Anna
Raposo de Mello: Como governar com a extrema direita ainda no poder após a
vitória de Lula
As três
semanas de mobilização incessante pela virada eleitoral deram ao Brasil e ao
mundo uma vitória fundamental contra a extrema direita. Aqui no país, a
democracia sai fortalecida e se mantém de pé uma estrutura de proteção às
pessoas e ao meio ambiente.
No
mundo todo, frentes democráticas buscam se associar à imagem de resistência
autêntica e tomam nota das lições táticas, além de respirarem aliviadas com a
perspectiva de mais quatro anos de freio à devastação da Amazônia. Para além da
reeleição de Lula, estas três semanas deixam ensinamentos e alertas para lidar
com a presença da extrema direita, que ficou de fora da cadeira presidencial,
mas segue forte em todas as esferas de poder.
No
início da campanha, o bolsonarismo, ainda que representasse uma ameaça clara à
democracia, tinha a posse quase exclusiva do impulso de mudança.
A
reação impressionante aos resultados do primeiro turno reverteu os ânimos,
transformando a eleição de Lula em uma missão movida por afetos poderosos, que
iam de medo e indignação a compaixão e orgulho. O exército de apoiadores também
resgatou a imagem de um Lula lutador: em vez de um salvador, um líder que
caminha ao lado do povo.
A
sucessão de “falhas” da Meta na entrega de conteúdos sobre Lula, as tentativas
de derrubada do canal “Exército do Lula” pelo ministro do Tribunal Superior
Eleitoral, o TSE, Kassio Nunes Marques, os escândalos revelados pelo
excepcional trabalho de jornalistas e as evidências de tentativa de
interferência estadunidense nas eleições fizeram o improvável: deram à
reeleição o caráter de antissistema, um poderoso elemento mobilizador em tempos
de crise.
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Mobilização para fazer frente ao legislativo bolsonarista
O
quadro que se formou a partir dos resultados eleitorais não permite, no
entanto, um retorno à acomodação. Apesar de derrotado e fugitivo, Flávio
Bolsonaro tem em sua conta quase 60 milhões de votos e o patético título de
asilado político, conferido pelo secretário de estado dos EUA, Marco Rubio.
O
Partido Liberal passará a ter 28 cadeiras no Senado, e as projeções que
consideram o alinhamento ideológico de outros senadores, dão conta de uma
bancada de 45 bolsonaristas entre os 81 membros da casa.
Na
Câmara dos Deputados, a direita passa a deter 303 cadeiras, sendo 121 do PL.
Entre os 27 governadores eleitos, 14 associaram-se ao bolsonarismo em suas
campanhas. Sem contar o panorama dos governos municipais que já em 2024 havia
demonstrado a capilaridade consolidada da extrema direita no território
nacional.
Diante
da perspectiva de imobilismo de um governo minoritário, de um lado, ou da
conformidade de um governo de composição excessiva em nome da governabilidade,
de outro, uma saída possível é o emprego inteligente da potência que se
produziu nas últimas semanas, e dos ensinamentos que estas nos trouxeram.
Primeiro,
o feito impressionante do deputado federal André Janones, do partido Rede, e o empenho de milhões de brasileiros
evidenciam que é possível pautar o debate público e formular um vocabulário
político claro e simples, mas que seja emancipador.
Janones
obteve a confiança dos apoiadores de Lula em seu método, unificou o discurso,
elaborou as mensagens, orquestrou a reação e direcionou o engajamento de
milhões de usuários de redes sociais. Confiança e uniformidade foram
fundamentais para uma mudança no discurso dominante nas redes.
Além
disso, a proatividade do governo nos últimos meses, criando fatos políticos –
como a aprovação do fim da escala 6×1, a proibição das bets e o aumento de teto
para MEIs – ofereceu substância ao engajamento digital. Com isso, a capacidade
de definir a pauta mudou de campo.
Além de
deter o discurso dominante e pautar o debate, foi preciso conversar,
pessoalmente e nas redes, com outros potenciais eleitores que estavam
indecisos, não totalmente convencidos ou não inclinados a votar.
Reunir
munição discursiva para esses debates foi fundamental. O campo democrático
conseguiu elaborar seu próprio discurso de forma clara, simples e acessível, em
formatos criativos e variados, identificando as vantagens de Lula e os defeitos
de Bolsonaro. Bons argumentos e táticas se espalharam por todos os canais
digitais para apoiar essas interações.
