sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Rússia e países da África concordam em aprofundar parceria africana com os BRICS

A Rússia e os países da África concordaram em promover o aprofundamento da parceria das nações africanas com o BRICS, segundo uma declaração divulgada nesta quinta-feira (29) após a terceira cúpula Rússia-África.

A Rússia e a África também fortalecerão o potencial para o desenvolvimento da cooperação entre a União Africana e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), visando garantir a segurança regional, afirma o documento.

A Rússia e os países africanos também concordaram em expandir a cooperação e fortalecer a coordenação no âmbito do G20.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, falou em coletiva de imprensa do interesse de Moscou aprofundar os laços com os países africanos.

"Nosso interesse comum em fortalecer ainda mais as relações, em pé de igualdade, com honestidade, em colaboração e para benefício mútuo, ficou claramente expresso", declarou o presidente russo.

Conforme a declaração, as partes também concordaram em fortalecer a cooperação na área de tecnologias e inovações digitais, incluindo inteligência artificial. A Rússia e os países africanos têm apoiado o desenvolvimento de abordagens não discriminatórias para padrões e gestão de riscos na área de inteligência artificial, acrescentou o documento.

"Ressaltamos a importância de os desenvolvedores e fornecedores de IA cumprirem a legislação dos países onde suas tecnologias são utilizadas", declararam os países.

As partes também pretendem expandir o comércio e o investimento em energia, incluindo projetos de petróleo e gás e produção de baterias na África. A ideia é criar zonas industriais russas na África para uma produção local.

O plano prevê, ainda, o desenvolvimento de corredores internacionais de transporte e logística para garantir o acesso mútuo aos mercados.

A declaração aponta para acordos para fortalecer a cooperação no setor financeiro, inclusive para garantir mecanismos de pagamento confiáveis ​​e sustentáveis, segundo o documento.

"Os Estados concordaram em expandir o uso de moedas nacionais em liquidações mútuas entre a Rússia e os Estados africanos".

O volume atual de comércio entre a Rússia e os países africanos, que chega a US$ 27 bilhões (R$ 146,33 bilhões), não é um limite, mas sim o início de uma trajetória, estabeleceram as partes. Ao todo, líderes de 21 países africanos participaram do evento.

<><> Cúpula Rússia–África tornou-se um sinal de Putin ao Ocidente, afirma mídia

A III Cúpula Rússia–África, realizada em Moscou nos dias 28 e 29 de outubro, tornou-se um sinal do presidente russo Vladimir Putin para os políticos ocidentais, escreveu uma agência de notícias ocidental.

De acordo com a publicação da Bloomberg, durante a cúpula em Moscou, com a presença de dezenas de líderes, o líder russo prometeu expandir significativamente o comércio com a África e criticou as relações ocidentais com o continente.

"Para Putin, a cúpula foi mais uma oportunidade para demonstrar os esforços limitados do Ocidente para isolar a Rússia devido ao conflito na Ucrânia", diz a publicação.

Note-se que a influência de Moscou na região africana está se fortalecendo, especialmente nos campos da diplomacia e segurança. Segundo a agência, a presença russa nos países do Sahel é mais perceptível.

A Rússia também envia esforços para desenvolver a infraestrutura diplomática e cultural que sofreu após o colapso da União Soviética, reabrir embaixadas e expandir programas de bolsas de estudo, parcerias com universidades e programas de formação, mencionou a matéria.

Como detalhou a agência, Vladimir Putin, nos bastidores da cúpula, acusou os países ocidentais de usarem sanções e pressão econômica para manter sua influência na região africana e prometeu ainda fortalecer a cooperação econômica com o continente, apesar da política de sanções antirrussa.

O III Fórum e Cúpula Econômica e Humanitária Rússia–África está sendo realizado em Moscou nos dias 28 e 29 de outubro.

Como observou a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, este evento se tornou um novo marco no desenvolvimento da cooperação entre Moscou e o continente africano.

¨      Por que o Irã se aproxima cada vez mais da Eurásia com Rússia e China? Analista explica

Diante das hostilidades militares e da retórica política agressiva dos EUA contra o Irã, seguida também por seus aliados ocidentais, o país persa aprofunda sua relação com a Eurásia. Esse movimento ocorre principalmente por meio de países como Rússia e China, que vêm se consolidando como seus parceiros estratégicos.

