Marcelo
Aith: A fuga de Flávio Bolsonaro
A
chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, acompanhado da mulher e das
filhas, depois da derrota eleitoral e da determinação judicial de entrega dos
passaportes, desloca o debate das urnas para a responsabilidade perante a
Justiça. Segundo as informações divulgadas na terça-feira, 27 de outubro, o
senador deixou o Brasil apesar da proibição de saída e não apresentou os
documentos no prazo fixado. Nesse contexto, investigar as condições materiais
dessa partida exige examinar os vínculos financeiros e empresariais que a
Polícia Federal vem colocando sob escrutínio.
De
início, cumpre delimitar o quadro: as informações públicas consultadas
identificam dois inquéritos criminais atuais contra Flávio Bolsonaro no
Supremo, um relacionado ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair
Bolsonaro, e outro às relações com o advogado Willer Tomaz, envolvendo
suspeitas de lavagem de dinheiro no universo das apostas. A esse panorama
soma-se o histórico das “rachadinhas”, cujas apurações foram encerradas após a
anulação de provas, circunstância que impede apresentá-las como processos ainda
em andamento.
Na
investigação fluminense, o Ministério Público atribuiu ao então deputado
estadual um esquema de recolhimento de salários de assessores, com suposto
desvio de R$ 6,1 milhões. Foram examinados o papel de Fabrício Queiroz,
operações imobiliárias e a suspeita de lavagem de R$ 1,6 milhão por uma
franquia de chocolates. Também apareceram repasses de familiares de Adriano da
Nóbrega empregados no gabinete. Todavia, essas imputações não resultaram em
condenação, e o encerramento decorrente da invalidação das provas precisa
acompanhar qualquer referência ao episódio, sob pena de transformar uma
acusação histórica em culpa juridicamente estabelecida.
O
núcleo mais recente envolve Willer Tomaz. Segundo os elementos extraídos das
investigações da PF, a apuração surgiu de investigação sobre intermediadoras de
pagamentos e apostas que tramitava no Rio Grande do Sul. A análise de arquivos
armazenados na nuvem do advogado revelou documentos pessoais, registros de
encontros, viagens e referências bancárias relacionadas ao senador, levando o
caso ao Supremo. Embora Willer Tomaz também tenha sido alvo da Operação Sem
Desconto, essa circunstância não permite afirmar, automaticamente, que Flávio
Bolsonaro participou das fraudes contra aposentados do INSS.
Entre
os dados financeiros divulgados, a PF examina R$ 1,4 bilhão em transações
envolvendo Willer Tomaz e a plataforma Blaze, além de aproximadamente R$ 130
milhões movimentados em sua conta no Magnum Bank entre março e maio de 2025. Os
investigadores analisam circulação entre contas e transferências fracionadas,
buscando esclarecer origem, destino e possível ocultação de beneficiários.
Esses montantes representam movimentações investigadas, não patrimônio
comprovadamente pertencente a Flávio Bolsonaro nem valores definitivamente
reconhecidos como ilícitos. Willer Tomaz contesta os números e a hipótese de
sociedade oculta, sustentando que sua relação com a plataforma era de
apostador.
A
conexão bancária mais sensível passa pela Alcazar Holdings, empresa de Willer
Tomaz registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Conforme a interpretação
policial divulgada pela imprensa, documentos e um e-mail de 22 de maio de 2025,
solicitando a exclusão de acesso, indicariam que Flávio Bolsonaro figurava como
“usuário master” de uma conta empresarial. Para a PF, esse perfil poderia
representar capacidade relevante de gerenciamento e, considerado com outros
vínculos, justificar a investigação de eventual participação econômica ou
societária de fato.
Não
obstante, uma informação posterior impede tratar essa hipótese como conclusão:
segundo documentos noticiados pela CNN em 27 de outubro, o Santander informou
ao Supremo que Willer Tomaz era o único usuário master e que Flávio Bolsonaro
não aparecia no histórico de cadastrados, sequer em perfil secundário. A
divergência entre os e-mails interpretados pela polícia e a resposta bancária
precisa ser esclarecida mediante documentação integral e registros de acesso. O
compromisso com a apuração exige apresentar também o elemento que contraria a
suspeita.
