sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Marcelo Aith: A fuga de Flávio Bolsonaro

A chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, acompanhado da mulher e das filhas, depois da derrota eleitoral e da determinação judicial de entrega dos passaportes, desloca o debate das urnas para a responsabilidade perante a Justiça. Segundo as informações divulgadas na terça-feira, 27 de outubro, o senador deixou o Brasil apesar da proibição de saída e não apresentou os documentos no prazo fixado. Nesse contexto, investigar as condições materiais dessa partida exige examinar os vínculos financeiros e empresariais que a Polícia Federal vem colocando sob escrutínio.

De início, cumpre delimitar o quadro: as informações públicas consultadas identificam dois inquéritos criminais atuais contra Flávio Bolsonaro no Supremo, um relacionado ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e outro às relações com o advogado Willer Tomaz, envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro no universo das apostas. A esse panorama soma-se o histórico das “rachadinhas”, cujas apurações foram encerradas após a anulação de provas, circunstância que impede apresentá-las como processos ainda em andamento.

Na investigação fluminense, o Ministério Público atribuiu ao então deputado estadual um esquema de recolhimento de salários de assessores, com suposto desvio de R$ 6,1 milhões. Foram examinados o papel de Fabrício Queiroz, operações imobiliárias e a suspeita de lavagem de R$ 1,6 milhão por uma franquia de chocolates. Também apareceram repasses de familiares de Adriano da Nóbrega empregados no gabinete. Todavia, essas imputações não resultaram em condenação, e o encerramento decorrente da invalidação das provas precisa acompanhar qualquer referência ao episódio, sob pena de transformar uma acusação histórica em culpa juridicamente estabelecida.

O núcleo mais recente envolve Willer Tomaz. Segundo os elementos extraídos das investigações da PF, a apuração surgiu de investigação sobre intermediadoras de pagamentos e apostas que tramitava no Rio Grande do Sul. A análise de arquivos armazenados na nuvem do advogado revelou documentos pessoais, registros de encontros, viagens e referências bancárias relacionadas ao senador, levando o caso ao Supremo. Embora Willer Tomaz também tenha sido alvo da Operação Sem Desconto, essa circunstância não permite afirmar, automaticamente, que Flávio Bolsonaro participou das fraudes contra aposentados do INSS.

Entre os dados financeiros divulgados, a PF examina R$ 1,4 bilhão em transações envolvendo Willer Tomaz e a plataforma Blaze, além de aproximadamente R$ 130 milhões movimentados em sua conta no Magnum Bank entre março e maio de 2025. Os investigadores analisam circulação entre contas e transferências fracionadas, buscando esclarecer origem, destino e possível ocultação de beneficiários. Esses montantes representam movimentações investigadas, não patrimônio comprovadamente pertencente a Flávio Bolsonaro nem valores definitivamente reconhecidos como ilícitos. Willer Tomaz contesta os números e a hipótese de sociedade oculta, sustentando que sua relação com a plataforma era de apostador.

A conexão bancária mais sensível passa pela Alcazar Holdings, empresa de Willer Tomaz registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Conforme a interpretação policial divulgada pela imprensa, documentos e um e-mail de 22 de maio de 2025, solicitando a exclusão de acesso, indicariam que Flávio Bolsonaro figurava como “usuário master” de uma conta empresarial. Para a PF, esse perfil poderia representar capacidade relevante de gerenciamento e, considerado com outros vínculos, justificar a investigação de eventual participação econômica ou societária de fato.

Não obstante, uma informação posterior impede tratar essa hipótese como conclusão: segundo documentos noticiados pela CNN em 27 de outubro, o Santander informou ao Supremo que Willer Tomaz era o único usuário master e que Flávio Bolsonaro não aparecia no histórico de cadastrados, sequer em perfil secundário. A divergência entre os e-mails interpretados pela polícia e a resposta bancária precisa ser esclarecida mediante documentação integral e registros de acesso. O compromisso com a apuração exige apresentar também o elemento que contraria a suspeita.