Nesse sentido, diante do atual recrudescimento geopolítico e da fragmentação do cenário internacional, a tendência é que a tríade formada por Moscou, Pequim e Teerã se aprofunde ainda mais. Essa perspectiva foi apontada por João Gonçalves, analista de relações internacionais e mestrando em ciência política, em entrevista à Sputnik Brasil.

"É nítido que qualquer tipo de investida contra o Irã e a Europa, de forma cautelosa, mas muitas vezes subserviente, acaba se alinhando a essa posição. Então, o Irã vê que seu espaço no Ocidente está sendo isolado e decide olhar para o outro lado. Portanto, para o Irã é interessante, sim, que se aproxime de China e Rússia", disse.

O especialista também aponta que, apesar das recorrentes crises no Oriente Médio, o Estado iraniano, além de resistir aos ataques de Washington e Tel Aviv, tem se consolidado como uma rota vital no comércio internacional devido à sua posição geográfica.

"O Irã vem cada vez mais se comportando como aquele ponto de estrangulamento. Porque o Irã é uma rota de conexão direta entre a Rússia e o oceano Índico, que seria o mar da Índia. [Por exemplo], a Rússia, em vez de dar a volta inteira através da Europa, passando pelo Mediterrâneo, ou até dando a volta na África, pode simplesmente passar pelo Irã", comenta.

<><> Eurásia é uma oportunidade para o comércio iraniano

Outro ponto levantado por Gonçalves é que, ao diversificar suas relações mais a leste, surgem no horizonte oportunidades de expansão do comércio exterior, como a aproximação com a União Econômica Eurasiática (UEE), bloco que conta com países como Armênia, Belarus, Cazaquistão e Quirguistão, além da Rússia.

"É uma visão que, sim, é muito válida em relação a essa União Econômica Eurasiática. O Irã está olhando para leste, está se colocando em termos de segurança, mas, em termos econômicos, é um país buscando diversificação e, daí, com parceiros que, historicamente, pelo menos nessa história recente, estão mais dispostos a oferecer algum tipo de resistência em relação ao que seria o Ocidente", destaca.

Para o analista internacional, o Irã vem se tornando um ator relevante também por sua projeção no mercado petroleiro, simultaneamente ao momento em que a Europa, que detém algumas das principais economias do mundo, está cada vez mais dependente desse recurso.

"Além disso, o Irã está ao lado do que seriam os países do Golfo. O petróleo mundial circunda pelo Irã. Então, ele é esse ponto de conexão entre o petróleo global e a Ásia, que é um continente que está em franca ascensão e que a gente pode falar principalmente de China e Rússia. A Europa que precisa cada vez mais de energia", observa.

<><> OCX também é importante na política externa do Irã

A Organização para Cooperação de Xangai (OCX), da qual o Irã é membro pleno desde 2023, é outro organismo que, segundo a análise de João Gonçalves, ilustra a crescente inserção euroasiática do país em diálogos geoestratégicos.

"Em relação à OCX, é uma organização não só de segurança, mas que promove inúmeras iniciativas, e o Irã estar nesse debate, estar nessas parcerias, com certeza é muito vantajoso. [O mundo] cada vez mais vem migrando para essa multipolaridade, e a diversificação das parcerias é essencial", conclui.

No cenário internacional contemporâneo, as sanções unilaterais não só prejudicam um determinado Estado visado, mas acabam estimulando o surgimento de novas coalizões bilaterais e regionais. Na atual conjuntura multipolar, o surgimento de novos polos na economia global permite que essas relações se desenvolvam de forma alternativa, sem passar necessariamente pelo eixo hegemônico ocidental.

¨      EUA, UE e economia global sofrerão se Washington retomar hostilidades contra o Irã, diz senador russo

A retomada das ações militares de Washington contra o Irã após as eleições de novembro afetarão os Estados Unidos e a União Europeia e levará a consequências catastróficas para a economia global, disse Aleksei Pushkov, membro do Comitê Constitucional do Conselho da Federação.