É nesse
ponto que o debate sobre contas em paraísos fiscais reclama precisão. A
existência da offshore na Madeira e de sua conta empresarial integra o material
divulgado, mas não comprova que Flávio Bolsonaro seja titular de contas
pessoais naquela jurisdição ou proprietário dos recursos. Tampouco a sede
estrangeira da empresa demonstra, por si, onde a conta está domiciliada. A
pergunta relevante é quem efetivamente controlava o dinheiro, quem dele se
beneficiava e se as operações tinham justificativa econômica, questões que a
investigação ainda precisa responder diante das negativas dos envolvidos.
Outros
elementos ajudam a dimensionar a relação. Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro,
familiares e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale a Brasília em um Legacy
650 pertencente à Fraction 024, ligada à estrutura da Prime You, fundada por
Daniel Vorcaro. Documentos mencionam pagamento de R$ 8,72 milhões da Alcazar à
Fraction 024. Já em abril e maio, deslocamentos entre Lisboa, Cascais, Nice e
Paris tiveram pelo menos três trechos custeados pela Cathedral, ligada à Rede
Loto. Willer Tomaz afirma que ofereceu viagens a amigos utilizando sua cota de
aeronave, explicação que deve ser confrontada com os pagamentos empresariais
identificados.
A
dimensão regulatória também merece atenção. A Rede Loto obteve autorização da
Loterj em 2023, quando a autarquia era presidida por Hazenclever Cançado,
indicado, segundo a Folha de S. Paulo, por sugestão de Flávio Bolsonaro e
anteriormente ligado profissionalmente a Willer Tomaz. Outra empresa vinculada
ao advogado, a RioPag, tornou-se responsável pelo processamento de pagamentos
das apostas credenciadas e faturou quase R$ 188 milhões entre junho de 2023 e
agosto de 2026. São conexões que justificam verificar eventual favorecimento e
contrapartidas, sem confundir indicação política ou relacionamento profissional
com prova suficiente de corrupção. Os envolvidos negam irregularidades.
A
gravidade atribuída ao caso levou o ministro Alexandre de Moraes, em 23 de
outubro, a determinar o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer Tomaz, a quebra
dos sigilos bancário, fiscal e cambial e medidas contra suas atividades
empresariais. A decisão ocorreu após a PF identificar sua viagem a Miami. Insta
asseverar que o teto do bloqueio não equivale a dinheiro efetivamente
encontrado, muito menos autoriza atribuir esse patrimônio ao senador.
Na
outra frente, Dark Horse apresenta uma trilha internacional própria. Segundo
relatórios policiais descritos pela Agência Brasil, Flávio Bolsonaro solicitou
aproximadamente R$ 131 milhões a Daniel Vorcaro, dos quais cerca de R$ 60
milhões teriam sido pagos. Mensagens mostram cobranças de parcelas, preocupação
com compromissos da produção e interlocução direta com o banqueiro. Um
relatório de inteligência financeira apontou pelo menos sete remessas da Entre
Investimentos ao Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, somando US$
12,33 milhões. A primeira, de US$ 2 milhões, ocorreu em 13 de fevereiro de
2025.
Administrado
por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, o fundo é peça central
para esclarecer os beneficiários finais. A PF apura se parte dos recursos
enviados para o filme teria custeado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos, hipótese negada pelos irmãos e ainda sem comprovação conclusiva
nas fontes consultadas. Existe, paralelamente, investigação sobre possíveis
recursos de emendas destinados à produtora, mas a reportagem que detalhou essa
frente esclareceu que Flávio Bolsonaro não era investigado naquele inquérito
específico, distinção indispensável para evitar a soma artificial de acusações.
Sob a
perspectiva jurídica, o risco de fuga exige fatos concretos, e não antipatia
política, riqueza ou parentesco. O artigo 312 do Código de Processo Penal exige
fundamentação individualizada para medidas destinadas a assegurar a aplicação
da lei penal, sem admitir punição antecipada. Por isso, a discussão sobre
eventual evasão deve considerar a ciência da ordem judicial, a cronologia da
partida e os meios disponíveis para permanecer fora do alcance imediato das
autoridades brasileiras.
À luz
dos fatos noticiados, há fundamento para sustentar que o risco de fuga era
concreto: somavam-se a disponibilidade de deslocamentos internacionais, o
acesso a pessoas com estruturas financeiras no exterior, o irmão já
estabelecido nos Estados Unidos e, depois, o descumprimento comunicado pela PF.
