Aliados
de Flávio defendem resultado das eleições após carta golpista
Aliados
do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL) defenderam o resultado das
eleições após o senador divulgar, dos Estados Unidos, uma carta de teor
golpista contestando o resultado do pleito sem nenhuma prova.
Na
carta, divulgada no fim da tarde desta quarta-feira (28/10), horas depois de
ele aterrissar nos EUA com a mulher e as duas filhas, Flávio afirma, sem
apresentar provas, que o segundo turno das eleições foi fraudado. A suposta
"fraude", segundo ele, teria consistido na prorrogação da votação por
duas horas por decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal
(STF).
Flávio,
contudo, omite dois fatos em sua carta: a extensão do horário de votação também
foi pedida pelo próprio partido dele, o PL; e o número de eleitores que
depositou seus votos após as 17h foi de pouco mais de 34 mil, segundo dados do
TSE. O senador perdeu a eleição por uma diferença de mais de 4,4 milhões de
votos.
Após a
divulgação da carta nas redes sociais, diversos aliados próximos do senador se
distanciaram das declarações.
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Tarcísio de Freitas: "A eleição acabou; o caminho é respeitar o resultado
das urnas"
Um dos
principais cabos eleitorais de Flávio na campanha, o governador reeleito de São
Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou em entrevista ao Estadão que
a eleição acabou e é preciso respeitar o resultado das urnas.
"A
eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de
Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos
brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em
frente", disse logo após a divulgação da carta de Flávio.
Um dia
antes, na terça-feira (27/10), Tarcísio já havia publicado em vídeo em que
reconhecia a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora sem citá-lo
nominalmente, e repetia seis vezes que "a eleição passou".
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Ricardo Nunes: presidente é quem o TSE declarou eleito
Também
aliado do bolsonarismo, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou
ao Estadão que o presidente do Brasil é "aquele que o TSE declarou
eleito", e defendeu que a oposição fiscalize e cobre "o cumprimento
das promessas".
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Rogério Marinho: não é possível falar em fraude sem provas
Líder
da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho
(PL-RN) disse que não é possível falar em fraude eleitoral sem provas. "O
PL não pode fazer essa afirmação, nem eu, porque não há provas nesse
sentido", disse.
Marinho
classificou a carta de Flávio com um "desabafo de alguém que está se
sentindo injustiçado" e referiu-se ao aliado como "exilado
político". Ele negou ter tido conhecimento dos planos de Flávio para
deixar o país.
Antes
mesmo da divulgação da carta, o próprio PL também já havia reconhecido o
resultado da eleição. "Reconhecemos o resultado presidencial [...], mas
entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente
esclarecidos", disse o presidente do partido, Valdemar Costa Neto.
O
candidato a vice na chapa de Flávio, deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL),
seguiu linha semelhante, criticando a condução das eleições, mas reconhecendo o
resultado. "Lutamos até o fim, permanecemos de pé, mantivemos nossos
princípios. Tem vitórias que representam derrotas e tem derrotas que são
verdadeiras vitórias. Nós ganhamos, permanecemos firmes naquilo que
acreditamos", declarou.
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União Brasil pede respeito ao resultado da eleição
O
partido do Centrão, que declarou apoio a Flávio após ele sair na frente no
primeiro turno, defendeu em nota a lisura do segundo turno e pediu respeito aos
resultados.
A
legenda afirma que a democracia "não depende de quem vence ou perde uma
eleição, mas do compromisso de todos com o veredito das urnas", e que
" é hora de encerrar a disputa e pensar nos enormes desafios que se
colocam diante do nosso país".
Antes
disso, a Federação União Progressista — formada pelo União e pelo PP — também
já havia defendido o reconhecimento do resultado. Outros partidos que
declararam apoio a Flávio no segundo turno também reconheceram a vitória de
Lula, como o Republicanos, o Podemos e o MDB.
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Kássio Nunes Marques: eleições "dentro da mais absoluta normalidade"
Indicado
ao Supremo Tribunal Federal durante o governo de Jair Bolsonaro, o presidente
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reagiu à
carta de Flávio afirmando que as eleições "transcorreram dentro da mais
absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais".
"Ressalto
o compromisso de toda a Justiça Eleitoral com a vontade soberana do eleitorado,
que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes", afirmou.
Nunes Marques ressaltou que todos os "questionamentos feitos dentro do
devido processo legal" serão analisados e respondidos.
• Em carta golpista, Flávio se autodeclara
presidente do Brasil e depois recua
Em uma
carta golpista publicada numa rede social, o senador Flávio Bolsonaro se
autodeclarou nesta quarta-feira (28/10) "o verdadeiro presidente" do
Brasil. Ele pousou mais cedo em Miami, nos Estados Unidos, com a sua família,
depois de ter fugido pela Argentina.
"Dirijo-me
ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente do
Brasil", diz a abertura do texto. A primeira de três páginas carrega o
brasão da República Federativa do Brasil.
A
primeira publicação de Flávio com a carta foi apagada pelo parlamentar. Em
seguida, uma nova versão foi publicada, na qual Flávio se autointitula "o
líder do Brasil", em vez de "o verdadeiro presidente".