Aqui,
ficou evidente a importância da escuta. Nessas interações, o óbvio exercício de
ouvir as queixas e a insatisfação dos cidadãos que rejeitavam Lula foi o que
ensinou o campo a articular respostas eficazes aos argumentos bolsonaristas sem
recorrer a um discurso técnico, percebido como arrogante ou distantes da
realidade do cotidiano.
Essa
escuta, fundamental para o novo governo, deve permanecer como princípio
orientador da base de apoio.
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Precisamos ir além da regulação das plataformas
Também
ficou evidente a necessidade de transformarmos o ambiente informacional onde
ocorre a disputa e a construção política, para além da emergência eleitoral. O
sucesso em driblar as imposições algorítmicas das plataformas ao, justamente,
adaptar-se a elas, é o desdobramento político no campo progressista de alguns
dos métodos e estruturas que permitem ascensão global da extrema direita.
Será
preciso manter a conexão e a influência no debate público sem depender
exclusivamente de plataformas que não se tornarão mais democráticas do dia para
a noite. Nestes espaços, o bolsonarismo não deixará de empregar as táticas que
mobilizam e convencem milhares de eleitores há dez anos.
O custo
da mobilização e a toxicidade da hiperconexão tornam a disputa constante
insustentável. Para além da pressão por regulação das big techs e respeito à
legislação brasileira, já existem iniciativas que apontam para transformar o
espaço informacional, e esta é uma luta fundamental – talvez a mais importante
– para reduzir o poder de persuasão e expansão da extrema direita.
A
segunda lição é a força da manifestação de rua orientada e propositiva como
elemento de governo. Com o quadro político dominado pela extrema direita, o
novo governo, que já deve sua vitória a uma frente democrática ampla, não
poderá ignorar algum grau de composição com o “centrão”.
No
Congresso, sem a formação de um bloco parlamentar numeroso, ficariam a cargo do
PL as principais comissões legislativas. Isso, além de afetar a
governabilidade, orienta a agenda da próxima legislatura e determina se o que
será levado a plenário será exclusivamente pautado pela extrema direita. Mas
aceitar algum nível de composição não significa abandonar as demandas de
milhões de eleitores de um projeto progressista. As ruas oferecem um poderoso
contrapeso e dão a dimensão da organização popular.
Por
fim, levamos dessa eleição a prova de que para vencer a extrema direita
brasileira, é preciso fazer frente a um movimento de extrema direita global, e
o campo democrático no Brasil demonstrou envergadura para tanto.
Ficamos
menos vulneráveis ao apostar com firmeza na defesa da democracia em um momento
de ascensão autocrática, na soberania em um contexto de dissolução da ordem
global e de uma defesa inequívoca de uma agenda climática e ambiental efetiva.
Neste
momento, a extrema direita brasileira se reorganiza, divide e disputa seus
espólios, e cuida para não perder espaço para um conservadorismo democrático
que pode, se souber aproveitar o espaço, isolá-la.
Porém,
até que se torne inviável, ela seguirá disputando o debate público e a
persuasão dos eleitores, estará nas ruas com o entusiasmo e o impulso da
oposição, e seguirá na briga por consolidar a imagem e o posicionamento
internacional do Brasil como um espelho de seus princípios. Nenhuma dessas
frentes pode ser abandonada.
• Marcelo Zero: Observações sobre o caso
Flávio Bolsonaro
A
articulação do Governo Trump para facilitar a fuga e dar guarida a Flavio
Bolsonaro (um fato óbvio) viola, ao menos, duas grandes convenções
internacionais.
Em
primeiro lugar, a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Internacional (Convenção de Palermo), que contém artigos específicos sobre
combate cooperativo à lavagem de dinheiro e à corrupção (artigos 6, 7, 8 e 9).
Em
segundo lugar, a Convenção Interamericana sobre Extradição, a qual obriga seus
Estados-membros a prender e extraditar o fugitivo para o país que o reclama. O
Brasil deveria apresentar logo seu pedido para todos os bolsonaristas
fugitivos. A PF, frise-se, já está avaliando o pedido de extradição de Eduardo
Bolsonaro.
Ademais,
essa articulação viola, do mesmo modo, o “Acordo de Assistência Judiciária em
Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos
Estados Unidos da América, celebrado em Brasília, em 14 de outubro de 1997,
corrigido em sua versão em português, por troca de Notas, em 15 de fevereiro de
2001.”