Isso não comprova patrimônio oculto próprio, mas revela condições materiais
para uma permanência prolongada fora do Brasil.
Se a
investigação demonstrar que Eduardo Bolsonaro era mantido com recursos enviados
para Dark Horse, ficará esclarecido um possível mecanismo adicional de
sustentação familiar no exterior. Até lá, essa suspeita deve conservar seu
nome; a saída diante da ordem judicial, entretanto, já impõe uma pergunta
incontornável sobre a efetividade da Justiça quando o investigado dispõe de
meios para atravessar fronteiras.
• Os bolsonaristas que já fugiram do
Brasil
O
senador Flávio Bolsonaro (PL) se tornou na terça-feira (28/10) o mais novo
expoente do bolsonarismo a fugir do Brasil. Depois de um dia de mistério na
imprensa nacional e estrangeirasobre o seu paradeiro, ele pousou nesta quarta
em Miami, no estado da Flórida, nos Estados Unidos, onde deverá receber asilo
político do presidente Donald Trump.
O filho
do ex-presidente Jair Bolsonaro repete os passos do pai, que ensaiou uma fuga
ao deixar o Brasil após ser derrotado nas urnas em 2022.
Também
o patriarca do clã Bolsonaro embarcou para os EUA a dois dias da posse de Luiz
Inácio Lula da Silva. Ele evitou, assim, passar a faixa presidencial ao
sucessor, um fato inédito desde a redemocratização. O então presidente já era
investigado pela Justiça.
A sua
saída gerou especulações de que ele queria evitar estar no país quando
terminasse o mandato, embora não tivesse sido proibido de deixar o Brasil, como
é o caso de Flávio. Ele retornaria ao Brasil após 89 dias, em março de 2023.
Mas,
desde 2020, várias outras figuras da extrema direita já foram viver no exterior
por tempo indefinido. Todos eles viajaram, clandestinamente ou não, para
escapar da Justiça, e o governo brasileiro corre atrás de extradições.
Relembre
abaixo os casos mais marcantes de bolsonaristas que já fugiram do Brasil.
<><>
Eduardo Bolsonaro, em campanha nos EUA
O agora
ex-deputado federal pelo PL de São Paulo foi o primeiro do clã a se estabelecer
por tempo indefinido nos Estados Unidos. Ele deixou o Brasil em março de 2025 e
pediu afastamento do cargo de parlamentar.
Eduardo
alegava que corria risco de ser preso pelo ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF). Não havia, entretanto, ordem de prisão contra
ele à época da sua saída.
Num
vídeo gravado a apoiadores para anunciar a decisão de ficar nos EUA, Eduardo
chamou a decisão de "a mais difícil da sua vida". O filho 03 já
investia no discurso de perseguição política que agora se espera também do seu
irmão Flávio.
Meses
depois, em novembro de 2025, o STF tornaria Eduardo réu sob a acusação de
coação. A acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) era que Eduardo
vinha articulando sanções dos EUA contra o Brasil para evitar a condenação do
pai.
O STF o
condenou pelo crime em junho de 2026, sem que Eduardo tenha se apresentado à
Justiça. Ele é agora considerado foragido e vive no estado do Texas.
<><>
Carla Zambelli, presa na Itália
A então
deputada federal pelo PL de São Paulo fugiu para a Itália em maio de 2025. Dias
antes, ela havia sido condenada a dez anos de prisão pelo STF por ter cometido
um ataque hacker contra o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Assim
como Flávio, Zambelli atravessou a fronteira com a Argentina, que não exige
apresentação de passaporte, para então seguir viagem à Flórida, nos EUA, e
depois à Itália.
Três
meses mais tarde, ela seria ainda condenada uma segunda vez pelo Supremo: cinco
anos e três meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e
constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo.
A
condenação se referia ao episódio em que ela sacou uma arma de fogo e perseguiu
o jornalista Luan Araújo às vésperas do segundo turno das eleições de 2022.
Foragida
da Justiça brasileira, Zambelli tem cidadania italiana e, por isso, chegou a
dizer que estaria protegida da extradição.
Mas ela
acabou localizada e presa por autoridades italianas em julho de 2025, uma vez
que seu nome estava na lista de difusão vermelha da Interpol. Ela saiu da
prisão em maio de 2026 e, desde então, tenta na Justiça italiana evitar a
extradição.