Sem
apresentar qualquer prova, Flávio diz ainda que houve fraude eleitoral no
segundo turno e que ele é alvo de perseguição política por um "regime de
exceção instaurado no Brasil". Ele ainda agradece os presidentes da
Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump, por tê-lo
acolhido.
O
senador chama de "ilegítima e ilegal" a atuação do ministro Cristiano
Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), em referência à prorrogação da
votação no segundo turno, embora o seu partido, o PL, também tenha solicitado a
extensão do horário de votação.
A
prorrogação de duas horas teve impacto limitado, de apenas cerca de 35 mil
votos, e Flávio obteve menos 4,4 milhões de votos do que o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. Além disso, o PL, partido de Flávio,
Segundo
Flávio, a determinação do STF para que ele entregasse seus passaportes à
Polícia Federal (PF) foi uma resposta ao seu questionamento da integridade
eleitoral.
A
decisão do ministro Alexandre de Moraes, no entanto, teve como base um pedido
da PF, que viu risco de fuga do senador, investigado por suposta lavagem de
dinheiro através da sua conexão com o advogado Willer Tomaz.
"Não
era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai
dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado," afirma o
documento, no qual o senador se diz alvo de uma "caça às bruxas
politicamente motivada".
"Ao
longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da
máquina pública em favor da reeleição (de Lula)", diz ainda a carta.
Na
terça-feira, o vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar, reconheceu a derrota.
No dia anterior, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já havia feito o
mesmo.
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"Estados Unidos do Brazil"
A
aliados, Flávio afirma que "liderará a oposição" dos EUA. "Nos
próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos
uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos,
por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um
regime ditatorial no Brasil".
A
primeira publicação de Flávio já trouxe uma segunda versão da carta. A primeira
versão do texto foi inicialmente publicada pelo blogueiro Paulo Figueiredo,
aliado do bolsonarismo, e usava o termo "presidente eleito do
Brasil". Além disso, continha um brasão em que se lia "Estados Unidos
do Brazil". Este era o nome do Brasil até 1931.
Ainda
nesta quarta, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que não vai se envolver
na questão. Questionado por uma repórter sobre se concorda com Flávio se
autodeclarar presidente eleito, o republicano respondeu: "Não vou me
envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo". Trump, porém, não
apresentou nenhuma prova ou sequer indício de uma suposta fraude.
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Trump diz que "não vai se envolver" após carta de Flávio
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que "não vai se
envolver" no novo capítulo da fuga de Flávio Bolsonaro.
O
senador, minutos antes, publicou uma carta em que se autodeclarava "o
verdadeiro presidente" do Brasil — mas depois recuou, substituindo-a por
uma nova versão em que se chamava de "o líder" do país.
Questionado
por uma repórter sobre a carta de Flávio, o republicano disse: "Não vou me
envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo".
Na
carta, Flávio agradeceu Trump pelo acolhimento em território americano, onde
deverá receber asilo.
Os
meses anteriores às eleições brasileiras foram marcados por uma escalada de
pressão de Trump contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o que gerou
especulações por analistas de que o chefe da Casa Branca poderia questionar os
resultados das urnas.
Após o
segundo turno, Trump já tinha dito que o pleito "pareceu fraudado",
mas que "gosta de Lula". O republicano, no entanto, não apresentou
qualquer indício e muito menos prova de uma suposta fraude.
• Quem são os líderes citados na carta
golpista de Flávio
Na
carta aberta ao povo brasileiro que divulgou na quarta-feira (28/10), o senador
Flávio Bolsonaro, candidato do PL derrotado na eleição de domingo, afirmou que
pretende liderar a oposição no Brasil a partir dos Estados Unidos.
Inicialmente
Flávio Bolsonaro se apresentou como "verdadeiro presidente eleito do
Brasil", mas 23 minutos depois ele editou a postagem na mídia social em
que havia publicado a carta e alterou a redação para "líder do
Brasil".
O
documento foi divulgado horas após a chegada do senador aos EUA — uma viagem
feita depois que seu passaporte havia sido cancelado pela Polícia Federal, em
meio a investigações sobre ele e o advogado Willer Tomaz, em um caso que
envolve suspeitas de lavagem de dinheiro.
A carta
de Flávio Bolsonaro faz referências a diversas personalidades históricas que
precisaram liderar do exterior a oposição a um governo — papel que ele diz que
caberá a si de agora em diante, contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), que foi reeleito no domingo.
O
senador mencionou Ruy Barbosa, Charles de Gaulle, José Marti, Juan Guaidó,
Edmundo González e María Corina Machado.
"Não
sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele", escreveu
Flávio Bolsonaro. "Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes
que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa."
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Confira abaixo as personalidades históricas citadas na carta do candidato
derrotado do PL.
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Ruy Barbosa
O que
Flávio Bolsonaro disse: "Ruy Barbosa foi para o exílio por enfrentar o
arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a
liberdade".
