quinta-feira, 30 de abril de 2026

Todos iguais no 2º turno e eleitor de centro-direita: o problema real de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro está empatado tecnicamente com Lula em todos os institutos sérios que pesquisam a eleição de 2026. Quaest, Datafolha, PoderData CNT/MDA e até Nexus e Atlas/Intel. Esses dois últimos têm reputação uma oitava abaixo dos demais, mas entram nesta análise por boa vontade democrática. Em todas elas, o empate é irrefutável.

A Quaest de 15 de abril apontou o senador numericamente à frente pela primeira vez — 42% a 40%. O Datafolha de 11 de abril inverteu a equação com vantagem numérica também inédita para o candidato do PL — 46% a 45%. A Nexus/BTG de 24 a 26 de abril, divulgada na manhã do dia 27 de abril, devolveu a liderança numérica a Lula — 46% a 45%. Todos os empates técnicos e dentro das margens de erro de 2 pontos percentuais.

São empates, contudo, que nos permitem observar um problema estrutural para o filho 01 do presidiário Jair Bolsonaro, ex-presidente que cumpre sentença por tentativa de golpe de Estado e destruição do patrimônio público, além de formação de quadrilha.

Eis o problema: não é alvissareiro para ele o percentual real dos votos que o senador pelo Rio de Janeiro (ex-deputado estadual investigado por promover o esquema de “rachadinhas” em seu gabinete e envolver-se com milícias) herdará de qualquer candidato de direita no segundo turno, e a velocidade com que parte desse eleitorado muda de lado.

FOCO FECHADO NA ÚLTIMA PESQUISA

A pesquisa Nexus/BTG divulgada na segunda-feira, 27 de abril, é a mais recente e a mais precisa a nos permitir essa arqueologia. Empresa ligada à holding FSB Comunicação, que manteve relações umbilicais com o bolsonarismo dentro do Palácio do Planalto até 31 de dezembro de 2022, os dados da Nexus parecem insuspeitos para se avance num raciocínio que não deixa em boa moldura a “fotografia do momento” para Flávio Bolsonaro.

Os números da Nexus/BTG mergulham nos cruzamentos e revelam o que se esconde na superfície. Entre os eleitores de Romeu Zema no primeiro turno, três em quatro — 76% — migrariam para Flávio num confronto direto com Lula. Apenas 9% prefeririam o petista. É bom para Flávio. Só que os eleitores de Zema são 4% do eleitorado no cenário estimulado mais testado. Isso equivale a um grão que não move agulha no marcador de nenhum candidato com chances reais de vencer uma eleição nacional.

O problema de verdade está nos eleitores de Caiado. O ex-governador de Goiás, que oficializou sua pré-candidatura pelo PSD há menos de dois meses, oscilou dentro da margem de erro e não cresceu a ponto de ameaçar ninguém, conforme a própria Nexus atesta. Mas, a divisão dos eleitores que ele carrega, esta sim, é relevante: 3% do eleitorado total no cenário principal da pesquisa que num eventual 2º turno entre Flávio e Lula, esse eleitorado de Caiado se divide de forma incômoda para o campo bolsonarista.

Dos eleitores do ex-governador de Goiás, 47% migram para Flávio Bolsonaro e 25% e cinco por cento migram para Lula. Outros 28% deles não votariam em nenhum dos dois. Ou seja, um quarto do eleitorado de um candidato de direita, ao escutar o nome de Flávio Bolsonaro, prefere dar um 4º mandato ao presidente petista porque não encara nem comedimento, nem experiência, nem segurança no herdeiro do clã do ex-presidente ora preso.

A questão central não é quantos votos de direita Flávio Bolsonaro herda de Caiado e Zema. É quantos votos da chamada “direita liberal, ou direita democrática, ou ainda direita tradicional” — o eleitorado que se posiciona como conservador mas rejeita o bolsonarismo de raiz — ele consegue, de fato, atrair.

CANDIDATO DO PL NÃO CONSEGUE PESCAR ONDE PRECISA

A Nexus construiu um índice de polarização precioso para entender essa fissura. No eleitorado classificado como “bolsonaristas convictos”, que responde por 28% do total, o candidato do PL concentra 70% das intenções de voto no primeiro turno. Parece sólido. Porém, no grupo dos “não polarizados” — 22% do eleitorado, o maior reservatório de votos disponíveis fora dos blocos ideológicos fixos —, o placar é quase 30% a 29% entre Lula e Flávio Bolsonaro. Não há vantagem sensível para nenhum dos dois e era nessa represa que o senador de extrema-direita deveria estar pescando com galhardia. Não está, não consegue fazê-lo.

