João
dos Reis Silva Júnior: Tempo sem futuro
O mundo
contemporâneo produz uma experiência difusa, mas recorrente: a sensação de que
o futuro deixou de operar como horizonte organizador da vida social. Essa
percepção não se limita a estados subjetivos nem pode ser explicada por crises
conjunturais isoladas. Ela se manifesta de forma persistente na instabilidade
do trabalho, na perda de eficácia da educação como vetor de mobilidade, na
fragilidade da representação política e na crescente incerteza quanto à própria
continuidade material da vida no planeta.
Esses
elementos, quando observados em conjunto, deixam de parecer fenômenos dispersos
e passam a compor uma configuração histórica específica, marcada por uma
alteração profunda na forma de organização do tempo.
Essa
alteração ganha densidade a partir de 2008. A crise financeira global não
apenas desorganizou mercados e instituições, mas reconfigurou o modo como o
tempo se articula à reprodução do capital. O que se observa, desde então, é a
intensificação de uma dinâmica baseada na antecipação permanente do valor, que
comprime a duração e fragiliza a possibilidade de continuidade.
O
presente deixa de ser passagem e passa a ser saturação. Diante disso, impõe-se
uma questão que não pode ser contornada: por que o tempo deixou de operar como
duração estruturante da experiência social e passou a funcionar como mecanismo
de bloqueio do futuro nas formações dependentes?
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O trabalho que não estabiliza
O
trabalho sempre ocupou uma posição central na organização do tempo social. Ele
funcionava como mediação entre presente e futuro, permitindo que a experiência
cotidiana fosse articulada a uma expectativa de continuidade. Mesmo em
contextos marcados por desigualdades estruturais, o trabalho mantinha, ainda
que de forma limitada, a capacidade de organizar trajetórias.
Essa
capacidade, contudo, encontra-se profundamente comprometida. A partir da última
década, observa-se uma expansão consistente de formas precárias de inserção
laboral, com aumento do trabalho informal, intermitente e desprovido de
garantias mínimas de estabilidade.
No
Brasil, dados recentes indicam que a informalidade atinge parcelas
significativas da força de trabalho, enquanto vínculos formais se tornam mais
frágeis e descontínuos. Esse processo não se restringe à periferia do sistema.
Ele se dissemina globalmente, indicando uma transformação estrutural na forma
de organização do trabalho. O efeito principal dessa transformação não é apenas
econômico, mas temporal. O trabalhador deixa de projetar sua trajetória e passa
a lidar com interrupções constantes. O tempo do trabalho se fragmenta, e com
ele se fragmenta também a possibilidade de construir um futuro minimamente
previsível.
Essa
fragmentação produz uma experiência específica: o presente se impõe como única
dimensão efetivamente acessível. O futuro não desaparece completamente, mas
perde consistência. Ele deixa de ser horizonte e passa a ser hipótese incerta.
O trabalho, que antes organizava o tempo, passa a desorganizá-lo.
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A educação que não mobiliza
A
educação moderna foi historicamente constituída como promessa de mobilidade
social. Nas formações dependentes, essa promessa sempre operou de forma
parcial, mas ainda assim desempenhou papel central na organização das
expectativas. O investimento em formação era sustentado pela ideia de que o
tempo dedicado ao estudo poderia ser convertido em melhores condições de vida.
Esse vínculo, entretanto, mostra-se cada vez mais instável. A ampliação do
acesso ao ensino superior não foi acompanhada por uma expansão equivalente de
oportunidades qualificadas no mercado de trabalho.
No
contexto brasileiro, observa-se um crescimento expressivo do número de
diplomados nas últimas décadas, sem que isso se traduza em inserção
proporcional em ocupações compatíveis com a formação adquirida. O diploma deixa
de funcionar como diferencial e passa a ser apenas requisito mínimo em um
mercado saturado.
Essa
mudança altera profundamente a experiência do tempo educativo. O período de
formação, que antes operava como preparação para o futuro, passa a se
configurar como um intervalo cujo sentido se enfraquece à medida que suas
promessas não se realizam.
