Todos
iguais no 2º turno e eleitor de centro-direita: o problema real de Flávio
Bolsonaro
Flávio
Bolsonaro está empatado tecnicamente com Lula em todos os institutos sérios que
pesquisam a eleição de 2026. Quaest, Datafolha, PoderData CNT/MDA e até Nexus e
Atlas/Intel. Esses dois últimos têm reputação uma oitava abaixo dos demais, mas
entram nesta análise por boa vontade democrática. Em todas elas, o empate é
irrefutável.
A
Quaest de 15 de abril apontou o senador numericamente à frente pela primeira
vez — 42% a 40%. O Datafolha de 11 de abril inverteu a equação com vantagem
numérica também inédita para o candidato do PL — 46% a 45%. A Nexus/BTG de 24 a
26 de abril, divulgada na manhã do dia 27 de abril, devolveu a liderança
numérica a Lula — 46% a 45%. Todos os empates técnicos e dentro das margens de
erro de 2 pontos percentuais.
São
empates, contudo, que nos permitem observar um problema estrutural para o filho
01 do presidiário Jair Bolsonaro, ex-presidente que cumpre sentença por
tentativa de golpe de Estado e destruição do patrimônio público, além de
formação de quadrilha.
Eis o
problema: não é alvissareiro para ele o percentual real dos votos que o senador
pelo Rio de Janeiro (ex-deputado estadual investigado por promover o esquema de
“rachadinhas” em seu gabinete e envolver-se com milícias) herdará de qualquer
candidato de direita no segundo turno, e a velocidade com que parte desse
eleitorado muda de lado.
FOCO
FECHADO NA ÚLTIMA PESQUISA
A
pesquisa Nexus/BTG divulgada na segunda-feira, 27 de abril, é a mais recente e
a mais precisa a nos permitir essa arqueologia. Empresa ligada à holding FSB
Comunicação, que manteve relações umbilicais com o bolsonarismo dentro do
Palácio do Planalto até 31 de dezembro de 2022, os dados da Nexus parecem
insuspeitos para se avance num raciocínio que não deixa em boa moldura a
“fotografia do momento” para Flávio Bolsonaro.
Os
números da Nexus/BTG mergulham nos cruzamentos e revelam o que se esconde na
superfície. Entre os eleitores de Romeu Zema no primeiro turno, três em quatro
— 76% — migrariam para Flávio num confronto direto com Lula. Apenas 9%
prefeririam o petista. É bom para Flávio. Só que os eleitores de Zema são 4% do
eleitorado no cenário estimulado mais testado. Isso equivale a um grão que não
move agulha no marcador de nenhum candidato com chances reais de vencer uma
eleição nacional.
O
problema de verdade está nos eleitores de Caiado. O ex-governador de Goiás, que
oficializou sua pré-candidatura pelo PSD há menos de dois meses, oscilou dentro
da margem de erro e não cresceu a ponto de ameaçar ninguém, conforme a própria
Nexus atesta. Mas, a divisão dos eleitores que ele carrega, esta sim, é
relevante: 3% do eleitorado total no cenário principal da pesquisa que num
eventual 2º turno entre Flávio e Lula, esse eleitorado de Caiado se divide de
forma incômoda para o campo bolsonarista.
Dos
eleitores do ex-governador de Goiás, 47% migram para Flávio Bolsonaro e 25% e
cinco por cento migram para Lula. Outros 28% deles não votariam em nenhum dos
dois. Ou seja, um quarto do eleitorado de um candidato de direita, ao escutar o
nome de Flávio Bolsonaro, prefere dar um 4º mandato ao presidente petista
porque não encara nem comedimento, nem experiência, nem segurança no herdeiro
do clã do ex-presidente ora preso.
A
questão central não é quantos votos de direita Flávio Bolsonaro herda de Caiado
e Zema. É quantos votos da chamada “direita liberal, ou direita democrática, ou
ainda direita tradicional” — o eleitorado que se posiciona como conservador mas
rejeita o bolsonarismo de raiz — ele consegue, de fato, atrair.
CANDIDATO
DO PL NÃO CONSEGUE PESCAR ONDE PRECISA
A Nexus
construiu um índice de polarização precioso para entender essa fissura. No
eleitorado classificado como “bolsonaristas convictos”, que responde por 28% do
total, o candidato do PL concentra 70% das intenções de voto no primeiro turno.
Parece sólido. Porém, no grupo dos “não polarizados” — 22% do eleitorado, o
maior reservatório de votos disponíveis fora dos blocos ideológicos fixos —, o
placar é quase 30% a 29% entre Lula e Flávio Bolsonaro. Não há vantagem
sensível para nenhum dos dois e era nessa represa que o senador de
extrema-direita deveria estar pescando com galhardia. Não está, não consegue
fazê-lo.
