sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Direita brasileira, perplexa, deixa Flávio Bolsonaro sozinho com suas acusações de fraude eleitoral

“Uma fraude eleitoral diante dos meus olhos.” Com essas palavras, Flávio Bolsonaro falou pela primeira vez dos Estados Unidos. Em um comunicado, afirmou, por alguns minutos, ser o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. A fuga do ex-candidato de extrema direita após sua derrota eleitoral pegou de surpresa seus aliados mais fiéis. Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro, disse que a notícia o pegou de surpresa. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), também desconhecia o plano de fuga. O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial, afirmou que Flávio Bolsonaro não informou nenhum dos líderes do partido sobre seus planos de deixar o país. Após a fuga do senador, o PL convocou uma reunião de emergência para decidir o futuro do partido, da qual participou Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e senadora eleita.

Veículos de comunicação brasileiros como O Globo, Folha de São Paulo e Estadão de São Paulo destacaram o "tom golpista" da carta em suas capas. Nela, ele acusa Lula de ter cometido "fraude eleitoral" e afirma ser alvo de "perseguição política que começou com meu pai".

Com algumas exceções, as principais lideranças do bolsonarismo permanecem em silêncio ou reconheceram a derrota. O PL reconheceu a vitória de Lula em um comunicado oficial. Tarcísio de Freitas, que venceu as eleições para o governo de São Paulo no primeiro turno e é um dos aliados mais firmes do bolsonarismo, também reconheceu a vitória de Lula na tarde de terça-feira. Considerado o nome mais forte para liderar a direita no Brasil, Tarcísio decepcionou a ala mais radical do bolsonarismo, pois não questionou o resultado eleitoral nem reproduziu o discurso de perseguição política utilizado por Flávio Bolsonaro. Dentro do PL, os jovens deputados Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, os mais votados do país, estão ficando isolados em sua reivindicação de que os resultados não sejam reconhecidos.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

A postura mais radical do bolsonarismo não vem de seu núcleo central, mas de aliados secundários. De um lado, Sérgio Moro, o juiz que prendeu Lula ilegalmente em 2018 e foi eleito governador do Paraná, apoiou a decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o país. “O Brasil ainda está longe da normalidade institucional. Nesse contexto, é compreensível que Flávio deixe o país”, afirmou. De outro, Pablo Marçal, o coach de extrema direita que surpreendeu ao conquistar milhões de votos nas eleições municipais de São Paulo em 2024, manifestou apoio a Flávio Bolsonaro em uma publicação no Instagram: “Não é uma fuga! É exílio”. Marçal, que assessorou Flávio Bolsonaro durante o segundo turno eleitoral, pretende se candidatar à Presidência em 2030, apesar de estar inelegível até 2032.

A pressão sobre Flávio Bolsonaro aumenta após sua fuga do Brasil. A Polícia Federal (PF) estuda solicitar ao Supremo Tribunal Federal (STF) o bloqueio dos bens de Flávio Bolsonaro, a quebra de seu sigilo bancário e sua prisão preventiva, com o objetivo de forçar seu retorno ao Brasil.

Alexandre de Moraes, ministro do STF responsável pela investigação que acusa Flávio Bolsonaro de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, já determinou o bloqueio de bens e a quebra de sigilo bancário do advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil na sexta-feira.

A PF suspeita que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, que chegaram a utilizar uma conta bancária conjunta, participavam de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo uma casa de apostas on-line, entre outras atividades. Segundo especialistas em direito consultados pelo Folha de S.Paulo, a fuga de Flávio Bolsonaro fornece fundamento jurídico para a decretação de sua prisão preventiva.

Por outro lado, lideranças de peso do Partido dos Trabalhadores (PT) estão intensificando a pressão contra Flávio Bolsonaro. Lula da Silva, vencedor das eleições do último domingo, criticou duramente a fuga de seu adversário político na segunda-feira, durante a comemoração de seu 81º aniversário. Lula classificou a saída de Flávio Bolsonaro do país como “vergonhosa” e uma “falta de respeito”: “Quem não deve, não teme. O cidadão que sai escondido deste país deve alguma coisa”.

Além disso, deputados do PT pediram a Alexandre de Moraes a decretação da prisão preventiva de Flávio Bolsonaro e a solicitação de um alerta vermelho à Interpol, para dar início aos trâmites de sua extradição.

No entanto, algumas lideranças de peso do PT temem que Flávio Bolsonaro radicalize nos Estados Unidos e incentive o governo de Donald Trump a adotar novas medidas contra o Brasil.

•        Nunes Marques e Mendonça se afastam de Flávio Bolsonaro após carta golpista: “perdeu o bom senso”

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, e o vice-presidente da Corte, André Mendonça, buscam se distanciar do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de uma carta golpista na qual o candidato derrotado questiona o resultado das eleições presidenciais de 2026. Os dois magistrados, considerados politicamente mais próximos do campo bolsonarista, teriam manifestado a auxiliares a avaliação de que o senador perdeu o bom senso ao insistir em acusações infundadas contra o processo eleitoral. As informações são da Folha de São Paulo.