Entre os “nem Lula, nem Bolsonaro” simultaneamente — um eleitorado de 8% que é, por definição, o coração do que se chama de 3ª via —, Lula leva 40% e Flávio Bolsonaro apenas 18%. Quem quiser entender por que a 3ª via não consegue crescer a ponto de ameaçar ninguém, que leia esse dado de trás para frente. O eleitorado que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro é pequeno demais e está distribuído de forma que, forçado a escolher entre os dois, prefere o petista ao filho do capitão.

Quando se consideram apenas os eleitores que dizem sempre comparecer para votar, eliminando a abstenção declarada, a diferença entre Lula e seu antagonista do PL no 1º turno encolhe de 5 para 3 pontos. Isso indica que o petismo concentra parte relevante de seu eleitorado justamente no segmento que historicamente se abstém — o de renda mais baixa, menos escolarizado, geograficamente mais concentrado no Nordeste.

Se esse eleitorado não aparecer em outubro, Flávio Bolsonaro se beneficia diretamente. Entretanto, é justamente esse o estrato social mais impactado pelos programas eleitorais na TV aberta, pelas ondas de participação criadas nas retas finais das campanhas. O PT e a esquerda têm sólida reputação de fazer o povo acordar para a relevância do voto, para olhar suas próprias vidas para o que Lula representa no país nos últimos 50 anos. Sendo assim, nada recomenda a torcida pela abstenção por parte das extrema-direita.

EXTREMISTAS CONTAM COM VARIÁVEL QUE NÃO CONTROLAM

O problema para o herdeiro do clã que tentou golpear e garrotear a Democracia no Brasil é que ele não controla a variável “abstêmios”. Ela depende da mobilização do PT, da capacidade de entrega de programas sociais do governo Lula nos meses que antecedem a eleição, e de uma cesta de fatores que escapam à campanha bolsonarista. Os programas de TV e a mídia tradicional brasileira, quando quer,  estimulam esse revisionismo. Os veículos de imprensa ligados ou dependentes de bancos, do sistema financeiro em geral e do bloco de empresários e executivos reacionários ainda não deu seu voto de confiança inarredável em Flávio Bolsonaro. Exposto ao confronto ao confronto com suas fragilidades, o senador fluminense seguirá sem recebê-lo entusiasticamente.

A pesquisa Nexus mapeia outro problema do filho do golpista Jair Bolsonaro que corre por baixo do empate nas intenções de voto. É o endividamento e a percepção de dificuldade econômica. Cinquenta por cento dos entrevistados pela Nexus, a mais recente das pesquisas (o percentual é mais ou menos o mesmo nas demais) disseram que comprar alimentos ficou mais difícil desde janeiro de 2023 — quando o governo Lula começou.

Esse dado é combustível de oposição. Entretanto, o mesmo Flávio Bolsonaro que se beneficia da percepção negativa da economia precisa explicar o que fará diferente de um pai que governou o Brasil entre 2019 e 2022 e deixou o país com inflação de 10% ao ano, desabastecimento de medicamentos e 33 milhões de brasileiros na miséria, com fome. O eleitorado que hoje rejeita Lula por causa do custo de vida é o mesmo que, em 2022, rejeitou Jair Bolsonaro por motivo semelhante. Isso significa que a rejeição econômica é flutuante e não ancorada no bolsonarismo como projeto de governo.

Em contrapartida, o governo Lula está empenhado em criar programas que possibilitem às famílias quitarem ou renegociarem suas dívidas, manterem os filhos na escola e poderem entrar num Minha Casa, Minha Vida repaginado e assegurarem os benefícios de prestação continuada. É bem diferente da oferta do outro lado do balcão, onde o coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, o senador potiguar Rogério Marinho (PL), faz juras à Faria Lima de que a chegada deles ao poder trará arrocho fiscal, limitação nas aposentadorias e pensões do INSS, redutor nos aumentos anuais do salário mínimo e redução de verbas públicas para programas sociais. As promessas dos bolsonaristas soam como música para os banqueiros e são terror e pânico para as classes C, D e E.