Entre
os “nem Lula, nem Bolsonaro” simultaneamente — um eleitorado de 8% que é, por
definição, o coração do que se chama de 3ª via —, Lula leva 40% e Flávio
Bolsonaro apenas 18%. Quem quiser entender por que a 3ª via não consegue
crescer a ponto de ameaçar ninguém, que leia esse dado de trás para frente. O
eleitorado que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro é pequeno demais e está
distribuído de forma que, forçado a escolher entre os dois, prefere o petista
ao filho do capitão.
Quando
se consideram apenas os eleitores que dizem sempre comparecer para votar,
eliminando a abstenção declarada, a diferença entre Lula e seu antagonista do
PL no 1º turno encolhe de 5 para 3 pontos. Isso indica que o petismo concentra
parte relevante de seu eleitorado justamente no segmento que historicamente se
abstém — o de renda mais baixa, menos escolarizado, geograficamente mais
concentrado no Nordeste.
Se esse
eleitorado não aparecer em outubro, Flávio Bolsonaro se beneficia diretamente.
Entretanto, é justamente esse o estrato social mais impactado pelos programas
eleitorais na TV aberta, pelas ondas de participação criadas nas retas finais
das campanhas. O PT e a esquerda têm sólida reputação de fazer o povo acordar
para a relevância do voto, para olhar suas próprias vidas para o que Lula
representa no país nos últimos 50 anos. Sendo assim, nada recomenda a torcida
pela abstenção por parte das extrema-direita.
EXTREMISTAS
CONTAM COM VARIÁVEL QUE NÃO CONTROLAM
O
problema para o herdeiro do clã que tentou golpear e garrotear a Democracia no
Brasil é que ele não controla a variável “abstêmios”. Ela depende da
mobilização do PT, da capacidade de entrega de programas sociais do governo
Lula nos meses que antecedem a eleição, e de uma cesta de fatores que escapam à
campanha bolsonarista. Os programas de TV e a mídia tradicional brasileira,
quando quer, estimulam esse
revisionismo. Os veículos de imprensa ligados ou dependentes de bancos, do
sistema financeiro em geral e do bloco de empresários e executivos reacionários
ainda não deu seu voto de confiança inarredável em Flávio Bolsonaro. Exposto ao
confronto ao confronto com suas fragilidades, o senador fluminense seguirá sem
recebê-lo entusiasticamente.
A
pesquisa Nexus mapeia outro problema do filho do golpista Jair Bolsonaro que
corre por baixo do empate nas intenções de voto. É o endividamento e a
percepção de dificuldade econômica. Cinquenta por cento dos entrevistados pela
Nexus, a mais recente das pesquisas (o percentual é mais ou menos o mesmo nas
demais) disseram que comprar alimentos ficou mais difícil desde janeiro de 2023
— quando o governo Lula começou.
Esse
dado é combustível de oposição. Entretanto, o mesmo Flávio Bolsonaro que se
beneficia da percepção negativa da economia precisa explicar o que fará
diferente de um pai que governou o Brasil entre 2019 e 2022 e deixou o país com
inflação de 10% ao ano, desabastecimento de medicamentos e 33 milhões de
brasileiros na miséria, com fome. O eleitorado que hoje rejeita Lula por causa
do custo de vida é o mesmo que, em 2022, rejeitou Jair Bolsonaro por motivo
semelhante. Isso significa que a rejeição econômica é flutuante e não ancorada
no bolsonarismo como projeto de governo.
Em
contrapartida, o governo Lula está empenhado em criar programas que
possibilitem às famílias quitarem ou renegociarem suas dívidas, manterem os
filhos na escola e poderem entrar num Minha Casa, Minha Vida repaginado e
assegurarem os benefícios de prestação continuada. É bem diferente da oferta do
outro lado do balcão, onde o coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, o
senador potiguar Rogério Marinho (PL), faz juras à Faria Lima de que a chegada
deles ao poder trará arrocho fiscal, limitação nas aposentadorias e pensões do
INSS, redutor nos aumentos anuais do salário mínimo e redução de verbas
públicas para programas sociais. As promessas dos bolsonaristas soam como
música para os banqueiros e são terror e pânico para as classes C, D e E.
