'Ele
achou que já estava eleito': os erros da campanha de Flávio Bolsonaro no
segundo turno apontados por analistas
Na
semana seguinte ao primeiro turno da eleição — em que Flávio Bolsonaro (PL)
venceu Lula (PT) somando 47,03% dos votos —, a coordenadora da campanha do
então senador, a administradora de empresas Daniella Marques, passou a
sussurrar para conhecidos da avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo
e do país, que tão logo o candidato confirmasse sua vitória, ela encabeçaria o
chamado Ministério da Prosperidade — uma das promessas eleitorais mais
repetidas da chapa.
"Eles
tinham muita certeza de que iam ganhar a eleição", disse, à reportagem,
uma representante do setor varejista no Congresso Nacional, em Brasília, que
chegou a se reunir com ela nesse período.
"Ficaram
desolados com a derrota porque, na cabeça deles, aquilo era uma coisa certa.
Eles estavam trabalhando [como se tivessem sido eleitos] já".
"Foi
um erro grave dele", sentencia o sociólogo e cientista político Sérgio
Abranches, autor, entre outros, de Presidencialismo de coalizão: Raízes e
evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018).
"Ele
achou que estava eleito e entrou no segundo turno [de forma] muito
arrogante".
No
segundo turno, porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o
candidato do PL com 51,7% dos votos em um pleito marcado pelo adiamento do
horário de funcionamento das seções eleitorais ordenada pelo ministro Cristiano
Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), nos minutos finais da eleição.
Por
causa da decisão, Flávio disse, em um primeiro momento, que pediria a anulação
do processo eleitoral. Depois, afirmou que "lideraria a oposição" ao
governo Lula e que pediria a cassação da chapa vencedora e, na quarta-feira
(28/10), viajou aos Estados Unidos.
De lá,
publicou uma carta dizendo, primeiro, era o "verdadeiro presidente eleito
do Brasil" e, 23 minutos depois, republicou uma versão editada em que se
dizia "líder do Brasil".
"A
campanha de Flávio Bolsonaro não cometeu, na verdade, um grande erro",
entende o cientista político Hilton Césario, professor da Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), em São Paulo.
"Foi
a soma dos pequenos erros que pode ter sido relevante para a derrota: a falta
de respeito com Lula no debate ao chamá-lo de 'nove dedos', a incapacidade em
mostrar empatia com a mãe da menina Ana Clara, as declarações arrogantes da
coordenadora de economia [Daniela Marques] e o desprezo com as manifestações
contrárias nas redes sociais e nas ruas colaboraram para piorar sua imagem e
estimular o engajamento contrário a ele", prossegue.
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Discurso de vitória antes da hora
O plano
de Daniella Marques, disseram duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil que
tiveram contato com a informação, era juntar as atuais pastas do Trabalho e
Emprego (MTE), das Mulheres, do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa
e da Empresa de Pequeno Porte (Memp) e do Desenvolvimento e Assistência Social,
Família e Combate à Fome (MDS) em um único — e robusto — ministério.
Ele
ficaria responsável por gerir os vários programas sociais do governo, formular
políticas voltadas a pequenos empreendedores e mediar a relação entre entidades
empresariais e sindicatos.
Marques
tinha até entrado em contato, superficialmente, com uma proposta inicial de
entidades empresariais de adiar a implementação do fim da escala 6x1 que,
aprovada neste mês, passará a vigorar a partir de dezembro.
A
administradora, que presidiu a Caixa Econômica Federal por sete meses entre
2022 e 2023, durante o governo de Jair Bolsonaro, chegou a tentar marcar
reuniões com pesquisadores dedicados ao Bolsa Família em universidades
privadas.
Procurada
pela BBC News Brasil, Marques não respondeu aos pedidos de entrevista.
Foi
essa mesma sensação de vitória antes da hora que alguns empresários tiveram — e
compartilharam à reportagem — depois que participaram de um evento com Flávio,
Daniella e outros nomes da chapa na noite de 13 de outubro, no Clube Monte
Líbano, na capital paulista.
Promovido
pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), o
encontrou teve as presenças do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), do prefeito da cidade, Ricardo Nunes (MDB) e de representantes
setoriais como Paulo Skaf, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp).
Durante
sua fala, o candidato do PL reforçou que estava perto de governar o país e que
já contava com a ajuda de alguns dos aliados que estavam naquele palanque.