Flávio Bolsonaro tem hoje 48% de rejeição, segundo a Nexus. Lula tem também 48%. Estão tecnicamente empatados na repulsa que provocam nos eleitores. Porém, a composição dessa rejeição é estruturalmente distinta. A rejeição a Lula vem principalmente dos homens — 55% da rejeição ao petista é masculina —, das faixas de renda entre 2 e 5 salários mínimos, da classe média do Sudeste e do Sul. A rejeição a Flávio é majoritariamente feminina — 57% —, vem do Nordeste em proporção muito superior à rejeição ao petista naquela região, e é mais elevada entre os mais pobres.

Esse é o mapa real do problema de Flávio Bolsonaro. Não é um problema de segundo turno apenas. É um problema de composição de eleitorado que nenhum debate de TV resolve e nenhuma aliança com Caiado ou Zema conserta automaticamente, já que 28% do eleitorado do ex-governador goiano prefere não votar em nenhum dos dois a votar no filho de Jair Bolsonaro. As urnas nacionais de outubro de 2026 serão decididas, como sempre, por quem conseguir mobilizar mais seus eleitores e por quem conseguir convencer mais o centro flutuante que prefere nenhum dos dois. Nessa rinha, Lula está levando a melhor e a tendência é que dispare nessas conquistas.

•        Flávio Bolsonaro nega que escalaria irmãos como ministros e abre nova crise

A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou uma nota à imprensa para desmentir rumores que circulavam entre apoiadores e em redes sociais sobre a possível nomeação de seus irmãos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), como ministros em um eventual governo.

No comunicado enviado ao ICL Notícias, a equipe de pré-campanha do parlamentar foi direta ao classificar as informações como falsas e sem qualquer fundamento. “As informações divulgadas não são verdadeiras. Não procedem as afirmações de que Carlos ou Eduardo Bolsonaro serão nomeados ministros em eventual governo. Trata-se de conteúdo inverídico, sem qualquer confirmação ou fundamento”, diz a nota.

Questionada pela reportagem sobre a existência de qualquer possibilidade de os irmãos ocuparem cargos ministeriais, a equipe foi categórica: “nenhuma”.

A pré-campanha também acrescenta que mantém “compromisso com a transparência e a correta informação dos fatos”, em uma tentativa de conter a disseminação do boato.

A necessidade de uma resposta pública mostra o alcance que a narrativa ganhou dentro do próprio campo bolsonarista. As especulações passaram a circular em grupos de apoiadores e perfis alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, alimentando a ideia de que um eventual governo de Flávio já teria espaço reservado para integrantes da família.

<><> Conflito de informações

Segundo membros do PL ouvidos pela reportagem, os boatos teriam partido dos próprios irmãos, Eduardo e Carlos Bolsonaro, em uma tentativa de viabilizar seus nomes em um eventual governo de Flávio, caso seja eleito. A avaliação entre aliados é que o movimento acabou gerando desgaste antecipado e obrigou a campanha a agir para conter a narrativa.

O episódio expõe um ruído interno na comunicação política do bolsonarismo. Enquanto a base antecipa cenários e projeta um governo com forte presença familiar, a campanha tenta conter esse tipo de narrativa, considerada prejudicial para a construção de alianças e para a ampliação do eleitorado.

A inclusão de Eduardo e Carlos Bolsonaro em possíveis ministérios, ainda que apenas no campo da especulação, carrega desgaste político imediato. A percepção de um governo concentrado na família tende a afastar setores mais moderados e reforçar críticas recorrentes da oposição sobre personalismo e falta de institucionalidade.

A campanha busca evitar que a imagem de um eventual governo seja associada a uma estrutura familiar antes mesmo de qualquer definição política mais ampla, como alianças partidárias, composição de base e construção de programa.

O episódio também ocorre em um momento em que o bolsonarismo ainda tenta consolidar um nome competitivo para a disputa presidencial, diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Flávio tem sido apontado como uma das alternativas dentro do grupo, mas ainda enfrenta desafios para ampliar sua projeção nacional e consolidar apoios fora do núcleo mais fiel.

Nos bastidores, a avaliação de integrantes do partido é que o principal desafio de Flávio, tanto durante a campanha quanto em um eventual governo, pode vir de dentro de casa. A interferência da própria família, especialmente dos irmãos, é vista como um fator de risco político que a campanha tenta, desde já, neutralizar.

Nesse contexto, a circulação de boatos e a necessidade de desmenti-los publicamente reforçam a percepção de desorganização e disputa de narrativa dentro do próprio campo político.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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