Casamento
com um assassino? A história de amor que revelou um crime
O que
você faria se a pessoa que você ama dissesse que matou um homem?
É fácil
imaginar que você agiria de forma racional, moral e sem hesitação. Mas Casar
com um Assassino?, série documental com três capítulos de true crime (ou crimes
reais) da Netflix que estreou nesta quarta-feira (29/04), sugere que o amor
complica tudo na vida real.
Em
2017, Alexander McKellar, conhecido como Sandy, dirigia embriagado e atropelou
e matou o ciclista Tony Parsons em Argyll and Bute, na Escócia. McKellar e seu
irmão gêmeo, Robert, enterraram o corpo de Parsons.
O corpo
permaneceu no local, sem ser descoberto, por três anos, até que uma nova
namorada de McKellar, Caroline Muirhead, descobriu a verdade e levou a polícia
até a cova rasa.
Quando
o diretor da série, Josh Allott, ouviu a história pela primeira vez, disse que
"não conseguia acreditar que fosse real".
"Pensei
que fosse o enredo de uma série dramática e que algo assim não pudesse
acontecer na vida real."
Clare
Beavis, produtora da série que acompanhou o caso à medida que se desenrolava
porque ele teve "grande impacto na Escócia", afirma que a "parte
que faltava na cobertura da história foi o depoimento de Muirhead e a sua
versão dos acontecimentos".
A série
começa com Muirhead ainda abalada após um término difícil, antes de conhecer
McKellar no aplicativo de relacionamentos Tinder, no outono de 2020. O encontro
dá início a um romance intenso que, em poucas semanas, levou a um noivado.
Pouco
depois de ficarem noivos, ela perguntou se havia algo no passado dele que
pudesse afetar o futuro dos dois.
Ele
contou a ela que, alguns anos antes, havia atropelado um ciclista ao voltar de
carro de um hotel com o irmão, mas não procurou atendimento médico para a
vítima.
Mais
tarde, veio à tona que os ferimentos de Parsons eram tão graves que ele teria
sobrevivido apenas por 20 ou 30 minutos sem atendimento, mas é improvável que
tenha morrido na hora do atropelamento.
Os
irmãos deixaram o local e voltaram depois em outro carro. Em seguida, levaram o
corpo de Parsons até uma propriedade próxima de Auch Estate, onde os irmãos
enterraram a vítima.
A
revelação colocou Muirhead em um dilema, dividida entre a lealdade ao parceiro
e fazer o que considerava certo.
Para
Allott, diretor do documentário, foi essa tensão emocional e moral que tornou a
história impossível de ser ignorada.
"É
um dilema impossível de não imaginar na sua própria relação. Faz você pensar no
que faria no lugar dela, porque é um caso assustador, de pesadelo".
Muirhead
denunciou o crime à polícia, mas o que fez em seguida é o que torna a história
tão extraordinária e, em parte, explica por que a série existe. Em vez de se
afastar do parceiro, ela manteve o relacionamento com ele, enquanto, em
segredo, procurava a polícia e colaborava com a investigação, sem que McKellar
soubesse que havia sido ela a pessoa que denunciou o crime.
Passaram-se
quase três anos entre a confissão de McKellar a Muirhead e a condenação dele à
prisão.
Nesse
período, Muirhead gravou confissões em segredo no celular e voltou à
propriedade de Auch Estate com McKellar, onde deixou discretamente uma lata de
Red Bull como marcação do local. Depois, avisou a polícia sobre onde procurar o
corpo na área isolada.
Embora
alguns possam questionar as decisões que ela tomou, Allott diz que Muirhead fez
o certo ao denunciar o crime.
Os
irmãos McKellar foram presos em dezembro de 2020 e liberados sob fiança em
seguida. A acusação formal só veio em dezembro de 2021.
"Ela
esperava que os irmãos fossem mantidos em prisão preventiva, fossem julgados e
ficassem presos para sempre, e que saíssem de sua vida, mas eles voltaram a
fazer parte dela", disse Allott.
Segundo
Allott, Muirhead teve que passar por esse momento de incerteza sozinha, pois
ficou "exposta a eles por quase um ano e é nesse contexto que as decisões
precisam ser entendidas".
É
justamente a complexidade da personalidade de Muirhead que a torna uma figura
tão interessante. Segundo Allott, ela "era articulada e inteligente, uma
jovem patologista promissora, com oito anos de formação médica".
"Ela
tinha a vida encaminhada e, depois de conhecer Sandy [McKellar] e descobrir o
que ele fez, tudo desmorona."
Na
série, Muirhead fala abertamente sobre como recorreu ao álcool e às drogas para
lidar com a situação em que se viu.
Allott
e Beavis dizem que a intenção é apresentar um relato equilibrado dos
acontecimentos, mas também destacar "o impacto que estar à margem de um
crime, sem envolvimento direto, pode ter na vida de alguém".
Há
também um foco da série documental em como a polícia conduziu suas relações com
Muirhead depois que ela denunciou o caso.
Allott
argumenta que a polícia "não sabia como lidar com Caroline
[Muirhead]", e, sem revelar muito, afirma que se ela tivesse recebido
"consideração e cuidado da polícia, ela não teria tomado algumas das
decisões que tomou".
Beavis,
produtora da série, concorda e acrescenta que a experiência de Muirhead
"ecoa muitas experiências de pessoas com o sistema de justiça
criminal".
"Nós
queremos mostrar como as engrenagens da justiça rodam devagar, e como isso
afeta as vidas das pessoas."
A
polícia escocesa e o órgão de apoio a vítimas da Escócia não quiseram
participar da série documental.
Muirhead
fez reclamações formais contra a polícia escocesa.
Após
cinco anos de investigação, a maioria das reclamações foi arquivada. A polícia
escocesa reafirma ter oferecido o apoio adequado a Muirhead.
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'À própria sorte'
Em nota
sobre a série, Muirhead disse que ela "confiava que o sistema ficaria ao
seu lado e que a manteria segura quando ela estivesse em seu momento mais
vulnerável, mas não foi isso que aconteceu".
Muirhead
acrescentou: "Eu espero que, ao falar publicamente sobre isso e
compartilhar o que aconteceu comigo, nós possamos iniciar um diálogo honesto
sobre mais proteção para vítimas e testemunhas, além da necessidade
desesperadora de um entendimento muito mais profundo sobre saúde mental dentro
da polícia e do sistema judicial."
"O
impacto de traumas e abusos é frequentemente subestimado ou descartado
completamente, e isso significa que pessoas como eu são deixadas à própria
sorte para lidar sozinhas com as consequências", concluiu Muirhead.
Em
julho de 2023, pouco antes de o início do julgamento dos irmãos McKellar ter
início no Tribunal Superior em Glasgow, Alexander "Sandy" McKellar
admitiu a acusação de homicídio doloso, com uma pena reduzida.
O irmão
dele, Robert, teve aceito seu pleito de inocência em relação ao crime de
homicídio culposo, mas os dois irmãos admitiram o crime de obstrução de justiça
ao tentarem acobertar o crime.
Alexander
"Sandy" McKellar acabou condenado a 12 anos de prisão, e seu irmão,
Robert, a cinco anos e três meses.
O caso
também foi tema de uma série de documentários da BBC chamada Murder Case: The
Vanishing Cyclist (Caso de Homicídio: O Ciclista Desaparecido, em tradução
livre)
Fonte:
BBC News

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