"Faltou
uma compreensão daquele momento por parte da campanha bolsonarista", nota
Hilton Césario, da FESP-SP.
Para
ele, considerando que boa parte da votação dos candidatos derrotados no
primeiro turno migraria automaticamente para Flávio, "bastava se
posicionar como um líder e impor respeito para esperar o fim das
eleições".
Mas não
foi isso que ele fez. "O comportamento debochado, arrogante e até
agressivo dele pode ter desestimulado a parte dos eleitores que não estava
muito firme com a decisão", completa.
Felipe
Nunes, fundador da Quaest, de pesquisas eleitorais, vai nessa mesma linha.
"Houve uma incapacidade da campanha de Flávio em enxergar que parte dos
votos que ela obteve no primeiro turno veio de um eleitor pendular, que não era
fixo dele".
Lula
ganhou 10,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno — a maior
quantidade de novos eleitores, nesse intervalo, desde a redemocratização, em
1985, com a primeira eleição em 1989. Flávio Bolsonaro, por sua vez, perdeu,
mas teve um desempenho melhor que o do seu pai, Jair, em 2022: recebeu cerca de
56,1 milhões de votos.
A
abstenção também caiu entre os dois turnos, passando de 21% para 19%.
Abranches
percebe que esse equívoco se materializou, de fato, na postura da própria
campanha do senador, que se manteve no mesmo ritmo do primeiro turno, enquanto
a de Lula se digitalizou rapidamente e mobilizou boa parte do eleitorado de
esquerda e da "direita não bolsonarista".
"Isso
fez diferença. Flávio passou a administrar a vitória que achou que teria
enquanto Lula conseguiu atrair, sem o PT e centrais sindicais, as pessoas para
seus atos de rua".
Nunes,
da Quaest, inclusive, acredita que houve mais acertos de Lula na virada entre
os dois turnos do que propriamente erros de Flávio. "Foi o mérito da
campanha petista de redes e a mudança de postura na TV".
"Sem
contar que eles estavam distribuindo ministérios, já", adiciona Abranches.
De
fato, para além do esforço de Daniella Marques em colocar seu Ministério da
Prosperidade de pé antes do pleito decisivo, por exemplo, os gestores de
diferentes núcleos da Faria Lima compartilhavam, à boca pequena, uma disputa
silenciosa entre dois nomes dali cotados ao Ministério da Fazenda de um
esperado governo Flávio: Mansueto de Almeida, economista do BTG e que fez parte
do Ministério da Fazenda de Paulo Guedes, na época de Bolsonaro, e Roberto
Campos Neto, que presidiu o Banco Central entre 2019 e 2024, e que hoje
trabalha no Nubank.
"Nas
poucas conversas que testemunhei sobre esse assunto, parecia que o segundo
turno já tinha acontecido. Estavam montando gabinete", diz um economista
da Faria Lima que pediu para não ser identificado justamente por ter
participado de reuniões com membros da chapa do PL.
Essa
percepção extrapolou até os encontros políticos onde o candidato do PL ou os
membros da equipe dele discursaram.
"Nos
grupos focais que fizemos durante os debates [na TV Band, no dia 17 de outubro,
e na TV Globo, no dia 23], os momentos em que Flávio foi mais criticado pelos
eleitores foram quando adotou posturas consideradas 'infantis', como retrucar
falas de Lula com frases irônicas ou, justamente, pela sensação de arrogância
que causou ao se considerar já eleito", conta o economista Maurício Moura,
fundador do Instituto Ideia.
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Rejeição crescente das mulheres
Além do
que os analistas apontam como arrogância, Flávio não ganhou a confiança de uma
parte relevante do eleitorado feminino, argumenta a socióloga Christina Vital,
do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Ela
acabou de lançar, ao lado da antropóloga Jaqueline Teixeira, da Faculdade de
Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), o livro Mulheres e extrema
direita no Brasil (Elefante).
Na
leitura dela, à medida em que a campanha de Lula reforçava que o senador era
"perigoso" e "pouco confiável", as dubiedades entre o
discurso do candidato do PL e seu histórico como parlamentar robustecia s
argumentos da chapa petista.