O
estudante percorre etapas, cumpre exigências, acumula certificações, mas
encontra dificuldades em reconhecer continuidade entre o esforço investido e os
resultados obtidos. O tempo da educação se torna suspenso, marcado por uma
expectativa que não se concretiza plenamente. A promessa permanece no discurso,
mas sua eficácia prática se dissolve.
A
política moderna estruturou-se como instância de mediação entre presente e
futuro coletivo. Ela organizava projetos, articulava interesses e produzia
horizontes, ainda que de forma limitada e muitas vezes excludente. Essa função,
no entanto, encontra-se enfraquecida.
A
crescente desconfiança nas instituições, observada em diferentes países, não é
apenas um fenômeno de opinião, mas um sintoma de uma dificuldade mais profunda:
a incapacidade da política de operar como organizadora do tempo histórico. A
ação política torna-se reativa, orientada por demandas imediatas e pressionada
por ciclos curtos de visibilidade e decisão.
Nas
formações dependentes, essa limitação se intensifica. A inserção subordinada na
economia global restringe a margem de autonomia dos Estados, que passam a
operar sob condições externas que limitam o planejamento de longo prazo. A
política continua a funcionar, mas sua capacidade de projetar o futuro se reduz
significativamente. O resultado é uma forma de gestão do presente que não se
converte em construção de horizonte.
Essa
dificuldade se articula diretamente com a crise ambiental, que introduz uma
dimensão ainda mais radical à questão do tempo. O aumento das temperaturas
globais, a intensificação de eventos climáticos extremos e a degradação de
ecossistemas indicam que as bases materiais da continuidade estão sendo
comprometidas. O futuro deixa de ser apenas incerto e passa a ser ameaçado. A
própria ideia de permanência se torna instável.
Ao
mesmo tempo, a lógica de antecipação do valor intensifica a exploração do
presente, comprimindo ainda mais o tempo disponível para decisões estruturais.
O sistema depende de projeções futuras para sustentar sua dinâmica financeira,
mas reduz continuamente as condições que tornariam esse futuro viável. O
resultado é uma tensão crescente entre a necessidade de continuidade e a
incapacidade de garanti-la.
O tempo
histórico, nesse contexto, não desaparece, mas deixa de cumprir sua função de
organizar a experiência. Ele se torna bloqueado, incapaz de sustentar a
passagem entre presente e futuro.
• A política de cotas e o cerco
epistêmico: quando a branquitude protege seu poder. Por Edmilson Santos dos
Santos e Roberto Silva dos Santos
A
exclusão ou marginalização de pesquisadoras e pesquisadores negros no sistema
científico brasileiro não constitui apenas uma injustiça social ou moral.
Trata-se de um problema estrutural que incide diretamente sobre a qualidade, a
relevância e a capacidade responsiva da ciência nacional de resolver problemas
nacionais relevantes – o racismo continua sendo um deles. Ao restringir o
acesso de determinados grupos raciais aos espaços de formação avançada,
liderança acadêmica e fomento à pesquisa, o sistema científico reduz a
diversidade epistêmica, empobrece as agendas de investigação e limita sua
aptidão para enfrentar problemas complexos em uma sociedade marcada por
desigualdades profundas. O fenômeno articula, portanto, dimensões jurídicas,
institucionais, epistêmicas e políticas. A implementação da Lei nº 12.990/2014
oferece um exemplo empírico dessa dinâmica, e de como impedir a diversidade
epistêmica. Destinada a assegurar a reserva de vagas (cotas) para pessoas
negras nos concursos públicos federais, a norma incidiu diretamente sobre as
universidades públicas, principais centros de produção científica do país.
Ainda
assim, durante aproximadamente uma década, diversas instituições adotaram
práticas que resultaram na neutralização material da política. Em 2024, um
estudo sistemático de grande envergadura (A implementação da Lei nº
12.990/2014: um cenário devastador de fraudes) identificou, com farta base
documental, as estratégias utilizadas para restringir o ingresso de pessoas
negras no magistério federal. O estudo foi realizado por três pesquisadores
negros, e dois deles de uma jovem universidade, interiorana, do Sertão
brasileiro, distante dos grandes centros onde se concentra a maior parte das
redes científicas nacionais.