Flávio
Bolsonaro tem hoje 48% de rejeição, segundo a Nexus. Lula tem também 48%. Estão
tecnicamente empatados na repulsa que provocam nos eleitores. Porém, a
composição dessa rejeição é estruturalmente distinta. A rejeição a Lula vem
principalmente dos homens — 55% da rejeição ao petista é masculina —, das
faixas de renda entre 2 e 5 salários mínimos, da classe média do Sudeste e do
Sul. A rejeição a Flávio é majoritariamente feminina — 57% —, vem do Nordeste
em proporção muito superior à rejeição ao petista naquela região, e é mais
elevada entre os mais pobres.
Esse é
o mapa real do problema de Flávio Bolsonaro. Não é um problema de segundo turno
apenas. É um problema de composição de eleitorado que nenhum debate de TV
resolve e nenhuma aliança com Caiado ou Zema conserta automaticamente, já que
28% do eleitorado do ex-governador goiano prefere não votar em nenhum dos dois
a votar no filho de Jair Bolsonaro. As urnas nacionais de outubro de 2026 serão
decididas, como sempre, por quem conseguir mobilizar mais seus eleitores e por
quem conseguir convencer mais o centro flutuante que prefere nenhum dos dois.
Nessa rinha, Lula está levando a melhor e a tendência é que dispare nessas
conquistas.
• Flávio Bolsonaro nega que escalaria
irmãos como ministros e abre nova crise
A
campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou uma nota à imprensa para
desmentir rumores que circulavam entre apoiadores e em redes sociais sobre a
possível nomeação de seus irmãos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP)
e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), como ministros em um eventual
governo.
No
comunicado enviado ao ICL Notícias, a equipe de pré-campanha do parlamentar foi
direta ao classificar as informações como falsas e sem qualquer fundamento. “As
informações divulgadas não são verdadeiras. Não procedem as afirmações de que
Carlos ou Eduardo Bolsonaro serão nomeados ministros em eventual governo.
Trata-se de conteúdo inverídico, sem qualquer confirmação ou fundamento”, diz a
nota.
Questionada
pela reportagem sobre a existência de qualquer possibilidade de os irmãos
ocuparem cargos ministeriais, a equipe foi categórica: “nenhuma”.
A
pré-campanha também acrescenta que mantém “compromisso com a transparência e a
correta informação dos fatos”, em uma tentativa de conter a disseminação do
boato.
A
necessidade de uma resposta pública mostra o alcance que a narrativa ganhou
dentro do próprio campo bolsonarista. As especulações passaram a circular em
grupos de apoiadores e perfis alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro,
alimentando a ideia de que um eventual governo de Flávio já teria espaço
reservado para integrantes da família.
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Conflito de informações
Segundo
membros do PL ouvidos pela reportagem, os boatos teriam partido dos próprios
irmãos, Eduardo e Carlos Bolsonaro, em uma tentativa de viabilizar seus nomes
em um eventual governo de Flávio, caso seja eleito. A avaliação entre aliados é
que o movimento acabou gerando desgaste antecipado e obrigou a campanha a agir
para conter a narrativa.
O
episódio expõe um ruído interno na comunicação política do bolsonarismo.
Enquanto a base antecipa cenários e projeta um governo com forte presença
familiar, a campanha tenta conter esse tipo de narrativa, considerada
prejudicial para a construção de alianças e para a ampliação do eleitorado.
A
inclusão de Eduardo e Carlos Bolsonaro em possíveis ministérios, ainda que
apenas no campo da especulação, carrega desgaste político imediato. A percepção
de um governo concentrado na família tende a afastar setores mais moderados e
reforçar críticas recorrentes da oposição sobre personalismo e falta de
institucionalidade.
A
campanha busca evitar que a imagem de um eventual governo seja associada a uma
estrutura familiar antes mesmo de qualquer definição política mais ampla, como
alianças partidárias, composição de base e construção de programa.
O
episódio também ocorre em um momento em que o bolsonarismo ainda tenta
consolidar um nome competitivo para a disputa presidencial, diante da
inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Flávio tem sido apontado como uma das
alternativas dentro do grupo, mas ainda enfrenta desafios para ampliar sua
projeção nacional e consolidar apoios fora do núcleo mais fiel.
Nos
bastidores, a avaliação de integrantes do partido é que o principal desafio de
Flávio, tanto durante a campanha quanto em um eventual governo, pode vir de
dentro de casa. A interferência da própria família, especialmente dos irmãos, é
vista como um fator de risco político que a campanha tenta, desde já,
neutralizar.
Nesse
contexto, a circulação de boatos e a necessidade de desmenti-los publicamente
reforçam a percepção de desorganização e disputa de narrativa dentro do próprio
campo político.
Fonte:
ICL Notícias

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