"Isso
ficou evidente no caso do Bolsa Família, por exemplo", lembra ela,
"em que Flávio disse que manteria o programa e, em seguida, apareceram
posts antigos dele chamando-o de 'bolsa farelo'. A campanha de Lula também logo
recuperou que ele foi o único parlamentar a votar contra essa agenda no Rio de
Janeiro [Flávio votou contra a criação do Renda Melhor, em 2011, na Assembleia
Legislativa do Rio]. Para as mulheres, que são as principais usuárias do
programa, isso acendeu um alerta".
Esse
temor se viu bem nas pesquisas eleitorais. Os dados da Quaest do dia anterior
ao segundo turno indicaram que 53% das mulheres diziam que o conheciam, mas
jamais votariam nele. No caso de Lula, essa taxa era de 41%.
Já o
Datafolha daquele mesmo dia mostrou que, entre quem se dizia eleitor do
senador, 44% eram mulheres. Para Lula, elas eram 51%.
Se
Flávio até tentou se aproximar desse público, gravando cenas da sua campanha de
televisão ao lado de personagens femininas em supermercados ou explorando sua
aliança com candidatas jovens da direita, como Eduarda Campopiano (PL), em São
Paulo, outros fatores jogaram contra esse esforço.
Um dos
pontos cruciais, aponta Vital, foi o destque dado durante a campanha à
participação de Flávio, como advogado, da banca de defesa do policial militar
Bruno Dias Delaroli, que foi acusado pela Justiça de matar uma menina de cinco
anos, Ana Clara Gomes Machado, em uma operação no bairro de Badu, em Niterói
(RJ). O senador atuou para evitar que Delaroli fosse a julgamento popular.
"A
participação da mãe da Ana Clara [Cristiane Gomes] na campanha do Lula,
mostrando o sofrimento dela, gerou muita empatia nas mulheres", analisa
Vital.
"Mais
do que isso", adiciona Cesário, "foi a incapacidade em mostrar
empatia com a mãe dela".
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A ironia com os nove dedos de Lula
Nos
grupos focais organizados pelo Instituto Ideia durante os debates da Band e da
Globo, Maurício Moura reparou que toda vez que Flávio usava a ironia como
tática para confrontar Lula, as pessoas imediatamente fecharam a cara.
"Era quando a avaliação dele ia lá para baixo".
Nesse
método de pesquisa, de caráter qualitativo, um conjunto diverso de eleitores —
isto é, apoiadores das ambas as candidaturas em questão, além de indecisos — é
instalado ao redor de uma mesa diante da televisão e, então, são estimulados a
reagir a cada acontecimento (falas, dados, argumentos, temas) do debate. Com
isso, é possível mensurar os erros e os acertos dos discursos dos candidatos
segundo a perspectiva do eleitorado.
Moura
acredita que uma dessas ironias, em especial, deve ter tirado votos de Flávio
no segundo turno: a menção aos nove dedos de Lula, no debate da TV Globo. Na
ocasião, o então senador do PL disse ao petista que não adiantava nada
"dar um salário mínimo com uma mão e tirar com os nove dedos".
O
presidente, que perdeu o mindinho em 1964, quando era torneiro mecânico em São
Paulo, em um acidente em uma prensa, reagiu exigindo um pedido de desculpa ali
mesmo — que Flávio fez em seguida.
"Ele
flertou com o risco de ofender as pessoas, porque o Brasil tem 7% da população
com as mesmas condições do Lula [alguma deficiência física]. São pessoas que
têm família. Basicamente, ele tocou em um tema que é importante para 60 milhões
de eleitores. Arriscou demais", afirma Moura.
A
jocosidade com os dedos, que viralizou ao reverso nas redes sociais — isto é,
mostrou mais Lula respondendo indignado a Flávio do que a própria frase dele —
reforçou as críticas internas na campanha a Pablo Marçal, responsável por
aconselhar Flávio antes dos embates com Lula.
Isso,
acrescenta o filósofo Renato Lessa, do Departamento de Direito da Pontifícia
Universidade Católica (PUC-Rio), marca uma certa mudança na própria dinâmica do
bolsonarismo, que o fez ascender nas redes sociais uma década atrás: o uso da
linguagem com meio de agressão. "Ela perdeu a função de comunicar e
adquiriu um tom acusatório, belicoso, depreciativo — especialmente se tratando
de adversários políticos".