A
novidade do estudo, ao analisar mais de 10 mil editais, não está em denunciar
os rastros do racismo institucional, mas sim em descrever suas formas, suas
malícias, sua ciência para impedir a contratação de pessoas negras. Foi o
próprio Governo Federal, através de relatório da ENAP “Síntese de Evidências da
Avaliação da Lei Nº 12.990/2014 e do Levantamento de Dados Sobre a Lei Nº
12.711/2012” que havia denunciado em 2021 que a cada 1.000 pessoas
destinatárias da política, 995 estavam sendo barradas por argumentos da ciência
brasileira. A ENAP, em 2025, publica o balanço de 10 anos: a efetividade na
carreira do magistério superior foi de 1,6%. Um escândalo ainda silenciado.
Esse
padrão não pode ser compreendido de forma isolada. Ele se insere em uma
trajetória histórica de consolidação do poder epistêmico nas universidades
brasileiras. Desde a formação das primeiras instituições, ainda no Império, os
quadros docentes eram predominantemente brancos, frequentemente recrutados por
indicação política. Ao longo do século XX, quando o Estado brasileiro passou a
financiar a formação de mestres e doutores e a estruturar laboratórios e o
sistema nacional de pós-graduação, tais oportunidades foram apropriadas
majoritariamente por esse mesmo grupo. A definição de critérios de mérito,
produtividade e excelência ocorreu em um ambiente previamente estratificado
racialmente, produzindo mecanismos cumulativos de reprodução de posições.
À luz
dessa trajetória, a resistência à plena efetividade da Lei nº 12.990/2014 pode
ser interpretada como disputa pelo controle do poder epistêmico. O bloqueio do
acesso de pessoas negras ao magistério superior não se restringe ao plano
administrativo; ele preserva redes acadêmicas, trajetórias consolidadas e
hierarquias de autoridade científica. Em termos kuhnianos, trata-se da defesa
de uma comunidade científica que protege seu paradigma institucional e seus
mecanismos de reprodução interna. A persistência das práticas identificadas
evidencia que a controvérsia ultrapassa a legalidade estrita e alcança o núcleo
da governança do sistema científico.
Assim,
a disputa em torno da Lei nº 12.990/2014 revela que a democratização do acesso
ao serviço público, especialmente nas universidades, é uma disputa pela
democratização do poder de produzir, validar e distribuir conhecimento. A
manutenção de barreiras raciais no interior das instituições científicas
compromete não apenas direitos individuais, mas a própria capacidade da ciência
brasileira de cumprir sua função pública.
Portanto,
evitar que 984 pessoas negras ingressem no corpo docente das universidades a
cada mil, não é uma externalidade negativa, compõe um amplo arco de manutenção
das posições de poder na ciência. Eles venceram novamente. Mas, envoltos em sua
soberba científica, esqueceram que no nosso DNA está a Travessia do Atlântico.
O fato
de que 984 pessoas negras, a cada mil potenciais beneficiárias da política,
tenham sido impedidas de ingressar no corpo docente das universidades federais
não pode ser tratado como mera externalidade administrativa ou falha episódica
de implementação. A inefetividade da política, nesse contexto, revela-se
funcional à manutenção do controle sobre os espaços de autoridade epistêmica.
A
memória da diáspora e da resistência coletiva, sintetizada na máxima de
Evaristo “eles combinaram de nos matar, nós combinamos de não morrer”, reafirma
que a disputa pela democratização do poder científico não se encerra com
reveses conjunturais, mesmo que a omissão seja de muitos, aliados ou não.
Trata-se de um processo histórico em curso, no qual a exigência de igualdade
material permanece como horizonte normativo e político incontornável. Com o
relatório “Pesquisadores negros(as) importam? O que revelam as chamadas
públicas do CNPq sobre o racismo institucional” publicado pela Associação Opará
ofertamos insumos para essa disputa.
Fonte:
A Terra é Redonda/Le Monde

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