Em seu canal no Telegram, o senador russo relatou que, segundo informações da mídia ocidental, os EUA estão planejando uma nova rodada de ataques contra o Irã após as eleições de meio de mandato, em novembro.

"A retomada das hostilidades na região, sem dúvida, levaria a guerra a um novo patamar, com uma soma de consequências negativas para os países da região, para a economia global e para os próprios Estados Unidos", salientou o senador.

Por sua vez, os países da União Europeia sofrerão novamente antes do inverno (Hemisfério Norte) com os preços dos combustíveis, que certamente aumentarão, e se lembrarão dos tempos de fornecimento garantido de gás e petróleo da Rússia.

"Ao mesmo tempo, é improvável que uma nova ofensivapermita aos Estados Unidos alcançar uma vitória militar e a rendição do Irã — pelas mesmas razões que impediram os Estados Unidos de alcançar esse objetivo na primeira ofensiva", resumiu.

Mais cedo, um veículo de imprensa de grande circulação norte-americano, citando autoridades estadunidenses não identificadas, informou que o chefe da Casa Branca, Donald Trump, estaria inclinado a retomar as hostilidades contra o Irã, mas uma decisão final ainda não havia sido tomada.

O próprio líder norte-americano havia afirmado anteriormente que os Estados Unidos não atacariam o Irã antes das eleições de meio de mandato para o Congresso dos EUA.

¨      Herança maldita no Afeganistão: 20 anos de guerra dos EUA e o retorno do Talibã

Em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão e derrubaram o regime do Talibã, em resposta aos atentados de 11 de setembro, organizados pela Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), que tinha no país seu principal refúgio.

Vinte anos depois e trilhões de dólares gastos na guerra ao longo das duas décadas, os estadunidenses foram embora e o Talibã voltou ao poder. O que ficou dessa intervenção? O que os Estados Unidos conseguiram alcançar? O legado estadunidense no país e o custo humano de duas décadas de conflito foram temas do podcast da Sputnik Brasil Mundioka desta quarta-feira (28).

Uma das entrevistadas, a doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas e professora de relações internacionais na Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC) Lais Cavallin lembrou que o Talibã nunca deixou de existir. O grupo apenas recuou para o vizinho Paquistão e zonas rurais do Afeganistão.

Para ela, o grande erro estratégico da intervenção dos EUA foi concentrar os esforços na capital, Cabul, e grandes províncias, ignorando as regiões rurais, que concentram mais de 70% da população.

"Ao longo dessas duas décadas, o Talibã se reorganizou como força de insurgência contra a ocupação militar, e assim que as tropas ocidentais se retiraram, em 2021, o grupo reconquistou o país, tomou Cabul em menos de duas semanas e hoje a gente está vendo a história sendo reconstruída."

<><> Mulheres usadas como cobaias

Além de deixar a infraestrutura do país destruída e uma crise econômica sem precedentes, em miséria, a violência contra as mulheres também foi uma herança nefasta, frisou Cavallin.

Como modus operandi das intervenções, os EUA usaram "uma receita pronta de reconstrução" sem considerar especificidades locais. Uma delas foi a imposição às mulheres do país de uma série de programas com visão ocidental, que não tiveram adesão.

"Instrumentalizando as mulheres afegãs sob esses slogans de libertação e o herói branco, para salvar essas mulheres das mãos dos bárbaros terroristas", ironizou a professora.

Assim que as tropas estadunidenses foram retiradas do Afeganistão, as mulheres foram deixadas à própria sorte sob o domínio dos mesmos que os EUA denominavam terroristas, e perderam todas as conquistas da época da ocupação, cujas frágeis melhorias seguiram uma lógica assistencialista e imperialista, cujo principal objetivo com a intervenção era abrir mercado.

"E, principalmente, todo o patriarcalismo e o conservadorismo das comunidades afegãs. Então, a cultura afegã, a religião, as tradições, os costumes, eles foram desconsiderados pelos Estados Unidos na hora de pensar nesses programas", ponderou ela.