A
própria piada sobre o dedo perdido de Lula é um exemplo, observa, porque, ao
longo dos pleitos disputados pelo presidente — eleito em 2002 pela primeira vez
— seu acidente nunca foi usado por concorrentes com um tom jocoso, dado o óbvio
prejuízo eleitoral que eles teriam com isso.
"É
que, há algum tempo atrás, embora a dinâmica parlamentar sempre tenha sido
belicosa, havia limites que todos respeitavam, que não eram
ultrapassados". Nesse sentido, a lógica do bolsonarismo pode ter tirado
votos do seu próprio candidato.
É que,
na leitura de Lessa, mas também de pessoas que participaram da campanha de
Flávio ou que se relacionaram com ela em algum momento da eleição, ele errou em
acreditar que essa postura — que surtia efeito no eleitorado mais alinhado à
narrativa bolsonarista anos atrás — ainda era consumida por uma grande parcela
do eleitorado.
"Na
verdade, ela ajudou a afastar uma parte dos indecisos", observa Cesário.
"Mas
o que pegou, de fato, foram as acusações contra ele".
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Teto de vidro
"É
mentira. De onde você tirou isso?".
Na
primeira vez que Flávio Bolsonaro se viu diante de uma pergunta sobre sua
relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e que hoje está preso em
Brasília (DF), na saída do Congresso, em maio, essa foi sua reação imediata.
Pouco
tempo depois, porém, quando vazaram históricos de mensagens entre os dois pelo
WhatsApp, o senador precisou assumir não apenas que a relação existia como que
era mais profunda.
Segundo
dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o órgão de
fiscalização do Banco Central, e das conversas no WhatsApp, Vorcaro repassou
pelo menos US$ 12,3 milhões (R$ 66,2 milhões, na cotação de 29 de outubro) à
família Bolsonaro entre 2024 e 2025 sob a justificativa de arcar com os custos
da cinebiografia Dark Horse, produzida pelo diretor americano Cyrus Nowrasteh.
Os
repasses ficaram ainda mais duvidosos quando a Polícia Federal (PF) descobriu
que eles eram recebidos em um fundo offshore no Texas, nos Estados Unidos, cujo
sócio, Paulo Calixto, foi advogado do ex-escrivão da PF e ex-deputado federal
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio que vive no país desde fevereiro de 2025.
"O
teto do Flávio era muito de vidro", resume Hilton Césario.
Sérgio
Abranches concorda, adicionando a essa leitura a própria postura de Lula.
"[Ele]
era um candidato muito vulnerável por conta dessas acusações, que são de
processos judiciais em andamento, muito lesivos, que contrariam até o que ele
diz sobre si".
"Era
natural que saíssem mais informações [conforme a campanha seguisse]. Lula foi
muito leal, inclusive, porque não usou o poder que tem para pegar mais
informações com a Polícia Federal e vazá-las".
O
inquérito do caso Dark Horse estava sob tramitação no gabinete do ministro
André Mendonça, do STF, mas foi suspenso pelo presidente da Corte, ministro
Edson Fachin, em meio à crise do tribunal, em setembro.
Flávio,
porém, enfrenta uma segunda acusação — que irrompeu na reta final do segundo
turno. Nela, o senador é acusado de lavagem de dinheiro ao lado do advogado
Willer Tomaz que, por sua vez, foi alvo de uma operação da PF em agosto pelas
investigações sobre fraudes no pagamento de benefícios do INSS.
Tanto
Flávio quanto Willer negam as acusações.
Esse
inquérito, por sua vez, está no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, e foi
a partir dele que o magistrado determinou, no dia seguinte à eleição, a
apreensão dos passaportes de Flávio, que não os entregou no prazo solicitado.
"A
ida dele para os Estados Unidos é a confirmação de tudo o que a campanha do
Lula e outros atores da sociedade civil estavam dizendo sobre ele e sobre essas
acusações durante a campanha", diz Christina Vital, da UFF, lembrando que
um dos argumentos da oposição à candidatura do PL era que ele tentava escapar
da Justiça por meio do cargo.
No
entanto, para ela, a viagem aos EUA não será interpretada, pelo eleitorado,
integralmente como uma "fuga" dos processos judiciais. Dependerá,
antes, da narrativa que a família Bolsonaro continuará produzindo para
justificar a saída dele do Brasil.
"Eles
vão tentar dizer que é um exílio. Vamos ver se serão exitosos nisso",
finaliza.
Fonte:
BBC News Brasil

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