A reação ocorre depois que o senador divulgou, na quarta-feira (28), um documento em que inicialmente se autoproclamava “verdadeiro presidente do Brasil”. Posteriormente, a expressão foi substituída por “líder do Brasil”, mas o texto manteve alegações falsas sobre a eleição que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A iniciativa de Flávio também provocou críticas entre outros integrantes do tribunal. Ministros considerados mais alinhados ao governo Lula classificaram a carta como um movimento absurdo, que deveria ser ignorado pela Justiça Eleitoral. Dois dos quatro magistrados desse grupo avaliaram que o senador procurou produzir instabilidade política por meio de uma narrativa conspiratória baseada em informações falsas.

Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvido pela Folha também desqualificou o documento. Segundo ele, o uso de um brasão incorreto, acompanhado da inscrição “Estados Unidos do Brazil (sic)”, evidencia a falta de seriedade da iniciativa e demonstra que Flávio não estava preparado para assumir a Presidência da República.

<><> Kassio Nunes Marques reafirma legitimidade da vitória de Lula

Na noite de quarta-feira (28), poucas horas depois da divulgação da carta, Kassio Nunes Marques publicou uma nota em defesa da integridade do processo eleitoral. Embora não tenha mencionado Flávio Bolsonaro nominalmente, o presidente do TSE reafirmou o compromisso da instituição “com a vontade soberana do eleitorado, que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes”.

O magistrado também ressaltou que as eleições “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”. Segundo a manifestação, o pleito foi entregue “com segurança”.

A declaração pública reforça a posição que Kassio já havia transmitido reservadamente a colegas do tribunal após a proclamação oficial do resultado do segundo turno. Conforme a Folha, o ministro assegurou que não daria espaço às reclamações da campanha de Flávio Bolsonaro, que se recusou a reconhecer a derrota para Lula.

O presidente do TSE também pretende conversar com o presidente do STF, Edson Fachin, para estabelecer uma atuação coordenada diante das tentativas de contestação do resultado eleitoral. A intenção é impedir que prosperem iniciativas judiciais destinadas a colocar em dúvida a validade das eleições presidenciais de 2026.

Apesar da repercussão política da carta, os ministros do TSE evitaram comentar publicamente o episódio durante a sessão plenária desta quinta-feira (29), a primeira realizada após a divulgação do documento. Os magistrados deram continuidade ao julgamento dos processos previstos na pauta, sem mencionar a manifestação do senador.

<><> Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento após fugir para os Estados Unidos

O distanciamento dos integrantes do TSE ocorre em meio ao crescente isolamento político de Flávio Bolsonaro. Após a derrota presidencial, o senador deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos, apesar de ter afirmado anteriormente que não fugiria do país.

A saída ocorreu depois de uma operação de despiste e surpreendeu integrantes de seu próprio grupo político. Aliados que participaram diretamente da campanha passaram a se afastar do senador diante da recusa em reconhecer o resultado das urnas e da divulgação da carta golpista.

Entre eles está o senador Rogério Marinho (PL-RN), responsável pela coordenação da campanha presidencial de Flávio. Marinho declarou que nem ele nem o PL possuem elementos para afirmar que houve fraude nas eleições, contrariando a narrativa adotada pelo candidato derrotado.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também defendeu o reconhecimento da vitória de Lula. Ao comentar o cenário político após o segundo turno, afirmou que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.

As manifestações evidenciam a dificuldade de Flávio em obter respaldo até mesmo entre lideranças que estiveram ao seu lado durante a disputa presidencial. Enquanto o senador insiste em questionar a legitimidade do pleito, figuras importantes da direita passaram a defender o respeito ao resultado oficial.

<><> Advogada de Flávio também decide se afastar

O isolamento do senador se estende à equipe jurídica que atuou em sua campanha. De acordo com a reportagem, a fuga para os Estados Unidos teria ocorrido sem o conhecimento prévio dos advogados responsáveis por sua defesa eleitoral.

A advogada Maria Claudia Bucchianeri, que representou Flávio Bolsonaro em processos no TSE, já comunicou a um interlocutor que não pretende apresentar novas ações judiciais em nome do senador.

Segundo o relato, Bucchianeri considera que seu compromisso profissional estava vinculado à campanha presidencial, encerrada em 25 de outubro, data do segundo turno.

•        Alencar Santana pede inelegibilidade de Flávio Bolsonaro por carta golpista

O deputado federal Alencar Santana (PT-SP), vice-líder do PT na Câmara, apresentou uma representação à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) para solicitar que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja declarado inelegível por oito anos. A iniciativa ocorre após o candidato derrotado à Presidência divulgar uma carta em que contesta, sem apresentar provas, o resultado das eleições de 2026 e acusa a Justiça Eleitoral de favorecer a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo informações da coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, o parlamentar petista pede que o Ministério Público Eleitoral ingresse com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para investigar possíveis práticas de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A representação foi motivada pelo documento divulgado por Flávio na quarta-feira (28), no qual o senador chegou a se apresentar como “presidente eleito do Brasil”, antes de substituir a expressão por “líder do Brasil” diante da repercussão negativa.

