas as leis sobre estupro na UE se baseiem no princípio do
consentimento", explicou à DW a eurodeputada social democrata Evin Incir,
da Suécia, uma das idealizadoras da proposta.
No
futuro, o fator decisivo deverá ser "a ausência de consentimento",
"e não o fato de a vítima ter de se defender fisicamente ou apresentar
hematomas para provar que disse 'não'". O texto também defende uma
harmonização com padrões internacionais e um maior apoio às vítimas em todos os
Estados membros, incluindo acesso à Justiça, a serviços especializados e à
assistência à saúde.
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"Não é não" ou "Só sim é sim"
De modo
geral, os modelos jurídicos atuais na UE podem ser divididos em três
categorias. Em vários países, um ato sexual só é considerado estupro se o
agressor usar violência física ou ameaçar com violência.
Já em
outros, incluindo Alemanha, Áustria e Polônia, vigora o modelo "Não é
não": há estupro quando o ato ocorre contra a vontade claramente
manifestada da vítima, ou seja, quando ela nega ativamente o consentimento.
Já o
modelo "Só sim é sim" significa que qualquer relação sexual sem
consentimento expresso e voluntário é definida como estupro. Esse modelo foi
introduzido primeiro na Suécia, mas também é aplicado em diversos outros países
da UE, como Bélgica, Dinamarca, Croácia e Grécia.
Nos
últimos anos, outros grandes países europeus adotaram essa regra, como Espanha
e Países Baixos, e mais recentemente a França, em novembro de 2025, sob o
impacto do caso Gisèle Pelicot. A República Tcheca também discute atualmente a
introdução desse modelo.
Cerca
de metade de todas as mulheres na UE, segundo o Conselho Europeu, já foi
assediada sexualmente ao menos uma vez desde os 15 anos.
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Suécia pioneira
É baixo
o percentual de casos de estupro que são esclarecidos na Europa. Apenas uma
pequena parcela dos crimes de estupro é denunciada. Além disso, provas
inequívocas são difíceis de obter, e os julgamentos frequentemente se limitam à
palavra da parte que acusa contra a da parte acusada.
Na
Suécia, o primeiro país da UE a adotar o modelo "Só sim é sim", em
2018, o número de condenações por estupro aumentou significativamente desde
então.
Isso
também se deve ao fato de o governo ter introduzido simultaneamente o crime de
"estupro por negligência (grave)". Ou seja, agressores podem ser
condenados quando não tiverem se certificado previamente de que a outra pessoa
participava do ato sexual de forma voluntária.
Ainda
assim, a produção de provas em tribunal continua difícil, e a taxa geral de
condenações permanece baixa. De todo modo, organizações de direitos humanos
como a Anistia Internacional consideram a adoção do modelo "só sim é
sim" um passo importante, lendo-a como a chave para uma mudança cultural.
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Tentativa anterior fracassou
Esta já
é a segunda tentativa de estabelecer o modelo "só sim é sim" em toda
a UE. Uma iniciativa anterior fracassou em 2024, em parte devido à oposição da
França e da Alemanha no Conselho Europeu.
A
resistência não se deu tanto por discordância do princípio do consentimento,
mas por questionamentos jurídico formais. Como o estupro não está
explicitamente listado nos tratados do bloco como crime de dimensão
transfronteiriça, os países argumentaram que a UE não teria competência para
definir uma norma comum.
O
direito penal é considerado um núcleo da soberania nacional. Ambos temiam que a
Comissão Europeia extrapolasse suas atribuições e que uma diretiva desse tipo
pudesse ser posteriormente anulada pelo Tribunal de Justiça da UE.
"Muita
coisa mudou", disse Incir. "Depois que a França mudou sua posição em
nível nacional, vemos que a Itália também está trabalhando em uma lei
semelhante. Acreditamos que desta vez podemos ter uma grande maioria no
Conselho da UE e que talvez já não exista uma minoria de bloqueio."
Em
2023, o bloco aderiu à Convenção de Istambul, o conjunto de normas mais
abrangente do mundo para o combate à violência de gênero. Depois, no ano
seguinte, aprovou uma diretiva que criminaliza assédio sexual no local de
trabalho, cyberstalking e a divulgação de imagens íntimas sem consentimento.
Além disso, os países europeus investem centenas de milhões de euros por ano em
projetos de prevenção da violência e de proteção às vítimas.
Fonte:
DW Brasil

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