Neste
ano, a Justiça italiana chegou a autorizar a extradição de Zambelli ao Brasil
mas, depois, a decisão foi anulada.
<><>
Alexandre Ramagem, pego pelo ICE
Em
setembro do ano passado, o então deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro
fugiu do país para evitar o cumprimento da pena de 16 anos de prisão pela trama
golpista no governo de Jair Bolsonaro.
Durante
a investigação sobre o caso, ele foi proibido pelo STF de sair do Brasil.
Segundo a Polícia Federal, Ramagem (também ex-diretor da Agência Brasileira de
Inteligência) fugiu pela fronteira com a Guiana e embarcou para os Estados
Unidos com passaporte diplomático, que não estava apreendido.
A Mesa
Diretora da Câmara dos Deputados declararia, em dezembro de 2025, a cassação do
mandato de Ramagem.
Em
abril deste ano, ele chegou a ser preso pelo Serviço de Imigração e Controle de
Aduanas (ICE) de Trump e levado a um centro de detenção na Flórida. Ele foi
liberado dois dias depois.
Segundo
a PF, Ramagem foi detido por questões migratórias. Ele estaria esperando a
resposta para um pedido de asilo político nos EUA.
O
governo brasileiro apresentou às autoridades dos Estados Unidos um pedido de
extradição, que ainda está pendente de decisão.
<><>Silvinei
Vasques, entregue pelo Paraguai
Outro
condenado pelo STF no julgamento da trama golpista, o ex-diretor da Polícia
Rodoviária Federal (PRF) fugiu na noite de Natal do ano passado para o
Paraguai.
De lá,
ele pretendia tomar um voo para El Salvador, mas foi preso em Assunção quando
tentava embarcar. Acabou entregue à PF dois dias depois da fuga, na Ponte da
Amizade, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Ciudad del Leste.
Vasques
havia sido sentenciado a 24 anos e seis meses de prisão por crimes contra a
democracia. Ele cumpria prisão domiciliar em Santa Catarina quando a PF recebeu
um aviso de rompimento de sua tornozeleira eletrônica, que usava como medida
cautelar desde agosto de 2024.
O
ex-diretor da PRF compunha o "núcleo 2" da trama golpista. Segundo a
PGR, ele era responsável por "gerenciar ações da organização
criminosa" quando ocupava a chefia da corporação.
O STF
acatou a tese de que Vasques, apoiador explícito do bolsonarismo, instituiu
operações de fiscalização da PRF no segundo turno da eleição presidencial de
2022, com o objetivo de dificultar a circulação de eleitores em regiões
majoritariamente favoráveis a Lula.
<><>
Allan dos Santos, o primeiro fugitivo
O
blogueiro bolsonarista fugiu para os EUA em 2020, quando era alvo de uma
investigação no âmbito do inquérito das fake news, então sob a relatoria de
Moraes.
Assim
como mais tarde faria Eduardo, ele justificou a saída afirmando que tinha como
objetivo denunciar internacionalmente o STF. Moraes determinaria a sua prisão
preventiva no ano seguinte. Desde então, o blogueiro é considerado foragido.
A PF
concluiu que Santos, "a pretexto de atuar como jornalista", se tornou
um dos organizadores de um movimento responsável por ataques à Constituição,
aos poderes de Estado e à democracia.
Allan
continuou suas atividades nos Estados Unidos. Ele teria se associado a pessoas
ligadas à invasão do Capitólio, a sede do Congresso americano, que tentaram
reverter à força a derrota de Trump nas urnas em 2020.
<><>
Oswaldo Eustáquio, blogueiro na Espanha
O
também blogueiro ligado ao bolsonarismo fugiu para a Espanha em 2023. Ele tinha
mandado de prisão em aberto e deixou o Brasil quando era investigado por
impulsionar ataques extremistas contra o STF e o Congresso por meio das redes
sociais.
Eustáquio
participou dos acampamentos em Brasília que pediam um golpe de Estado após a
derrota de Jair Bolsonaro nas urnas. Nesta semana, o STF aceitou denúncia
contra ele por associação criminosa.
Ele
teria sido abrigado no Palácio da Alvorada no governo Bolsonaro, porque temia
ser preso.
Em
2025, a Justiça da Espanha negou um pedido de extradição pelo governo
brasileiro, afirmando que ele era alvo de uma investigação com "motivação
política".
Fonte:
A Terra é Redonda/DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário