Como
editoras brasileiras vendem a literatura do Brasil para o mundo
Nos
corredores da Feira do Livro de Frankfurt, além de apresentar lançamentos e
discutir o futuro da literatura, editoras e agentes negociaram direitos de
publicação de obras que poderão chegar a leitores de outros países.
Mas,
apesar do avanço comercial dos últimos anos, fazer com que uma obra brasileira
seja traduzida, publicada e encontre leitores no exterior continua sendo um
desafio. Para agentes literários que trabalham diretamente com o mercado
internacional, o interesse estrangeiro não depende apenas da qualidade dos
livros, mas também de expectativas sobre quais histórias o Brasil tem a
oferecer.
"Num
princípio, não há um interesse per se pela literatura brasileira. Interessam
boas histórias que vendem", afirma a agente literária Nicole Witt, que
representa autores brasileiros em negociações internacionais.
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O que faz um livro brasileiro vender no exterior?
Segundo
Witt, embora a produção brasileira seja diversificada, determinados assuntos
costumam despertar mais interesse entre compradores estrangeiros. Histórias
relacionadas à Amazônia, às culturas indígenas, ao racismo, à identidade sexual
e à condição feminina estão entre os temas com potencial de circulação.
A
agente cita nomes como Ailton Krenak, Carola Saavedra, Paulo Scott, Patrícia
Melo e Tatiana Salem Levy como exemplos de autores cujas obras dialogam com
essas questões.
"Para
vender um livro brasileiro, normalmente ajuda que conte com um elemento que
tenha a ver com o país de procedência do autor ou da autora, como para
'justificar' o esforço adicional de traduzir do português", explica.
Isso
não significa, necessariamente, que o mercado internacional continue
interessado apenas em histórias que reproduzam imagens tradicionais do Brasil.
Witt observa que, nos últimos anos, os clichês perderam parte de seu espaço na
literatura traduzida, acompanhando a diversificação das narrativas e a
circulação de escritores entre diferentes países.
Ainda
assim, a trajetória internacional de um livro pode ser bastante diferente de
seu desempenho no mercado brasileiro. É o caso de A Pediatra, romance de Andréa
del Fuego protagonizado por Cecília, uma médica que não gosta de crianças. Com
uma narrativa marcada pelo humor ácido e pela ironia, a obra ultrapassou 90 mil
exemplares vendidos no Brasil, segundo Witt.
Apesar
do sucesso, a negociação dos direitos encontrou resistência em alguns mercados.
Entre os argumentos apresentados por editores estrangeiros estava o fato de o
romance ser muito diferente de Os Malaquias, obra anterior da escritora, que já
havia sido publicada na Alemanha e na Itália. O humor também foi considerado um
possível obstáculo, por nem sempre atravessar facilmente as fronteiras
culturais.
A
situação começou a mudar quando a tradutora Nina Perrotta apresentou um trecho
do romance no PEN Presents, programa de promoção internacional de literatura
traduzida. A iniciativa despertou o interesse de Linda Mohamed, da editora
britânica Faber and Faber, que adquiriu os direitos para a língua inglesa.
Para
Witt, a reputação de uma editora como a Faber pode estimular o interesse de
outros compradores internacionais pela obra. O episódio mostra como o sucesso
de um livro no exterior depende de uma rede de profissionais e de decisões
editoriais que nem sempre acompanha a recepção da obra em seu país de origem.
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Dos clássicos às novas vozes
Se
autores contemporâneos precisam encontrar maneiras de despertar o interesse de
compradores estrangeiros, os clássicos brasileiros continuam abrindo portas.
Em
janeiro de 2027, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, ganhará novas
traduções para o inglês e o alemão. A edição inglesa, de Alison Entrekin, será
publicada pela Simon & Schuster nos Estados Unidos e pela Bloomsbury no
Reino Unido. Na Alemanha, a editora S. Fischer lançará uma tradução de Berthold
Zilly.
Para
Witt, a circulação internacional também apresenta oportunidades além dos
romances destinados ao público adulto. A série infantojuvenil Pilar, de Flávia
Lins e Silva, por exemplo, ultrapassou 300 mil exemplares vendidos em língua
espanhola, segundo a agente.
A
presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Sevani Matos, considera que a
diversidade é justamente um dos principais atrativos da produção brasileira.
"O mercado internacional busca obras com identidade própria, qualidade
literária e capacidade de dialogar com leitores de diferentes culturas",
afirma.
Segundo
ela, as oportunidades de negócios estão se ampliando para além de mercados
tradicionais, como Europa e América Latina, com iniciativas voltadas também a
regiões como o Oriente Médio.
No
primeiro semestre de 2026, as empresas apoiadas pelo Brazilian Publishers,
programa de internacionalização do mercado editorial brasileiro desenvolvido
pela CBL em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e
Investimentos (ApexBrasil), movimentaram 2,29 milhões de dólares em negócios na
Feira do Livro de Londres, cerca de 200 mil dólares em Bogotá e 170 mil dólares
durante um encontro profissional realizado em Istambul. Os valores incluem
diferentes modalidades de negócios editoriais, e não apenas a venda de direitos
de tradução.
O
Brasil desembarcou na Feira do Livro de Frankfurt, que ocorreu no início de
outubro, com uma expectativa de movimentar 8,1 milhões de dólares em negócios.
O país chegou à Alemanha embalado por resultados positivos. No primeiro
semestre de 2026, as empresas participantes do programa movimentaram
aproximadamente 8 milhões de dólares em negócios internacionais, incluindo a
exportação de livros físicos e a comercialização de direitos autorais. A venda
de direitos representou 44,65% do total, ante 17,34% em 2025.
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O desafio de atravessar fronteiras
Para
que um livro brasileiro chegue às livrarias estrangeiras, a qualidade literária
e o potencial comercial precisam ser acompanhados por uma estrutura de promoção
e distribuição internacional.
A
barreira linguística continua entre os principais obstáculos. Como o português
tem circulação relativamente restrita no mercado editorial global, a tradução
de trechos e a preparação de materiais em outras línguas podem ser decisivas
para que um livro seja considerado por uma editora estrangeira. Também são
importantes os programas de incentivo à tradução, que ajudam a reduzir os
custos de publicação.
Witt
destaca a relevância das bolsas oferecidas pela Fundação Biblioteca Nacional,
mas observa que a variação das datas e os prazos curtos das chamadas recentes
podem dificultar o planejamento das candidaturas.
Para
Sevani Matos, a internacionalização exige investimentos contínuos e a
construção de relacionamentos comerciais de longo prazo. Os resultados da
participação brasileira em Frankfurt, por exemplo, não se resumem aos contratos
assinados durante o evento.
Mas,
para além dos contratos, há também uma dimensão cultural nessa circulação. A
escritora e especialista Michi Strausfeld defende que a literatura pode
oferecer uma possibilidade de aproximação entre países que ultrapasse as
relações comerciais. "A literatura pode ser a ponte ideal para que
conversemos em igualdade de condições. E essa possibilidade não é
aproveitada", afirmou em Frankfurt.
Enquanto
o setor editorial brasileiro busca ampliar suas vendas internacionais, agentes
e especialistas apontam que ainda há obstáculos para transformar oportunidades
comerciais em leitores. O desafio não é apenas convencer editoras estrangeiras
a comprar direitos de publicação, mas fazer com que histórias brasileiras
encontrem espaço no exterior mesmo quando não correspondem às imagens que o
mundo já conhece do Brasil.
Fonte:
DW Brasil

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