É nesse ponto que o debate sobre contas em paraísos fiscais reclama precisão. A existência da offshore na Madeira e de sua conta empresarial integra o material divulgado, mas não comprova que Flávio Bolsonaro seja titular de contas pessoais naquela jurisdição ou proprietário dos recursos. Tampouco a sede estrangeira da empresa demonstra, por si, onde a conta está domiciliada. A pergunta relevante é quem efetivamente controlava o dinheiro, quem dele se beneficiava e se as operações tinham justificativa econômica, questões que a investigação ainda precisa responder diante das negativas dos envolvidos.

Outros elementos ajudam a dimensionar a relação. Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro, familiares e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale a Brasília em um Legacy 650 pertencente à Fraction 024, ligada à estrutura da Prime You, fundada por Daniel Vorcaro. Documentos mencionam pagamento de R$ 8,72 milhões da Alcazar à Fraction 024. Já em abril e maio, deslocamentos entre Lisboa, Cascais, Nice e Paris tiveram pelo menos três trechos custeados pela Cathedral, ligada à Rede Loto. Willer Tomaz afirma que ofereceu viagens a amigos utilizando sua cota de aeronave, explicação que deve ser confrontada com os pagamentos empresariais identificados.

A dimensão regulatória também merece atenção. A Rede Loto obteve autorização da Loterj em 2023, quando a autarquia era presidida por Hazenclever Cançado, indicado, segundo a Folha de S. Paulo, por sugestão de Flávio Bolsonaro e anteriormente ligado profissionalmente a Willer Tomaz. Outra empresa vinculada ao advogado, a RioPag, tornou-se responsável pelo processamento de pagamentos das apostas credenciadas e faturou quase R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026. São conexões que justificam verificar eventual favorecimento e contrapartidas, sem confundir indicação política ou relacionamento profissional com prova suficiente de corrupção. Os envolvidos negam irregularidades.

A gravidade atribuída ao caso levou o ministro Alexandre de Moraes, em 23 de outubro, a determinar o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer Tomaz, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial e medidas contra suas atividades empresariais. A decisão ocorreu após a PF identificar sua viagem a Miami. Insta asseverar que o teto do bloqueio não equivale a dinheiro efetivamente encontrado, muito menos autoriza atribuir esse patrimônio ao senador.

Na outra frente, Dark Horse apresenta uma trilha internacional própria. Segundo relatórios policiais descritos pela Agência Brasil, Flávio Bolsonaro solicitou aproximadamente R$ 131 milhões a Daniel Vorcaro, dos quais cerca de R$ 60 milhões teriam sido pagos. Mensagens mostram cobranças de parcelas, preocupação com compromissos da produção e interlocução direta com o banqueiro. Um relatório de inteligência financeira apontou pelo menos sete remessas da Entre Investimentos ao Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, somando US$ 12,33 milhões. A primeira, de US$ 2 milhões, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025.

Administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, o fundo é peça central para esclarecer os beneficiários finais. A PF apura se parte dos recursos enviados para o filme teria custeado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, hipótese negada pelos irmãos e ainda sem comprovação conclusiva nas fontes consultadas. Existe, paralelamente, investigação sobre possíveis recursos de emendas destinados à produtora, mas a reportagem que detalhou essa frente esclareceu que Flávio Bolsonaro não era investigado naquele inquérito específico, distinção indispensável para evitar a soma artificial de acusações.

Sob a perspectiva jurídica, o risco de fuga exige fatos concretos, e não antipatia política, riqueza ou parentesco. O artigo 312 do Código de Processo Penal exige fundamentação individualizada para medidas destinadas a assegurar a aplicação da lei penal, sem admitir punição antecipada. Por isso, a discussão sobre eventual evasão deve considerar a ciência da ordem judicial, a cronologia da partida e os meios disponíveis para permanecer fora do alcance imediato das autoridades brasileiras.

À luz dos fatos noticiados, há fundamento para sustentar que o risco de fuga era concreto: somavam-se a disponibilidade de deslocamentos internacionais, o acesso a pessoas com estruturas financeiras no exterior, o irmão já estabelecido nos Estados Unidos e, depois, o descumprimento comunicado pela PF. Isso não comprova patrimônio oculto próprio, mas revela condições materiais para uma permanência prolongada fora do Brasil.