<><> Guerra Fria

Ela elencou outros legados "malditos", como o aumento do tráfico de drogas e da violência devido ao empoderamento por parte de Washington da Aliança do Norte, grupo armado opositor ao Talibã, cujas lideranças possuíam histórico de massacres civis, de saques, estupros e destruição da infraestrutura, principalmente durante a guerra civil dos anos 1990.

"O Afeganistão ficou sob intervenção da União Soviética por dez anos e, durante essa intervenção, os EUA financiaram esses senhores da guerra […] assim que eles conseguiram a retirada da União Soviética, começou uma guerra civil […], fazendo com que o Talibã surgisse como a possibilidade que a população enxergou como saída pra esse histórico de intervenção e de guerra."

Ela conta que também houve tentativa do governo dos EUA de mobilizar mulheres afegãs para serem agentes secretos:

"Então eles queriam dar treinamento para essas mulheres, para que elas, dentro das suas comunidades, pudessem coletar informações que fossem importantes para os Estados Unidos receberem e conseguirem desestabilizar guerrilhas, forças contra insurgentes, o próprio Talibã."

O plano fracassou, acrescentou, porque as mulheres "acharam muita hipocrisia e uma contradição muito grande que aqueles que estavam bombardeando e destruindo suas casas e suas famílias quisessem que elas se aliassem a eles", declarou, ao relatar ainda abusos, estupros, que foram feitos, inclusive, por parte dos próprios soldados dos EUA, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Também em entrevista para o Mundioka, o professor de relações internacionais da Unilasalle Marcello Freitas explica que o desfecho evidencia os limites da estratégia americana de impor sua influência por meio da força militar e faz parte de um processo mais amplo de declínio relativo da hegemonia de Washington.

"Quando um gigante como os Estados Unidos cai, é um problema também para quem está perto, e isso tem a ver com a gente aqui no Brasil", alertou ele. "A manutenção dessa máquina militar pelo planeta inteiro, uma coisa inédita na história, se tornou muito cara e insustentável para os Estados Unidos", avaliou.

<><> Da guerra ao terror ao fracasso no Afeganistão

Para o pesquisador, os atentados de 11 de setembro marcaram uma mudança na política externa americana, que passou a priorizar uma atuação mais unilateral sob o argumento do combate ao terrorismo. A invasão do Iraque, em 2003, foi um dos exemplos dessa estratégia.

"Você coloca essa figura do terrorista árabe como um inimigo difuso que pode ser qualquer um, e aí você justifica essa nova etapa da política americana que vai se concretizar com a guerra em 2003 do Iraque", afirma.

Freitas apontou a corrupção, a fragilidade das instituições e a dificuldade de compreender a complexidade política e social do país como fatores que comprometeram a reconstrução. A retirada americana, em 2021, durante o governo Joe Biden, e o retorno do Talibã ao poder simbolizaram, na avaliação do professor, o fracasso da intervenção.

"A desastrosa saída do governo americano, da ocupação americana do Afeganistão no período do governo Biden, que inclusive lembra muito a saída dos Estados Unidos de Saigon na Guerra do Vietnã, uma humilhação total, que mostra o quanto esse projeto foi por água abaixo."

O pesquisador também chamou a atenção para o custo humano do conflito. Segundo ele, a população afegã enfrenta consequências profundas, especialmente as mulheres e as minorias religiosas, enquanto a instabilidade favorece a atuação de grupos extremistas.

<><> Quem ganhou com a guerra?

Além dos custos humanos, Freitas questionou os interesses econômicos associados às intervenções militares. Para ele, setores da indústria bélica e empresas contratadas para reconstruir países atingidos pelos conflitos estão entre os beneficiários desse modelo.

"Quem ganhou é quem sempre ganha, os senhores da guerra, a indústria, o complexo industrial militar, mesmo com derrotas e vitórias, permanecem funcionando, gerando muito dinheiro, riqueza e talvez até corrupção", afirmou.

O professor destacou a contradição de investir na destruição e, depois, destinar recursos à reconstrução, enquanto as populações locais permanecem expostas à violência e à precariedade.

Para o pesquisador, o caso demonstra que a superioridade militar não é suficiente para garantir influência política duradoura. A experiência afegã expôs os limites de uma estratégia que buscou transformar outro país pela força, mas terminou sem alcançar os objetivos anunciados.

 

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