Ruy
Barbosa (1849-1923) foi um jurista, político e diplomata brasileiro —
considerado uma das figuras mais importante do começo da República no Brasil.
Ele
ficou famoso por sua defesa da Constituição, das liberdades civis e do Estado
de Direito — e ganhou projeção internacional por seus discursos na Conferência
de Haia de 1907, que discutiu mecanismos internacionais para manter a paz entre
os países. Ele ganhou o apelido de "Águia de Haia".
Durante
o governo de Floriano Peixoto (1891-1894) — o segundo da era da República —,
Ruy Barbosa tornou-se um dos principais críticos do presidente. Ele defendia
que, após a renúncia do primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, a Constituição
exigia a realização de novas eleições, e que Floriano havia permanecido no
poder de forma inconstitucional. Também atuou na defesa jurídica de opositores
presos durante a repressão à Revolta da Armada, um levante de setores da
Marinha contra Floriano Peixoto.
Em
1893, Ruy Barbosa passou a sofrer perseguição do governo por suas posições.
Para evitar a prisão, refugiou-se inicialmente na representação diplomática do
Chile e depois deixou o Brasil, vivendo em Buenos Aires, Lisboa, Paris e
Londres.
Do
exterior, continuou escrevendo contra o que considerava abusos do governo
Floriano, retornando ao país apenas em 1895.
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Charles de Gaulle
O que
Flávio Bolsonaro disse: "Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir
de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o
seu país."
Charles
de Gaulle (1890-1970) foi um general e presidente da França, considerado uma
das figuras mais importantes da resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra
Mundial.
Em
junho de 1940, após a derrota militar francesa para a Alemanha, de Gaulle
recusou-se a aceitar a rendição do país e a colaborar com o regime de Vichy,
que passou a governar parte da França sob influência alemã.
Exilado
em Londres, de Gaulle lançou um apelo transmitido pela BBC, conclamando os
franceses a continuarem a luta contra a Alemanha nazista. A partir do Reino
Unido, o general organizou o movimento conhecido como França Livre, reunindo
apoiadores da resistência francesa espalhados pelo mundo. Ele foi condenado à
morte à revelia pelas autoridades de Vichy.
Quando
a França foi libertada dos nazistas em 1944, ele foi recebido com festa em
Paris e assumiu a liderança do governo provisório francês. Entre 1959 e 1969,
foi presidente do país.
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José Martí
O que
Flávio Bolsonaro disse: "José Martí organizou a luta pela independência de
Cuba a partir de Nova York."
José
Martí (1853-1895) foi um poeta, jornalista e político cubano, considerado o
principal herói da luta pela independência de Cuba, proclamada em 1902. Foi
perseguido na juventude por fazer oposição ao domínio colonial da Espanha sobre
a ilha.
Grande
parte de sua atuação política ocorreu fora de Cuba, especialmente em Nova York,
onde viveu por cerca de 15 anos. A partir dos EUA, Martí escreveu artigos, fez
discursos, arrecadou recursos e trabalhou para unir grupos de exilados cubanos
em torno da causa da independência. Em 1892, ele fundou no exílio o Partido
Revolucionário Cubano, criado para organizar a luta contra o domínio espanhol.
Martí
coordenou esforços em favor da independência e ajudou a planejar a insurreição
que seria iniciada em 1895. Naquele mesmo ano, retornou a Cuba para participar
da luta e morreu em combate na batalha de Dos Ríos, tornando-se um dos maiores
símbolos da nação cubana.
<><> Juan Guaidó, Edmundo González e María
Corina Machado
O que
Flávio Bolsonaro disse: "Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González
tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina
Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um
símbolo mundial da resistência democrática".
Juan
Guaidó é um político venezuelano que concorreu contra o então presidente
Nicolás Maduro em uma eleição em 2019. Guaidó se autoproclamou presidente
interino da Venezuela, alegando que a vitória de Nicolás Maduro havia sido
ilegítima.
Após
anos de disputa política e crescente pressão do governo, Guaidó deixou o país
em 2023. No exterior, especialmente nos EUA, continuou denunciando o governo
Maduro e defendendo eleições livres.
Edmundo
González é um diplomata e político venezuelano que se tornou o principal
candidato da oposição na eleição presidencial de 2024, novamente contra Maduro.
Após o pleito, cuja legitimidade foi contestada pela oposição e por diversos
governos estrangeiros, González deixou a Venezuela e passou a viver na Espanha.
Do exterior, continuou reivindicando a vitória eleitoral da oposição e atuando
contra o governo de Maduro.
María
Corina Machado é uma das mais conhecidas líderes da oposição venezuelana e
vencedora do Prêmio Nobel da Paz do ano passado. Impedida pelas autoridades
venezuelanas de concorrer à Presidência em 2024, ela apoiou a candidatura de
Edmundo González. A maior parte da sua atuação aconteceu dentro da Venezuela,
muitas vezes em locais secretos, e não no exílio. Ela deixou a Venezuela em
dezembro de 2025, para receber o Nobel da Paz, e só retornou neste mês, após
temporadas nos EUA e no Panamá.
Fonte:
DW Brasil/BBC News Brasil

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