Se a investigação demonstrar que Eduardo Bolsonaro era mantido com recursos enviados para Dark Horse, ficará esclarecido um possível mecanismo adicional de sustentação familiar no exterior. Até lá, essa suspeita deve conservar seu nome; a saída diante da ordem judicial, entretanto, já impõe uma pergunta incontornável sobre a efetividade da Justiça quando o investigado dispõe de meios para atravessar fronteiras.

•        Os bolsonaristas que já fugiram do Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL) se tornou na terça-feira (28/10) o mais novo expoente do bolsonarismo a fugir do Brasil. Depois de um dia de mistério na imprensa nacional e estrangeirasobre o seu paradeiro, ele pousou nesta quarta em Miami, no estado da Flórida, nos Estados Unidos, onde deverá receber asilo político do presidente Donald Trump.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro repete os passos do pai, que ensaiou uma fuga ao deixar o Brasil após ser derrotado nas urnas em 2022.

Também o patriarca do clã Bolsonaro embarcou para os EUA a dois dias da posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele evitou, assim, passar a faixa presidencial ao sucessor, um fato inédito desde a redemocratização. O então presidente já era investigado pela Justiça.

A sua saída gerou especulações de que ele queria evitar estar no país quando terminasse o mandato, embora não tivesse sido proibido de deixar o Brasil, como é o caso de Flávio. Ele retornaria ao Brasil após 89 dias, em março de 2023.

Mas, desde 2020, várias outras figuras da extrema direita já foram viver no exterior por tempo indefinido. Todos eles viajaram, clandestinamente ou não, para escapar da Justiça, e o governo brasileiro corre atrás de extradições.

Relembre abaixo os casos mais marcantes de bolsonaristas que já fugiram do Brasil.

<><> Eduardo Bolsonaro, em campanha nos EUA

O agora ex-deputado federal pelo PL de São Paulo foi o primeiro do clã a se estabelecer por tempo indefinido nos Estados Unidos. Ele deixou o Brasil em março de 2025 e pediu afastamento do cargo de parlamentar.

Eduardo alegava que corria risco de ser preso pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Não havia, entretanto, ordem de prisão contra ele à época da sua saída.

Num vídeo gravado a apoiadores para anunciar a decisão de ficar nos EUA, Eduardo chamou a decisão de "a mais difícil da sua vida". O filho 03 já investia no discurso de perseguição política que agora se espera também do seu irmão Flávio.

Meses depois, em novembro de 2025, o STF tornaria Eduardo réu sob a acusação de coação. A acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) era que Eduardo vinha articulando sanções dos EUA contra o Brasil para evitar a condenação do pai.

O STF o condenou pelo crime em junho de 2026, sem que Eduardo tenha se apresentado à Justiça. Ele é agora considerado foragido e vive no estado do Texas.

<><> Carla Zambelli, presa na Itália

A então deputada federal pelo PL de São Paulo fugiu para a Itália em maio de 2025. Dias antes, ela havia sido condenada a dez anos de prisão pelo STF por ter cometido um ataque hacker contra o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Assim como Flávio, Zambelli atravessou a fronteira com a Argentina, que não exige apresentação de passaporte, para então seguir viagem à Flórida, nos EUA, e depois à Itália.

Três meses mais tarde, ela seria ainda condenada uma segunda vez pelo Supremo: cinco anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo.

A condenação se referia ao episódio em que ela sacou uma arma de fogo e perseguiu o jornalista Luan Araújo às vésperas do segundo turno das eleições de 2022.

Foragida da Justiça brasileira, Zambelli tem cidadania italiana e, por isso, chegou a dizer que estaria protegida da extradição.

Mas ela acabou localizada e presa por autoridades italianas em julho de 2025, uma vez que seu nome estava na lista de difusão vermelha da Interpol. Ela saiu da prisão em maio de 2026 e, desde então, tenta na Justiça italiana evitar a extradição.