Na avaliação de Alencar Santana, as acusações feitas pelo candidato derrotado são “mentirosas” e representam uma tentativa de deslegitimar o processo eleitoral. O deputado sustenta que as manifestações de Flávio atingem a credibilidade da Justiça Eleitoral e colocam em dúvida um resultado oficialmente proclamado, sem que tenham sido apresentadas evidências de irregularidades capazes de comprometer a votação.

Além da inelegibilidade, o parlamentar solicita a preservação das diferentes versões da carta publicadas nas redes sociais. O objetivo é assegurar que o conteúdo original e as alterações posteriores possam ser utilizados na apuração. Alencar também requer o encaminhamento do material à área criminal da Procuradoria-Geral da República (PGR), para investigar a eventual prática de crimes contra o Estado Democrático de Direito.

A iniciativa ocorre em meio ao crescente isolamento político de Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil após a derrota eleitoral e passou a enfrentar críticas inclusive de integrantes do próprio campo político.

<><> Carta de Flávio Bolsonaro acusa fraude sem apresentar provas

O documento divulgado pelo senador questiona principalmente a decisão de ampliar em duas horas o funcionamento de determinadas seções eleitorais durante o segundo turno. A medida foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), após interrupções no transporte público em diferentes capitais brasileiras.

Flávio atribuiu à prorrogação do horário uma suposta interferência no resultado da disputa presidencial. Sem apresentar provas, classificou o crescimento da votação de Lula entre os dois turnos como uma “impossibilidade matemática”.

“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, afirmou o senador na carta.

A acusação não encontra respaldo nos números divulgados pelo TSE. De acordo com a Justiça Eleitoral, apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h no segundo turno, enquanto a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro alcançou 4.430.191 votos.

Os dados também mostram que 95% das seções eleitorais brasileiras já estavam fechadas até as 17h10, o que contraria a tentativa de associar a extensão do horário de votação a uma alteração decisiva no resultado nacional.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou no próprio domingo (25) que a prorrogação não modificou o desfecho da eleição.

Na representação, Alencar Santana argumenta que eventuais questionamentos sobre decisões judiciais devem ser apresentados pelos mecanismos legais previstos na legislação eleitoral, e não utilizados para sustentar acusações públicas de fraude sem comprovação.

“Eventual controvérsia sobre a validade da decisão que prorrogou o horário comporta debate nas vias processuais próprias e não autoriza ninguém, e muito menos o segundo colocado na disputa, a apresentar a eleição como fraudada”, afirma o deputado.

O documento encaminhado à PGE também menciona manifestações anteriores de Flávio Bolsonaro contra o reconhecimento da vitória de Lula. Entre elas está a alegação de que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre do TSE durante a apuração, informação negada pela própria Corte.

Pedido de inelegibilidade remete a punição de Jair Bolsonaro

A iniciativa do vice-líder petista ocorre diante de um precedente envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Em 2023, o TSE declarou Jair inelegível por oito anos em razão de sua conduta durante uma reunião com embaixadores realizada no Palácio da Alvorada, na qual difundiu informações falsas sobre o sistema eletrônico de votação.

Na ocasião, a Justiça Eleitoral considerou que o então presidente havia cometido abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao atacar a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Agora, a representação contra Flávio busca a apuração de possíveis infrações eleitorais relacionadas à divulgação de acusações infundadas contra o resultado da disputa presidencial.

O pedido de Alencar Santana, contudo, não implica uma declaração automática de inelegibilidade. Para que o senador seja punido na esfera eleitoral, será necessária a adoção das medidas judiciais cabíveis e uma decisão da Justiça Eleitoral.

Partidos reconhecem vitória de Lula e Flávio enfrenta isolamento

A ofensiva judicial do PT ocorre enquanto a maior parte das principais forças políticas do país reconhece a reeleição de Lula.

Até o início da tarde desta quinta-feira (29), União Brasil, PL, PSD, MDB, PSDB, PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede, Republicanos, Avante e PDT haviam defendido o reconhecimento do resultado das urnas.

Mesmo aliados próximos de Flávio Bolsonaro evitaram endossar suas acusações de fraude.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou compreender a “indignação de seu aliado”, mas defendeu que o resultado eleitoral seja respeitado.

“O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer seu papel. É assim, respeitando o processo democrático e trabalhando dentro das instituições, que vamos fortalecer o sistema de freios e contrapesos que sustenta a nossa democracia”, declarou Tarcísio em comunicado à imprensa.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio e apontado como possível candidato do partido à presidência do Senado, também se distanciou das alegações apresentadas na carta.

Marinho reconheceu que o PL não dispõe de elementos para afirmar que houve fraude na eleição e atribuiu a primeira versão do documento a um possível problema de elaboração.

“Acredito que deve ter havido algum problema na confecção da carta. O fato é o que está na sua manifestação oficial, ele se autodenomina como líder, o que é um fato. Ele é um líder do Brasil”, afirmou o senador a jornalistas.

As manifestações evidenciam a dificuldade de Flávio em obter apoio político para contestar a vitória de Lula, inclusive entre integrantes de sua própria campanha.

 

Fonte: El Diário/Brasil 247

 

Nenhum comentário: