Flávio
Bolsonaro, entre o delírio e a desfaçatez
São
delirantes do início ao fim as manifestações do senador Flávio Bolsonaro
divulgadas nesta quarta-feira (28), dia em que chegou fugido aos Estados
Unidos. Em uma primeira versão, mais insolente, autoproclamou-se “o verdadeiro
presidente eleito do Brasil”. Em outra, com um leve recuo, mas em que pouco
diminuiu o grau de desfaçatez, considera-se apenas “o líder do Brasil”.
A
intitulada Carta à Nação Brasileira é desconectada da realidade e de extrema
gravidade pelo incitamento à agitação política e social no país que ele deixou
às escondidas na noite de terça-feira. Espera-se que seus aliados demonstrem
responsabilidade e se dissociem da desestabilização que o senador quer criar no
Brasil ao teimar em não admitir a derrota limpa no segundo turno da eleição
presidencial, no último domingo.
A
atitude do senador apenas confirma a vocação golpista da família Bolsonaro.
Aguarda-se
também que seus eleitores de boa-fé repudiem a manobra do senador. Convém
lembrar o infame 8 de janeiro de 2023, quando a invasão e a depredação dos
prédios dos três poderes, em Brasília, levaram à prisão milhares de brasileiros
comuns que acreditaram nas teorias conspiratórias criadas pelo bolsonarismo.
A
atitude de Flávio apenas confirma a vocação golpista da família Bolsonaro. Ao
que parece, não foi suficiente a condenação e a prisão do pai, o ex-presidente
Jair Bolsonaro, por tentar uma ruptura institucional no país após perder a
eleição para o Planalto em 2022. O clã segue a dobrar a aposta, pouco
importando os fatos e evidências. Para a família, apenas os pleitos que vence
são válidos. O próprio PL, o seu partido, reconheceu o resultado. O governador
reconduzido de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também disse nesta quarta que a
eleição é página virada.
São
totalmente falsas as alegações do senador de que viu no domingo uma fraude
eleitoral se materializar diante de seus olhos. O resultado foi certificado
pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes
Marques, indicado por Jair Bolsonaro para o STF por articulação protagonizada
pelo próprio senador. Já foi demonstrado, de forma transparente, que o
prolongamento do horário de funcionamento das seções eleitorais acrescentou
apenas 34 mil votos, 0,03% do total.
Se é
verdade que o ministro do STF Alexandre de Moraes agiu mal ao deferir pedido da
Polícia Federal ainda no domingo para apreender o passaporte do senador e
proibi-lo de deixar o país, também se torna cada vez mais cristalino que a
decisão foi a desculpa perfeita para Flávio pôr em marcha um plano para se
evadir do Brasil em caso de derrota. Ao fim, a barbeiragem veio a calhar para
comportar-se de forma pusilânime. O homem que poucas horas antes bradava
corajosamente que lideraria a oposição e negava a intenção de fugir escapou do
Brasil na primeira oportunidade. Abandonou seus quase 60 milhões de eleitores.
Flávio
Bolsonaro foi embora às pressas não por se considerar um perseguido político,
como sustenta, mas por saber que em breve não teria a proteção da imunidade
parlamentar, enquanto avançam investigações contra ele por corrupção, evasão de
divisas e lavagem de dinheiro. São suspeitas graves, amparadas por indícios
fortes. Se firmeza fosse uma de suas virtudes, permaneceria no Brasil para
esclarecer os fatos nos quais está implicado e para se defender. Voltou a ser
valente – para os incautos – apenas bem longe do país, na companhia do irmão,
Eduardo Bolsonaro, que pelos interesses da família bateu em retirada antes para
conspirar contra a economia brasileira.
• Nos EUA, Flávio Bolsonaro contesta
resultado da eleição e agradece apoio de Trump e Milei
O
senador Flávio Bolsonaro (PL) publicou nesta quarta-feira (28), na rede social
X, uma carta dirigida à “Nação Brasileira” na qual contesta o resultado do
segundo turno da eleição presidencial e acusa o Supremo Tribunal Federal (STF)
de atuar politicamente para favorecer a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva
(PT). No documento, o parlamentar afirma estar nos Estados Unidos com a família
e diz que vai liderar a oposição ao governo do exterior.
Na
carta, Flávio opina que houve fraude eleitoral e questiona a decisão que
estendeu o horário de votação. Segundo ele, a medida submeteu eleitores a
regras diferentes. Afirma ainda que o país vive um “regime de exceção” e que a
Suprema Corte está “aparelhada” por uma “organização criminosa”. O texto,
entretanto, não apresenta provas que sustentem as acusações.