Neste ano, a Justiça italiana chegou a autorizar a extradição de Zambelli ao Brasil mas, depois, a decisão foi anulada.

<><> Alexandre Ramagem, pego pelo ICE

Em setembro do ano passado, o então deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro fugiu do país para evitar o cumprimento da pena de 16 anos de prisão pela trama golpista no governo de Jair Bolsonaro.

Durante a investigação sobre o caso, ele foi proibido pelo STF de sair do Brasil. Segundo a Polícia Federal, Ramagem (também ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência) fugiu pela fronteira com a Guiana e embarcou para os Estados Unidos com passaporte diplomático, que não estava apreendido.

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados declararia, em dezembro de 2025, a cassação do mandato de Ramagem.

Em abril deste ano, ele chegou a ser preso pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) de Trump e levado a um centro de detenção na Flórida. Ele foi liberado dois dias depois.

Segundo a PF, Ramagem foi detido por questões migratórias. Ele estaria esperando a resposta para um pedido de asilo político nos EUA.

O governo brasileiro apresentou às autoridades dos Estados Unidos um pedido de extradição, que ainda está pendente de decisão.

<><>Silvinei Vasques, entregue pelo Paraguai

Outro condenado pelo STF no julgamento da trama golpista, o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) fugiu na noite de Natal do ano passado para o Paraguai.

De lá, ele pretendia tomar um voo para El Salvador, mas foi preso em Assunção quando tentava embarcar. Acabou entregue à PF dois dias depois da fuga, na Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Ciudad del Leste.

Vasques havia sido sentenciado a 24 anos e seis meses de prisão por crimes contra a democracia. Ele cumpria prisão domiciliar em Santa Catarina quando a PF recebeu um aviso de rompimento de sua tornozeleira eletrônica, que usava como medida cautelar desde agosto de 2024.

O ex-diretor da PRF compunha o "núcleo 2" da trama golpista. Segundo a PGR, ele era responsável por "gerenciar ações da organização criminosa" quando ocupava a chefia da corporação.

O STF acatou a tese de que Vasques, apoiador explícito do bolsonarismo, instituiu operações de fiscalização da PRF no segundo turno da eleição presidencial de 2022, com o objetivo de dificultar a circulação de eleitores em regiões majoritariamente favoráveis a Lula.

<><> Allan dos Santos, o primeiro fugitivo

O blogueiro bolsonarista fugiu para os EUA em 2020, quando era alvo de uma investigação no âmbito do inquérito das fake news, então sob a relatoria de Moraes.

Assim como mais tarde faria Eduardo, ele justificou a saída afirmando que tinha como objetivo denunciar internacionalmente o STF. Moraes determinaria a sua prisão preventiva no ano seguinte. Desde então, o blogueiro é considerado foragido.

A PF concluiu que Santos, "a pretexto de atuar como jornalista", se tornou um dos organizadores de um movimento responsável por ataques à Constituição, aos poderes de Estado e à democracia.

Allan continuou suas atividades nos Estados Unidos. Ele teria se associado a pessoas ligadas à invasão do Capitólio, a sede do Congresso americano, que tentaram reverter à força a derrota de Trump nas urnas em 2020.

<><> Oswaldo Eustáquio, blogueiro na Espanha

O também blogueiro ligado ao bolsonarismo fugiu para a Espanha em 2023. Ele tinha mandado de prisão em aberto e deixou o Brasil quando era investigado por impulsionar ataques extremistas contra o STF e o Congresso por meio das redes sociais.

Eustáquio participou dos acampamentos em Brasília que pediam um golpe de Estado após a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas. Nesta semana, o STF aceitou denúncia contra ele por associação criminosa.

Ele teria sido abrigado no Palácio da Alvorada no governo Bolsonaro, porque temia ser preso.

Em 2025, a Justiça da Espanha negou um pedido de extradição pelo governo brasileiro, afirmando que ele era alvo de uma investigação com "motivação política".

 

Fonte: A Terra é Redonda/DW Brasil

 

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