Tal
Acordo determina, em seu Artigo I, que:
“1. As
Partes se obrigam a prestar assistência mútua, nos termos do presente Acordo,
em matéria de investigação, inquérito, ação penal, prevenção de crimes e
processos relacionados a delitos de natureza criminal.”
Também
se termina, no mesmo artigo, que:
4. As
Partes reconhecem a especial importância de combater graves atividades
criminais, incluindo lavagem de dinheiro e tráfico ilícito de armas de fogo,
munições e explosivos. Sem limitar o alcance da assistência prevista neste
Artigo, as Partes devem prestar assistência mútua sobre essas atividades, nos
termos deste Acordo.
Há de
se considerar também, nesse cenário, que a Convenção de Caracas sobre Asilo
Diplomático nunca foi assinada pelos EUA.
Os EUA
concedem asilo, conforme suas leis e normas internas. Tais leis e normas punem,
com rigor, os pedidos de asilo considerados “frívolos”, ou sem base legal
sólida e verificável. Os processos, em geral, são demorados.
Observo,
por último, que a Convenção de Caracas, que é paradigmática, no direito
internacional, quando se trata de concessão de asilo, estipula em seu Artigo
III, que:
No es lícito conceder asilo a personas que al tiempo de
solicitarlo se encuentren inculpadas o procesadas em forma ante tribunales
ordinarios competentes y por delitos comunes, o éstén condenadas por tales
delitos y por dichos tribunais, sin haber cumplido las penas respectivas, ni a
los desertores de fuerzas de tierra, mar y aire, salvo que los hechos que
motivan la solicitud de asilo, cualquiera que sea el caso, revistan claramente
de carácter político. (não
é o caso de FlavioBolsonaro).
Depois
de mais esse episódio de auxílio do governo Trump a fugitivos brasileiros,
ficará difícil para o governo Trump exigir cooperação do Brasil no combate ao
“narcoterrorismo”.
Mas a
situação política nos EUA deverá mudar muito em breve. A prenunciada vitória
dos Democratas nas midterms propiciará uma enxurrada de investigações contra
Trump e seus aliados, o que deverá afetar o status dos bolsonaristas refugiados
nos EUA.
• Governo orienta ignorar Flávio nos EUA e
deixa reação política com o PT
A
orientação entre integrantes do governo Lula é evitar respostas às declarações
do senador Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu do Brasil para os Estados Unidos
após a eleição de domingo (25).
Segundo
a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, aliados do presidente defendem cautela e
pretendem concentrar a atuação do Executivo na condução do país. Ao PT coube
cobrar uma manifestação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a
contestação do resultado pelo parlamentar.
A
avaliação relatada pela coluna é que responder a cada pronunciamento de Flávio
ampliaria a exposição de um adversário que não reconheceu o resultado das
urnas. A diretriz de ignorar eventuais declarações busca impedir que a atuação
do golpista no exterior ocupe o centro da agenda governamental.
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Carta reforça avaliação de perda de credibilidade
Nesse
cenário, integrantes do governo consideram que a carta golpista na qual Flávio
se autoproclamou presidente eleito agravou seu desgaste. Na avaliação desses
interlocutores, o documento compromete a credibilidade do parlamentar e
demonstra desrespeito aos quase 60 milhões de votos que recebeu.
A
reação institucional à carta ficou a cargo do PT. O secretário de Comunicação
do partido, Éden Valadares, defendeu uma resposta firme da Justiça Eleitoral e
cobrou a responsabilização do senador por contestar o resultado oficial.
“O
Tribunal Superior Eleitoral precisa se pronunciar urgente e firmemente. Flávio
Bolsonaro não apenas se autoproclamou presidente como mentiu descaradamente e
contestou o resultado oficial proclamado pela Justiça Eleitoral. E ele deve
responder por isso”, afirmou Valadares.
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Lula criticou fuga
Lula já
havia criticado publicamente a fuga de Flávio aos Estados Unidos. Na
terça-feira (27), o presidente classificou a fuga como “vergonhosa” e afirmou
que o parlamentar deveria ter entregado o passaporte às autoridades.
Na
mesma declaração, Lula reagiu à possibilidade de o adversário questionar a
democracia brasileira no exterior. “E não vá dizer lá fora que o Brasil não tem
democracia, porque, se não tivesse, um miliciano não poderia ter sido candidato
à Presidência da República”, disse.
Fonte:
The intercept/Viomundo/Brasil 247

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