O
senador agradece ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao
presidente da Argentina, Javier Milei, a quem atribui apoio e acolhimento. Diz
que o governo norte-americano lhe proporcionou a “segurança jurídica que não
temos mais no Brasil”.
Flávio
argumenta que deixou o país para escapar do que classifica como perseguição
política e nega ter fugido. Em suas palavras, “saiu pelo Brasil”. Também
declara que não existe mandado de prisão contra ele e cita Rui Barbosa, Charles
de Gaulle e José Martí como exemplos de lideranças que atuaram no exílio.
Na
parte final, pede à comunidade internacional que não “normalize” a situação
política brasileira, cobra das instituições o restabelecimento do equilíbrio
entre os Poderes e afirma que apresentará, nos próximos dias, uma estratégia
para mobilizar a oposição “por todos os meios pacíficos e legítimos”.
A
versão original da carta, divulgada nesta quarta-feira (28), às
17h41min,começava com Flávio se apresentando como “o verdadeiro presidente
eleito do Brasil”. Na versão revisada, às 18h05min, o trecho foi retirado. O
senador também alterou a passagem em que se definia como “presidente eleito”:
na nova versão, passou a se apresentar como “o líder” e a se definir como “a
voz e a liderança livre da nossa nação”.
A carta
foi publicada em meio à questionamentos sobre as motivações da fuga do senador
do país. Na segunda-feira (26), Flávio divulgou um vídeo nas redes sociais em
que afirmou ter sido intimado pela Polícia Federal (PF) a entregar seus
passaportes, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A medida
estaria relacionada a investigação que envolveria suspeitas sobre o
financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e possíveis vínculos
do senador com o advogado Willer Tomaz. No vídeo, Flávio classificou a decisão
como uma tentativa de intimidação e disse que entregaria os documentos e se
defenderia. Depois, ele empreendeu a saída do país pela Argentina, passando
pelo Equador e indo para os EUA. Aliados disseram desconhecer o plano de fuga
do senador.
No
domingo (25), após a divulgação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), Flávio já havia questionado a eleição em uma declaração à imprensa. Na
ocasião, afirmou que não reconheceria a vitória de Lula e anunciou que pediria
a anulação do pleito, alegando irregularidades relacionadas à extensão do
horário de votação, pedido que foi feito pelas campanhas dos dois
presidenciáveis. A posição contrastou com a do PL, partido do senador, que
reconheceu oficialmente o resultado na segunda-feira (26), em nota assinada
pelo presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, embora tenha
defendido o esclarecimento de questionamentos sobre a disputa.
As
acusações de fraude opõem-se aos dados oficiais da eleição. Segundo o Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), a extensão do horário de votação até as 19h resultou
em 34.393 votos registrados após as 17h em todo o país. O resultado também foi
reconhecido pelo PL, partido de Flávio, além dos presidentes da Câmara dos
Deputados e do Senado e da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Justiça
Eleitoral afirma que a mudança na votação entre os turnos não comprova fraude e
que não há evidências que sustentem essa alegação.
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Eis a carta.
# Carta
à nação brasileira
28 de
outubro de 2026
Dirijo-me
ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente
eleito do Brasil.
Antes
de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de
justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por
me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos
valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor
da liberdade de expressão.
Na
noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos
meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que
uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10
milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada
por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a
ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam
encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE
se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única
resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a
campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em
favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que
justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A
resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano
previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o
juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no
inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito
provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs
em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de
origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial
contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da
arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era
minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar.
Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política
que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para
milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos
americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde
com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte
aparelhada pela organização criminosa petista.
Para
deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não
cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada,
que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes
corruptos da Suprema Corte do impeachment. Eis o roteiro da perseguição:
apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar,
julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou
submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este
vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no
Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança.
Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos
acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero
deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de
exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e
censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos
entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela
Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou
o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o
exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a
lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de
Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar seu
país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova
York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país
por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se
recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência
democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que
enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é
apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela
liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores,
mas para o povo brasileiro, que eu sou o líder e os criminosos que roubaram a
eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma
tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a
voz e a liderança livre da nossa nação.
Às
instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil
vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a
oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como
inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim.
Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos
brasileiros a confiança que perderam.
À
comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no
Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado
como normal.
Aos
senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu
candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm
a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso,
liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei
os riscos que vocês não podem correr.
E a
você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não
estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos
direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir
regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar
a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e
legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço
a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do
Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de
outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia
vai chegar.
Que
Deus abençoe o Brasil.
Flávio
Bolsonaro
Fonte:
RBS

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